Uni, duni, tê, salamê, minguê...

Uni, duni, tê, salamê, minguê...
Materiais a partir de textos da tradição oral

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Letras, palavras, poemas...


o bicho alfabeto
Paulo Leminski

o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase

por onde ele passa
nascem palavras e
frases

com frases
se fazem asas
palavras
o vento leva

o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve


(La vie em close, 1991, ed. Brasiliense)

Planos de Atividades

Sobre os Planos de Atividades

Os planos de atividades de alfabetização postados aqui se referem a planos criados a partir dos materiais e jogos do acervo. Eles podem ser modificados, ajustados, mexidos, para atender às diferentes turmas, reais, singulares, que cada professor tem diante de si. Como o nome já diz, plano é “plano”, não abarca as sinuosidades próprias ao real, aos sujeitos, aos grupos, às singularidades, ao imponderável. O mapa, como diz Borges, não é o território. Assim, são apenas pontos de partida, possibilidades, que serão precipitadas singularmente em cada contexto específico por sujeitos únicos, em interações singulares.

Na medida do possível, os planos foram pensados para atender a crianças em diferentes níveis de domínio da leitura e de conceitualização da escrita, e exigem, para serem adaptados e bem desenvolvidos, o conhecimento da turma, a partir de diagnósticos, sondagens ou do acompanhamento do processo das crianças. Muitos dos planos podem também ser adaptados para turmas de alfabetização de jovens e adultos, desde que os textos utilizados sejam interessantes para essa faixa.

Cabe lembrar que se trata de uma concepção de alfabetização em contexto de letramento e, portanto, os textos que serão o ponto de partida para as atividades propostas deverão ser muito bem explorados como textos que são, antes de serem usados também para atividades de reflexão sobre o sistema de escrita alfabética. Por exemplo, ao usar fábulas, seus títulos, moral e/ou texto em atividades de alfabetização, supõem-se que antes essas foram lidas (ouvidas), apreciadas, discutidas, comparadas, compreendidas enquanto gênero textual com características próprias, o que pode gerar reescritas, pequenos livros, ilustrações etc. É nesse contexto de leitura e escrita, que enfatiza o sentido e o gênero, que as reflexões sobre o sistema alfabético vão acontecer. A mesma coisa se dá em relação a outros gêneros textuais. Na medida do possível, esse aspecto será relembrado em cada plano de atividade proposto.

Outro aspecto que vale sublinhar é que o diagnóstico das hipóteses de escrita das crianças - que vão guiar a proposta, a adaptação das variantes da mesma proposta, de acordo com os desafios que apresentam para cada nível, bem como a organização dos agrupamentos e parcerias, - deve ser realmente apenas uma referência. É preciso estar ciente de que, primeiro, em cada hipótese de escrita descrita por Emilia Ferreiro há inúmeras possibilidades de produção e de formas de pensar, portanto, é preciso estar bem atento para propor desafios e parcerias realmente pertinentes a cada um, cada dupla, cada subgrupo, para que realmente tenham bons problemas a resolver para avançar. Em segundo lugar, é preciso lembrar que o desempenho das crianças na escrita não recobre necessariamente, ou não corresponde sempre e igualmente, a seu desempenho na leitura. Para organizar as atividades que envolvem a leitura (quando ainda não se sabe ler convencionalmente, decodificar), é preciso conhecer o modo como as crianças lêem, que hipóteses fazem ao tentar ler, que domíno têm de decodificação e de leitura visual. As hipóteses de escrita diagnosticadas nas produções infantis dão uma dica, inclusive porque pedimos a elas que leiam suas produções para nos certificar de suas hipóteses, mas não é um dado suficiente para determinar o domínio de leitura das crianças.

Os planos explicitam objetivos e conteúdos básicos do processo de alfabetização, embora outros objetivos e conteúdos possam estar em jogo, implicitamente, na proposta, relativos ao letramento, ao convívio, ao aprendizado de valores e atitudes. Incluem-se no plano também os objetivos e conteúdos dos diferentes níveis de escrita e leitura previstos na atividade, embora a proposta possa estar mais focada ou ser mais produtiva para um nível específico, e apenas sugeridas as adaptações e variantes. Cada professor ou professora deve julgar se e como as atividades propostas podem favorecer a reflexão de seus alunos, o avanço de suas hipóteses e estratégias, a aprendizagem.

Feitas essas observações e apresentações, segue o primeiro plano.


PLANO DE ATIVIDADE

Texto: Adivinhas

Objetivos:

Usar as adivinhas para brincar;
Identificar palavras;
Relacionar oral e escrita para reconhecer palavras ou parte de palavras;
Usar estratégias de leitura para ler sem saber ler;
Usar os conhecimentos que têm sobre o sistema de escrita, letras iniciais, finais, partes de palavras, valores sonoros de letras, tamanho etc;
Identificar letras;
Refletir sobre ortografia.

Conteúdos:

Gênero de texto de origem oral;
Identificação e reconhecimento de palavras;
Relação oral/escrito;
Estratégias de Leitura;
Funcionamento do sistema de escrita alfabética;
Identificação de letras;
Ortografia.

Desenvolvimento:

Relembrar as adivinhas da cultura popular que foram previamente lançadas na turma, numa outra ocasião, para brincar de adivinhar, oralmente. Relembrar coletivamente suas respostas, que foram adivinhadas com ou sem dicas dadas pela professora. Selecionar algumas adivinhas que as crianças saibam as respostas de cor, para, assim, proceder à atividade em grupos.

Utilizar os materiais estruturados da seguinte forma: a professora tem as cartelas com as adivinhas escritas e as crianças as fichas com as respostas. Distribuir nas mesas as fichas com as respostas de todas as adivinhas que serão lidas/ditas para a turma. O número de adivinhas depende do nível da turma, o ideal é começar com um número menor, como 4 ou 5, e ir experimentando aumentar na própria dinâmica da atividade, repetida em outras ocasiões. É preciso ter um kit de fichas para cada mesa, que recebem as mesmas palavras. As possibilidades e dificuldades de cada criança devem ser consideradas ao agrupá-los nas mesas, para possibilitar boas trocas, interações produtivas e um equilíbrio entre as mesas.

Cada mesa deve tentar achar a resposta da adivinha lida/dita pelo professor. As mesas que acharem primeiro podem sinalizar que já encontraram, mas não ainda mostrar a ficha para as outras mesas. Quando todos encontrarem as respostas, mostram suas fichas. A professora pode provocar a discussão, perguntando como encontraram a resposta, que estratégias usaram, que indícios consideraram. Essa argumentação é um trabalho metacognitivo interessante, que favorece explicitarem procedimentos e, para os que não encontraram a resposta, constitui-se em uma forma de irem se apropriando, gradativamente, de um repertório de indícios que podem passar a considerar.

Essa é uma atividade para uma turma na qual os alunos ainda não sabem ler convencionalmente e precisam usar todo o conhecimento que têm sobre letras, seus valores sonoros, letra inicial, final, partes de palavras que já reconhecem e que podem usar como modelo, enfim, todo o conhecimento que já dispõem. Para tal desafio é imprescindível que as crianças já conheçam as respostas oralmente, para que saibam o que estão procurando (que palavra procuram entre aquelas fornecidas). Trata-se de ajustar o oral, o que sabem oralmente da palavra, ao que vêm escrito, para tentar reconhecer a palavra, ainda que não a decodifiquem termo a termo. Para ser desafiante, de qualquer modo, não podem ser respostas que já memorizaram visualmente, globalmente, não completamente, em atividades prévias. Não se trata de avaliar o que memorizaram e que podem reproduzir.

No caso de haver alguns poucos alunos que já lêem convencionalmente, uma possibilidade é agrupá-los em uma mesa e eles terem que escrever as respostas das adivinhas lidas/ditas pela professora ou as montarem com as letras móveis disponíveis. Podem ainda lerem eles mesmos as adivinhas de outro kit e escreverem/montarem as respostas. Esses devem checar sua escrita/montagem ao final ou a cada resposta.

Para finalizar a atividade as crianças poderão escrever as respostas numa folha com as adivinhas (individual), ou no caderno, mesmo que olhando as fichas. Os que sabem escrever podem fazê-lo, também em relação à pergunta.

Crianças com hipótese pré-silábica ainda não relacionam o oral e a escrita em suas produções escritas. Se, na leitura, ainda não estabelecem essa relação, não podem fazer, sozinhas, esse tipo de atividade. Havendo crianças com essa hipótese, podem ser agrupadas com as outras. Caso haja um grupo maior, podem ser agrupadas em uma mesa e a professora procede do mesmo modo, mas dá dicas como: “começa com a letra x...”, “Tem x letras...”, “termina igual ao nome de fulana” (se os nomes estão disponíveis na sala ou a criança está na mesa), “é a maior palavra entre todas”, “tem três ‘a’ nessa palavra” etc. São esses os conhecimentos que constituem desafios para elas.

Recursos:
· Kit de Advinhas com respostas (palavras) repetidas (de acordo com o número de mesas);
· Alfabeto móvel ou respostas fatiadas em letras (é interessante, pois ao final, não podem faltar ou sobrar letras, caso aconteça, devem observar onde erraram)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Brincando com as palavras

Poemas brincam com sons e sentidos, com imagens poéticas e jogos sonoros. Brincam com palavras, desemboloram palavras gastas, criam asas para as conhecidas, atiçam a curiosidade para as desconhecidas, inventam novas... Vejam esse...


Nada se Perde
Sergio Capparelli

Um globo
De óculos
Vira glóbulos

Um lobo
De óculos
Vira lóbulos

Um óculos
De óculos
Vira binóculos

In: CAPPARELLI, Ségio. Um Elefante no Nariz, Porto Alegre: L&PM, 2008


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Mafalda


Nada como Mafalda para dizer tanto em tão poucas palavras...

Sua sagaz crítica à uma concepção empirista de aprendizagem dispensa qualquer comentário a respeito das práticas escolares baseadas em tal concepção. A alfabetização foi, por muito tempo, encaminhada a partir de princípios metodológicos que bem se encaixam nessa perspectiva.

Afinal de contas, na cabeça de Mafalda, bem como de qualquer criança, cabe muito mais que isso! E está longe de chegar vazia à escola...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Sobre os diferentes tipos de material

Os materiais e as oficinas que pretendo divulgar nesse blog destinam-se a todos que se interessam por alfabetização e que buscam ampliar seu repertório de atividades didáticas fundadas em firmes concepções de aprendizagem e ensino da língua escrita.

Enfatiza-se, nessa proposta, a aprendizagem do sistema de escrita em contexto de letramento, por um lado, e a especificidade do processo de aprendizagem do sistema alfabético, por outro. As atividades propostas a partir dos jogos e materiais focalizam a aprendizagem do funcionamento do sistema de escrita alfabética, a consciência fonológica, as estratégias de leitura e abordam as diferentes unidades da língua – texto, palavra, sílaba, grafema e fonema – em contextos letrados.
Costumo separar os materiais, kits e jogos que fazem parte do acervo que venho construindo, em três diferentes blocos, que, no contexto das Oficinas, se organizam em três módulos. Por ora, vou apresentar brevemente cada um desses blocos e, depois, aprofundar a discussão em torno de cada um.

No primeiro bloco, incluem-se os materiais confeccionados a partir de textos da tradição oral – que são expressão da cultura popular, parte de nosso universo cultural – estruturados para favorecer a leitura através de estratégias diversas e a reflexão sobre a escrita alfabética e ortográfica. São kits confeccionados a partir de parlendas, trava-línguas, adivinhas, quadras, cantigas, ditados populares, frases feitas, permitindo atividades diversificas para diferentes níveis de leitura.
No segundo bloco, incluem-se os materiais confeccionados a partir de textos de vários gêneros literários e audiovisuais, como fábulas, contos, lendas indígenas e africanas, histórias infantis, quadrinhos, desenhos animados, filmes de animação, favorecendo ainda mais a articulação entre letramento e alfabetização e acolhendo narrativas audiovisuais tão presentes na cultura infantil contemporânea, parte do repertório de “textos” dos sujeitos infantis;

No terceiro bloco, incluem-se jogos diversos, com diferentes objetivos relativos à aprendizagem da escrita e leitura, como o aprendizado de letras, a apropriação do sistema alfabético, a consciência fonológica e a ortografia. Por vezes, os mesmos jogos, com pequenas adaptações, podem favorecer a reflexão de crianças em diferentes níveis de apropriação da escrita. O jogo, em sua natureza sociocultural e lúdica, vem aqui contribuir para a reflexão sobre diversos aspectos da língua.


Por vezes, evidentemente, essas categorias se imbricam e outras categorias ou novos aspectos em cada categoria podem surgir, já que a invenção, adaptação, inclusão de novos materiais ao acervo é constante, a partir do próprio desenvolvimento das oficinas e das trocas com outros educadores. Em cada Oficina que promovi, houve sempre quem inventasse, partindo dos materiais e atividades propostas, novos materiais ou novas atividades, variantes, adaptações, considerando as classes singulares que cada professor tem.

Espero que aqui possam ser ampliadas essas trocas e multiplicadas as possibilidades. O blog pode funcionar como um registro, um testemunho desse processo de ampliação de repertório, tanto para mim e minhas(meus) alunas (os), quanto para quem vier visitar essa página. Portanto, opine, interaja, discorde, pergunte, oferte... Esse é o meu convite...

Lica

Sobre os materiais

Tenho pesquisado e desenvolvido, desde 2001, como formadora de professores, um acervo de materiais e jogos de apoio ao trabalho de alfabetização, considerando a apropriação do sistema de escrita alfabética em contexto de letramento.

A partir da constatação de que temos, atualmente, um vasto repertório de conhecimentos sobre a alfabetização e os diversos aspectos envolvidos nesse processo, mas poucos materiais desenvolvidos a partir das novas concepções de ensino e aprendizagem da língua escrita, comecei a pesquisar e a desenvolver materiais para utilizar nas minhas aulas de metodologia de alfabetização. São materiais e jogos confeccionados artesanalmente, mas com muito cuidado estético e funcional, alguns inventados, alguns adaptados de jogos conhecidos, outros criados a partir de propostas de atividades diversas e, ainda, outros confeccionados a partir de ideias advindas de outras pessoas. Devo a Mary Arapiraca, professora e orientadora querida, o gosto pela alfabetização, pelo riso na escola, pelo incentivo a essa iniciativa.

Devido à boa aceitação desses materiais pelos alunos e pela comunidade acadêmica, venho, atualmente, desenvolvendo oficinas para estudantes de Pedagogia, professores em atividade e coordenadores pedagógicos, com o intuito de divulgar os materiais, sua base teórico-metodológica e de propor a produção de kits desses materiais didáticos pelos interessados.

Esse blog foi criado para apresentar esses materiais, as reflexões e produções em torno deles, bem como para trocar informações e divulgar as Oficinas de produção que venho desenvolvendo ao longo desses anos, fruto de pesquisa constante.
Algumas das fotos postadas são de materiais de meu acervo pessoal, outras, de materiais produzidos pelas alunas das Oficinas, sob minha orientação. Vale ressaltar que alguns dos materiais produzidos ao longo do tempo foram adaptados pelas alunas em alguns aspectos, outros propostos por elas, em um enriquecimento constante das propostas que fiz a princípio. A criatividade das pessoas com as quais venho interagindo, as dicas que vêm do uso dos materiais em classes singulares nas quais lecionam e as ideias que surgem no próprio desenrolar das Oficinas, são fontes riquíssimas de pesquisa.

Espero que essa ferramenta que passo a utilizar a partir de agora - esse blog - possa favorecer novas trocas e boas discussões.
Aproveito para sublinhar que outras coisiquinhas, como poemas, parlendas, adivinhas, trava-línguas, cantigas, tirinhas, trechos de textos, comentários, essas ricas fontes que são a matéria prima dos materiais e suas razões de ser, farão também presença nessa página, nos inspirando, interpelando, encantando, provocando, lembrando-nos de que, antes de se configurarem como materiais para alfabetizar, são textos, discursos, inspirações, repertório de nossa cultura oral, escrita e visual, contexto de letramento. Então... vamos lá!

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