Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Ceci n'est pas une pipe...

Gente,
Conforme prometi no post sobre livros ilustrados, que vocês podem conferir neste link, aqui, apresento outro livro, muito legal, que traz charadas visuais bem interessantes. E é lindo visualmente! Trata-se do livro OH!, de Josse Goffin, da Martins Fontes. Vocês podem conferir mais sobre o autor em seu site.

A relação entre imagem, palavras e coisas é um tema complexo. Muitos discutem sobre isso e alguns pintaram isso. É o caso do pintor belga surrealista René Magritte (1898-1967), que pintou um quadro de um cachimbo e, embaixo, escreveu uma legenda dizendo Ceci n’est pas une pipe, que quer dizer: Isto não é um cachimbo.


Olhando o quadro de Magritte, sem entender o francês, podemos de início concluir que estamos diante de um cachimbo. E se entendemos francês, podemos, a primeira vista, achar contraditório.  Mas é só aparentemente contraditório; o artista queria, na verdade, nos fazer pensar. De fato, não é um cachimbo, logo percebemos que se trata de uma representação artística de um cachimbo, um signo icônico – uma pintura de um cachimbo, mas não um cachimbo, que se possa efetivamente fumar. E o quadro é de uma série que se chama, justamente, A traição das imagens (1928).

A aparente contradição entre imagem e texto vem da associação imediata que fazemos mentalmente entre a imagem, a palavra e o significado. Isso é tão imediato que nós realmente tomamos as imagens (e até palavras) como as coisas que representam. Só após um momento de reflexão, nos damos conta de que, de fato, a imagem não é a coisa, a pintura não é o objeto cachimbo, mas a representação dele através de uma imagem.

E Magritte mostra isso de uma forma muito interessante e inteligente! Um dos fascínios da obra desse autor está na abordagem da interação entre o objeto e a sua representação e, nesse sentido, esse é seu quadro mais representativo e famoso. A obra se presta a uma excelente reflexão sobre o papel da arte e sobre a representação.

Em um livro no qual o filósofo Michel Foucault dialoga com o quadro de Magritte, encontra-se uma fala do próprio pintor sobre isso: “O famoso cachimbo... Como fui censurado por isso! E, entretanto... Vocês podem encher de fumo o meu cachimbo? Não, não é mesmo? Ele é apenas uma representação. Portanto, se eu tivesse escrito sob meu quadro: “Isto é um cachimbo”, eu teria mentido.”

E tem mais... o que vemos aqui não é nem a pintura, mas a foto da pintura...são camadas e camadas representativas...  

E o que quer dizer quando afirma-se que é uma representação? Ora, uma foto de uma casa, um quadro com uma casa pintada e a palavra “casa”, por exemplo, não trazem uma casa real, são diferentes planos de representação. Com a imagem, ainda mais a fotografia, temos uma casa específica, mas representada. Uma foto pode ser da minha casa, por exemplo, mas não posso abrir sua porta e morar lá dentro. Uma pintura pode representar uma casa sem que aquela casa de fato exista, e pode representá-la de modo realista, naturalista, bem reconhecível, ou pode representá-la de modo mais abstrato, como nunca seria uma casa real. 

A palavra “Casa”, por sua vez, traz um significado conceitual, não necessariamente uma casa específica. A palavra vai servir para nos referir a uma casa específica ou a qualquer e toda casa. É um conceito. Isso tudo diz respeito ao signo e aos diferentes modos de os signos representarem. A imagem pintada é um ícone, guarda alguma semelhança com o que representa, a palavra é algo convencional, não tem essa semelhança, é um símbolo. 

Mas a imagem pode também ser menos naturalista, como por exemplo, o cachimbo no quadro de Georges Braque, pintor cubista francês (1882-1963).

Braque estava mais preocupado em, justamente, desmontar o sistema de representação naturalista, cutucando a noção de perspectiva linear, cultivada por séculos na pintura. O resultado é um cachimbo meio retorcido, quase sem volume. É ainda a representação de um cachimbo, podemos reconhecê-lo, mas, em comparação com o cachimbo de Magritte, trata-se de um signo menos semelhante ao objeto que representa...

As crianças pequenas, aos poucos, vão dando conta desse mundo de representações, das abstrações, percebendo que uma imagem não é a coisa, e as ilustrações de livros de literatura infantil são bons referenciais para essas observações. Depois, vão aprendendo também a natureza representativa das palavras. A linguagem constitui um sistema de signos abstratos, convencionais, seja acústico (linguagem falada), seja gráfico (linguagem escrita). E assim vão elas, entrando no mundo da representação, dos signos, dos conceitos, das interpretações. Além disso, aprende-se também que uma única e mesma imagem pode representar realidades diferentes e ser significada diferentemente por cada pessoa. As imagens de uma casa, de certo animal, de um objeto, por exemplo, podem sugerir conotações diversas, para cada cultura, para cada um. E depois, o mesmo com as palavras... 

Bom, esses temas – sobre signo, representação e sobre a construção do símbolo pela criança - são muito vastos e complexos, muito mesmo. Mas eu os trouxe aqui, bem en pasant, só para mostrar um livro que brinca com essa ideia da representação, de ser e não ser, de ser outra coisa diferente do que parece ser. Charadas visuais interessantes para as crianças de todas as idades... 

A referência ao famoso quadro de Margritte, e à discussão que ele traz, aparece já em uma das ilustrações do livro OH!... O que será que o cachimbo vai revelar ser, no final das contas? Tcham, tcham, tcham, tcham...



Além do cachimbo nem ser cachimbo, mas um desenho do cachimbo, tem mais! O cachimbo  aí, é, na verdade, um gato! Ou evoca um gato, transforma-se nele... Trapaça instigante das imagens. Vamos beber um navio e navegar nas águas da xícara?




É isso, gente! Mais um livro inteligente, que brinca com nossas percepções e que pode ser bem interessante para as crianças, pequenas e maiores, com os diferentes desafios que pode oferecer a cada faixa etária.
Beijos,
Lica

2 comentários:

  1. Livros nos fazem sonhar...
    Vi um hoje no youtube que vale a pena! Seu nome é
    Fico à espera...
    Bjs,
    Ana

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  2. Ah, Aninha! É um que parece uma carta, não é?
    É lindo mesmo!
    Um soco no estômago, mas lindo...
    E a literatura é isso também, né, falar aos nossos fantasmas, medos, solidão, alegrias, redescobertas.
    Tem no Youtube? Vou olhar!
    Bjs,
    Lica

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