Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Abecê Nordestino. PARTE 1: As letras e o alfabeto nordestino

Antecede esse texto a parte da Introdução, já postada.
Discutir sobre o abecê nordestino no contexto da alfabetização, requer tanto uma abordagem de cunho cultural, quanto linguística e pedagógica. Nessa primeira parte busca-se contextualizar a questão da nomeação das letras nesse abecê, esboçando o posicionamento quanto ao lugar do aprendizado das letras na apropriação da escrita alfabética, bem como introduzir as questões culturais e linguísticas que envolvem os usos e o ensino do abecê nordestino, apresentando, em especial, o argumento sociolinguístico que perpassa a problemática posta nesse estudo.
No post aqui no blog, irei apenas trazer notícias do que será discutido nessa parte, no estudo que será publicado em breve, tanto devido ao tamanho do texto, quanto para manter a surpresa. 
a. Letras...seus nomes, seus sons, seus traçados...
Nessa parte, vamos discutir sobre o lugar das letras na alfabetização. Entre perspectivas que negligenciam a aprendizagem das letras, pois enfatizam que a alfabetização se dá na imersão nas práticas letradas, e, no outro extremo, a perspectiva que aborda o ensino das letras, seus traçados, seus nomes e/ou seus sons, de forma mecânica e descontextualizada das práticas de leitura e escrita, é preciso, e possível, achar um caminho outro que não essa oscilação entre extremos. Aprender os elementos da notação alfabética também faz parte das aprendizagens relativas à cultura escrita e aprender as letras não se resume a aprender uma lista de caracteres. As letras são os caracteres da escrita! Caracteres de um sistema complexo. As crianças que convivem com a cultura escrita, desde bem pequenas, sabem disso, podem saber disso, querem saber. Elas têm contato com letras de diversos tipos, traçados, presentes em diversos materiais, em diferentes situações socioculturais, apresentando, desde cedo, um interesse crescente por essas marcas gráficas, principalmente aquelas letras presentes em seus nomes próprios, de seus familiares e colegas.
Exemplo de atividade mecânica tradicional.
Para superar práticas de alfabetização que se construíram operando um apagamento das práticas de leitura e escrita, que investiam na cantilena do alfabeto inteiro, na grafia de letras individualizadas, descontextualizadas, na soletração de letras e/ou na junção delas em sílabas soltas, foi preciso radicalizar, tivemos que nos armar contra isso, que era igualmente maltratar os caracteres da escrita alfabética. Mas será que, para defendermos as perspectivas com foco nos textos e discursos, é necessário nos armar contra as letras em si mesmas e seu aprendizado, operando igualmente um apagamento dos aspectos linguísticos da notação alfabética? É preciso aprender as letras, claro! Aprender a reconhecê-las e grafá-las, aprender seus nomes, para podermos nos referir a elas e ir aprendendo as relações com seus “sons”,– são aspectos que fazem parte das aprendizagens linguísticas e da metalinguagem envolvida no aspecto notacional da linguagem escrita.
Aprender os nomes das letras, discutiremos mais adiante, é importante também porque os nomes dão pistas de seus “sons”, no caminho de apropriação da notação alfabética.
Os estudos históricos e linguísticos de Cagliari e Massini-Cagliari (1999) nos ensinam sobre a constituição e a beleza do alfabeto, suas possibilidades e limites, sobre a configuração gráfica e funcional das letras e a relação entre essa configuração gráfica e a configuração funcional, na alfabetização,  bem como nos ensinam sobre o princípio acrofônico (CAGLIARI, 2009a, 2009b), que usamos para decifrar os valores sonoros das letras, e sobre o qual falaremos muito aqui ainda.  Com Cagliari (2009a, 2009b, 2011) aprendemos tantas coisas interessantes sobre as letras e o alfabeto, através dos tempos e espaços, na história da constituição dos sistemas de escrita pela humanidade. Essa história mostra a importância das letras na constituição histórico-social da escrita, do sistema alfabético, e em sua aprendizagem pelos sujeitos. É a essa potência que nos referimos aqui ao falar das letras. 


As letras não negam os textos! Elas são os seus tijolos. Assim, reafirmo as letras e a sua aprendizagem como aspectos importantes no campo da alfabetização, marcas que interessam às crianças – mesmo às pequenas, quando convivem com a escrita no dia a dia. Trata-se de um conhecimento que é social, que precisa ser ensinado às crianças, no contexto da apropriação da cultura escrita.
Bom, mas essa história toda sobre letras é, também, para justificar a conversa sobre o alfabeto nordestino – ou do  abecê do sertão, como dizem. Ao menos, por ora, por isso. Ou seja,uma conversa sobre o jeito de chamar as letras, atribuído ao falar do Nordeste, do sertão. E vamos então ao abecê nordestino.
b. O abecê nordestino
O jeito de falar as letras no Nordeste é referido, muitas vezes, como uma variedade linguística do nordestino, outras vezes como vício de linguagem, curiosidade exótica, às vezes com uma tolerância regional quase romântica, outras vezes sendo alvo de chacota e preconceito, como vimos aqui. Como nos ensina Maurizzio Gnerre (1985, p. 4)“[...] uma variedade linguística ‘vale’ o que ‘valem’ na sociedade os seus falantes, isto é, como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais”, e nesse quesito, o preconceito com o Nordeste extrapola as questões linguísticas, o preconceito linguístico é, pois, antes de tudo um preconceito social. Em vez de tomar todas as formas como variações, um modo de falar, nessa perspectiva, é visto em comparação com uma forma tomada como a correta – que o é por razões históricas, políticas, sociais, não propriamente linguísticas. Como nos lembra Bagno (2002a, p. 180), Fontes, referindo-se ao português do Brasil em relação ao lusitano,  já denunciava, em 1945, que o “desprezo de nossa língua anda sempre irmanado ao descaso por tudo o que ela representa: a gente e a terra do Brasil”. O mesmo se dá entre os falares, as gentes e as terras de diferentes regiões do Brasil.
Como pano de fundo sociocultural em que a questão do abecê nordestino está ancorada, e fazendo coro com o campo científico de estudos sobre as variedades linguísticas e sobre o preconceito social envolvido nessas questões, trago aqui a voz de Marcos Bagno, no prefácio do Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro, que diz que, apesar de todo o avanço científico na área da linguística, especialmente da sociolinguística, continua circulando na sociedade concepções de língua falada e escrita que são arcaicas. O autor, de certo modo, ressalta o papel da mídia brasileira, que não parece estar interessada em dar um tratamento científico aos fenômenos de linguagem, tratando do tema a partir de caricaturas dos falares regionais. Diz Bagno (apud NAVARRO, 2004, p. 12): “Em suas manifestações sobre a língua, a mídia brasileira perpetua uma série de crenças infundadas, baseadas numa visão estreitamente normativista e estereotipada dos conceitos de ‘língua certa’ e ‘língua errada’” que “ajudam a preservar e a nutrir um tipo de preconceito profundamente arraigado na nossa cultura, o preconceito linguístico, fator de exclusão social”.
Dialogando com essa perspectiva de fundo – mas não apenas essa – é que vou me debruçar aqui sobre o abecê do nordeste, ou seja, o jeito de nomear as letras fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si. Lembro, inclusive – como já postei aqui numa das provocações que iniciaram essa discussão – que essas formas estão registradas em dicionário (Houaiss, Aurélio e outros) e indica-se outras possíveis designações no Acordo Ortográfico de 1990, reiterado em 2009. O argumento – tal qual ouvi ou li aqui e ali – de que esse abecê “oficial” seria o certo porque “está na gramática”, nas normas para a língua, não tem lastro nos estudos sociolinguísticos e nem mesmo nesses documentos descritivos ou normativos. Para nós, da área de linguagem, não há nenhuma dúvida de que gramática não é sinônimo de língua – que é muito mais ampla e apresenta variações – para o senso comum, no entanto, esse poderia ainda se constituir em um argumento para defender o alfabeto “oficial” como o correto e basear posicionamentos preconceituosos. Vemos no entanto, que nem isso se sustenta. Precisamos, pois, sair de uma posição de preconceito ou de ingenuidade, e estabelecer uma discussão realmente frutífera e esclarecida sobre o tema.
E para dar início a essa discussão esclarecida, começaremos pelos artistas nordestinos da palavra, representantes da voz da cultura popular em articulações com a cultura em geral, que muito nos ensinam nesse sentido. Luiz Gonzaga, em seu “ABC do sertão” (composta com Zé Dantas), é quem nos dá a notícia mais certeira do jeito de falar o alfabeto no sertão nordestino. Assim também é o cordel “A letra é rê e não erre”, do baiano Noédson Valois, o Nonói contador de “causos”, menos conhecido, que afirma esse abecê, defendendo-o melhor do que nós – estudiosos do campo da linguagem – poderíamos fazê-lo.

Ouvir aqui.
A canção contribuiu muito para divulgar essa prática do ensino do alfabeto, inclusive, fora do Nordeste do Brasil, mas, a despeito disso, como vimos na quinta provocação sobre o abecê nordestino, postado aqui no blog, há quem consiga até mesmo criticar a canção, sob o argumento de que “assassina a língua portuguesa”, ou que Gonzagão era analfabeto e por isso não conhecia os “fonemas”, dentre outras pérolas, que vocês podem ver aqui. Note-se, entretanto, que, de algum modo, o uso desse abecê aparece na canção como algo escolar: “pros caboclo ler, têm que aprender outro abecê”, “na escola é engraçado...”. Se Lua fala do sertão por contraste, como alguém que se encontra num entre-lugar, do qual pode ver a diferença, pode julgar “engraçado”, quase assumindo – digamos assim – certa comicidade ou atraso na situação. Ou seja, fala para uns e para outros, então.
Nonói, por sua vez, é mais explícito no seu jogo de contrastes, argumenta e contra-argumenta sem dó. Falar erre, esse, ele... seria, para ele, uma inovação sem necessidade, o abecê “oficial” seria uma espécie de “remendo”. E, para isso, brinca com as palavras: “a letra é rê e não erre!” Com Nonói, não vamos errar!
CD Bahia Singular e Plural (IRDEB, 2000) – Vol. V (faixa 6)
Ouvir aqui: 

No caso desse cordel, a afirmação do uso do abecê aparece para além da escola, para além do momento do ensino da leitura – “é assim que a gente lê” –, embora, evidentemente, relacione-se também com o contexto escolar. 

Essa pérola de Nonói foi José Rêgo que me mostrou, e faz parte, igualmente, do repertório da Canastra Real, junto com o “ABC do sertão”. 
Antes de seguir, quero não deixar dúvidas a respeito do lugar do qual eu mesma falo – sou nordestina e o alfabeto que aprendi, aos 5 ou 6 anos, era nordestino... (e eu não era do sertão, mas de Salvador mesmo). Falo desse lugar... Então, sigamos.
Já vi atribuírem o uso desse alfabeto no sertão ao fato de os professores, nesse contexto, serem, em grande parte, professores leigos, antes das instituições e dos programas de formação chegarem aos municípios mais distantes dos centros urbanos. Ora, podemos nos perguntar: por serem leigos, não tiveram acesso ao conhecimento “correto” do nome das letras ou, por estarem longe do discurso oficial, estavam menos sujeitos à “colonização” desse modo de falar, à hegemonia dos modos de ser da linguagem falada nas regiões sul e sudeste? Será que ele era usado só no sertão mesmo? Sou moça da alfabetizada no início dos anos 70, na capital, zona urbana litorânea, minha professora era formada, e só vim conhecer o efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse quando bem maior que isso! Até hoje oscilo entre um e outro...e pronuncio, sem pensar nem pestanejar, normalmente, as letras “nordestinas”. O alfabeto sai, de mim, mais rápido e natural assim... E então, mesmo considerando que não é tão simples discernir o alcance daquilo que venha a ser “sertão”, se no Brasil o conceito é, geralmente, associado ao interior, bem como à aridez, ao atraso, à miséria, ao iletrado, de falar chulo, e, mais objetivamente, no sentido geográfico, considerado uma subárea ou sub-região que envolve vários Estados – Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe – podemos, então, questionar que seja só do sertão mesmo, ainda que reconheçamos sua forte identidade sertaneja – quem somos nós para negar Seu Lua, não é? Mas, então, por que esse alfabeto ficou sendo no Nordeste? Porque ficou sendo do sertão? É do Nordeste ou é do sertão? E é só do Nordeste? Por que será que permaneceu mais forte na Bahia? Por que será que na Bahia não é só no sertão que “se ouve tanto ê”, diferente de outras capitais que estão, efetivamente, na sub-região do sertão, mas já o “esqueceram”? Será que no processo de “invenção” do Nordeste, tal qual discute Albuquerque Jr. (2009), toda a região Nordeste ganhou um caráter sertanejo e por isso, caberia falar de abecê do sertão, mesmo havendo uso na capital, ao menos na Bahia? E mais... quem determinou o alfabeto “correto”? De onde surgiu o efe, e de onde surgiu o fê? O gê, o guê, o jota, o ji?... Qual as raízes de cada um deles?
Essas são questões que precisamos colocar, mesmo que algumas, não consigamos responder. Para tentar compreender alguns desses aspectos, ou ao menos buscar mais indícios e trazer a complexidade da questão à mostra, se faz necessário mergulhar em um campo complexo de informações históricas, que envolvem ora a história da escrita, da constituição do alfabeto,ora a história dos métodos de alfabetização no Brasil. E ainda tem a cultura do Nordeste...São muitos aspectos a considerar.
Um argumento de base nessa questão é o argumento das variedades linguísticas e suas relações com questões de ordem cultural e sociopolítica. Entretanto, mesmo se tomarmos a questão do abecê pelo viés da variação linguística regional, com todo o respaldo sociolinguístico e cultural para validá-lo, ainda me parece faltar uma discussão mais ampla sobre ouso desses dois tipos de alfabeto, suas origens, seus usos, suas funcionalidades. Assim, é pertinente situar a problemática e trazer alguns aspectos para continuarmos a pensar sobre isso, fundamentando nossa defesa do alfabeto que usávamos e ainda usamos, em alguma medida, no Nordeste, e buscando um posicionamento mais potente diante desse uso. Embora não seja uma pesquisa fácil de ser feita, e se ache pouca coisa sistematizada sobre o tema, quero levantar ao menos alguns aspectos que possam, porventura, contribuir nesse sentido. E não apenas para os nordestinos! Trata-se de uma herança cultural brasileira e da história da alfabetização no Brasil!
Nisso, saber como, historicamente, se chegou a essas duas formas de designar certas letras – o fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si e o efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre e esse – ajuda bastante a situar a questão de outro modo. Quem traz alguma informação sobre isso, desde a constituição de nosso alfabeto latino, é o linguista Luiz Carlos Cagliari, ao tratar da origem do alfabeto na história da escrita (Parte 2). Cagliari é quem nos ajuda a desmistificar, em primeiro lugar, isso de que uma forma seja mais correta que a outra (2009a), mostrando as origens remotas de ambas as formas do alfabeto.

Nada mais pertinente para combater o preconceito linguístico e o tom jocoso do preconceito social, imbricado naquele, do que passear um pouco pela historicidade dos fenômenos. Não para criar disputas, justificar-se, mas para reposicionarmos a questão em outros termos. É sobre isso que falaremos na parte 2, no próximo post
Aguardem!

19 comentários:

  1. Que maravilha...
    Já era tempo de se falar mais disso.
    Acompanhando aqui.
    Line

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    1. E não é, Line?! Já era tempo mesmo... ao menos no sentido linguístico, pouco se vê discutir sobre isso, apenas no sentido cultural, vemos algumas manifestações aqui e ali.
      Será que é porque as letras parecem ser algo menor no ensino da língua escrita?
      Muito obrigada por comentar,
      Sds,
      Lica

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  2. Realmente, um tema do qual pouco se fala de forma aprofundada, embora muito se critique no Sudeste, pouco se conheça no resto do Brasil e muito se defenda aqui na Bahia, mas sem saber todas essas coisas.
    Parabéns por esse estudo, muito bem vindo.
    Adorei e estou acompanhando cada postagem.
    Abraço,
    Jacira P.
    Salvador/BA

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    1. Exatamente, Jacira...se critica sem fundamento, se defende sem tanto conhecimento de causa. O argumento cultural e sociolinguístico é fundamental, contribui para reconhecermos nosso abecê como um modo nosso de nomear as letras. Mas para combater o preconceito, precisamos ir um pouquinho além, abordando o aspecto mais linguístico mesmo. É isso que eu quero fazer, para contribuir com o debate e com uma defesa mais consistente do nosso lindo abecê.
      Abraço e obrigada,
      Lica

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  3. Como bem diz o texto, é necessário pensarmos o quanto esse preconceito linguístico está diretamente imbricado com a xenofobia e outros preconceitos. Boaventura de Sousa Santos fala sobre o pensamento abissal, pensamento esse que cria uma dicotomia de pensamentos e ações: certo/errado, bem/mal, bonito/feio, legal/ilegal, ciência/senso comum, cultura/natureza. Entre todas essas dicotomias, uma sempre é hegemônica e produz o silenciamento e a destruição da outra. Negar o outro é um instrumento eficaz de dominá-lo. Nessa dicotomia Sul/Nordeste, o lado hegemônico é sul que, através da língua, nega e violenta um norte/nordeste constituído por uma herança negra, indígena e pobre.

    Marcos Bagno defende a ideia de que não existem erros de português, tendo em vista que um falante nativo da língua conhece a sua estrutura fundante. O que ocorre são "erros" ortográficos(coloco a palavra entre aspas, porque o conceito de certo e errado pode ser questionado).
    Retornando à Boaventura, acredito que devemos defender uma ecologia dos saberes, onde tanto o ABC da gramática normativa, quanto o Abecê falado no Nordeste deva ser respeitados, ensinado às nossas crianças que o uso de um ou de outro irá variar de acordo com algumas situações, mas que um não está acima do outro.

    Wesley Conceição - EDCB85

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    1. Isso mesmo, Wesley.
      Muito boa reflexão!
      Todos os brasileiros deveriam aprender que há dois alfabetos em uso no Brasil, pois, historicamente é isso e não há nada de complicado nisso. A complicação vem, justamente, dessas outras forças que você bem coloca.
      E precisam aprender não só por fazer parte de nossa cultura brasileira, mas também porque há mobilidade das pessoas entre as regiões e o desconhecimento pode, sempre, gerar situações de constrangimento, para qualquer um que use o abecê que for, mas, principalmente, por quem usa o que não é hegemônico.
      Como sabemos, no entanto, o conhecimento, embora importante, não é suficiente para zerar o preconceito, de qualquer ordem.
      Já temos tantas referências para desconstruir a questão do preconceito linguístico, como do cultural, racial, etc, entretanto, ainda temos que testemunhá-lo, e muito. Mas continuemos nossas lutas!

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  4. Olá Professora Liane e colegas da turma EDCB85,
    Diversas possibilidades na alfabetização podem ser encontradas pelos sujeitos em aprendizagem, afinal a língua é uma matéria viva, que está em constante movimento e transformação. Através do texto escrito pela professora e, também, com as colocações do colega Wesley, observo que são fundamentais atentarmos, que não há uma hierarquia na construção de linguagem sobre o mundo — apesar do preconceito social ainda existir no Brasil, falta de "letramento" sobre a diversidade da formação brasileira de alguns.
    O abecedário do sertão nordestino assim como a alfabetização pela norma culta do português podem e devem se relacionar nos momentos de aprendizagem alfabética nas escolas, podendo ser uma possibilidade de dirimir o preconceito linguístico . Posto que os elementos linguísticos presentes no processo de alfabetização não se dissociam das questões culturais e sociais dos sujeitos.
    O Brasil, em sua dimensão continental. é fruto de uma mistura de diversos povos do mundo. O país é dos tupis-guaranis, afro-brasileiros, europeus quando hoje dos orientais. O povo brasileiro representa a diversidade linguística, que quando for apropriada na educação, seja na modalidade básica do Fundamental ou da EJA, pode constituir formas diversas e criativas para a alfabetização e o letramento.
    A escola não é lugar para se reproduzir preconceitos linguísticos, mas do reconhecimento de uma variedade linguística e do ensino da variedade culta, conforme critica Magda Soares no livro "Linguagem e Escola uma perspectiva social"(1991, p.78):
    "Um ensino de língua materna comprometido com a luta contra as desigualdades sociais e econômicas reconhece, no quadro dessas relações entre a escola e a sociedade, o direito que têm as camadas populares de apropriar-se do dialeto de prestígio, e fixa-se como objetivo levar os alunos pertencentes a essas camadas a dominá-lo, não para que se adaptem às exigências de uma sociedade que divide e discrimina, mas para que adquiram um instrumento fundamental para a participação política e a luta contra as desigualdades sociais".

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    1. Olá, Carlos!
      Pois é, é bem assim como você diz: "os elementos linguísticos presentes no processo de alfabetização não se dissociam das questões culturais e sociais dos sujeitos". Enquanto o processo de alfabetização for tomado como um aspecto meramente técnico, estaremos dissociando o que é inerentemente indissociável. E sim, com certeza tem modos de abordar os aspectos linguísticos da alfabetização de forma viva, cultural, política, constituindo, como você diz "formas diversas e criativas para a alfabetização e o letramento".
      Te convido a ler mais sobre o tema em outros posts do blog, para ver que, além da questão das variações linguísticas, o preconceito com o abecê nordestino implica em desconhecimentos de sua origem e de sua legitimidade social, cultural e linguística, para além de ser uma variedade nordestina.
      Sds,
      Liane

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  5. Lendo o texto me dei conta que sempre usei o abecê nordestino sem saber. Através do seu texto Liane pude conhecer o cordelista Noédson Valois, o Nonói e refletir um pouco mais sobre a colonização linguística, compreendendo que a língua ela não é neutra e sim carregada de história(s) e identidade que devem ser preservadas. Nós enquanto educadoras e pertencente a essa cultura temos uma responsabilidade grande em relação a desnaturalização da língua hegemônica e propagação de outros formas de uso da língua. Achei super importante você pontuar seu local de fala. Agora vou seguir para a próxima parte para matar a minha curiosidade. EDCB85

    Ana Paula Gomes

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    1. Oi, Ana Paula!
      Que bom que você ficou animada e curiosa de ler mais sobre o tema.
      E é isso mesmo, nós temos uma responsabilidade grande nisso, pois, ao contrário, podemos também ceifar sujeitos de linguagem com o preconceito e o desconhecimento.
      Referir-se a lugar de fala está em voga hoje em dia, mas faz muito tempo que os estudiosos da linguagem, da análise do discurso, apontam essa questão de que os discursos sempre são proferidos de algum lugar. As condições de produção dos discursos, de onde se diz o que se diz, influenciam de forma inerente o próprio dito.
      É um pouco o que diz também aquela tirinha do Hagar sobre os navegantes e não-navegantes que vimos na aula.
      E, evidentemente, nesse assunto, falo como nordestina, orgulhosa de sê-lo.
      Abraço,
      Liane

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  6. Nasci no sertão de Santaluz, terra do sisal, e aprendi através do abcedário nordestino. Luiz Gonzaga esteve sempre presente com suas músicas, a cultura do cangaço e suas histórias. Milhares de crianças nordestinas, assim como eu, usaram e usam o ABC do sertão que tem dado muitas contribuições à alfabetização, pois as crianças se beneficiam muito do nome das letras para ler e escrever. O que a sabedoria nordestina já sabia há muito tempo é que as crianças usam o nome das letras como pistas fonológicas para escrever. Muito mais fácil, portanto, usar FÊ, LÊ, MÊ, RÊ, do que Efê, elê, emê. Devemos refletir sobre a nossa diversidade cultural para combater preconceitos. E o ABC do sertão nos inspira de forma bela e acolhedora.

    Joston Darwin

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    1. Pois é, Joston!
      Tem isso também. Para nós, que aprendemos com ele, há uma memória afetiva grande em torno desse uso.
      É triste vê-lo sofrer as chacotas que sofre, não é?
      Mas podemos ter altivez, nosso abecê é muito rico culturalmente e muito válido linguisticamente!
      Liane

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    2. EDCB85, faltou indicar, Joston.

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  7. O bom disso tudo é saber que existem profissionais como o linguista Caligari que nos mostra que não existe o certo e/ou errado em relação ao alfabeto como demonstra em seus estudos sobre a origem do alfabeto na história! Eu completaria dizendo como falta a sensibilidade e estudo por parte de profissionais da área ao tratar com preconceito ao aluno que trás em sua bagagem a alfabetização "do interior"e por não falar "corretamente"o "português"! Vera Mota

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    1. Mas a culpa não é bem dos professores, toda a sociedade tem essa ideia de que o outro alfabeto é correto e esse um desvio, ainda que o usem e até gostem dele. E há muito pouco estudo sobre isso para apoiar o professor nessa defesa. É justamente por isso que acho esse estudo, e a pesquisa empírica que vem junto, importantes para mudar essas representações junto aos professores (ao menos eles).
      Veja o post intitulado "Quinta provocação sobre o abecê nordestino"...
      Liane

      EDC B85 - 2018.1

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  8. Essa discussão é interessantíssima! Devorei esse texto já com vontade de ler os próximos. Acredito que seria de grande contribuição social a popularização dessa discussão, ao menos para desconstruir no senso comum a ideia de que o "alfabeto nordestino" é sinônimo de atraso ou, como citado no texto, fruto de educação fornecida por leigos, bem como toda a variedade linguística do nordeste. Acredito que os ideais preconceituosos do senso comum com relação a este assunto é, em grande parte, devido à falta de conhecimento do outro lado da história. A mídia seria um eficiente veículo de popularização de informação, mas sabemos que ela utiliza todos os seus recursos e influência para alienar e reproduzir/cristalizar preconceitos. A iniciativa do blog, entretanto, já um caminho. Já estou indicando aos amigos!

    Emanuela Galdino, EDCB85 - 2018.1

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    1. Que ótimo, Emanuela!
      Vamos divulgar, vamos reaquecer a defesa de seu uso, ensiná-los às nossas crianças! Vocês são ou serão professores em breve, têm um papel fundamental nessa divulgação!
      Cá do meu lado, digo que esse estudo terá uma publicação em breve, a pesquisa também será divulgada em eventos e, quem sabe, em algum momento ganhe espaço na mídia...
      Você viu o filme que foi feito sobre o assunto? Postei aqui, veja aí.
      Abraço

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  9. Vivendo em um país continental como o Brasil, trazer a temática das variações linguísticas para a escola é primordial! Me lembro bem na minha infância a minha professora do fundamental corrigindo o nosso alfabeto nordestino... É com leitura e muito estudo que vamos nos libertando dos preconceitos que o nosso povo (principalmente norte-nordeste) tanto sofre. Ótimo texto, muito bem explicativo!

    Gabriela Chagas, EDCB85 - 2018.1

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    1. Pois é, Gabriela!
      Leia os outros posts...tem ainda mais outro tanto de argumentos para ajudar a gente a combater esse preconceito.
      Abraço

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