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sábado, 17 de novembro de 2012

Histórias cumulativas e a leitura

Como prometido, vamos falar um pouco sobre o trabalho com as histórias com repetição e acumulação na apropriação da leitura, já que esses são gêneros que, além de muito indicado para os pequenos, são também privilegiados nesse sentido. Entremeado a essa reflexão, vou mostrar um kit de materiais da história “Ah, Cambaxirra, se eu pudesse...”, de Ana Maria Machado, confeccionado por Ana Antunes e seus alunos.


Evidentemente, antes de qualquer trabalho com foco na reflexão sobre a linguagem, importam as histórias em si mesmas, sua natureza literária. Seja de tradição oral ou escrita, o foco primordial é a história, a graça ou encantamento que elas trazem. As histórias com repetição ou acumulativas têm esse quê de brincadeira com a retomada repetitiva de frases e situações e com a embolação acumulativa, que agrada muito às crianças, se bem lidas ou contadas.

À medida que o professor propõe às crianças a leitura ou a contação de contos desse tipo, elas vão constituindo um repertório de textos conhecidos, fazendo articulações entre contos diferentes, observando semelhanças e diferenças e se apropriando da estrutura repetitiva que os caracteriza. Isso Ana bem percebeu em sua turma! Já podem até criar uma história acumulativa, já pensou, que legal que deve ser pensá-la?! Pois bem, essa é uma possibilidade... pensar na situação, nos personagens, de que jeito vão ser repetidas ou acumuladas as ações...e o desfecho...e a professora ir escrevendo, relendo, todos opinando, até que fiquem satisfeitos. Fica a dica! Mas é preciso, primeiro, ouvir várias histórias desse tipo.

Bom, e o que essas histórias têm de especial no trabalho com a leitura? Após um elemento desencadeador da narrativa, um mesmo evento ou situação semelhante se repete várias vezes, se acumulando ou não. As ações ou situações anteriores vão sendo retomadas a todo o instante e, nas acumulativas, a cada repetição, agrega-se mais um elemento, resultando numa longa enumeração. Ora, essa estrutura facilita a antecipação das crianças do que virá em seguida, permite que repitam oralmente as ações anteriores que se repetem ou se acumulam, o que possibilita a retenção do enredo da história, de formas linguísticas, de trechos. O enredo, muitas vezes bem simples, tem um ritmo também repetitivo, favorecendo essa memorização. Isso vai facilitar diversas práticas, como veremos.

Mas não são somente as crianças que podem memorizar a história, não! Devido a sua origem como narrativa oral, é interessante que algumas histórias acumulativas sejam contadas de memória, sem o texto escrito, com toda a vitalidade e colorido da contação, especialmente aquelas da tradição oral. Experimentem, por exemplo, contar o Macaco e o Rabo! Para isso é preciso ler várias vezes, se apropriar da história, fazê-la sua! E aí sim contar para as crianças sem o livro. Como é um conto da tradição oral, você pode contar do seu modo, com suas palavras, mantendo o enredo e a estrutura da acumulação. No post anterior tem um vídeo com a história. Veja aqui duas versões desse conto: O Macaco e o Rabo. Encontre o seu jeito de contar!

Mas como contar de memória nem sempre é possível – pois para isso quem conta deve se sentir à vontade para narrá-la oralmente sem o apoio do livro – então, mesmo quando lida oralmente pelo professor, é fundamental que a leitura seja viva, cadenciada, atribuindo ao texto o ritmo que a oralidade lhe daria, enfatizando o seu encadeamento. E a familiaridade com o texto – ainda que não memorizado completamente – é essencial para se conseguir esse efeito. Esse cuidado é importante não apenas para não tornar a leitura monocórdia, monótona, sem ritmo – o que na história acumulativa, especialmente nas que se assemelham a uma longa parlenda, é um risco ainda maior e estraga a história – mas também para restituir-lhe a sua natureza oral. Aliás, qualquer que seja o gênero de texto, a leitura compartilhada, como a contação, exige sempre uma preparação.

Ana lendo para a turma
Assim, é necessário preparar-se para ler, para contar, ensaiar a leitura oral, o ritmo, explorar as nuances do texto, experimentar modos de ler e de contar que cativem as crianças e prendam a sua atenção... Há trechos que podem ser lidos de forma mais lenta, outros que demandam uma leitura mais rápida, como, por exemplo, quando a acumulação se inverte... E, assim, ensaiando, você poderá tanto restituir bem, pela voz, a oralidade do texto escrito, quanto ler para as crianças sem estar com os olhos grudados na página a todo o momento, já que há trechos repetidos que podem ganhar vida com gestos e olhares mais presentes, que busquem e capturem os olhares das crianças. O leitor aí se coloca um pouco como contador, que busca para si a atenção, não a centralizando apenas no objeto livro.

É comum que depois de ouvir alguns trechos da história, as crianças também comecem a enunciar as frases que se repetem e se acumulam no texto, participando da narração e dando-lhe vida. O modo como essas histórias se organizam favorece a participação mais autônoma das crianças na leitura, permitindo que antecipem os acontecimentos, memorizem gradativamente o texto e compartilhem a leitura, mesmo antes de ter o domínio da leitura autônoma. E isso será importante para a apropriação dessa autonomia. As ilustrações – no caso de leitura de livro – geralmente ajudam a fazer tais antecipações.

Mas não se iluda! Como se retoma sempre os eventos anteriores e agrega-se a eles um elemento novo, para avançar, estão presentes no texto tanto a repetição, o reconhecimento de uma situação, quanto a novidade, garantindo assim o desenvolvimento do enredo. E, no final, a surpresa! Lembre-se de dar um colorido especial à leitura do trecho final, em que se introduz na história a novidade que faz o rumo da acumulação parar, inverter ou prometer nunca acabar... Observe que entonação, pausas e silêncios podem ajudar a ressaltar a graça, a surpresa, o sentido da história.

Outra coisa interessante é que, pelo fato de as repetições e retomadas se darem por expressões de linguagem, esse gênero de texto pode apresentar também jogos verbais lúdicos, muito interessantes tanto do ponto de vista de uma boa interação com os ouvintes, quanto para o trabalho com a oralidade e a escrita: expressões e palavras repetidas, onomatopeias, trocadilhos, rimas etc. Esses recursos podem, em um momento posterior, favorecer a reflexão sobre os sons da língua e a observação das relações entre a linguagem falada e escrita. E, durante a leitura, dão vida ao texto e à interação entre leitor e ouvintes.

Assim, além de divertir e encantar as crianças, função primordial da literatura, as histórias com repetição e acumulação ajudam a desenvolver a oralidade e as aproxima da leitura. A estrutura de repetição, acumulativa ou não, torna mais fáceis a leitura e a compreensão da história, bem como possibilita a recuperação de sua estrutura narrativa e de suas formas linguísticas. Em si, a memorização de parte ou de toda a história, facilita o reconto, a pseudoleitura, práticas interessantes de apropriação da língua escrita e da leitura.

Por lançarem mão de um recurso muito interessante para a compreensão e a memorização do texto, livros com histórias com repetição e com acumulação favorecem a leitura interativa – as crianças ajudando a enunciar o texto em trechos que se repetem – e a leitura autônoma (pseudoleitura) pelas crianças, pois elas podem experimentar modos de ler um texto, com apoio da memorização e nas ilustrações, antes mesmo de dominar a leitura.

Como já dito, as situações de leitura interativa, participativa, convidam a criança a assumir o papel de leitora antes de saber ler com autonomia. Quando o enredo é mais elaborado, elas podem assumir esse papel em determinados trechos, que trazem a repetição e acumulação, enquanto o professor lê as outras passagens.

Na leitura autônoma, além de enunciar o enredo do jeito que lembram, elas expressam procedimentos de leitura que aprenderam observando quando leem para ela, a exemplo da entonação, o passar das páginas, o tipo de linguagem do gênero ou do texto específico, a varredura do texto pelo olhar da esquerda para a direita, dentre outros procedimentos de leitura. A leitura de livros para e com as crianças ou por elas próprias são situações muito importantes de aprendizagem de procedimentos e comportamentos leitores, de colocar-se como leitor.

Além da leitura compartilhada ou interativa e da contação, a estrutura repetitiva e acumulativa se presta bem também a propostas como coro falado e encenação, animando leituras coletivas.

Recontar a história, por sua vez, preservando suas características, a sequência e o enredo, é uma atividade igualmente muito produtiva de organização textual, de compreensão leitora, de aprendizado das características do discurso escrito (ainda que trazendo marcas de oralidade). O reconto, assim como a pseudoleitura, que são importantes situações de apropriação da leitura, são possíveis graças ao apoio na memorização da história, sua sequência, sua estrutura. No caso dos livros, apoio também nas ilustrações.

Materiais para apoiar o reconto e refletir sobre a escrita

Além das próprias ilustrações dos livros, alguns materiais podem ser criados para ajudar na recuperação da sequência da história, permitindo às crianças a recontarem ou se arriscarem a ler mesmo que ainda não o façam de modo convencional. Fichas com as figuras ou com nomes dos personagens e/ou ações, objetos e outros elementos próprios a cada história podem servir como apoio à recuperação dos personagens e ações sucessivas encadeadas. Como nas histórias acumulativas é frequente ter vários personagens que vão se sucedendo uns aos outros, com ações que vão se encadeando, para apoiar a recuperação da história e seu reconto, esses recursos são muito úteis, como venho ressaltando nos posts das várias caixinhas de livros.

As crianças podem, com ou sem a ajuda do professor, a partir do reconhecimento dos personagens representados nas ilustrações das fichas ou mesmo escritos, ordená-las na sequência de entrada dos personagens na trama e, depois disso, tentar recuperar o texto, de forma aproximada. Aos que ainda não têm recursos para tentar reconhecer as palavras das fichas por estratégias diversas, podem ser dadas as fichas com as ilustrações. Mas para os que já podem tentar reconhecer as palavras ou parte de palavras, através de estratégias diversas e do conhecimento que têm de letras e relações entre letras e sons, ainda que este seja um enorme desafio, terão uma boa tarefa de reflexão pela frente para conseguir montar a sequência dos personagens para, então, fazer o reconto, apoiar a recuperação do enredo.

Como venho insistindo em vários posts, a atividade de reconto - reconto oral ou reconto para produzir uma reescrita - são oportunidades muito interessantes de usar as palavras para apoiar essa reconstituição, em uma atividade que é a um só tempo de letramento e de reconhecimento de palavras, de reflexão sobre o sistema de escrita, já que exige que as crianças façam relações para descobrir onde está escrito o quê, usando seus conhecimentos sobre a escrita.

Mas além de apoiar o reconto, os nomes dos personagens escritos podem servir para várias atividades de reflexão sobre a língua escrita, nas quais está em jogo pensar nas relações entre a pauta sonora e gráfica. As fichas com figuras podem ser associadas, pelas crianças, às fichas de palavras, ou podem ser usadas para se jogar como jogo da memória, baralho, sempre emparelhando, associando, a ficha da figura com a ficha do nome correspondente. Além disso, pode-se propor a montagem desses nomes com letras móveis, com ou sem o apoio de fichas “faltando letras”, constituindo-se, nesse caso, em atividade de escrita, não de leitura. 

Estas são atividades que exigem pesquisa inteligente, uso de estratégias, comparação de pedaços das palavras com outras, já conhecidas, como os nomes próprios das crianças da sala, por exemplo. No reconhecimento de palavras está em jogo tanto a leitura mais global das palavras, que favorece a ampliação do repertório de modelos estáveis de escrita convencional, quanto a ativação de estratégias de leitura por parte das crianças, exigindo que usem o conhecimento que têm disponível sobre letras e sons, partes de palavras, para resolver o que ainda não sabem com autonomia. As letras finais e inicias das palavras, a presença de algumas vogais ou mesmo consoantes, o tamanho das palavras, uma sílaba que é reconhecida, comparada a um nome próprio, tudo isso pode constituir em elementos para as reflexões das crianças.

No material abaixo vocês podem observar essas fichas. Os personagens foram desenhados tendo por base as ilustrações do livro.



Esse material, como vocês podem observar, foi desenhado por crianças. Então, essa foi um ideia que tive e que Ana desenvolveu em sua turma, a partir da história Ah, Cambaxirra, se eu pudesse... Falando com ela sobre desenvolver um kit de materiais a partir de histórias acumulativas, sugeri que as próprias crianças fizessem o desenho dos personagens. Eu sempre quis ter um material ilustrado pelas crianças e sugiro isso sempre aos professores que confeccionam seus materiais nas oficinas. Ana gostou da ideia e fez um trabalho muito bacana com a turma dela de 1º ano. Esse é o material que aparece nas fotos com as crianças. Na foto acima aparecem fichas do kit que fiz para Joaquim, a partir dos desenhos das crianças de Ana.

Para seus alunos, que, em sua maioria, já sabiam ler, o mais gostoso e produtivo foi mesmo toda a preparação do material. Mas é Ana mesma quem conta sobre esse processo, em um texto que pode ser lido aqui


Assim como o nome dos personagens, outras palavras e expressões que marcam o texto – como as suas ações, seus qualificativos, caso haja isso no texto, os objetos que carregam, quando é o caso – podem ser escritas em outras fichas para ajudar a reconstituição da história, a recuperação de sua sequência, e também serem usados em jogos de emparelhamento.

As três fichas do kit
A história Ah, Cambaxirra se eu pudesse... inspirou o grupo de Ana a criar um outro conjunto de fichas, dessa vez com elementos definidores de cada personagem, que foram selecionados para facilitar o reconhecimento dos desenhos. Nesse caso, esses elementos não estavam na história, no texto, mas foi um recurso usado para facilitar a caracterização de cada personagem, alguns dos quais são muito parecidos: lenhador, capataz, barão, duque, marquês, conde, visconde, imperador...caracterizados pelos seguintes elementos: camiseta, camisa, blusa com babados, capa, casaco, túnica, chapéu, coroa.

Assim, surgiram também as fichas com esses marcadores escritos, criando-se, assim, a possibilidade de associar as fichas com os personagens desenhados, as fichas com seus nomes escritos e as fichas com esses marcadores. Um jogo de trinca!

Em outras histórias, aparecem já no texto elementos que podem compor fichas do kit. Há contos em que cada personagem carrega um objeto ou cada personagem faz uma ação. Esses objetos e ações podem também compor conjuntos de fichas, tanto para favorecer a reconstituição do texto pelas crianças, as sequências, o que vai com o quê ou faz que ação, quanto para serem associadas entre si: cada imagem do personagem associado ao seu nome, ao seu objeto ou ação, e assim por diante. Quando há ações ou qualificativos associados a cada personagem, novas palavras podem, assim, surgir no kit de materiais. No conto o Macaco e o rabo, por exemplo, podem ter fichas com o desenho e outras com a palavra leite, capim, sapatos, cerdas, e assim por diante...

Outra coisa interessante é quando na história enumerativa há, de fato, números – por vezes há, como em “O nabo gigante” e “E o dente ainda doía”, dentre outros – os algarismos (5) e os numerais escritos (cinco) podem também compor o kit, em fichas escritas. Na coleção de livros com histórias acumulativas de Ana Maria Machado (mostrada no post anterior, sobre o tema), tem duas histórias enumerativas: “O domador de monstros” e “Uma boa cantoria”.

Memória nome-figura
Em kits de materiais desse tipo, as fichas com os nomes dos personagens e de outros elementos da história podem ser usadas para outras tantas atividades, como fazer comparações de palavras, apoiar a escrita, compor trem de nomes, preguicinha, dentre outras propostas. Enfim, as possibilidades são inúmeras. Cada história se presta a diferentes propostas, cada uma pode constituir um kit diferente, com propostas e materiais semelhantes e outros bem peculiares àquela história específica. Nesse kit da Cambaxirra, Ana trabalhou com três tipos de ficha, que podem ser associadas duas a duas ou em trios.

Interessante também é quando há, no conto, situações que, ao final, se invertem, pois novas reorganizações da ordem das palavras – ou mesmo novas palavras para o kit – podem ser propostas. Por exemplo, na "Casa Sonolenta", bem como na história "A Velhinha Maluquete" e no "Por que o caranguejo não tem cabeça", “A história da coca”, dentre outras, a ordem, ao final é invertida. Os dorminhocos que se acumulam na cama aconchegante da casa sonolenta começam a acordar, de um em um, invertendo-se a ordem, com novas ações dos personagens. Quem dormia leva um susto, e vai acordando: a pulga acordada pica a rato, que assusta o gato, que arranha o cachorro, que cai no menino, que dá susto na avó, que quebra a cama...  

Em termos de apropriação do sistema alfabético, além de toda a reflexão que a tentativa de reconhecimento de palavras põe em jogo, vale ressaltar ainda que histórias com palavras, frases e trechos repetidos e acumulados favorecem a observação de aspectos qualitativos e quantitativos da escrita, de algumas regularidades da organização da escrita que, embora óbvias para um leitor proficiente não o é para os que ainda não leem com autonomia. Como exemplo, podemos citar a relação entre a quantidade de ações que vão se acumulando e a quantidade de texto escrito (na “Casa Sonolenta”, o texto vai aumentando a cada personagem que se deita na cama, uns por cima dos outros); a observação do que muda e do que permanece em enunciados que se repetem (repete-se a frase, mas muda-se o personagem, por exemplo, como em “Bruxa, Bruxa”, dentre outros); que palavras iguais escrevem-se da mesma maneira, com a mesma sequência de letras; que há espaços entre as palavras e a própria ideia do que é palavra; que tudo o que se diz ao ler está escrito e na mesma ordem que se enuncia, dentre outros aspectos.

Assim, por meio de textos desse tipo, é possível estruturar atividades que permitam diversas ordens de apropriações e a construção de diferentes conhecimentos ligados à oralidade, à escrita e à leitura, tanto no sentido amplo do letramento, quanto na alfabetização propriamente dita. Além disso, não podemos perder de vista o aspecto de brincadeira que esses textos trazem. Brincadeiras com a linguagem...

Jogar com as palavras que povoam as histórias pode ampliar a leitura ou matá-la, tudo depende de como se faz... e, por isso, nessas propostas, é fundamental não perder nunca de vista os aspectos literário e lúdico, centro de toda a potência da leitura literária...

Aliás, por falar em brincar, quem não se lembra daquela brincadeira acumulativa que é “Fui à feira e comprei...”. Cada um vai dizendo uma coisa que comprou e o jogador seguinte deve repetir a dos jogadores anteriores e acrescentar a sua compra...e assim por diante... Se colocarmos um critério sonoro nessa brincadeira, a exemplo de outra brincadeira parecida que é a “Lá vai a barca carregadinha de...”, podemos então fazer uma feira de rimas, como por exemplo: “Fui à feira e comprei pão”... “Fui à feira e comprei pão e feijão...”...”Fui à feira e comprei pão, feijão e agrião”... Ou uma feira de sons iniciais... E assim, essa brincadeira acumulativa já se constitui em uma ótima atividade de reflexão fonológica. A “Lá vai a barca carregadinha de...” já é em si fonológica, na medida que o objetivo é, justamente, levar na barquinha palavras que tenham alguma semelhança fonológica (rimas, sílaba inicial, fonema inicial etc) com as ditas anteriormente, cada um dizendo uma, completando a barca: “Lá vai a barca carregadinha chaves, xales, xícaras, chuchu, chuva, cheiro, chaveiros, chiclete...”

Bom, para finalizar, por ora, adianto que estamos pensando em fazer uma série de kits de histórias acumulativas, com textos e materiais, iniciada com o “Ah, Cambaxirra se eu pudesse...”. Não sei se formarão kits diversos ou se depois juntaremos em um grande kit acumulativo. E quero investir mais – através de minhas parceiras, já que não estou em sala de aula - nas fichas com as próprias ilustrações das crianças, a partir dos contos acumulativos lidos e trabalhados. Vamos ver, aos poucos, o que sai.

Como alguns de vocês sabem – através das oficinas e aqui no blog – esse tipo de história repetitiva e acumulativa faz tempo está no meu repertório de materiais para alfabetização a partir da literatura e da tradição oral. Com o Projeto Trilhas, essa paixão antiga foi renovada, pois dois dos cadernos do projeto referem-se a isso, o Caderno das Histórias com Repetição e o Caderno das Histórias com Acumulação. Os dois cadernos, que estão na biblioteca do Portal, trazem algumas propostas de atividades a partir desses gêneros. É só acessar: 


As propostas desse post e as dicas de livros do post anterior sobre histórias acumulativas podem perfeitamente se articular com as propostas do Trilhas, para as escolas que estão desenvolvendo o projeto. É uma dica!

É isso, gente. Logo mais continuo esse post com outros relacionados a ele: o dos Tangolomangos, que já está quase pronto, e um que já prometi há tempos, da Caixinha do livro A Casa Sonolenta, já bem antiga no meu acervo. Tão antiga que até pensei que já tinha feito o post. Rsrsrs!!! Mas as fotos vocês já viram, para que não a conhece ao vivo e a cores, né?

E no mais, aos poucos, vou mostrando outras caixinhas de livros do kit de acumulativos que, com certeza, chegarão...

Não se esqueçam de dar uma olhada no texto de Ana Antunes, com mais notícias de como ela desenvolveu o trabalho com essa história em sua turma esse ano e a confecção do kit com a participação ativa das crianças! Tem mais fotos do material lá, e ótimas dicas! O link é aqui: clique

Aproveito para agradecer, mais uma vez, a Ana, por essa parceria. Valeu, Aninha!!!

Abraços,
Lica

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

E ainda mais O que tem nesta venda?...

Registro de experiência O que tem nesta venda?
Com o livro, as propostas e o Lince 

Ana Antunes, já presente aqui no blog em algumas ocasiões, parceira e, como a chamo, uma de minhas "testadoras de jogos", postou um relatório sobre o que experimentou com sua turma de alfabetização a partir do livro de Elias José sugerido aqui e o jogo do Lince. Fiquei muito contente de ler, de saber da repercussão do jogo na sala, das reações das crianças às propostas, do jogo criando vida entre as crianças.


E contente também de poder vê-la criando outras tantas propostas interessantes de trabalho com o livro, além das sugeridas por mim. Depois de brincar muito com as rimas, o grupo fez um painel de rimas interessante, algumas atividades orais, outras escritas, leram e releram o livro...

Foto: Arquivo pessoal de Ana Lúcia Antunes, público aqui: 

Fonte: arquivo pessoal de Ana Lúcia Antunes

Assim, compartilho com vocês o relatório de Ana, com suas observações de professora que está ali na sala com as crianças, o que é muito, muito rico para nossa apreciação dos materiais propostos aqui.

Vocês podem conferir o relatório completo no link aqui. Vão lá, leiam, comentem! E animem-se!

Além disso, confiram o livrinho que ela produziu a partir desse trabalho com sua turma aqui.

Essa venda rende mesmo, heim?!
Inté mais,
Lica

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Mais "O que tem nesta venda?"

Mais rimas, mais jogos, mais venda...

O livro de Elias José, O que tem nesta venda?, rendeu algumas possibilidades de material, além do Lince, como já insinuei em um post anterior. Não é preciso fazer TODAS as opções de jogos para uma mesma turma, mas vou mostrá-las, pois assim vocês ficam com uma ideia do leque de possibilidades, tanto para esse livro especificamente, quanto para outros livros, outros poemas... Afinal, são propostas que podem ser adaptadas para outros textos.

Esses foram os jogos que fiz desse poema: Bingo e Baralho de Rimas,  já citados quando postei sobre o Lince; Trilha de Rimas e Dominós de Rimas. Fiz jogos de exploração de rimas e de reconhecimento de palavras. 

O Bingo de Rimas funciona exatamente como o Bingo Fonológico já mostrado aqui em detalhes (ver posts anteriores sobre isso), só que, nesse caso aqui, ele é específico de rimas e não misturado com outros tipos unidades sonoras, como é o Bingo que mostrei antes. 


O kit é composto de 15 cartelas de Bingo, com as figuras representantes dos pares de rimas do livro, distribuídas de modo a não serem repetidas na mesma cartela (ex. sabonete e rabanete não aparecem na mesma cartela e assim por diante...).

As indicações são de outras palavras que não constam no poema, como: "Rima com sorvete" ou "Termina como chocolate".



O Baralho de Rimas é composto de cartas com as figuras que representam as palavras rimadas do poema e cartas com as próprias palavras, assim, pode tanto ser usado como baralho fonológico quanto como baralho de reconhecimento de palavras, da mesma forma que o Lince. 


Ele pode ser usado de várias formas:


Pode ser usado apenas para associar as figuras representantes dos pares de rimas do texto (jogo fonológico). Nesse caso tem que ser retirada a carta do caqui, que não tem par (que rima com "aqui", no texto).


Como jogo de reconhecimento de palavras, pode-se pedir que associem as figuras às palavras correspondentes. As cartas da figura e da palavra "caqui" podem entrar nesse jogo. 


Nessas opções de associação em que há palavras escritas, não é preciso usar todas as cartas. A depender do domínio de leitura do grupo ou de parte dele, pode-se pensar em diferentes modos de distribuir as cartas. Em uma mesa podem ser colocados apenas poucos pares embaralhados, para as crianças formarem os pares. Em outra, podem ser colocados mais.

Podemos ainda propor a associação de pares de palavras escritas que rimam (cartas com as palavras), analisando as palavras rimadas, suas diferenças e semelhanças, em especial aquelas referentes às rimas que trazem grafias diferentes (ex: cadarço/compasso). Também a carta com a palavra "caqui" deve ser excluída nesse caso, por não ter par.


Por fim, podemos propor um jogo de quartetos, cujo desafio é associar os dois pares de figuras e os dois de palavras, formando os conjuntos de rimas do jogo (duas figuras e duas palavras (sobra a carta do caqui). 


Veja ao lado o exemplo de um quarteto:


Quando falo "associar" significa embaralhar e procurar as cartas que vão juntas, juntando os pares. Mas essas mesmas propostas - pelo menos as de formar pares, seja de figura-figura, de figura-palavra ou de palavra-palavra - podem ser feitas a partir de um jogo como o Mico Preto e a Memória. 


Para o jogo do MICO, pode-se ter uma carta que corresponde ao Mico, que é a carta que sobra, que não forma par, que quem fica com ela no final do jogo, perde. A carta do caqui pode ser o Mico.  Mas pode jogar também sem Mico, apenas formando os pares e vence quem primeiro terminar as cartas. Lembrem que, no Mico, as cartas são distribuídas, formam-se os pares e, depois, um jogador vai puxando uma carta do outro para tentar formar novos pares. 


Para o jogo da MEMÓRIA de figuras e de palavras deve-se excluir a carta do caqui. Mas podemos deixá-las (a figura e a palavra) no jogo de associação de figura com a palavra.

Podemos ainda utilizar as cartas com as figuras de outros modos, como para fazer o jogo do intruso, colocando duas coisas que rimam e uma que não para indicarem o intruso, ou para comparar o tamanho dos nomes. Tira-se duas cartas com figuras de um monte, sem ver e tem que dizer qual a palavra maior. Ou seja, o baralho pode ser usado de várias maneiras diferentes.


O jogo Trilha de Rimas, por sua vez, é semelhante à Trilha que fiz para o poema Amanhã de Capparelli. 
 

Em cada casa do tabuleiro há as figuras de uma das rimas do livro. Joga-se com pinos de cores diferentes e um dado normal. Cada jogador, na sua vez, lança o dado e anda o número de casas indicadas pelo número na sua face. O jogador deverá dizer uma palavra que rime com a figura da casa em que parar seu pino. Não precisa ser a mesma rima do livro. Se não conseguir ou passa a vez ou volta ao começo. As casas com a venda indicam passar a vez ou voltar, na rodada seguinte, as casas indicadas pelo dado. Antes de começar o jogo, os jogadores devem decidir as regras. Vence o jogador que chegar primeiro ao final da trilha.

É interessante combinar que vale, na primeira rodada, ter que dizer a rima do livro e, a partir da segunda, ter que dizer uma outra, que não a do livro. Isso porque o rico do jogo é buscar novas rimas, não apenas as já previstas, aprendidas na leitura do poema.

Quanto ao dominó, fiz dois tipos de Dominó de Rimas, o dominó de figuras e o dominó de palavras que rimam. No primeiro caso, o jogo é fonológico, pois é preciso considerar as rimas das palavras representadas pelas figuras e associar, por exemplo, as figuras do rabanete e do sabonete, que são rimas do livro. É preciso enfatizar a natureza sonora do jogo para que não joguem associando apenas as figuras semelhantes (sabonete com sabonete, rabanete com rabanete).

O dominó de palavras exige, por sua vez, a comparação das escritas das palavras, observando-se, principalmente, a sua terminação. Para as crianças que já leem, a observação da rima se dá pela própria leitura das palavras; para os que ainda leem com certa dificuldade, podem comparar as grafias finais das palavras. De qualquer modo, é mais difícil jogar o jogo com as palavras escritas  do que com as figuras, principalmente quando ainda não se reconhece as palavras com rapidez.

É bom ressaltar que, para fazer um dominó que funcione, é preciso confeccioná-lo na estrutura de dominó mesmo, que envolve análise combinatória, progressão aritmética. O mais fácil é atribuir um número a cada par de rima (ex. 0 a sabonete/rabanete; 1 a ricota/torta; 2 a borracha/bolacha e assim por diante) e depois fazer todas as combinações, inclusive as "buchas". Assim, temos: 0 com 0, 0 com 1, 0 com 2, 0-3, 0-4...., depois, 1-1, 1-2... Lembrem que o par 1-2, por exemplo, no caso do dominó, é o mesmo que 2-1 e, portanto, não precisa repetir. Para compor as peças do jogo, é preciso considerar que cada número pode aparecer como uma ou outra rima. O ideal é equilibrar entre as duas rimas, por exemplo, o 1 sendo ora ricota, ora torta


De qualquer modo, para o jogo de fato fechar, seria preciso jogar valendo também juntar a palavra/figura com ela mesma (ex. rabanete com rabanete) e não apenas com sua rima (ex. rabanete com sabonete). Para ficar mais interessante, no entanto, pode-se propor juntar só as rimas e, quando não houver mais jeito, valer também juntar as palavras com elas mesmas. O que não pode é valer apenas juntar as palavras iguais, senão não é dominó de rimas. Outra alternativa interessante, que sana um pouco essa questão, é fazer o dominó com outras rimas (outras palavras/figuras com terminação em /ete/, /axa/, /ola/ etc) - que não as do livro, mas derivadas de atividades com ele - e, assim, não repetir uma mesma palavra/figura nas peças, apenas repetir as rimas. Complicado? É que dominó parece simples, mas tem uma estrutura...


Bom, gente. É isso. Acho que exploramos bastante o livro de Elias José, não é? E para além do poema, ficam propostas que podem caber para outros tantos textos rimados. 
Lica

domingo, 31 de julho de 2011

Lince O que tem nesta venda?

 Lince
Oi, oi,

Como prometido, eis o post do Lince “O que tem nesta venda?”. Esse é um post continuação do anterior, portanto, quem não o leu, é bom ler, tá? Gostaria principalmente de relembrar que os jogos e materiais propostos aqui a partir de livros de literatura são possibilidades de exploração de aspectos trazidos por eles – no caso deste, as rimas – que se propõem a ampliar a leitura dos livros e não sobressair-se a eles, ou empobrecê-los de sua natureza literária. Essa é uma compreensão fundamental dessa proposta metodológica. Os jogos favorecem durar na poesia, apropriar-se dela, expandir seus elementos, voltar a ela...

Mas vamos ao Lince.



Há duas possibilidades de organizar o Lince. Ou fazemos um tabuleiro com as pequenas figuras correspondentes às rimas coladas nele ou apresentamos essas pequenas figuras soltas, para que possam mudar de lugar a cada partida. Com as figuras coladas não há possibilidade de variação da posição das figuras de jogo para jogo, mas é um formato interessante, bonito, mais fácil de confeccionar e de manter. Com as cartelas separadas, não fixas no tabuleiro, permite-se que a cada partida estas sejam embaralhadas e não se memorize as posições onde se encontram. Entretanto, as cartelinhas dão mais trabalho de confeccionar e perdem com mais facilidade.


Kit Lince com as duas formas de jogo


Cartelinhas soltas
Com as figuras soltas, o jogo contém várias pequenas cartelas, com as figuras correspondentes às rimas do texto “O que tem nesta venda?” (fiz as minhas redondas, bem chatinhas de recortar, mas forma um todo mais interessante que quadradinhas). Essas cartelinhas devem ser embaralhadas, espalhadas, mas não muito separadas. O conjunto delas constitui o tabuleiro. 

Seja com figuras fixas ou soltas, há duas possibilidades de jogo: Lince Fonológico ou Lince de Reconhecimento de palavras. Antes de jogar, no entanto, é preciso que os jogadores se familiarizem com as figuras do jogo, como saber o que as figuras representam, como compasso, cadarço, caqui, torrada (e não pão), bolacha (e não biscoito), ricota (e não queijo), sabonete (e não sabão), chá mate (e não chá ou xícara, para a figura da xícara de chá) e assim por diante. Para ajudar nisso podem ser usadas as cartas do Bingo ou do Baralho fonológico “O que tem nessa venda?”, que são maiores, notando, no entanto, que há no Lince, por vezes figuras diferentes, como dois tipos de bola, dois tipos de torta etc. Essa exploração é fundamental para que as chances de encontrar as figuras com rapidez sejam maiores. Retomar o livro também é importante nessa familiarização com as palavras presentes no jogo. Talvez seja interessante também jogar esses outros jogos, como o Bingo e o Baralho Fonológico, antes do Lince, para ajudar nessa familiarização (serão mostrados em breve!).

Lince Fonológico:
Joga-se entre dois a quatro jogadores, e mais um adulto ou criança que lê com autonomia, para sortear e ler as cartas indicando as rimas. Nesse formato, o jogo é de reflexão fonológica sobre a rima, unidade que está presente no livro fonte desse material. 

No tabuleiro com as peças soltas, ao ouvirem a indicação lida sobre a rima (ex. “rima com anel”), todos os jogadores devem procurar as figuras correspondentes àquela rima no tabuleiro (todos buscam as figuras do “papel” e do “pastel” no tabuleiro, que são figuras do livro que rimam com anel). 

Como tem mais de uma cartela com a mesma figura (tem duas coisas de cada) e figuras com rimas iguais (ex. papel e pastel), os jogadores podem encontrar várias cartelas - todas ou algumas delas - inclusive diferentes jogadores. Cada um guarda para si as cartelas que encontrar, mas só vale pegá-las naquela rodada. Depois que outra carta de indicação for lida, não se pode mais pegar as da carta anterior. Ganha quem tiver mais fichas ao final do jogo. 


Com as figuras coladas no tabuleiro, é preciso organizar um modo de registrar a contagem das figuras encontradas, por isso, nesse caso, o jogo com as cartelas soltas termina sendo mais simples em termos da contagem dos pontos.


Entretanto, ter marcadores como grãos de feijão ou botões, ou algo do gênero, resolve, ao se jogar com o tabuleiro fixo. Cada um que achar uma das cartelas, nesse caso, pega para si um marcador ou registra. Ganha quem tiver mais marcadores ou marcas ao final do jogo, já que a quantidade deles representa a quantidade de figuras que cada um encontrou. O Lince fonológico funciona de modo mais simples com as figuras soltas, não coladas, por isso mesmo. Mas nada impede de jogar registrando os pontos.


Lince de Reconhecimento das palavras:

O Lince aqui não é mais de consciência fonológica, mas de reconhecimento de palavras, ou seja, de leitura. Usam-se, em vez das cartelas com indicação de rimas, fichas com palavras escritas: as palavras correspondentes às figuras do jogo (os pares de rimas referidos no livro).

Nesse caso, há dois modos de jogar. No primeiro modo, um dos jogadores retira uma das cartelas com as palavras, sem ver, e mostra a todos. 



O primeiro que a ler e encontrar uma figura correspondente no tabuleiro do Lince, ganha para si a cartela (ou ganha para si a ficha com a palavra, caso o tabuleiro seja com as figuras coladas). Pelo fato de a ficha de palavras funcionar como controle de quem encontrou uma figura primeiro, o jogo do Lince de Reconhecimento de palavras serve bem para ser jogado com as figuras fixas no tabuleiro. Melhor até que com as cartelas soltas.

No segundo modo de jogar, cada jogador recebe (retira de um saquinho ou monte, sem ver) duas fichas com as palavras escritas correspondentes às figuras do tabuleiro. Depois de um sinal, devem tentar localizá-las rapidamente e pegar a cartela com a figura encontrada para si (ou pegar a palavra para si, caso as figuras sejam coladas no tabuleiro e devolver a que não encontrar). Quando o primeiro jogador localizar uma figura correspondente a cada uma de suas duas fichas de palavras (tem mais que uma figura de cada rima, mas basta encontrar uma), a rodada, então, deve parar, e os outros não mais podem procurar as figuras, devolvendo as palavras ao monte (ou saquinho), e embaralhando-as. 

Cada jogador fica com as fichas das palavras (ou com as cartelas com as figuras) que conseguiu localizar e, então, retira duas novas fichas de palavras. E assim por diante... 

Quando não mais houver palavras suficientes para distribuir duas para todos os jogadores, distribui-se uma. Quando não mais tiver para todos, termina-se o jogo. Ganha quem, no final da partida, estiver com mais cartelas ou fichas de palavras. Pelo fato de implicar o domínio de leitura das crianças, é preciso pensar nos agrupamentos para jogar, formando grupos com domínio semelhante de leitura, para uns não estarem sempre em desvantagem.

Observação: o número de palavras entregues pode variar a depender do domínio de leitura do grupo e do número de figuras do tabuleiro, pode ser três, em vez de duas, se houverem muitas, como no caso da turma ter feito uma atividade de produção de texto, ampliando os produtos da venda. Essas rimas advindas de atividades de produção textual e ampliação do texto poético podem ser incluídas no jogo, aumentando-se as figuras do tabuleiro e as fichas. Essa atividade de produção (indicada no post anterior) é bem interessante, não só para ampliar o trabalho com a sonoridade, com as rimas, mas para aumentar o desafio no jogo do Lince, seja o fonológico ou o de reconhecimento de palavras, já que o universo de figuras aumenta exigindo mais atenção e acuidade.

É isso, gente! Essa é a minha proposta de jogo a partir desse livro de Elias José. Como ele tem muitas rimas, dá margem também a outros jogos, que postarei em breve: o Bingo e o Baralho “O que tem nesta venda?” são uns deles. Assim, vocês podem ter algumas possibilidades de jogo para escolher as que lhes agradam mais ou para variar. Fica também a dica de estrutura de jogo, que pode ser adaptados a outros textos rimados. 

Aguardem!
Lica

terça-feira, 26 de julho de 2011

O que tem nessa venda?

Lince
O que tem nesta venda?
 .
Oi, gente,
Vou mostrar para vocês em breve um jogo que fiz a partir do livro “O que tem nesta venda?”, de Elias José. É da Editora Paulus, Coleção Ler Brincando (antigamente coleção Patati Patatá), e tem ilustrações de Rogério Coelho. Mas antes, vamos falar um pouco do livro e de suas possíveis explorações. Trata-se de um texto poético que propõe brincar com as rimas, com as palavras. Segue o texto abaixo, só para a compreensão do material proposto. Mas indico a leitura com as crianças no próprio livro, mostrando as ilustrações. Além de ser importante o contato com o próprio livro, é legal depois ele poder ser folheado, “relido”, retomado.
 .
O que tem nesta venda?
Elias José

Fui à venda comprar ricota.
Como não tinha, comprei torta.

Fui à venda comprar rabanete.
Como não tinha, comprei sabonete.

Fui à venda comprar leque.
Como não tinha, comprei pé-de-moleque.

Fui à venda comprar chá-mate.
Como não tinha, comprei tomate.

Fui à venda comprar mola.
Como não tinha, comprei cola.

Fui à venda comprar disquete.
Como não tinha, comprei chiclete.

Fui à venda comprar uma bola.
Como não tinha, comprei carambola.

Fui à venda comprar papel.
Como não tinha, comprei pastel.

Fui à venda comprar alho.
Como não tinha, comprei baralho.

Fui à venda comprar repolho.
Como não tinha, comprei molho.

Fui à venda comprar sapato.
Como não tinha, comprei pato.

Fui à venda comprar borracha.
Como não tinha, comprei bolacha.

Fui à venda comprar marmelada.
Como não tinha, comprei torrada.

Fui à venda comprar compasso.
Como não tinha, comprei cadarço.

Fui à venda comprar mala.
Como não tinha, comprei bala.

Fui à venda comprar pandeiro.
Como não tinha, guardei o dinheiro.

Fui à venda comprar apontador.
Como não tinha, comprei grampeador.

Fui à venda comprar caqui.
Como tinha, comprei e comi.

Fui à venda comprar amendoim.
Já está na hora de pôr um fim.

Que a rima não o prenda
Ao falar das compras na venda.
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O Lince, por sua vez, é um jogo conhecido, da Grow, cujo tabuleiro tem um monte de figuras pequenas espalhadas, que devem ser encontradas pelos jogadores, no caso do jogo original, a partir de pequenas fichas sorteadas, com as mesmas figuras.  Há algumas adaptações no mercado, mas todos mais ou menos nessa mesma linha. 

Originalmente, é um jogo de acuidade e percepção visual, atenção e agilidade. Entretanto, aqui, no contexto da alfabetização, ele foi adaptado para favorecer, além desses desafios, a reflexão fonológica e o reconhecimento de palavras (leitura). 

Entretanto, antes de jogar o jogo do Lince “O que tem nesta venda”, é preciso ter lido o livro, brincado com ele e, por isso, nesse primeiro post vou dar algumas sugestões de exploração do livro e, em seguida, vou fazer o post sobre o jogo Lince “O que tem nesta venda”? com fotos do jogo e a apresentação de suas formas de jogar, certo?

Sugerimos, então, após apresentar o livro, fazer uma primeira lida com boa entonação, levando as crianças a perceberem as sonoridades, e depois uma lida parando na segunda rima, para os alunos completarem oralmente, com a rima que o livro propõe, ou com outras, como palhaço, braço, abraço, para rimar com compasso e cadarço. Assim vão surgindo novas rimas...

Brincar de falar outras rimas, além das do livro é bem interessante, pois, em si, já é uma atividade de reflexão fonológica sobre rimas, como a brincadeira de “lá vai a barca carregadinha de ______ (feijão): agrião, avião, caminhão, sabão, melão, mamão, pão...”. Pode-se fazer isso apenas oralmente e, depois, dependendo do nível do grupo, listar essas palavras sugeridas por escrito, para fazer atividades diversas de reconhecimento de palavras, como reconhecer uma palavra indicada entre todas, agrupar as palavras que rimam, analisar semelhanças e diferenças, dentre outras propostas. 

A rima é uma unidade sonora à qual as crianças são muito sensíveis, desde pequenas. Nessas atividades a criança precisa prestar uma atenção mais deliberada às rimas, constituindo-se em boas atividades de consciência fonológica. A consciência fonológica pode incidir sobre diferentes unidades, rimas, palavras, partes de palavras, sílabas, unidades inter e intrasilábicas e fonemas, quando é então chamada de consciência fonêmica. A rima é a forma mais elementar de consciência fonológica, mas muito interessante para favorecer a familiaridade com a reflexão sobre os sons da língua e, posteriormente, suas representações por escrito. Além disso a rima é matéria da poesia e da linguagem em geral.

A reflexão fonológica favorece a apropriação da leitura na medida em que o nosso sistema de escrita é de base fonológica e as descobertas das sonoridades podem ajudar, em outros contextos, as associações entre sons da língua e os signos da escrita. Através de atividades com poemas, trava-línguas e jogos fonológicos, as crianças vão sendo convidadas a ampliarem suas possibilidades de reflexão fonológica ludicamente, desde rimas a fonemas. 

Quanto ao livro de Elias José, sugiro também a ampliação do texto, oralmente de início, com propostas de outros produtos para a venda. O texto permite essa criação livre, apoiada na estrutura repetitiva dos versos. Dependendo do grupo, pode-se propor depois também a produção escrita (coletiva, com o professor escrevendo no quadro ou individual e em duplas). Assim, poderíamos ter o professor iniciando: “Fui à venda comprar feijão. Como não tinha, comprei _______”. (os alunos completam oralmente com algo que rime com feijão: /ão/). O professor pode listar para si mesmo uma série de rimas que não aparecem no texto para sugerir ao grupo. Por exemplo: /igo/: trigo, umbigo, amigo...; /orte/: sorte, morte, corte, serrote...; /ia/: melancia, pia, alegria; /ento/: cimento, vento, assento, coentro (as rimas podem ser perfeitas ou não, vale também as rimas toantes, em que só se repetem os sons das vogais, não das consoantes, como em “ricota” e “torta”, no livro).

Pode propor também os próprios alunos sugerirem ambas as palavras: “Fui à venda comprar _______. Como não tinha, comprei _______”. Não importa se o “produto” for imaterial, como amor, morte, saúde... Afinal, é poesia, né? Nesse caso, para constarem no Lince, esses produtos têm que ser representados por algum símbolo, combinado no grupo – o que em si é uma boa atividade – como, por exemplo, usar um coração para representar a palavra amor, uma cruz para a morte, um sorriso para a alegria...

A partir das rimas surgidas nessas atividades de produção textual, oral e/ou escrita, pode-se montar outro tabuleiro de Lince – além do original, só com as rimas do livro –, mais amplo, com mais figuras, mais cartas de indicação e mais fichas de palavras, tornando o desafio ainda maior. Desse modo, o texto lúdico-poético do livro, as atividades propostas e os jogos de alfabetização articulam-se ainda mais, ampliando a leitura do livro, sua apreciação, sua fruição estética e literária, o jogo das sonoridades, ao mesmo tempo em que se trabalha a reflexão sobre aspectos do sistema de escrita alfabética. Oralidade, alfabetização, letramento literário... tudo articulado. Não é esse o caminho metodológico que queremos?

É isso, gente!
Aguardem o post do Lince, o jogo ficou bem legal!
Lica


P.S. Como já escrevi os outros posts sobre materiais com esse livro, eis aqui o Lince e aqui outros joguinhos

P.S. Gente, olhem o livrinho bacana que Ana fez com sua turma, a partir do livro de Elias José e com os nomes das crianças: http://www.slideshare.net/AnaLuciaAntunes/livro-o-que-tem-na-venda-do-1-ano