Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

sábado, 18 de setembro de 2010

Palavras Compostas

Oi, Gente, ó eu de novo...
O comentário de Cris ao post anterior me deu vontade de explorar um pouco mais os pequenos poemas de alguns desse livros com letras sugeridos no post. Viu como a interação é importante para eu continuar inventando, propondo, postando? Rsrsrsrs!!!!
Como escrevi em resposta ao comentário dela, de fato, muitos dos poemas de Elias José no livro "O que se vê no abecê", se prestam a fazermos mil extrapolações.
Cris propôs a sua turma o poema da letra Q, na verdade o poema do QU, já que o Q sempre aparece seguido do U na nossa língua, o que, aliás, é uma das boas descobertas das crianças a respeito do que é possível ou não no nosso sistema de escrita. Então, é assim:
"Na quadra ou no quintal,
o quinteto joga queimada
e queda de braço
sem quebrar o braço.
E queremos quebra-cabeça,
quebra-galho, queda-d’água
quebra-luz, quebra-queixo,
e queijo com goibada.”
Depois de ler e explorar o poema e, certamente, alguns de seus aspectos linguísticos, Cris propôs uma exploração das palavras compostas do texto, seus significados, definições. Isso já é bem interessante no sentido de as crianças tentarem, pelas definições das duas palavras em jogo, encontrar a definição da palavra composta, que por vezes tem uma relação mais direta com suas componentes e outras vezes menos. Como quebra-queixo, quebra-cabeça, por exemplo. Tem uma explicação, mas o composto refere-se a um doce e a um jogo. Há uma complexidade maior na definição. Maior ainda em quebra-galho! É uma exploração muito rica!
Ela propôs ainda analisarem outras palavras compostas, que não as do texto, formadas com a palavra "quebra", como quebra-mola, por exemplo, também tentando fazer as crianças expressarem o que achavam que significa.
Buscar essas definições a partir das próprias crianças é bem legal. Pode também, se ninguém acertar, ver o significado e tentar entender a explicação dessa composição. Em quebra-mola, que mola seria mesmo essa? Por que então aquele abaulado na rua chama-se assim? É um rico trabalho de enriquecimento de vocabulário que, explorando as palavras escritas também pode oportunizar a reflexão sobre a escrita.
Não satisfeita, ela propôs ainda que as crianças inventassem e definissem palavras compostas que não existem e conta que um aluno inventou o "quebra-túnel", dizendo que era um desvio para caminhões muito altos que não conseguem para passar pelo túnel! Muito divertido!
Talvez seja interessante depois listar, separadamente, junto com eles, as construções que existem e as que foram inventadas por eles, e ao fazê-lo levá-los a tentarem ir reconhecendo as palavras para decidir em que lista entra. Talvez assim, diante de tantas palavras compostas que não conheciam, atrapalhem menos essas com as que são inventadas. Talvez seja bobagem minha essa ressalva, gosto de invenções, ainda mais das invenções de linguagem de que as crianças são capazes! Mas como estão trabalhando vocabulário, talvez seja uma boa saída... e ainda permite que tenham que ler as palavras para decidir sobre sua lista e relembrar seu uso (inventado ou existente).
Um modo de formarem palavras inventadas é também misturar várias fichas com as palavras que entram na composição de palavras compostas do universo trabalhado, e ir recombinando-as, criando palavras existentes e não existentes. Em todo caso, sai coisas bem engraçadas. O reconhecimento das palavras também está em jogo aí.
Como eu sugeri no comentário, esse trabalho pode se estender também para outras expressões e palavras compostas, como as com "pé" (ex. pé-de-moleque, pé-de-vento), que são muitas na língua. Um livro muito bacana que trás expressões com "pé" é o livro de Elias José, "Sem pé nem cabeça", da Formato.


A canção Pé com Pé, do Palavras Cantada, é muito legal para explorar esses aspectos também, embora não traga prioritariamente palavras compostas, mas expressões idiomáticas.
Ah, só não me perguntem sobre os hífens da nova ortografia. Ainda estou me batendo com eles...

Pé Com PéSandra Peres / Paulo Tatit

Acordei com o pé esquerdo
Calcei meu pé de pato
Chutei o pé da cama
Botei o pé na estrada
Dei um pé de vento
Caiu um pé d'água
Enfiei o pé na lama
Perdi o pé de apoio
Agarrei num pé de planta
Despenquei com pé descaço
Tomei pé da situação
Tava tudo em pé de guerra
Tudo em pé de guerra
Pé com pé, pé com pé, pé com pé
Pé contra pé
Não me leve ao pé da letra
Essa história não tem pé nem cabeça
Vou dar no pé / Pé quente
Pé ante pé / Pé rapado
Samba no pé / Pé na roda
Não dá mais pé / Pé chato
Pegar no pé / Pé de anjo
Beijar o pé / Pé de meia
Manter o pé / Pé de moleque
Passar o pé / Pé de pato
Ponta do pé / pé de chinelo
Bicho de pé / Pé de gente
Fincar o pé / Pé de guerra
De olelha em pé / Pé atrás
Pé contra pé / Pé fora
A pé / Pé frio
Rodapé / Pé
Vejam o vídeo:



As expressões idiomáticas, ou frases feitas, são expressões de uso comum cuja interpretação é captada globalmente, pois se caracterizam por não ser possível identificar seu significado através de suas palavras tomadas de modo isolado, individualmente, nem de seu sentido literal. De tão repetidas, viram uma fórmula pronta para expressar uma idéia e passam a integrar o idioma.
Elas são excelentes para brincar com as palavras, enriquecer o uso da língua, perceber as sutilezas das contruções de significado e ampliar a possibilidade de compreensão de textos diversos, que trazem por vezes essas expressões, tão frequentes nas interações verbais da oralidade.
Por ora é isso. Vou postar outras possibilidades de exploração, do mesmo livro, dessa vez com poemas de outras letras. Da letra R pra começar, tá?
E assim vamos...
Beijos,
Lica

4 comentários:

  1. Oi,
    Adorei meu comentário ter inspirado o post.
    Bjs,
    Cris

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  2. Comente mais, mande sempre suas ideias... certamente contribuirão com o blog e me inspirarão outras...
    Bjs,
    Lica

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  3. Parabéns as duas!
    Qua venha mais e mais trocas e novos posts.
    Adoro esse cantinho!
    Bjs.

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  4. Obrigada, borboletinha francesa!!!
    Também adoro essas trocas.
    Continue borboleteando por aqui.
    Bjs,
    Lica

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