Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Jogo do Sim e do Não

Oi, gente,
Enquanto as continuações do post das Histórias Acumulativas não vêm, mostro aqui um joguinho que fiz essa semana para o meu filho. O Jogo do SIM e NÃO surgiu de uma brincadeira que eu e meu filho, Joaquim, de 5 anos e meio, fazemos com frequência no carro, indo ou voltando da escola. Ele fica procurando palavras que rimam com o seu nome, e até inventa palavras – coisa que gosta muito de fazer –, mantendo sempre no final a rima “im”, como ”filistim”, “paquitim”, “paquim”...e por aí vai... Aliás, essa invenção demonstra uma total apropriação da noção de rima, ao menos da rima do seu nome. Foi assim que foram surgindo também outras palavras que ele nem conhecia, como Pasquim, querubim...pois eu ia dizendo, “paquim não existe, mas existe Pasquim”, e dizia o que era. E novas palavras iam entrando no jogo, no repertório, no vocabulário...
No dia em que ele descobriu que Joaquim rima também com “sim”, começou a procurar palavras que rimam com “não”, o que gerava muita risada, pois além das palavras normais (avião, pimentão, caminhão, mamão), apareciam outras usando o aumentativo, seja corretamente, seja de forma bem engraçada: casão, bolão, almofadão, jogão, escolão... Brincadeiras com o SIM e com o NÃO também já haviam aparecido a partir da leitura do livro SIM, de Jez Alborough, da Brinque-Book. Sim é um livro de uma coleção maravilhosa de três livros (Sim, Abraço e Alto), ótimos para a criança que ainda não sabe ler poder ler com autonomia, já que trazem poucas palavras – falas dos personagens, bem econômicas – rapidamente memorizadas pelas crianças. No “Sim”, Zezé, o macaquinho personagem dos três livros, vai dizendo “sim” e “não” para diversas atividades do dia. A partir do livro, Joaquim passou a identificar a escrita das palavras “sim” e “não” e a reparar mais na escrita das palavras dos outros livros (no livro Alto, são as palavras “alto” e “baixo” e no livro Abraço, a palavra “abraço” mesmo), e a reparar mais na escrita palavras em geral também: suas letras iniciais, finais, tamanho etc – o que tem lhe servido para realizar diversas outras atividades, leituras e jogos.
Foi assim, a partir dessas situações, que nasceu o Jogo do SIM e do NÃO do Joaquim, chamado assim já que contém o seu nome e sua foto entre as fichas de palavras e de figuras do jogo. Nasceu do cruzamento de duas experiências de brincar com a leitura, com as palavras: as rimas com os nomes, e o sim e o não...
O jogo contém duas fichas grandes com as palavras SIM em uma e NÃO em outra; fichas com palavras que rimam com SIM e fichas de palavras que rimam com NÃO; e fichas de figuras correspondentes a essas palavras. E o jogo tem três fases: o jogo de reflexão fonológica sobre rimas, quando apenas as figuras são usadas para corresponder às palavras SIM e NÃO, como representantes das duas rimas em IM e em ÃO; o jogo de reconhecimento das rimas nas palavras escritas e o jogo de associação entre figuras e suas palavras correspondentes, que se constitui como um jogo de reconhecimento de partes das palavras, de reflexão fonográfica, voltado para ativar estratégias de identificação e a pesquisa inteligente sobre os sons e partes das palavras, a partir do uso dos conhecimentos prévios disponíveis.
A primeira fase do jogo, mais fácil, dará apoio às fases seguintes. Nessa fase, as imagens devem ser colocadas numa coluna embaixo do SIM e do NÃO, conforme rimem com uma ou com outra. Como a escrita não está presente aí, a não ser nas palavras SIM e NÃO, o jogo exige apenas a consideração dos sons das rimas nas palavras orais correspondentes às figuras. Configura-se, assim, como um jogo de reflexão fonológica sobre rimas.
Na fase seguinte, faz-se o mesmo só que com as fichas de palavras, sem ainda associar figura e palavra. Pode retirar as figuras e fazer novas colunas abaixo do SIM e do NÃO, agora com as fichas de palavras. A reflexão fonológica em presença da escrita configura um desafio a mais aqui, que diz respeito à correspondência entre a pauta sonora e gráfica das palavras, ou melhor, da parte final das palavras. Nada impede, no entanto, que as crianças já observem por conta própria outras de suas partes. Se a criança ainda não percebe a relação da escrita com o som da rima e o adulto precisar ler as palavras, o jogo volta a ser apenas de reflexão fonológica e não fonográfica.
Como o foco é a rima, a reflexão fonográfica enfatizada nessa fase do jogo incide apenas no final das palavras. O que importa aqui é reconhecer a escrita do seu pedacinho final. Logo as crianças observam que as palavras que terminam com o mesmo som, quando oralizadas, são escritas do mesmo modo no final. Se não percebem, após montarem as colunas com a ajuda do adulto, pode-se pedir que observem o que as palavras listadas na coluna do SIM têm em comum, e em seguida, as do NÃO, ou vice-versa. Isso pode tornar observável a relação entre o que se diz – a pauta sonora – e a grafia, que nesse caso é idêntica em todas as palavras. De início, por exemplo, Joaquim pedia para eu ler as fichas de palavras para poder, na segunda fase do jogo, saber se rimavam com SIM ou com NÃO. Depois ele observou o finalzinho das palavras, escritas sempre iguais, com IM, e esse passou a ser o seu critério de separação das palavras nas duas colunas. É engraçado vê-lo dando essa dica aos familiares e amigos quando vai mostrar, explicar ou jogar o jogo com eles. Coloca o dedo no restante da palavra, deixando apenas o IM à mostra, enfatizando a descoberta. Na maior inocência, dá a dica super necessária, para nós adultos alfabetizados! Para ele é, de fato, bem necessária, por ora. É lindo ver as descobertas acontecendo! E um dia a ficha de que quem sabe ler não precisa dessa dica, vai cair...rsrsrs...

 A fase final do jogo, de associação entre figuras e palavras, mais complexa, exige intervenções do adulto, pois aqui está em jogo fazer reflexões fonográficas, para além das rimas. É preciso justamente prestar atenção em outras partes da palavra que não o seu final. As intervenções do adulto são, evidentemente, para provocar reflexões, não para ler as palavras, senão não há reflexão. Com as crianças menores, é preciso dar dicas quanto ao tamanho das palavras, dicas das letras iniciais, quantidade de letras, presença de certa letra que conhecem (ex. em Anakim tem dois A e um K) para que identifiquem as palavras. Nesse caso, a atividade chama a atenção para as letras, a ordem das letras, sua quantidade, ajudando as crianças a prestarem a atenção nas unidades menores que a palavra, em contexto de jogo. Com os maiores, que já podem ir além nas reflexões e nas estratégias de reconhecimento de palavras, as intervenções podem ser mais desafiadoras. As possibilidades de intervenção são inúmeras, mas sempre devem buscar provocar a reflexão das crianças, dentro de suas possibilidades, e, ao mesmo tempo, as desafiando a observar as palavras, para além de suas rimas.

O adulto pode ir separando algumas palavras para a criança tentar encontrar a que corresponde a determinada figura. E elas o fazem através da estratégia de seleção, eliminando as que não correspondem à palavra oral referente à figura, seja pelo tamanho das palavras; por observação de letras ou de sílabas presentes nas palavras – letras e sílabas iniciais, mas também no interior das palavras –; seja por associação de sílaba inicial a sílabas de nomes conhecidos (nomes dos colegas, por exemplo), ou outras palavras de seu repertório, dentre outras estratégias. Joaquim aprendeu logo a reconhecer “limão”, por exemplo, porque começa com LI, “igual ao nome da minha mãe, Lica”.

Assim, pode-se pedir que separem as palavras começadas por A, e com as fichas com as palavras “amendoim”, “avião”, “Anakim” e “aipim” separadas, pedir que encontrem amendoim para associar à figura com o amendoim. Joaquim fez pelo tamanho, contando os pedacinhos, que agora já chama de sílaba. Pode separar as fichas “jardim”, “Joaquim” e “Jasmim” e pedir para encontrarem as figuras correspondentes. O adulto pode ir dando dicas, como, por exemplo, chamar a atenção para o som /s/ em “jasssssmim”, sem dizer a letra. Com as fichas das palavras “macarrão”, “mamão” e “mão” mais as três figuras correspondentes, podem tentar associar as três, o que pode provocar reflexões sobre o tamanho das palavras, ainda que contem uma sílaba a mais em cada uma: ma-ca-rrã-o, ma-mã-o, mã-o (como eles segmentam oralmente); podem observar a presença de “mão” dentro de “mamão” ou perceber que se a sílaba MA, presente no nome de um colega, for subtraída de “mamão” (cobrindo concretamente a sílaba da ficha ou não), sobra “mão”. Podem igualmente observar a presença de outras letras e suas relações com os sons, caso já sejam observáveis para elas, como o /S/, o /R/, o /K/, dentre outras. As intervenções podem ir seguindo as descobertas das crianças, e é muito difícil prever quais serão essas! O bom senso é importantíssimo, sempre guiado pela medida entre ser um desafio possível para a criança e, ao mesmo tempo, um verdadeiro desafio, que não seja tão fácil para ela resolver. O movimento é sempre de pesquisa inteligente, de uso dos conhecimentos disponíveis para resolver o que, de cara, não se sabe resolver.
O jogo pode ser jogado com o adulto ou com outra criança, com mais ou menos intervenções do adulto. Várias formas de brincar podem ir aparecendo, Joaquim, que ainda não percebeu que para quem já sabe ler não há muito desafio, ou simplesmente porque quer compartilhar as jogadas, joga assim: uma vez um joga, outra vez o outro – que sou eu – joga, descobrindo onde coloca as figuras e palavras ou que figura casa com que palavra. Ele adora a piada de dizer que reconhecer a palavra “Joaquim” é muuuuito difícil!
Como brincar:
  • 1.       Embaralhar todas as cartas de figura e todas as cartas de palavras.
  • 2.      Colocar na mesa, viradas para cima.
  • 3.      Colocar a palavra SIM e NÃO na mesa de modo a poder arrumar as outras fichas perto de cada uma, formando uma coluna.
  • 4.    Separar todas as figuras que rimam com SIM e colocar junto a essa palavra; separar todas as figuras que rimam com NÃO e colocar junto a essa palavra.
  • 5.     Pegar as palavras SIM e NÃO para fazer nova listagem, agora com as fichas de palavras (pode retirar as figuras para fazer as novas colunas ou retirar as fichas de SIM e NÃO e colocá-las em outro lugar ou ainda colocar as palavras numa coluna ao lado das figuras, mas ainda sem fazer a correspondência figura-palavra);
  • 6.      Separar todas as palavras que rimam com SIM e todas as que rimam com NÃO perto das duas palavras, prestando atenção nos finais das palavras (associação som final – rima – com a escrita final) ou a partir da leitura pelo adulto.
  • 7.  Por fim, tentar associar, por diversas estratégias, as palavras às figuras correspondentes. Caso as outras fases já sejam muito fáceis para a criança, pode-se jogar apenas essa terceira fase, de reconhecimento de palavras, de reflexão sobre a relação entre a escrita e a pauta sonora.

O Jogo do SIM e do NÃO é um jogo do Joaquim, mas pode nos dar outras tantas ideias. Em sala de aula, por exemplo, podemos usar os nomes das crianças como mote e fazer fichas de três ou quatro palavras que rimam (palavras e figuras) com cada nome – a depender do tamanho da turma e das possibilidades dos próprios nomes em rimar – e jogar de forma semelhante a esse jogo. Aqui não terá o marcador SIM e NÃO, mas os nomes das crianças. Em vez de duas colunas serão organizados grupos de palavras na quantidade das crianças da turma (tendo dois nomes que rimam entre si, faz um grupo só com os dois nomes, como Mariana e Juliana).
O jogo mostra, no entanto, que mesmo usando princípios que aparecem em muitos outros jogos, um jogo é sempre um jogo único e pode ter seu charme especial. Esse tem o charme de ser personalizado – com foto e nome próprio ao dono do jogo – e de ter nascido de ricas experiências vividas entre nós, o que é muito significativo para ele. 
É isso...