Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Mais uma Caixinha de Livro

Macaco Danado
Oi, gente,
Esse é um livro que já entrou para a lista dos meus livros favoritos: Macaco Danado, de Julia Donaldson (texto) e Axel Scheffler (ilustração), da Brinque-Book. É dos mesmos autores do maravilhoso O Grúfalo. No original, chama-se Monkey Puzzle, bem a propósito.
Adoro contar essa história para meu filho, que vai fazer 4 anos, e ele também adora ouvir. Coisa de mãe? Talvez. Leia e veja por quê. Mas a história é bem legal mesmo.
As ilustrações são lindas e ajudam na atmosfera e na construção do sentido do texto, parece mesmo que estamos numa floresta, como no Grúfalo também. Mas vá lá, como para entender o material é preciso ler o texto, segue a história (mas sem a vida do livro, garanto!).

Macaco Danado

- Perdi minha mãe!

- Sossegue macaquinho não chore - disse a borboleta.
Vamos procurá-la agora. De que tamanho ela é? Assim do meu?

- Não! - o macaquinho exclamou. - É bem maior do que eu.

- Maior do que você? Então já sei onde encontrá-la.
Venha macaquinho, venha comigo, vamos achá-la.

-Não, não, não! Aquilo é um elefante.
Minha mãe não é tão grande.
Não tem tromba e nem presas afiadas,
e suas patas não são tão pesadas.
Quando enrola a cauda fica bem elegante.

- Ela enrola a cauda? Então está bem perto.
Vamos, macaquinho! Agora é certo.

- Não, não, não! Aquilo é uma cobra.
Não se parece nem um pouquinho.
Minha mãe não desliza pela floresta.
Nem põe ovos num ninho.
E minha mãe tem mais pernas do que esta.

- Ah, são pernas que agora procuramos.
Então, já sei onde ela está. Vamos.

- Não, não, não! Aquilo é uma aranha.
Minha mãe não tem esses pelos pretos
e nem tem assim tantas patas.
Ela prefere comer fruta a insetos
e vive no topo das árvores lá nas matas.

- Ela vive no topo das árvores? Então é pra já!
Está bem em cima de você, olhe lá!

- Não, não, não! Aquilo é uma arara.
Minha mãe não tem bico e sim nariz.
Ela não berra e nem grita e sabe o que diz.
Não voa, pois não tem asas e nem penas.
Minha mãe pula e salta apenas.

- Ah, já sei! Ela vive saltando?
Então, está pertinho. Vamos andando.

- Não, não, não! Aquilo é um sapo.
Borboleta, chega de brincadeira, não acha?
Minha mãe não é verde e nem coaxa.
E ela não vive na lama. Pare de me enganar!
Ela é marrom, peluda e gostosa de abraçar.

- Marrom e peluda? Já sei onde ela está!
Venha comigo, vamos lá.

- Não, não, não! Aquilo é um morcego.
Você está novamente enganada.
Minha mãe não dorme assim pendurada
e também não tem asas, já disse.
Além disso não é tão pequena. Que tolice!

- Sua mãe não é tão pequena? Deixe-me pensar.
Acho que está lá no rio a se banhar.

- NÃO, NÃO, NÃO!
Aquele é o elefante novamente!!!
- Borboleta, preste atenção no que eu digo.
Nenhuma dessas criaturas se parece comigo!

- Mas você nunca me disse que deviam se parecer!

- Claro que não! Achei que soubesse!

- Não poderia saber. Sabe por quê? Eu lhe digo...
...nenhum dos meus bebês se parece comigo!
Mas, se vocês se parecem, é fácil parceiro.
Vamos logo descobrir o seu paradeiro.

- Não, não, não! Aquele é o meu pai!

- Venha macaquinho, está na hora.
Vamos para casa ver a mamãe agora.

- MÃE!


(Esse "mãe" aí do final eu leio assim, bem dengoso: mããããe!!!!)
Essa história é bem bacana para as crianças recontarem, pois é fácil de decorar, tem um ritmo, uma repetição de formas e apresenta situações que permitem um bom encadeamento da narrativa. Favorece, assim o reconto com palavras e frases próximas ao texto escrito e mesmo o reconhecimento visual de algumas palavras, quando contam folheando o livro.
O reconto sem o livro pode se apoiar numa lista dos animais da história na ordem de seu aparecimento. Para servir realmente de apoio, a lista exige o reconhecimento dos nomes, o que em si já é um desafio. Essa lista pode ser escrita no quadro, em cartelas ou pode ser compostas de fichas com os nomes dos animais dispostas na ordem da história (usando o material do kit descrito abaixo).
A história também é bem propícia para a dramatização, seja com as crianças, seja com fantoches, que podem ser confeccionados com elas e manipulados também por elas. Fantoches de feltro, que tal?
O entendimento da trama, do mal-entendido que faz a borboleta não adivinhar logo como seria a mãe do macaco danado, requer, de algum modo, a compreensão do processo de metamorfose da lagarta em borboleta. Isso pode dar margem, depois da primeira leitura, à pesquisa com as crianças, para ampliar o entendimento e a fruição do texto. Primeiro, lógico, é bom investigar o que elas compreenderam e o que já sabem sobre o assunto. O sapo, também personagem da história, teria o mesmo problema da borboleta, pois seus filhotes girinos não se parecem tampouco com os sapos adultos. Talvez fosse interessante, assim, pesquisarem também sobre os filhotes de todos esses animais da história para chegarem à conclusão de qual/quais desse(s) animal(is) poderia(m) ter agido como a borboleta.
A história pode ser ampliada também, com novos animais entrando no enredo. As características deles, que devem confundir a borboleta, podem ser levantadas junto às crianças, criando situações análogas às demais do livro, e bem encadeadas com a situação anterior. Não é fácil, mas pode ser engraçado; comece com apenas mais um, entre dois outros do livro, por exemplo... Para ajudar, podem fazer uma relação de alguns animais da floresta, caracterizá-los e escolher os que trazem características que poderiam servir para a macaca mãe e para confundir a borboleta.
Talvez ajude o que diz sobre o livro no site da Brinque-Book:
Borboleta e macaquinho saem em busca da mamãe macaca. Ela tem uma cauda elegante, mas não é uma cobra; tem pernas compridas, mas não é uma aranha; vive saltando, mas não é sapo. Macaco Danado mostra que muitas vezes a descrição de parte de um todo pode nos remeter a outro todo, completamente diferente. Principalmente em se tratando de macacos, borboletas e seus respectivos filhotes: a maior dificuldade da borboleta está em entender que a mãe do macaco é parecida com ele, pois filhote de borboleta (a lagarta) não se parece com borboleta adulta. fonte: http://www.brinquebook.com.br/livro.php?id=56.
Depois de explorar a história, que tal um kit de materiais para trabalhar a leitura, a escrita, enfim, a alfabetização? Fiz com ele mais uma Caixinha de Livros.



Estou matutando um jogo de tabuleiro a partir desse livro, como também com o do Grúfalo. Mas enquanto matuto, no meu ritmo, apresento aqui para vocês a Caixinha do Macaco Danado.

O kit compõe-se dos nomes dos personagens da história – que podem, por si só, ser usados para algumas atividades, como trem de nomes, comparar a grafia, tentar reconhecê-los, preguicinha, usá-los como uma lista em apoio ao reconto – e das figuras dos respectivos personagens.
Juntar as figuras à seus respectivos nomes, embaralhados na mesa é um bom desafio para as crianças que ainda não tem o domínio da leitura autônoma, mas que podem reconhecer algumas palavras através de indícios diversos, como a letra inicial, final, os conhecimentos da relação entre algumas letras e seus fonemas, através de estratégias diversas de leitura, como a associação de partes da palavra com nomes próprios cuja grafia já conhece (ex. MAcaco - MAria) etc.
A Caixinha compõe-se também de pequenos textos, adivinhas, que se referem a alguns dos animais, de acordo com a história, conforme a ilustração ao lado.

A Caixinha conta ainda com um kit de letras móveis representando os nomes dos animais e de fichas com as figuras e os nomes, faltando letras para as crianças preencherem.
Os pequenos textos podem ser lidos por crianças que já podem fazê-lo com autonomia ou pelo professor, em turmas em que não há ainda leitores com autonomia para isso. Mas para os que podem reconhecer algumas palavras, a adivinha torna-se também um bom desafio.
Como sempre, as atividades a partir do kit Macaco Danado podem ser variadas, mas a essência da coisa é as crianças associarem os nomes às figuras, os pequenos textos aos nomes (e figuras...) e montar as palavras com as letras, sejam nas fichas ou não.
Os que ainda não tem muito domínio de leitura, mas já podem reconhecer palavras, podem relacionar os nomes às figuras. Para os que estão apenas no nível do reconhecimento de letras, o professor pode ir dando dicas de tamanho da palavra, número de letras, letra inicial ou final, presença de tantos “A” ou outras letras etc.
Os que já têm certo domínio de leitura podem tentar ler os pequenos textos e encontrar os nomes correspondentes, numa atividade de leitura, como na figura abaixo.
Outra alternativa bacana é as crianças que sabem ler lerem as perguntas e as outras tentarem encontrar em um grupo de três palavras aquela que responde à adivinha, como na segunda ilustração abaixo.

Para responder às adivinhas dos textos, podem ainda montar os nomes dos animais com as letras móveis, seja usando as fichas Faltando Letras ou não, o que constitui uma atividade de escrita. No caso de preencher as fichas, devem encontrar no universo de letras as que servem para completar a sua palavra, tendo como referência a gravura na ficha. Essas são atividades para os que têm um domínio maior da leitura e escrita.


Essas fichas e letras móveis compõe o Faltando Letras do Macaco Danado. O Faltando Letras é um tipo de material que propõe a composição de palavras a partir da figura e de algumas letras e pode, também, vir associado ao universo semântico de textos. Sua estrutura está também na base de diversos jogos do acervo das Oficinas, como o Faltando Vogais, o 4 Cartelas, dentre outros. O Faltando Letras do Macaco Danado traz os nomes dos persongens, faltando letras para completarem.


As letras móveis podem também ser usadas para montar os nomes a partir das gravuras, tanto para as crianças que escrevem sob hipóteses alfabéticas e silábico-alfabéticas, quanto por crianças que escrevem sob uma hipótese silábica, com valor sonoro. Se já souberem todos os animais da história, podem prescindir das gravuras, que podem, assim, ser usadas em outras mesas (ou ter dois kits de gravuras, para usar em mesas diferentes).

Para as crianças com hipótese silábico-alfabética, será um bom desafio pensar sobre quantas e quais letras para montar as palavras. Para as alfabéticas, será uma oportunidade de refletir sobre a ortografia: MOCEGO? MOSEGO? MOSSEGU? Quantas possibilidades...
No caso de crianças com hipóteses silábicas, elas evidentemente montarão as palavras de acordo com sua hipótese, sem que tenhamos que induzi-las a refletir sobre a escrita convencional dessas palavras. A riqueza está mais nas reflexões que podem ocorrer a partir de diferentes propostas de grafia, nas trocas entre as crianças. Já pensou que troca rica pode haver, a partir de intervenções do adulto, diante de uma dupla em que uma criança propõe a escrita de OEU para MORCEGO e a outra defenda que é MEO? Que interessante poderem descobrir que para escrever MO é preciso mais que uma letra!!! E de repente, se tem uma Mônica na turma, quem sabe outra criança não recorre a esse modelo para argumentar sobre a formação da sílaba MO, ou a professora para provocar? E entre O e U, como se decidir?
As atividades descritas podem ser feitas de diversos modos: no caso da turma não ter ainda crianças que possam ler os pequenos textos autonomamente, o professor pode lê-los e quem tiver a palavra (o animal) correspondente àquela descrição, se manifesta. Ou então os nomes todos podem estar no meio da roda e quem achar a resposta, indica. O mesmo pode ser feito com as imagens, que podem ser mostradas pelo professor. Ou os nomes são mostrados e as crianças devem, reconhecendo a palavra, encontrar a figura correspondente.
Podemos também distribuir os materiais pelas mesas, cada mesa com um item: uma ou algumas mesas com os nomes distribuídos, uma ou algumas com os textos. O professor então mostra as figuras e cada mesa deve descobrir se as têm e encontrar o texto e o nome correspondente àquela figura. Os kits montados vão sendo expostos.
Esses modos coletivos de propor as atividades são bem legais, mas podemos variar também e entregar o kit ou parte do kit nas mesas, de acordo com o nível de domínio de leitura das crianças. É bom ter dois kits de nomes, assim pode entregar o de nomes-figuras numa mesa e o de nomes-textos em outra. Cada mesa deve compor os pares. Nesse caso, outras mesas podem estar com outros kits de outros livros, todos fazendo a atividade simultaneamente. Outra mesa, caso na turma tenham crianças com maior domínio de leitura e escrita, pode também estar com o Faltando Letras do Macaco Danado ou montando os personagens com letras móveis.
Lembrem que ao compor as mesas de crianças, no caso dessas atividades, é preciso considerar o domínio que têm de leitura, para ajustar o grau de dificuldade da atividade. A atividade precisa ser ao mesmo tempo desafiante – elas precisam ativar os conhecimentos que tem para resolver algum desafio – e possível de ser realizada a partir dos conhecimentos disponíveis. Dar a uma criança de nível pré-silábico a tarefa de associar nomes a figuras é algo que ela não pode realizar sozinha, a não ser que possa, em algum caso, fazer uma leitura visual, logográfica, das palavras, pois ela ainda não associa a grafia à pauta sonora. Mas solicitar a uma criança que já domina certas correspondências entre som e grafia, que identifica letras e os valores de algumas delas, ainda que sua produção escrita mostre uma hipótese silábica, aí sim, a tarefa é desafiante e, ao mesmo tempo, possível de ser realizada. Essa atividade para uma criança que já escreve sob uma hipótese silábico-alfabética ou alfabética, já com um alguma possibilidade de leitura autônoma, será fácil demais, precisamos desafiá-la a ler um texto maior, como as adivinhas do Macaco Danado, ou pensar sobre quais e quantas letras são necessárias para escrever/compor os nomes dos animais, pensar sobre a ortografia, coisa que será difícil para uma criança no nível silábico.
Outra coisa, fazer essas atividades em duplas, em pequenos grupos (mesas) ou coletivamente, em vez de individualmente, amplia bastante as possibilidades de todos poderem aproveitar os conhecimentos que circulam sobre a escrita nessas situações.
Enfim, minha gente, é isso. Para o Macaco Danado são essas as sugestões, embora eu ainda esteja matutando o jogo de trilha desse livro.
Até a próxima,
Lica

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Literatura e alfabetização

Oi, gente! 

A pedidos, resolvi falar um pouquinho sobre livros de literatura na alfabetização. A relação entre literatura e educação e, mais especificamente, entre literatura e alfabetização, é um tema vasto já bastante discutido por diversos autores, aos quais me remeto para ampliar a discussão. Mas vou me limitar aqui a trazer uma discussão sobre os diferentes tipos de livros literários a que podemos recorrer no processo de alfabetização e dar algumas sugestões.

Como escrevi em resposta ao comentário de Ana, os livros apropriados para essa faixa etária são muitos, mas a indicação depende também do nosso propósito. Para serem lidos para as crianças, há uma infinidade de bons títulos de livros de histórias, de contos, mais curtos, mais longos, tradicionais, contemporâneos, mitos, lendas, tudo... que não foram escritos nem destinados especificamente para apoiar o processo de alfabetização. Literatura infantil para o deleite das crianças!

Quando o que está em jogo é a leitura literária, a fruição estética, o letramento literário, o contato com os livros, com histórias diversas, com poemas, as possibilidades são inúmeras. Cabe a nós termos um bom senso para fazer as boas escolhas. Trata-se aí de ir ampliando o repertório das crianças, de apreciar diferentes textos, de formar leitores, de inserir as crianças no mundo do letramento literário. A seleção dos livros, nesse caso, vai depender de muitos fatores, inclusive a faixa etária para o qual está indicado (embora essa história de adequação seja muito relativa...), e também das turmas específicas, seus interesses, suas contingências. Há no mercado editorial livros muito bons, nacionais ou não, mas há também os que não se encaixam nessa exigência de qualidade. Quanto mais conhecemos a literatura infantil, mais vamos firmando critérios para selecionar bons livros para ler para as crianças. Assim, para o letramento, há uma infinidade de livros literários.

Alguns deles, inclusive, favorecem a leitura compartilhada com as crianças, por serem repetitivos, de estrutura simples, como os livros de repetição e acumulação e as histórias rimadas, por exemplo. A leitura do adulto pode ir, aos poucos, tendo a contribuição das crianças em algumas partes. Assim, livros como Bruxa, Bruxa, venha a minha festa, por exemplo, permitem também que as crianças memorizem partes do texto ou a sua estrutura e, pela ilustração, vão lendo do seu jeito, fazendo uma pseudoleitura, atividade leitora super importante para a formação do leitor, desde os bem pequenos. Para ter uma ideia do que eu digo, sugiro que vejam isso aqui.
 
Convém destacar também os livros de literatura que permitem uma espécie de leitura autônoma das crianças que ainda não sabem ler, por trazerem poucas palavras, que elas aprendem rapidamente a reconhecer e memorizam o texto. Basta citar uma coleção fantástica nesse sentido, da Brinque Book. São três livros de Jez Albourough, que trazem as aventuras do macaquinho Zezé: Alto, Sim e Abraço. Livros muito bacaninhas e que Joaquim, meu filho, lê sozinho, mostrando as figuras, fazendo as entonações de leitura, experimentando os comportamentos e procedimentos leitores que observa nos adultos que leem para ele - aspectos fundamentais da formação do leitor!


Se o que se tem em mente, entretanto, são livros que também favoreçam o trabalho com os aspectos relacionados ao sistema de escrita, aí temos ao menos três possibilidades. 

Em primeiro lugar, temos os livros em geral - esses referidos acima, não específicos para dar esse suporte à alfabetização - mas que podem possibilitar a proposição de atividades de apropriação inicial da leitura e escrita, como no caso das Caixinhas de Livros que sugiro aqui no blog. Trata-se aí de poder explorar os textos também em termos de suas construções linguísticas. A ideia, nesse caso, é justamente poder estruturar atividades e materiais a partir de livros diversos, que podem ser lidos para as crianças e, depois, ter alguns de seus elementos destacados para favorecer a reflexão sobre a linguagem. Sempre, é lógico - como ressalto nos posts das Caixinhas - sem empobrecer a leitura, sem tornar o texto mero pretexto para isso, sem esvaziar a apreciação mais ampla da obra. Mas, é fato, para falar de literatura e alfabetização - no sentido mais específico de aprender a ler e escrever - é preciso tomar os textos também como objetos de reflexão sobre a linguagem: suas palavras, seus jogos de palavras, seu título, seus enunciados, e explorar diversos aspectos, como o reconhecimento de palavras por diversas estratégias, a comparação e observação da escrita de algumas palavras - suas partes menores, como sílabas, letras, partes maiores e menores que as sílabas, seus sons... Reflexão no contexto significativo do texto literário. Como nas atividades propostas nas Caixinhas de Livros.

Em segundo lugar, numa outra possibilidade, temos os livros que, em si mesmos, trazem jogos de linguagem, que não são escritos ou destinados de modo deliberado para a alfabetização, mas que, por sua natureza poética e lúdica, são de uma riqueza enorme nesse sentido. Por vezes, no entanto, nesse tipo de livro, a intenção pedagógica anda lado a lado com a literária. Nesse caso, os livros podem trazer ou não referências explícitas à presença de princípios linguísticos e fonológicos apropriados à aquisição do sistema alfabético-ortográfico, que fundamentam a alfabetização. Num caso ou no outro, tendo mais ou menos intenção de apoiar a reflexão sobre a língua, eles trazem esse caráter de jogo com a linguagem, com as palavras, de brincadeira com os sons da língua, mas sempre priorizando a função poética e lúdica da linguagem. Isso, no entanto, por si só, os tornam muito apropriados para a alfabetização, já que esta implica em prestar atenção aos sons da língua e às relações entre pauta sonora e gráfica. A matéria da poesia - os jogos sonoros, como rimas, aliterações, assonâncias, as repetições, a versificação, o ritmo etc - são também aspectos fundamentais e riquíssimos no processo de alfabetização.

Entram nesse item os livros que favorecem a reflexão fonológica, como a brincadeira com rimas, aliterações, assonâncias, sons silábicos e fonêmicos, e que ajudam no estabelecimento de relação entre os sons e a grafia. E a poesia oral e literária é rica nesses elementos. Entram aí, então, os livros com textos da tradição oral e diversos livros clássicos ou contemporâneos de poesia para crianças, como a Arca de Noé, de Vinicius de Moraes, Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles, Poemas para Brincar e Lé com Cré, ambos de José Paulo Paes, 111 poemas, de Sérgio Caparelli, dentre outros desse autor, O menino Poeta, de Henriqueta Lisboa, e outros tantos mais...

Podemos inserir aqui também os livros de alfabeto já indicados no post sobre esse tema, que por vezes podem trazer uma indicação explícita de sua intenção como suporte à alfabetização, mas sua natureza poética é mais preeminente do que sua natureza pedagógica. O post sobre os abecedários poéticos está aqui e o do Arquivo Alfabético, aqui, já material estruturado a partir desses livros. 

O AEIOU, de Ângela Lago e Zoé Rios, mostra que apenas substituindo uma letra/um fonema pela(o) outra(o) é possível criar palavras totalmente novas. Como nos jogos de pares mínimos sobre os quais falei aqui

Além das transformações linguísticas interessantes, a ilustração também é rica, lúdica e sugestiva. 

Nessa categoria, entram também os livros maravilhosos de Eva Furnari, poéticos e lúdicos, especialmente provocadores da observação das rimas e outros jogos sonoros e fonográficos, num contexto delicioso de brincadeira: Assim Assado, Você Troca?, Travadinhas e Não Confunda são fantásticos jogos de rima e risadas! Aliás, o Não confunda já virou um material que fiz, mas ainda não terminei... E do Travadinhas Ana Antunes fez um material também, postado aqui no blog.

Muitos de Ciça entram aí também: O livro dos trava-línguas, Quebra-língua, Travatrovas, O livro do enrola língua, O livro do nó na língua, Trava trela, dentre outros...


Enrosca ou Desenrosca e o Salada, Saladinha, ambos de Maria José Nóbrega e Rosane Pamplona, dentre outros desta mesma coleção, também permitem muitos jogos com os textos da tradição oral. 


Tem também um livro bacana, de Ilan Brenman e Fê, O livro da Com-fusão, que se usa justamente da confusão e com fusão de palavras, que juntas, formam outras: galinha + onça = galonça. Mil possibilidades de brincar! 

Futuramente vou fazer um post sobre os bichos malucos com sugestões de livros que misturam bichos com outros, numa brincadeira com e sobre a linguagem, já altamente reflexiva sobre as palavras, sua decomposição e recomposição. (Ops, um tempão depois, já fiz, veja aqui). Esse tipo de livro certamente se encaixa também nessa categoria.
Bom, esses são apenas alguns...mas acho que já dá para começo de conversa, né?

Em terceiro lugar, numa terceira categoria, temos os livros deliberadamente produzidos e direcionados para crianças em fase de alfabetização. Esses são escritos e destinados especificamente para apoiar essa fase de apropriação do sistema de escrita e para a leitura autônoma inicial das crianças, embora guardem sua natureza literária e sejam , no geral, escritos por escritores renomados da literatura infantil. São, geralmente considerados apropriados para esse momento inicial por apresentarem certa gradação no nível de dificuldade de decodificação e reconhecimento de palavras e, por vezes - por isso ser atualmente valorizado na alfabetização atualmente - apresentarem o texto em letra de imprensa maiúscula (o que podemos discutir...). Esses devem ser escolhidos com mais critério.

Afinal, apesar de sua função de suporte à alfabetização, não devem perder seu interesse estético, sua natureza de obra literária, seja narrativa ou poética. Afinal, trata-se, antes de tudo, de formação do leitor. A apropriação do sistema é, em última instância, a conquista da autonomia do leitor, que deve ser formado para a leitura no sentido mais amplo, não apenas para a decodificação. Aliás, para além disso, como nos lembra Magda Soares, ao lado da função pedagógica, de formação do leitor, a literatura infantil relaciona-se também à arte. 

Assim, vale à pena termos algumas indicações de livros infantis interessantes destinados à leitura autônoma do leitor inicial. 

Quatro coleções são bem representativas dessa categoria: A Coleção Estrelinha, de Sônia Junqueira, A Coleção Gato e Rato, de Mary e Eliardo França e a Série Mico Maneco, de Ana Maria Machado, e a coleção Eu sei de cor, de Bartolomeu Campos de Queirós.
 
A Coleção Estrelinha compõem-se de 3 fases no domínio da leitura - Estrelinha I, II e III. E para cada fase, 6 livros.
A Série Mico Maneco também apresenta diferentes fases, com alguns livros em cada uma. Ana Maria Machado diz que a origem dessa coleção foi o desejo de ter livros para ensinar seu filho a ler e escrever quando eles moravam fora do Brasil. Após escrever esses livros para apoiar a alfabetização, ela chamou uma especialista na área para fazer uma análise da coleção em termos desse apoio ao aprendizado da língua escrita. É uma origem interessante que mistura a escritora com a mãe e, de certo modo, educadora.
A Coleção Gato e Rato, por sua vez, foi se enriquecendo ano a ano, é bem dinâmica, e conta, hoje, com cerca de 35 livros ao todo.


A coleção Eu sei de cor, de Bartolomeu Campos de Queirós, traz indicação de apoio à alfabetização, aliás, até mesmo no título da coleção, que sugere a leitura de textos que se sabe de cor, quando ainda não se sabe ler autonomamente. Os livros trazem muitos jogos de palavras, especialmente os pares mínimos (pato/gato/mato) e rimas.

Essa coleção compõem-se apenas de quatro livros: O Pato pacato, O guarda-chuva do guarda, Formiga amiga, De letra em letra.

Esses livros surgiram a partir da década de 70 para dar suporte à alfabetização e, até hoje, são usados por muitas escolas. Continham, desde a sua publicação, indicações explícitas quanto à função de apoio à alfabetização. Hoje podem até dispensar essa indicação, mas já há um espaço para eles na estante das crianças, seja para serem lidos para elas ou para sua leitura autônoma, cada vez mais fluente. Como nos lembra Magda Soares, eles surgem numa época que os textos das cartilhas e dos chamados pré-livros - textos artificiais para aprender a ler - estavam sendo questionados e criticados. E, assim, mesmo tendo o cuidado de graduarem as dificuldades apresentadas ao leitor inicial, não reduzem o repertório de palavras do texto a ponto de se tornarem pobres em coesão, coerência e qualidade literária, como a maioria dos textos cartilhados.

Os autores de literatura produziram esses livros que ensinam a ler cuidando da qualidade literária, mas que  favorecem, ao mesmo tempo, tanto a aprendizagem do sistema quanto um nível de autonomia de leitura por leitores iniciantes. Isso devido à certa gradação nas dificuldades quanto às estruturas silábicas, devido aos textos serem curtos, apresentando rimas e repetições, vocabulário familiar, humor e graça. Magda chama a atenção, no entanto, de que embora cuidem das dificuldades que apresentam quanto ao sistema alfabético e as restrições ortográficas, não há neles a proposição de uma sequenciação rígida em termos do simples ao complexo, como nas cartilhas, que fazendo-o, muitas vezes comprometem a coerência dos textos, a graça, a riqueza da língua. Assim, ainda que sem essa gradação super controlada (e quem precisa dela?), essas coleções se organizam para acompanharem o leitor em seu gradual domínio da leitura, sem descaracterizar a natureza literária dos livros. Assim, aprendizagem sistemática do sistema de escrita e a possibilidade de leitura autonôma desde cedo se dá em contexto de uso da linguagem, em situações reais e prazerosas de leitura.

Hoje, no entanto, dispomos de muitas outras possibilidades, como as tantas sugeridas aqui. Variar, diversificar, desafiar, esses devem ser verbos sempre presentes no momento de escolhermos livros para as crianças em fase de alfabetização.

É isso, minha gente...
 
Reparem que muitos desses livros - sejam os livros em geral, os de suporte à alfabetização ou os que sugerem brincar com a linguagem - aparecem em alguns catálogos de editoras com indicações do tipo: livros para leitores iniciantes, livros para leitores em processo e livros para o leitores fluentes. essa classificação até nos ajudar a selecionar os títulos, isso considerando, no entanto, os nossos propósitos. Nada impede que um bom livro para iniciantes agrade aos que já dominam a leitura ou que os destinados a leitores fluentes possam ser lidos para os pequenos. Além disso, alguns são indicados para a leitura autônoma de certa idade, mas pode ser lido para crianças menores. Essa classificação, em se tratando de literatura, não é - nem poderia ser - rígida e inflexível. Assim, é apenas um critério de seleção, ao que cada um deve juntar os seus próprios critérios - como o conhecimento das crianças, do tipo de livro que gostam, do contexto da leitura, enfim, uma série de aspectos, polvilhado sempre com o bom senso que, quanto mais conhecemos a literatura e as crianças, mais aprendemos a ter.
 
Além de todos esses tipos de livros, temos ainda os livros de imagem, sem texto, que apesar de não trazerem a linguagem escrita, propõem, de qualquer modo um tipo de leitura especial, a leitura  de imagens. E, muitos deles, inclusive, uma leitura das imagens encadeadas, narrativizadas, que contam, de toda sorte, uma história, e que evocam, de algum modo, a linguagem verbal. Mas deixemos esses por ora de lado. Mas só por ora. 

Destaco, no entanto, aqueles de tirinhas que contam a história em alguns quadros, como os de Eva Furnari, da bruxinha, quase uma história em quadrinho. 

Gosto particularmente do O amigo da bruxinha, com histórias de seis quadros ao menos, como podem ver ao lado (a história ainda continua...). Ele é bom para "ler", inventar a história com suas palavras, escrevê-la do seu jeito e - se virar material, como o ilustrado abaixo - para ordenar as tiras antes de contar. Ótimo trabalho com a estrutura da narrativa e a produção oral ou escrita de textos! 


 
Termino dizendo que em termos de literatura na escola, tudo depende da situação, do nosso propósito e do que queremos propor às crianças. Mas que literatura sempre é, antes de tudo, para dar prazer, se emocionar, apreciar, ampliar as experiências com a linguagem e a cultura. 
 
É isso gente, por ora...
Lica

Fonte de pesquisa e citação: SOARES, Magda. Alfabetização e literatura. In: REVISTA EDUCAÇÃO: guia da alfabetização. Escrita e leitura: como tornar o ensino significativo. São Paulo: Segmento, CEALE, 2010. n. 2, 90 p. Edição especial.