Mostrando postagens com marcador Livros de alfabeto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros de alfabeto. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Livros de ABC

...E volto às postagens com um post com novas dicas de livros de ABC, abecedários contemporâneos que se multiplicam enormemente, com novas roupagens.

Os abecedários, as cartas de ABC e os silabários foram utilizados para ensinar a ler e escrever nas escolas brasileiras até meados do século XX, com um foco no aprendizado das letras, da ordem alfabética e das sílabas. Os abecedários tinham, assim, primordialmente uma função pedagógica.

De outro lado, a tradição oral e alguns jogos também apresentam brincadeiras com as letras e a ordem alfabética, a exemplo da parlenda que acompanha a brincadeira de pular corda: "Suco gelado, cabelo arrepiado, qual a letra do seu namorado? A, B,C...Z” ou “Água gelada, com pão e marmelada, qual é a letra da sua namorada?”. Ainda que essas parlendas também possam ajudar a memorizar a ordem alfabética, sua função primordial é acompanhar a brincadeira. Nesse sentido podemos dizer que é comum o uso do alfabeto ter também funções lúdicas e poéticas.

Organizar conteúdos em forma de alfabeto, com estratégias diversas como listas de palavras, verbetes, repertório de determinada classe de objetos ou seres (como animais, que são campeões em termos de organização alfabética) tem sido uma prática bem comum em livros informativos e agora, também, em livros de literatura infantil.

Então, minha proposta é olharmos para esses novos abecedários com novos olhos, pois eles têm aparecido no domínio do livro para crianças que pouco a pouco se liberou do caráter pedagógico para investir no terreno do estético, da criação, da arte literária.

Assim, no decorrer do tempo, embora possa carregar ainda, de certa forma, sua marca de origem como manual de aprendizagem da leitura, os abecedários encontraram novos fôlegos, outras vias para se metamorfosear, entrar para a literatura e inscrever em cada uma das letras que usamos para escrever um convite à poesia, ao sonho, à criação, à surpresa, ao desvio, à beleza, enfim, à brincadeira com a linguagem. Como os gêneros de texto em geral, os abecedários também foram se transformando com o tempo, bem como são influenciados pela tendência contemporânea de esmaecimento das fronteiras genéricas.

Hoje, os abecedários, ou seja, livros organizados em forma de alfabeto, associando as letras a texto ou imagem, reaparecem e se multiplicam nessa nova forma poética, não com uma função primordialmente didática, mas sim literária. E com essa função estética, podem ainda ser fonte riquíssima de boas aprendizagens sobre os signos da escrita, de forma lúdica, gostosa e produtiva. Eles não têm necessariamente a função de ensinar as letras, o alfabeto, mas de brincar com elas, de usar o alfabeto como pretexto para pequenos textos literários, brincadeiras com a linguagem, motes para criações verbais e visuais. Mas também aproximam as crianças desses signos da escrita.

Afinal, para além da grafia das letras, elas evocam sons, e não podemos esquecer que a matéria sonora dos textos poéticos é também matéria riquíssima para a alfabetização, favorecendo a reflexão sobre as sonoridades da língua. Em matéria de poesia o letramento literário se imbrica ricamente com o processo específico de alfabetização.

Faz tempo que fiz dois posts sobre esse tipo de livro, um com indicação de abecedários poéticos ou outros livros de alfabeto, e outro apresentando o material intitulado Arquivo Alfabético Poético. E ainda teve um post introdutório sobre Abecedários.

Postei também alguns exemplos de atividades a partir de textos poéticos desses abecedários literários, aqui  e aqui. Isso para mostrar como podem possibilitar aprendizagens interessantes que articulam letramento literário, alfabetização e apropriação de vários aspectos da língua.

Bom, agora trago novas dicas de livros de alfabeto, alguns poéticos, com pequenos poemas ou enunciados poéticos para cada letra, outros com outras estratégias, mas interessantes de algum modo, afinal, os abecedários de hoje em dia constituem quase um gênero específico no âmbito da literatura infantil, com características lúdicas e estéticas, tanto em termos do texto, quanto da imagem.

Alguns abecedários parecidos com os antigos ainda se acham, em forma de dicionário ilustrado ou de alfabeto ilustrado, trazendo apenas algumas palavras começadas pelas letras a cada vez, sem um rearranjo poético, sem um trabalho sobre a linguagem, mas apenas como um repertório de palavras associadas às letras e a imagens que representam o que as palavras expressam. 

Exemplo disso é o ABC Curumim já sabe ler (Bia Hetzel, Ed. Manati).

Outro exemplo é o  Meu primeiro Bichonário (Marco Hailer, Ed. Carochinha), que traz as letras inicias e a imagem do bicho, para adivinharmos que bicho é.

Nesse caso, aproxima-se de um livro brinquedo, livro visual, mais próximo dos manuais de ABC de antigamente, mas ainda assim bonitos e com uma proposta brincante.



Dito isto, então vamos lá às dicas de livros! Aos 16 livros indicados no post do Arquivo Alfabético Poético, somam-se mais esses... por enquanto... Não paro de descobri-los por aí...

Uns desses eu já tenho ou conheço faz tempo, mas não entraram no Arquivo Alfabético, outros fui encontrando de lá para cá. Alguns já tenho, outros estão na lista de desejos, mas já vi na livraria ou na mão de alguém, outros foram indicados, mas ainda não vi. Entretanto, as indicações são de livros bacanas, pois tem muitos outros por aí nesse estilo, mas sem a qualidade que penso que devem ter.

Uns desses livros exploram mais os sons das letras, outros as palavras iniciadas com cada uma delas, uns investem no formato das letras, outros usam as letras como iniciais de palavras que são apenas motes para o texto.

O livro Deu zebra no ABC, de Fernando Vilela (Pulo do Gato) vai emendando um animal no outros de forma divertida. 

Assista aqui a leitura dele e há também um vídeo bacana do autor contando como fez o livro. Tem um livro interessante que brinca com essa ideia de bicho chamando outro, mas não é livro de alfabeto...o que vai chamando o próximo bicho é uma parte de seu corpo e uma espécie de adivinha, ou ao menos de dica que é dada. Chama "Os bichos também sonham", é bem legal!

Dois livros maravilhosos são: o Alfabeto escalafobético (Claudio Fragata e Raquel Matsushita, Ed. Jujuba) e o ABC Doido (Ângela Lago, Ed. Melhoramentos). O Alfabeto escalafobético é fantástico, unindo imagem e grafia, sentido e letras. O ponto de partida das ilustrações é o próprio desenho da letra. Em muitas é o próprio desenho tipográfico que comanda a cena tanto nas ilustrações quanto no textinho que acompanha cada letra, mas nem sempre é o principal. Veja o da letra i...



Já o Alfabeto Doido é tão doido que começa pelo fim, pelo Z! Cada letra é apresentada a partir de uma espécie de adivinha, que brinca com as palavras, decompondo-as, recompondo-as, criando deliciosos enigmas. E virando a página, a resposta!


O que é, o que é?
Responda sem demora
O rouxinol tem dentro,
E a xícara...do lado de fora?
A letra X

Como começa pelo fim, é mais desafiante saber a letra seguinte no alfabeto de trás pra frente, que faz a gente ter que pensar um pouco para responder e para compreender o sentido da resposta. Por exemplo, podemos até conseguir responder a adivinha por saber que se trata da sequência alfabética e que, de trás pra frente, depois do V vem a letra U, mas pense que para entender a brincadeira, precisa de algo a mais, como nessa do U:

Pode gritar já, sem dó:
O que é que a assombração
Usa seis e de uma vez só?
A letra U (UUUUUU!)

Um de que gosto bastante é o ABC do trava-língua (Rosinha, Editora Do Brasil). Para cada letra versinhos que lembram trava-línguas populares, um para cada letra, cada letra aparecendo em aliteração (sons consoanantais) ou assonância (sons orais das vogais) provocando “travas” na língua e desafinado o leitor. Muitos desses pequenos textos vêm em forma de quadrinhas – outro gênero poético, de forma fixa, diferente do trava-língua, que pode ser mais livre. Mas nem sempre são quadrinhas. Vejam dois exemplos, com o R e com o A:

O rato Romualdo
Rói o rei, rói a rainha
Rói a roupa do Romeu
Rói as rendas da Rosinha.

A ararinha assanhada
Adora andar arrumada
Arruma a saia amassada
Alinha a blusa azulada
Amarra a rosa dourada
Arrasta a turma animada.

Já o   Abecedário dos bichos (Klévisson Viana, Ed. Edelbra) é um abecedário em forma de cordel. Cada estrofe, que vem na forma métrica própria a esse gênero, traz um repertório de animais começados com a letra em questão. Por vezes, quando há muitos bichos iniciados com aquela letra, as estrofes trazem os nomes dos bichos organizados de forma sonoramente interessante, para conseguir o efeito da forma, da métrica e das sonoridades próprias ao cordel, e por vezes trazem pequenos textos sobre o animal ali referido. E tudo isso ilustrado por xilogravuras, técnica de gravação bem comum nos folhetos de cordel.

Aliás, bichos e alfabeto parecem que têm um longo namoro, pois sempre tem livros que os unem. 

Assim são também o ABC da Bicharada (Glaucia de Souz, Ed. Prumo), o Abc e outros bichos (Mario Bag, Ed. Ao Livro Técnico) e o Meu primeiro bichonário (Marco Antonio Almeida Hailer, Ed. Carochinha), que já citei aqui no post, fazendo coro com outros de bichos que já foram indicados antes (no post do Arquivo Poético Alfabético tem uma lista dos livros), como o Bichodário (Telma Guimarães, Ed. Escala) e o Bichionário (Nilson José Machado, Ed. Escrituras).

Esse de Mario Bag, o Abc e outros bichos, traz pequenas frases para cada letra, contendo palavras iniciadas pela letra em questão, além daquela referente ao animal representante daquela letra. Esse livro já está no Arquivo Alfabético Poético, mas não sei porque, acho que não entrou na lista dos livros no final do post. Então retomo-o aqui.


Já o ABC da bicharada traz uma quadrinha para cada animal, representante de cada letra. Para a letra B, o besouro:

No ouvido de uma flor
Um zumbido brilha ouro
Seja frio ou calor
Vem voando o BESOURO.

As quadrinhas exploram as rimas, o ritmo próprio a esse gênero e traz o nome do bicho em letras maiúsculas, o que pode favorecer as leituras e pseudoleituras das crianças. 

Além do Bichonário citado, do Marco Hailer tem também o Um mundo chamado alfabeto (Ed.Carochinha), em que cada letra traz um repertório de palavras, mas também pequenos textos poéticos geralmente textos da tradição oral como parlendas, cantigas e trava-línguas.





No ABC da criançada (Soraia Vasconcelos, Ed. Miguilin), a autora faz poemas com os nomes de crianças iniciados por cada letra do alfabeto. Geralmente são poemas mais longos, contendo outras palavras começadas pela letra em questão.

É um mote bacana para construir pequenos poemas com os nomes das crianças de uma turma e organizá-los em ordem alfabética. Aliás, as ilustrações são feitas por crianças!

Um abecedário diferente, que parece bem interessante, especialmente para nós aqui da Bahia (mas não apenas), é o Abecedário Afro de poesia (Silvio Costta, Ed. Paulus). O livro traz textos poeticamente trabalhados, embora não sejam poemas propriamente ditos, com um rico vocabulário, de A a Z, que descende da cultura africana. 

Traz palavras mais conhecidas, integradas ao nosso dia a dia, como bagunça e xingar, outras menos usadas fora de Estados com rica influência da cultura africana na linguagem, como a Bahia, e outras, ainda, menos conhecidas. No final há um glossário com os termos citados e suas significações. 

Além de conhecer mais a cultura africana, a origem de palavras que usamos e sua forte presença no nosso léxico, o leitor pode também ampliar seu vocabulário. Ainda não vi o livro, mas adianto um exemplo, com a letra A:

“A azoeira estava pronta: gente na casa que ninguém dava conta. Por sobre a toalha a enfeitar a mesa posta, o abará em porção, num grande tacho, pra saciar quem quisesse. E ainda, mais abaixo, recém-chegado da fervura numa travessa que dava gosto, o acarajé em fartura. Do lado oposto, pra acompanhar, reluzia quase dourada uma jarra carregada de aluá. Mas não se dê por saciado. Veja só o que vinha por lá: Num abadá todo florido, espalhando axé com sua presença, Dona Florença, a dona da festa, carregava o seu tesouro; o melhor angu que já veio de Angola. Antes da ceia, num ritual, o afoxé se antecipou. Feito um som que lembrou um sino, o agogô deu um aviso: a festa afro começou”.

Engraçadíssimo, como o nome já diz, é o Abecedário Hilário (Nani, Ed. Hedra). Cada letra gera um texto composto basicamente de palavras começadas pela letra em questão, quase como um trava-língua. O textinho da letra D, por exemplo:

Dado
Doado a
Dorival foi
Devolvido
Devido a
Dar o
Dois
Duas vezes.


No Letra de forma (Laura Texeira, Ed. Hedra) a autora brinca com palavras e com a forma das letras... isso porque traz pequenos textos poéticos que fazem alguma referência, de modo mais direto ou indireto, às formas das letras, seu desenho. A ilustração, assim, completa muito o sentido, pois por vezes é na imagem que captamos a relação do traçado da letra com o que o texto diz. O G, por exemplo, mostra a letra de gravata borboleta carregando no seu traço horizontal um prato, e diz:

Adivinhe qual é
A profissão do G?
Ele serve uma comida muito gostosa.

Já o J, em forma de anzol, mergulha em um mar de letras e diz:

O que será que o J
Preparou para o janta?
Já sei! Sopa de letrinhas!

A Editora Edelbra apresenta três livros de alfabeto poéticos, da Gláucia de Souza, um com frutas, outro com flores e um com o tema do futebol. Não vi esse último ainda, mas o do pomar e do jardim são bem bacanas, dá vontade de ir pensando nomes de frutas e flores com todas as letras e fazendo novas quadrinhas para eles. São eles Um pomar de A a Z  e  Um jardim de A a Z



O do futebol é o Uma partida de A a Z...e tem como autor também o Marcelo Pizarro Noronha. É, futebol ainda é mais uma coisa de meninos...rsrsrs! 

Não conheço, não vi o texto, mas tirando pelos outros da coleção, talvez seja legal.


Um livro diferente é o Alfabeto Perigoso (Neil Gaiman, Ed. Rocco - Pequenos leitores). É um abecedário de terror! É um livro ilustrado, com a imagem meio sépia do ilustrador Gris Grimly. 


Duas crianças e sua gazela de estimação entram com um mapa em um mundo subterrâneo desconhecido, onde habitam monstros, fantasmas e outras criaturas estranhas. Cada letra traz estranhezas diferentes que criam a atmosfera subterrânea do livro. São assim 26 versos alfabéticos e tenebrosos a desvendar!

No mesmo tema, mas mais para engraçado, o Alfabeto assombrado (Flávia Muniz, Ed. Girassol), por sua vez, é mais simples, e traz quadrinhas inventadas para cada letra que são iniciais de seres ou coisas mais ou menos assombradas: caveiras, fantasma, vampiro, ogro, jiboia, King Kong... Simples, mas divertido. Vejam o E de esqueleto:


O esqueleto, quem diria,
não tem banheiro pra usar,
De menino, de menina?
Em qual ele deve entrar?

Da mesma autora tem o Números Assombrados, que traz uma espécie de tangolomango com os números de 10 a...(zero, será?). Indiquei este no segundo post do Tangolomango.

Outro estilo é o livro Alfabeto (Ed. GG - Espanha), que, na verdade, traz a arte da artista plástica e designer gráfica Sonia Delaunay acompanhada de cantigas e parlendas brasileiras. 

As letras do alfabeto dançam em um baile de cores vibrantes, um misto de livro alfabeto e livro de arte. Em cada língua que o livro foi traduzido, escolheram cantigas e parlendas próprias à cultura oral daquele país ou criadas por um autor. No original em francês, o livro traz textos escritos por Jacques Damase, que lembram parlendas, cada uma fazendo uma ligação com a letra em questão.

Um livro bem diferente, que traz o gênero anúncio de jornal (classificados), é o ABC Procura-se (Gwénola Carrère, Ed. Edelbra). A cada letra do alfabeto temos um nome próprio que é o nome do bicho – novamente animais! – que está a procura de alguma coisa. Por exemplo, na letra A, de Aline, uma tarântula, diz:

“Jovem tarântula solitária procura amigos. Adora jantar em boa companhia. Escrever para a Caixa postal n 456”.

No B, de Bruno, que é um bicho que não dá para saber qual é, diz: “Todas as quartas-feiras, espero vocês na minha casa para jantar. Cardápio surpresa!”

O interessante é que um vai se ligando ao outro por algum elemento do texto, Aline pode jantar com o Bruno, o Bruno puxa a Carol, que diz “Surpresa sou eu! Animadora profissional, alegro suas noites. De hoje em diante, TV desligada”. Aí o próximo puxa algo com TV, e alinhava com livros, o próximo puxa livros e fala numa fábrica de papel, que puxa uma funcionária de uma fábrica de papel. Assim, o alfabeto de bichos e anúncios vai sendo todo interligado. 

A ideia é muito legal! Dá para fazer brincadeiras com classificados e até tentar fazer um ir puxando o outro também. Para ler todo e uma só vez, talvez seja muito, mesmo sendo textinhos pequenos. Mas lido aos poucos, restabelecendo os "links" a cada vez, explorando os anúncios, acho que promete alguns momentos de deleite. 

Por fim, o livro A turma do ABC (Fátima Miguez, Ed. Nova Fronteira), na verdade, não se organiza em ordem alfabética. Ele traz brincadeira com as palavras, especialmente a troca de letras ou apenas juntar várias palavras iniciadas com a mesma letra em uns versinhos. 
Dois exemplos:

Troco o L de lama
Pelo F de fama
O C logo reclama
Seu lugar na cama.

O Z de zoada
Faz muita zoeira
Prefiro o T de toada.
É som de primeira.

Outros tantos livros de alfabeto podemos encontrar em edições portuguesas. Chamo a atenção a três deles. Um tem o título idêntico ao do nosso abecedário poético de Elias José, referido no post sobre o Arquivo Alfabético... É O que se vê no abc (Dafne W. Rocha e Danuta Wojciechowska, Ed. Caminho).



Os outros são O Livro das Letras (António Mota e Elsa Fernandes, Ed. Gailivro) e O Hospital das Letras (José Jorge Letria, Portugália Editora). Outro do Letria já fazia parte do Arquivo Alfabético, O Alfabeto dos Bichos (mais bichos). O do Hospital traz textos como  A Otite do O e coisas do gênero. Interessante!


É isso, minha gente... são infinitas as possibilidades de brincar com esses livros, suas rimas, outras sonoridades, seus desafios, seus jogos de linguagem. Espero que tenham gostado das dicas... São modos belos de apresentar as letras, o alfabeto, junto à riqueza da linguagem e da literatura. Outros livros sempre poderão via a se juntar a esses. O acervo pesquisado já conta com mais de 30 livros de ABC!

Aliás, revendo os outros posts de abecedários, percebi que não apresentei todos os livros do Arquivo Alfabético, só alguns no post sobre livros de alfabeto, mas nem todos os que aparecem listados no post do Arquivo. Quem sabe retomo-os depois, para apresentar como fiz com esses aqui, não é?
E com certeza, há muitos outros e muitos que ainda vão chegar!
Abraço,
Lica

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"Abecedários poéticos"

Bom, minha gente, vamos então às indicações que prometi dos nossos “abecedários poéticos”, tal qual definidos no post anterior. São algumas sugestões. Quem tiver outras, mande!
Como eu sugeri antes, não são abecedários propriamente, mas livros literários que trazem o alfabeto, brincando com as formas gráficas e os sons relacionados às letras. Digo que não são propriamente abecedários, pois embora tenham uma intenção pedagógica também (ou ao menos possam ter um uso pedagógico), os recursos sonoros utilizados não são meros pretextos para o ensino, mas são próprios ao texto poético, sendo um dos aspectos responsáveis pelo prazer que causa a leitura de poesia entre as crianças.
Vamos a eles...

UMA LETRA PUXA A OUTRA, José Paulo Paes, Companhia das Letrinhas, 1993



Começo por esse livro de José Paulo Paes, que é composto por 23 poemas sobre o alfabeto. Cada letra do alfabeto ganha uma quadrinha que explora os fonemas relacionados à letra tratada. O autor propõe assonâncias e aliterações, tal qual trava-línguas. Ex. A quadrinha da letra s, por exemplo, é assim:

"O sapo saltou na sopa
de um sujeito que, sem mais papo,
deu-lhe um sopapo e gritou: - Opa!
não tomo sopa de sapo!".

Em alguns casos, o autor faz jogos de linguagem transformando palavras ressaltando o traço distintivo de uma letra/fonema. Assim acontece com a letra L:

“O L é uma letra louca
e faz a uva andar de luva
transforma a nota mi em 1000
cabra descobrir o Brasil”

Note como é sutil a referência que ele faz a Cabral – Pedro Álvares Cabral – sugerindo a subtração do fonema/letra L na última estrofe. É poesia pura, e de muita qualidade estética.





Esse livro possibilita, a partir dos jogos de linguagem que propõe nos textos, muitas ideias de brincadeiras com as letras, sons, palavras, quadrinhas. É só a gente inventar! A quadrinha do L, por exemplo, permite imaginarmos mil outras possibilidades de composição, decomposição e recomposição de palavras pelo acréscimo, subtração, deslocamento ou substituição de letras/fonemas. No caso de fazê-lo oralmente, têm-se uma ótima atividade de reflexão fonológica e, em presença da escrita, além disso, também permite trabalhar a relação entre letras e fonemas, fundamental para a apropriação do princípio alfabético.

Uma letra puxa a outra ganhou prêmios importantes e o título “Altamente Recomendável” pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ em 1992, na categoria poesia. Recomendadíssimo!


O BATALHÃO DAS LETRAS, Mario Quintana, Ed. Globo



Publicado em 1948, O Batalhão das Letras foi a primeira obra do poeta voltada para o público infantil e se diferenciava de outros livros destinados às crianças na época. Brincando com os versos e de maneira poética e lúdica, o autor apresenta as 26 quadras com as letras do alfabeto, trazendo elementos como brinquedos, brincadeiras e situações diversas, do universo infantil, ora enfatizando as formas gráficas das letras, ora os fonemas a elas correspondentes. Por vezes traz temática menos infantil.

Engraçado é que apesar da preocupação de Quintana com o público leitor, preocupação que aparece também nos sons, ritmos e imagens das quadras, além dos temas, parece que Quintana negou o valor dessa obra, impedindo sua republicação (cf. ZILBERMAN, 1982). Mas, de todo jeito, nos deixou esse abecedário poético que é, ainda hoje, muito rico de possibilidades. Várias foram as edições. Essa da figura acima tem ilustração de Eva Furnari.

*ZILBERMAN, Regina (org). Mário Quintana. São Paulo: Abril Educação, 1982.

PALAVRAS, MUITAS PALAVRAS..., Ruth Rocha, Ed. Quinteto.

Nesse livro, a autora mostra que cada letra do alfabeto é a primeira letra de muitas palavras. Com muita graça e muita rima, todas as letras do alfabeto vem apresentando palavras, seja em trava-línguas, seja em pequenas quadras ou poemas ou apenas listando-as.
"Com B se escreve:
Banana e Bala,
Bigode e Belo,
Barulho e Bule,
Balão e Briga,
Bolacha e Bolo
Boliche e Bola,
Burro e Barriga".
Por vezes ela propõe também, em suas rimas, brincadeiras metalinguísticas, como a do J:
"J com A
faz Já
J com E
faz Jé.
É com J que se escreve
A palavra Jacaré".
Dá para brincar de colecionar palavras várias, com cada letra, em caixinhas e fazer mil coisinhas com elas....
O QUE SE VÊ NO ABÊCÊ, Elias José, Ed. Paulus



Esse eu gosto muito!
São pequenos poemas que trazem cada letra do alfabeto enfatizando seus sons de modo a criar aliterações, assonâncias, sonoridades divertidas e belas imagens.
Traz também um poema, o Abecedando, com todas as letras do alfabeto, mais o ç, ch, cl, lh, nh, rr, ss...diz ele que com todas as letras, reinventa o mundo!
E a colorida e divertida ilustração de Daniel Cabral completa a beleza do livro.



Esse livro não traz poemas apenas com as letras, mas passeia também por questões de ortografia, quando traz poemas para alguns dígrafos, como nh, lh, ch, ss, rr: “Com nh apanho manhas nos sonhos” e “Dona Chica chegou da chácara debaixo da chuva, chinelinho encharcado, encharcado o seu cachorro”. E também encontros consonantais, como cl, e também o ç, dentre outros aspectos. Há poemas que jogam com os mesmos sons escritos por diferentes letras (ç, ss, s), sendo bem interessante, principalmente para as crianças que estão descobrindo ou já compreenderam o princípio alfabético e estão às voltas com a reflexão sobre ortografia.




NO BALANCÊ DO ABC, Elias José, Ed. Paulus


Nesse livro, singelamente ilustrado por Helena Alexandrino, Elias José propõe poemas cheios de humor, um pouco mais compridos, cada um enfatizando uma letra do alfabeto, como se fosse um trava-língua.
Aliás, dá boas ideias para inventarmos novos poemas-trava-línguas. Podemos fazê-los a partir de uma lista de palavras com letras/sons parecidos, por exemplo, combinando-os de modo meio nonsense.
Dá para dar boas risadas!
Exemplo: faca, foca, figo, frito, fio, fisga, fica, fura, frio: “a foca fica no fio/ fisga o figo/ fura a faca: sai do frio/ figo frito!
Aliás, inventar trava-línguas pode ser bem divertido, não só com letras iniciais, como com qualquer som. Por exemplo: a partir de VACA, FACA, MACA, TACA, SACA, MACACA, ressaltando do som intersilábico /-ACA/ podemos inventar “A vaca na saca / saca da faca /e taca na maca/ A louca da vaca / taca a faca na saca da macaca”.
Vixe! Vicia... Ô vício bom!
O ABZ DO ZIRALDO, Ziraldo, Melhoramentos

A Coleção ABZ, de Ziraldo, é composta de 26 livrinhos com pequenas histórias, sendo cada uma sobre uma das letras do alfabeto. Os livros começaram a ser lançados em 1990. Diz o autor que a mãe dele, quando o apresentou às letras, as apresentou assim, para cada uma, uma história. E é isso que ele faz no livro para mostrar como as letras “são coisas vivas, com nome, história e biografia”. Nesses livros, as letras viram personagens, com nome, história e vivem muitas aventuras. Ziraldo brinca com a forma das letras e por vezes também com os seus sons.

Ziraldo traz também, misturadas ao texto, várias referências a outros textos, como trechos de poemas de Drummond, Fernando Pessoa e Mário Quintana, verbetes de enciclopédia, canções de Gil e Vinícius e frases de romances de Gabriel García Márquez. Misturadas às ilustrações, traz pinturas de Miró, Monet e Degas. Um verdadeiro mosaico intertextual! Encontramos lá também curiosidades sobre alguns vocábulos.

Coleção ABZ, Ziraldo


Trecho: "Com essa boca tão grande, maior que a do Lobo Mau, o C, se ele pudesse, comia mesmo de Roma um pé de couve em Macau."

Veja todas as capas e alguns trechos em:
http://www.educacional.com.br/ziraldo/obras/livros_abz/livros_abz.asp



Foi lançado, mais recentemente, um livro de capa dura, O ABZ do Ziraldo, que traz todas essas as histórias em um só volume. Eu gostava dos livrinhos pequenos, mas essa é uma outra opção...

Ah! E agora o ABZ do Ziraldo é também um programa de TV! Já viram?
Tem contação de histórias, entrevistas e outras coisas.
(TV Brasil, transmitido pela TVE na Bahia)


Por ora, é isso, pessoal. Logo vem outras partes desse tema e todas as outras promessas, ok?
Espero que façam proveito!
Lica

P.S. 1: Confiram aqui alguns alfabetos ilustrados de Portugal indicados em um artigo sobre o tema (http://www.slideshare.net/mrvpimenta/midos-alfabetos-ilustrados):
Miúdos Alfabetos Ilustrados

View more documents from mrvpimenta

P.S. 2. Depois desse post, meses depois, já pesquisei e encontrei muuuuuitos outros títulos bacanas, daqui do Brasil e também de Portugal. Aguardem mais indicações e um material sobre alfabetos poéticos!