Mostrando postagens com marcador Sobre os materiais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sobre os materiais. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Os jogos e recursos didáticos na minha trajetória de vida

Oi, gente!

A propósito da Série Acervos do LAP, com postagens sobre os acervos de jogos e materiais produzidos no Laboratório de Alfabetização da FACED/UFBA, resolvi contar um pouco como essa dimensão se costura a minha própria vida, desde a infância. E apenas fazendo uma chamada lá nas redes sociais do LAP, posto aqui o detalhamento dessa história.

Mas fiz em lâminas, então, vamos a elas! Clique nas imagens para melhor visualização, não sei porque, ficaram com baixa resolução. Mas se preferir, veja em formato de vídeo, coloque em tela cheia:































É isso por ora.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sobre materiais, produção de materiais e o que é antigo...

Raimunda era o nome dela...Dava pra se perder nos seus longos cabelos, tão compridos que eram. Enquanto "dava" suas aulas, não dava para não nos perdermos em algum fio preso no coque, imaginando se, soltos, iam até os joelhos. As letras e os números se embaralhavam constantemente, interrompidos por esses pensamentos...

Raimunda tinha uma tesoura. Uma tesoura grande, de picote. Cortava bordas de pequenos papéis coloridos que se revelavam cheios de dentes, diante de nós, igualmente cheios de dentes em sorrisos de perplexidade... Chegavam assim os enunciados matemáticos ou as consignas de interpretação de textos, sempre embalados por cores e formas que os tornavam mais desejados, esperados, mais bem-vindos.
Os papeizinhos, que chegavam, às vezes, a nós, davam notícia de que as tesouras de Raimunda trabalhavam bastante (mas as de cortar papel, não a de cortar cabelo...esses insistiam em serem longos e misteriosos).

Eu adorava Raimunda. Eu adorava aqueles papeizinhos. Talvez eu adorasse Raimunda, porque eu adorava ardorosamente aqueles pedacinhos coloridos, cobertos de palavras, com marcas do gesto de escrever e de cortar. Talvez já se anunciasse aí minha vocação para as artesanias e para as "artes do fazer" próprias à/ao professor/a. Eu a observava! Quieta, com adoração.

Eu era boa aluna. Sempre fui. Nunca precisei de banca. Mas, com Raimunda, eu fazia banca. Malandra! Era na banca que os papeizinhos nos frequentavam mais vezes. E mais coloridos. Podíamos, lá, observar as linhas retas se transformarem, diante de nossos olhos e ouvidos, em lindos picotes que formavam quadrados, retângulos, círculos, embalados pela melodia forte da tesoura deslizando no papel: crec, crec, crec... Era uma tesoura pesada, o som que fazia era potente. E eu... eu observava atenta aquela transformação, que acontecia emoldurada por meus olhos ávidos de admiração e um desejo enorme de saber fazer tamanhas delicadezas. Ô tempo bom esse de ser tocado por algo singelo, de botar beleza em algo tão banal e pragmático, de demorar-se nos detalhes, durar nas belezas simples, de se sentir o vivido, tempo de ter tempo, tempo de silêncios, mesmo que barulhentos. Tempo de experiência, no sentido que lhe dá Jorge Larrosa - como algo que nos acontece, nos toca, não que simplesmente acontece. Tempo de cultivar a atenção, a delicadeza, a espera, a beleza. Esse pode ser também aprendizado do ofício docente, ajudar alunos a ver beleza no mundo, como reitera também o autor.

Não sei nada de Raimunda...tanto tempo se passou...mas quando vejo hoje no que deu a menininha, aluna na escola e na banca, fico quase com certeza de que tem um pouquinho de Raimunda em mim e em meu "ser professora". E, claro, ela provavelmente nem se reconheceria em meu relato - ou nessa espécie de crônica - pois essa é a Raimunda que fiz para mim e transformei em um modelo de professora. Que, antes de tudo, soube me acolher na interação mais próxima, mesmo eu não precisando dela para questões de conteúdo escolar.
...
Vejo Raimunda hoje, quando observo olhos ávidos, embora já crescidos, diante de cores e formas, palavras e imagens, dentinhos e ondinhas, nas beiradas das coisinhas que faço. Não é só isso, claro, não é só sensorial ou material. Expressa um trabalho de alfabetização ali, e uma trabalho de formação. Expressa a própria artesania do ofício docente, para além das materialidades. É muito mais que isso, que papéis, gestos artesãos e recursos pedagógicos. Há sim, as mãos que fabricam, cortam, colam, escrevem, montam, numa ação de fazer pensando, gestos e pensamento formando amálgama. Mas há também as "mãos" que proporcionam experiências e apresentam aos estudantes o mundo a ser aprendido, apreciado, pensado, como Raimunda me apresentou também, por trás dos papéis. Como eu disse, ressoa em mim palavras de Jorge Larrosa aqui, quando penso nessas experiências singelas, mas potentes, e no cenário do ofício docente, de um professor artífice para além da dimensão material, que manipula materialidades, mas também o mundo, conduzindo a novos olhares sobre ele, transformações, aprendizagens. E também penso nele quanto ao tempo de cultivar a atenção e delicadezas, como a essas delicadezas das tesouras de Raimunda - ou delicadezas que criei ao olhar para esses gestos e materiais. Refiro-me aqui ao texto "Notas sobre a experiência e o saber de experiência" (LARROSA, 2002, p. 24). 

E destaco o seguinte trecho:
"A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço”. (LARROSA, 2002)
O que os olhos ávidos de professores em formação me dizem sobre mim e o meu modo de ser professora, eu não sei ao certo...é como se eu aprendesse a fazer uma mágica, que só quem me olha, vê... Eu mesma não sei bem ver. Só fazer...só faço... é muito natural... O sensorial tem peso nessas coisas de afeto pelas artes e fazeres e na memória do que foi bom de nossa passagem pela escola. 

E a professora que sou revisita a menininha na escola, aluna de Raimunda, e a própria professora que ela era, com esses olhos de uma experiência que me tocou. Que olhei mais devagar, escutei mais devagar, que durei nela, e até hoje revisito no tempo da paciência de estar constantemente me reconhecendo, me formando e me constituindo como professora, esboçando a posteriori esse trajeto, e ajudando outros/as a se tornarem as/os professores que serão. E com isso tudo, busco sempre não perder meu laço com as experiências e a artesania desse ofício. É minha profissão, mas é também meu ofício, meu sonho, minha vida, minha forma de ver o mundo.

Mas é fato. Quer saber? Pensando em tudo isso, e mesmo que eu não saiba ao certo se tudo o que lembro e conto foi mesmo exatamente como lembro e conto, tenho agora certeza, mais do que absoluta, de que trouxe um pouquinho de Raimunda em mim. Do que fiz Raimunda significar para mim, os gestos, o acolhimento, as belezas singelas do ofício que aprendi observando-a em meu silêncio e maravilhamento.

E esses adultos de olhos ávidos que recebo em minhas oficinas de produção de materiais para alfabetizar também podem saber das mágicas que podem operar pequenos detalhes no dia a dia de uma sala de aula...inclusive valorando os gestos de fabricar coisinhas coloridas para seus alunos. São esses que vejo chegar perto de mim, querendo aprender a fazer esses materiais, deslumbrados quando percebem que podem mais do que pensavam; felizes de se verem em suas produções, pois mesmo materiais idênticos saem muito diferentes pela arte de cada um; surpresos de aprender alguma técnica ou estética bem simples, mas que nunca tinha ocorrido antes; atentos para tudo o que pode ajudar na beleza e funcionalidade do material para o uso na sala cheia de meninos e meninas aprendendo a ler e a escrever; e refletindo para além do material, sobre seus usos pedagógicos, alcances, limites e adaptações...

Mas eis que, vez por outra, encontramos um que – mesmo que com certo encanto no canto do olho – avalia essas produções como algo “meio antigo”...E aí vamos falar sobre isso de "antigo".

Se antigo é esse fazer do professor, que como Raimunda cortava coisinhas para suas crianças, digo “que pena”! Que pena que a necessária profissionalização docente, combinada com condições de trabalho frequentemente sufocantes, tirou essa fabricação de materiais das agendas do professor, assim como a escola mercantilizada vem minando a dimensão artesã e autoral desse ofício. Que pena que não se tem mais tempo para fazer isso, que há tantos sistemas estruturados, pré-determinados, que pena que há muitas patrulhas sobre a produção autoral dos professores, que pena que muitos esperam que tudo já venha pronto, padronizado... e com menos chance de despertar a lembrança de um professor por aquele gesto singelo que só ele tinha de cortar o papel e de nos tirar um sorriso, ou de chamar nossa atenção para algo do mundo pedindo um outro olhar... Tá, se sou antiga? Sou...e sou com certo orgulho de mim por isso. Ponto! Tenho alguma nostalgia da escola de outro tempo? Talvez. Ao menos de algumas coisas da escola - e considerando que estive em quase toda minha infância numa escola diferenciada, aberta, acolhedora das beleza da vida e da educação. Tudo isso pode suscitar outras tantas argumentações interessantes, que deixo para outra ocasião. Por ora vamos futucar essa ideia de "antigo".

Mas se "antigo" é porque são materiais feitos com papel, essa “coisa antiga”, diante de um mundo cada vez mais tecnológico, quanto a isso, também há muitos argumentos, mas estou com preguiça de desenvolver. Quem vive a sala de aula e quem experimenta os materiais, sabe bem do que estou falando. Ademais, diante de uma escola que vai se alinhando, cada vez mais aos ditames do mercado, à lógica dos resultados, dos imperativos tecnológicos, das performances instrumentais, vejo algum valor na afirmação da dimensão artífice do ofício docente. De todo modo, já escrevi um pouco sobre isso aqui, há muito tempo atrás, e lá já trago alguns argumentos sobre a questão da tecnologia. Por ora bastam. AQUI

Por último, e mais grave de todas as observações (e por isso desenvolverei mais detalhadamente), é de quem faz muxoxo, por julgar antigo um material que traz palavras, letras, reflexão sobre sons – essas unidades da língua menores que o texto, tão mal compreendidas em um modo tradicional de alfabetizar, e tão maltratadas quando encontramos modos mais amplos de compreender a questão da linguagem.

Ora, ninguém está negando o fundamento de base de que a apropriação da escrita se dá no contexto da linguagem viva, das interações sociais envolvendo práticas letradas, no convívio com a cultura escrita. Afirmar o texto, os gêneros discursivos, foi um avanço nas concepções de ensino e aprendizagem da língua escrita, mas na prática, houve equívocos, dicotomizações e também reducionismos ligados a isso. Mas falarei hoje apenas de um aspecto dessa discussão, que se refere ao lugar em que se jogou o trabalho com a "faceta linguística" da apropriação da língua escrita. Não podemos “jogar o bebê fora com a água do banho”, como se diz. Virou quase heresia propor atividades em que a reflexão foca em letras, sons, palavras, sem o contexto de um texto (como se, aliás, jogar e brincar com sonoridades e palavras não fossem também, por si só, práticas socioculturais, em contexto de jogos, de brincadeiras com a oralidade lúdica). A alfabetização precisa focar também nos aspectos linguísticos, sejam esses notacionais ou fonológicos – não podemos esquecer que a notação alfabética é de base fonológica, ou seja, não é possível alfabetizar sem que essa dimensão esteja presente de algum modo. E ortográfica, ou seja, é preciso ir dando conta das convenções da escrita, perverso é esperar que descubram isso sozinhos.

Então, é preciso que se possa compreender a importância da faceta linguística (como diz Magda Soares), junto às facetas socioculturais e interativas – e nisso não há nada de antigo. As crianças são capazes de explorar inteligentemente o mundo da linguagem, dos textos, das palavras, mas também das letras, dos sons da língua, de palavras e parte de palavras... Trata-se de cognição, não de percepção. De metacognição. Refletir, construir conhecimentos na interação com os outros e com o objeto de conhecimento é diferente de treinamento mecânico, descontextualizado. 

Não há porque deixar as unidades menores que as palavras de fora das possibilidades de reflexão na alfabetização. A criança pensa – e pensa sobre tudo! Desse modo, é preciso rediscutir certas práticas e didáticas que ignoram a reflexão fonológica e o ensino sistemático de aspectos linguísticos do sistema como situações produtivas para a criança avançar nas suas construções e apropriações do funcionamento da escrita. Já viu banir as letras como algo meio “pouco” e menor no ensino da escrita? Já viu que absurdo tomar unidades como sílaba, fonema quase que como “palavrões”? Claro que a questão é COMO se faz isso. Não precisamos sair do oposto de uma alfabetização mecânica, baseada no ensino descontextualizado e repetitivo de letras e sílabas para o extremo de banir essas unidades do processo de ensino da língua escrita. É perverso não abordá-las, ou abordá-las muito assistematicamente em situação de uso dos textos, mas esperar das crianças que construam sozinhas esses conhecimentos. As situações de usos de textos podem ser também sistematizadas para se refletir sobre a notação escrita. Aliás, não é justo isso que propomos ao partir de textos da tradição oral? 

E aí, justamente, é que os jogos e materiais diversos para a alfabetização entram, como possibilidade metodológica produtiva de reflexão sobre a língua em contextos lúdicos e letrados. Assim, longe de antiga, a concepção que embasa os usos desses materiais é muito contemporânea, pois, assumindo a escrita como prática social e sistema complexo de notação da língua, busca caminhos para articular as aprendizagens linguísticas às socioculturais, discursivas, pragmáticas, já liberta de concepções hegemônicas que, ao questionar os velhos métodos, jogaram fora junto aspectos importantes para a alfabetização. Busca a INTEGRAÇÃO! 

De qualquer modo, embora possibilitando situações de reflexão sobre a escrita baseadas em concepções contemporâneas de alfabetização, esse momento de fabricação e conversa, de recorte e picote, de colagem e bricolagem, evoca, sim, um viés de tempo mais antigo, mas bem positivo, em que as professoras faziam manualidades para levar aos seus alunos, num gesto jeitoso que, certamente, deixa marcas e saudades. Como Raimunda me deixou.

Se há algo de antigo relativo aos materiais que proponho nas oficinas, não é o seu uso ou as concepções subjacentes a eles. Talvez sim (ou não) os próprios materiais – artesanais na contramão de um mundo cada vez mais pré-fabricado – e a sua produção pelos próprios professores – que já não têm tempo, que “querem tudo pronto” - ou outros querem tudo pronto por eles, em um esforço de instrumentalização dos sujeitos, que passam a ser meros aplicadores do feito por terceiros. Não, não estou dizendo que os/as professores/as têm que fazer tudo, todo material. Não é isso, evidentemente. Materiais de referência, assim com práticas de referência são importantes referenciais para a ação docente qualificada, e lançar mão deles não significa não terem autoria. Ao selecionar, combinar, organizar a situação de ensino, tudo isso é essencial do ofício e é o que, de fato, torna materiais em recursos didáticos. Mas creio que deva também haver espaço para se fazer coisas para as demandas singulares de cada docente, considerando suas próprias experiências, repertórios culturais, e as próprias experiências singulares da turma. Eu ainda acredito em professores/as que querem ser autores/as de sua prática, que não querem tudo pronto, que querem sua marca e de suas crianças nas estratégias e recursos didático-pedagógicos que selecionam, utilizam e produzem. Desse antigo outro - ah, desse - eu quero sim que falem, desse tenho orgulho!

Por ora, é isso. Um abraço a Raimunda, onde quer que ela esteja! Ah, tem uma pró Vera também em minhas memórias...mas fica ela em suspenso. O que me restou dela foi o sentimento, a referência que foi para mim de acolhimento, a ponto de, mais tarde no meu percurso de escolarização, ter conquistado ir visitá-la em sua casa. Não lembro muito mais que isso. E tem Bisa - sobre essa guardo para mim, por ora - mas foi uma luz. Professoras que me constituíram e me fizeram, também, professora.
Lica  

Texto escrito no período das Oficinas de produção de material para alfabetização na FACED/UFBA, em maio de 2017.

Adendo em 2020: Lendo o livro Esperando não se sabe o quê: sobre o ofício de professor, de Larrosa com a colaboração de outros colegas, associei algumas das ideias ali discutidas a essa "crônica" de Raimunda, especialmente no momento em que li o trecho abaixo: 

(Belo Horizonte: Autêntica, 2018)

Observação: Entende-se "vocação" aqui no sentido discutido por Larrosa não como um termo que remeteria a um ofício idealizado e com tudo o que a ideia de ser vocacionado traria, o que ajudaria a deslegitimar a profissionalização docente, mas valorizando signos potentes desse ofício que traz (ou trazia) algo de artífice e  avaliando os ganhos e perdas do banimento da palavra "vocação" do léxico docente. No livro de 2021, Elogio do Professor, outras ideias sobre a palavra vocação aparecem no diálogo de Larrosa com Glaucia Costa. Larrosa assume aí também certa "nostalgia de outro estado de escola" nessa argumentação da docência como ofício e sua dimensão de vocação. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Oficinas...

Ando com muita, muita saudades das oficinas... Por conta do doutorado, depois do concurso, depois do tanto de coisa que fazemos na Universidade, ainda não consegui retomá-las...Nos últimos tempos têm acontecido apenas de forma pontual, breve, em um ou dois encontros, sem aquele tempo de dedicação que faz toda a diferença... "Uma terapia" diziam os participantes! 


Mas retomarei em breve, no contexto mesmo da UFBA, como Extensão, em diversos formatos.

Seja para os nossos estudantes, atividade ligada aos componentes de Estágios Supervisionados e de Alfabetização e Letramento - estou envolvida em ambos - seja para os estudantes interessados em geral, sejam ainda oficinas abertas ao público em geral, quero fazer esse compromisso comigo mesma e com vocês que me perguntam, escrevem, me provocam nos corredores da Faced...

Além disso, estou elaborando um projeto de pesquisa sobre jogos e materiais para alfabetização, ligada a meu grupo de pesquisa na Faced/UFBA, e articulada a essa pesquisa haverá também ações de Extensão nesse sentido. Falarei mais em breve. Já a apresentei em alguns eventos científicos, falta detalhar as ações e mandar ver!

Por ora serão oficinas presenciais - não há outro jeito para produzir material - mas quem sabe penso depois em um formato para contemplar quem está longe, não é? 

Enfim...o post é só um desabafo, uma promessa, um modo de me comprometer mais em fazer acontecer logo!

Ando muito, muito saudosa das oficinas! 

Abraço,
Lica

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Sobre os materiais deste blog

Esse é um texto mais atualizado sobre os materiais apresentados nesse blog, a partir de um dos primeiros posts que fiz. É um texto que dá uma ideia geral dos materiais do acervo e ajuda a organizar em blocos os jogos e materiais que vão sendo postados, considerando sua natureza.

Os jogos, materiais, atividades, dicas e as oficinas apresentados nesse blog destinam-se a todos que se interessam por alfabetização e que buscam ampliar seu repertório de propostas didáticas fundadas em firmes concepções de aprendizagem e ensino da língua escrita.

Enfatiza-se aqui a perspectiva de aprendizagem do sistema de escrita em contexto de letramento, por um lado, e a especificidade do processo de aprendizagem do sistema alfabético, por outro, confluindo para o que Magda Soares chama de "Reinventando a Alfabetização", ou seja, o trabalho específico com o sistema de escrita, com a identificação das palavras, sem perder de vista o eixo relativo à construção do sentidos na leitura e o contexto mais amplo relativo à cultura escrita. 

As atividades propostas a partir dos materiais apresentados focalizam a aprendizagem do funcionamento do sistema de escrita alfabética, o trabalho de reflexão fonológica, a mobilização de estratégias de leitura, a pesquisa inteligente, e abordam as diferentes unidades da língua – texto, palavra, sílaba, grafemas e fonemas e unidades inter e intrasilábicas (maiores e menores que a sílaba, como -OLA em bola, escola, sacola, viola, cola... e TR em troco, trinco, trator, truque...) – em contexto de exploração de textos - orais e/ou escritos - e de jogos. 

Costumo separar os materiais, kits e jogos que fazem parte do acervo que venho construindo, em três diferentes blocos, que, no contexto das Oficinas, se organizam, algumas vezes, em três módulos. Por ora, vou apresentar brevemente cada um desses blocos e, depois, à medida em que os posts forem aparecendo, aprofundaremos a discussão em torno de cada um deles. 


No primeiro bloco incluem-se os materiais confeccionados a partir de textos da tradição oral – que são expressão da cultura popular, parte de nosso universo cultural – estruturados para favorecer a leitura através de estratégias diversas, bem como a reflexão sobre a escrita alfabética e ortográfica. 

São kits confeccionados a partir de parlendas, trava-línguas, adivinhas, quadras, cantigas, ditados populares, frases feitas, permitindo atividades diversificas para diferentes níveis de leitura. Nota-se nesse bloco que, em se tratando de gêneros originalmente orais, é fundamental não perder de vista a sua abordagem em termos de oralidade. Para discutir mais sobre esse aspecto, e sobre textos da tradição oral, ver a brochura de minha autoria aqui

No segundo bloco, incluem-se os materiais confeccionados a partir de textos de vários gêneros literários, como fábulas, contos, lendas e contos indígenas e africanos, histórias infantis, quadrinhos,  poesia, favorecendo ainda mais a articulação entre letramento e alfabetização. 

Aqui encontramos também materiais produzidos a partir de narrativas audiovisuais, tão presentes na cultura infantil contemporânea - como desenhos animados e filmes de animação - e parte do repertório de “textos” dos sujeitos infantis, considerando a noção de múltiplos letramentos.


Esse bloco se desenvolveu a tal ponto que, hoje, em seus desdobramentos, acolhe as Caixinhas de Livros - sobre as quais vocês podem conhecer mais aqui - e os Arquivos Poéticos - que, por ora, inclui os Arquivo Alfabético Poético e o Arquivo Capparelli, que vocês podem ver  no link, clicando neles. Novos Arquivos estão no forno! 

Há Caixinhas de Livros que namoram com os Arquivos Poéticos, como a Caixinha O que tem nesta venda, a partir do livro de Elias José de mesmo nome, da Paulus, já que o que o livro traz é um texto com a ludicidade e o ritmo próprios ao texto poético. Confira parte dos materiais aqui. Essa Caixinha - ou Arquivo - rendeu outros jogos e posts, como o Lince, dentre outros. Todos eles se encontram tanto no marcador Caixinhas de Livros quanto no marcador Arquivo Poético. Confiram na lista de marcadores do lado direito da sua tela! No marcador Caixinhas de Livros vocês podem encontrar também os posts de Caixinhas a partir de outros livros infantis. Os materiais das Caixinhas e Arquivos são voltados para diversas atividades de reflexão sobre a leitura e a escrita a partir das histórias ou poemas, cuidando sempre, no entanto, de preservar o aspecto literário, estético como primordiais e prioritários em relação ao aspecto pedagógico. A esse respeito, ler o post sobre Literatura e Alfabetização, aqui

No terceiro bloco, incluem-se jogos diversos, com diferentes objetivos relativos à aprendizagem da escrita e leitura, como o aprendizado de letras, a apropriação do sistema alfabético, a consciência fonológica e a ortografia. O jogo, com sua natureza lúdica e intrinsecamente sociocultural, vem aqui contribuir para a reflexão sobre diversos aspectos da língua. Por vezes, os mesmos jogos, com pequenas adaptações, podem favorecer a reflexão de crianças em diferentes níveis de apropriação da escrita. 

Os jogos desse bloco não têm relação  com um texto, mas muitos jogos a partir de textos - incluídos no bloco anterior - são similares aos categorizados aqui. São classificados lá por serem produzidos a partir de determinado livro, parlenda ou poema, mas se assemelham a alguns postos aqui, como o caso do Bingo de Rimas, da Caixinha de O que tem nesta venda, e outros jogos do Arquivo Capparelli, por exemplo. 

Divido os jogos e materiais em:


  • de reflexão fonológica e grafonêmica;
  • para aprender sobre a estabilidade da escrita, de usar e ampliar o repertório de modelos de escrita convencional (que a criança aprende a reconhecer globalmente);
  • para aprender as letras e usar a ordem alfabética;
  • para refletir sobre os princípios do sistema alfabético e sobre as correspondências grafofônicas;
  • para consolidar as correspondências grafofônicas e trabalhar a ortografia;
  • para contribuir com o desenvolvimento da fluência de leitura e de apoio à compreensão leitora;
  • para apoiar a produção de textos.

  • Por vezes, evidentemente, esses três blocos de materiais se imbricam e outras categorias ou novos aspectos em cada categoria podem surgir, já que a invenção, adaptação, inclusão de novos materiais ao acervo é constante, a partir do próprio desenvolvimento das oficinas e das trocas com outros educadores. Em cada Oficina que promovi até hoje, houve sempre quem inventasse, partindo dos materiais e atividades propostas, novos materiais ou novas atividades, variantes, adaptações, considerando as classes singulares que cada professor tem.   Já houve quem adaptasse alguns jogos para crianças menores, outros para crianças maiores, para uso em salas de AEE, professores de inglês tendo ideias para o ensino de língua estrangeira a partir dos materiais, tentativa de pensar adaptações para crianças de inclusão... 

    As oficinas e também o blog, nesses anos, têm sido espaços de trocas, inclusive, para que possam ser ampliadas  essas possibilidades. O blog, nesse sentido, pode funcionar também como um registro, um testemunho desse processo de ampliação de repertório, de acervo,  de propostas, tanto para mim, para minhas/meus alunas(os), quanto para quem vier visitar essa página. Portanto, opine, interaja, discorde, pergunte, oferte... Esse é o meu convite... Atualmente os acervos de materiais e as oficinas de produção e criação de jogos e materiais são vinculados ao LAP - Laboratório de Acervos e Práticas, Laboratório de Alfabetização que coordeno na FACED/UFBA. 

    O caminho da literatura trouxe, ainda, essa prática de dica de livros e comentário sobre eles ou de exploração de gêneros de textos (como as histórias acumulativas e os tangolomangos, a partir dos quais fiz alguns posts recentemente). Tenho feito também alguns posts com propostas de atividades não atreladas a um material específico. Tudo isso também se articula, hoje, ao LAP, às três dimensões de suas ações: material, simbólico cultural e didático-pedagógica. O blog foi, por muito tempo, e segue sendo, esse meu espaço de compartilhamento de ideias, de criação, de experimentação e de boas parcerias, que agora se expandiram para as redes do próprio Laboratório, que vocês podem seguir no Instagram e Facebook
    Abraço,
    Lica

    sábado, 24 de setembro de 2011

    Versão Digital da Brochura

    Como prometido, eis a versão digital da minha brochura “Quem os desmafagafizar, bom desmafagafizador será: textos da tradição oral na alfabetização”. Confiram abaixo. Para quem não teve a oportunidade de acesso à brochura impressa, agora pode lê-la, baixá-la e até imprimir se quiser. Está disponível para download ou embed (para poder ser postada em outros blogs) no slideshare: http://www.slideshare.net/Licaraujo/textos-da-tradio-oral-na-alfabetizao

    Ou clique no título  abaixo para redirecionar.

    Embora já traga coisinhas interessantes para a discussão sobre os textos da tradição oral na alfabetização, trata-se de uma compilação de textos que eu costumava usar em minhas aulas e oficinas, apresentando algumas características de alguns desses gêneros, algumas propostas de atividades para diferentes níveis no domínio da leitura e escrita. Textos que agora se apresentam organizados nessa publicação. Ciente, no entanto, das limitações da brochura, das possibilidades de aprofundamento, e calcada no desejo de explorar mais essa discussão, estou, como já anunciei, organizando um livro – eu e Mary Arapiraca – muito mais completo, sobre o tema, inclusive com a inclusão de fotos e apresentação dos materiais que passeiam nas oficinas e aqui no blog. Aguardem!

    Outra coisa, essa brochura digital é uma versão mais uma vez revisada, assim quem já tem a versão impressa anterior a essa, pode também ter acesso às correções. Ainda que tenha passado por várias leituras e por revisões sucessivas, sempre apareciam errinhos, coisinhas de desatenção, de digitação, releituras apressadas, ou por escorregos na formatação. Mesmo depois de rodada, ou justamente depois disso, o que passava despercebido, mostrava as caras, gritando. Assim, fomos revisando de novo e de novo e, enfim, chegamos a essa versão – que ainda assim pode ter sacis dando língua. Sim, pois vou contar um segredo para vocês: na verdade, por mais que a gente revise, o saci vem e embaralha tudo... é culpa dele, como bem nos alertou Lobato: 

    Erro Tipográfico 
    A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas, assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência ainda não conseguiu decifrar. 
    Monteiro Lobato 

    Essas palavrinhas de Lobato aliviam um pouco para nós autores, redatores, revisores, editores... Para quem escreve, lê, monta, formata, organiza ou de alguma outra forma, labuta com os livros, é bom saber: de madrugada os sacis mexem em tudo e, como diz Thiago Freitas, talvez já tenham mexido lá e nesse escrito aqui também. Vejam um artigo divertido de Thiago sobre isso em: 


    Ah, o lançamento oficial da brochura continuará sendo no dia 30/11/2011, no ELEGE, conforme informado.

    É isso, minha gente, espero que gostem... 
    Lica

    terça-feira, 16 de novembro de 2010

    Caixa Letrada

    Para os que não conhecem e querem ter uma ideia, para os que me perguntaram como é essa tal caixa letrada, para os que a veem subindo, descendo, circulando por aí sem saber ao certo do que se trata, ei-la: a caixa letrada!

    Essa caixa foi um presente (maravilhoso) de minha querida aluna Ângela Carmina, que foi também monitora em uma de minhas oficinas no Projeto Salvador. Era dela, a danada! Foi ela que pintou as tantas letrinhas...pra ela... Mas eu gostei tanto tanto da caixa, que ela me deu. Juro, de pé junto, que não falei nada esperando tal presente. Nunca esperei, nunca pensei!!! Fiquei tão feliz! Guardei nela todos os meus kits de joguinhos e vivo com ela para cima e para baixo, desde então.


    Hoje, nela já não cabem mais tantas outras caixinhas de jogos e materiais que tenho (acho que precisaria de umas 3 ou 4!!!), mas ao menos levo nela tudo o que preciso para cada oficina...e dela vai saindo é coisa...

    É isso, esse foi só para apresentar minha caixa letrada.
    Beijos,
    Lica

    sábado, 10 de abril de 2010

    Narrativas Audiovisuais


    Sobre os kits confeccionados a partir de narrativas audiovisuais[1]
    Filmes, filmes de animação, desenhos animados etc

    Filmes, desenhos, videogames são, hoje, fonte de narrativas que constituem o repertório da cultura infantil contemporânea. Muito da experiência narrativa de hoje não vem exclusivamente das narrativas do repertório escrito, literário, nem do repertório oral, mas também, e muito, das narrativas midiáticas, audiovisuais. Os formatos audiovisuais se incluem no rol dos gêneros discursivos. É preciso, assim, pensarmos em conceitos ampliados de texto, leitura e letramento, que possam abarcar esses gêneros da comunicação mediada e considerá-los parte do repertório de práticas sociais que se articulam ao letramento da sociedade e dos indivíduos que nela se inserem.
    O surgimento do cinema, da TV, da internet e outras mídias trouxeram novos modos de relacionar-se com a leitura e a escrita, deslocando as práticas antes próprias ao livro. As práticas de leitura que formaram outras gerações são diversas das práticas que estão formando as novas gerações de leitores. Gerações socializadas na cultura oral e na cultura letrada veem hoje as gerações mais novas socializando-se no âmbito das tecnologias de comunicação e informação audiovisual.
    Muitos dos gêneros audiovisuais são atravessados, de algum modo, também pela linguagem verbal, constituindo-se em textos híbridos, em que a cultura oral, escrita e audiovisual se imbricam. Na verdade, a classificação dos textos em verbais ou visuais tende a se esmaecer e a nos fazer conviver com textos e linguagens híbridas. O movimento dos gêneros na cultura contemporânea, e da expansão da escrita, exigem que se conceba a textualidade para além da organização verbal. O conceito de “texto” não pode se esgotar no oral e na escrita da mesma forma que as linguagens não se esgotam no oral e no escrito. O texto, muito frequentemente, apresenta-se como uma combinatória de diferentes linguagens: um produto híbrido, um conjunto articulado de signos podendo fazer uso de linguagens verbais e visuais.
    É preciso, assim, pensar em um conceito ampliado de letramento, ou letramentos, que abarque as práticas sociais letradas que circulam na sociedade, não restritas à escrita, mas que impliquem uma pluralidade de escritas, textos, linguagens. Inclui-se, assim, no saber ler, “saber ler” e fazer usos de uma diversidade de gêneros: livros e jornais impressos, mas também jornais televisivos, filmes, desenhos animados, videoclipes, games, hipertextos. Do mesmo modo, é preciso conceber um conceito ampliado de texto e de leitura. Ler, nesse sentido, é mais do que a capacidade de ler textos verbais, é um processo de compreensão de expressões formais e simbólicas, por meio de qualquer linguagem. Textos, nesse sentido, são materializações de discursos sejam eles verbais, verbo-visuais ou visuais.
    A ampliação dos conceitos de texto, leitura, letramento e gêneros discursivos permite, assim, abranger, na reflexão sobre o aprendizado da escrita, os gêneros da comunicação mediada e permite-nos pensar numa perspectiva de letramentos múltiplos.
    A escola precisa implicar-se na reorganização que atravessa o mundo da leitura, da escrita, dos relatos, da constituição do universo de narrativas no mundo contemporâneo. Assim, é interessante incorporar tais “textos” no letramento e alfabetização das crianças, afinal, constituem-se em narrativas do repertório da cultura infantil contemporânea e, como tal, devem poder circular também na escola.
    Mesmo considerando que é preciso formar sujeitos críticos – inclusive das produções culturais midiáticas e sua natureza marcadamente mercadológica – e mesmo que tenhamos também que considerar as diferenças entre as linguagens verbal e visual no aprendizado da escrita e suas particularidades, a escola não pode furtar-se a considerar o hibridismo das linguagens, a heterogeneidade dos textos, a multiplicidade de letramentos. As narrativas provenientes de mídias audiovisuais a que as crianças estão expostas contemporaneamente, constituem-se em produtos culturais que elas consomem, nos quais se reconhecem e que constituem seus modos de ser, agir, dizer e dizer-se.
    Sem desconsiderar o discutível valor de muitos produtos da mídia, é preciso poder considerar a sua recepção a partir dos sentidos que os sujeitos produzem sobre os produtos que consomem. É muito importante que o campo da educação se aproxime da visão que as crianças e jovens têm desses produtos, e os reconheçam como expressão de sua subjetividade, identidade e cultura.
    Desse modo, a abordagem das narrativas audiovisuais na perspectiva do letramento precisa considerar essas questões. Na perspectiva da alfabetização, as narrativas audiovisuais são fontes de textos privilegiados para refletir sobre o sistema – como títulos, nomes, listas – tanto quanto os textos da tradição oral e da cultura escrita.
    Títulos de filmes, personagens de desenhos animados, de filmes, listas de seus nomes, podem gerar materiais para alfabetizar e render boas atividades de reflexão sobre o sistema alfabético. Desde a exploração da leitura visual que podem fazer, e a consideração do tamanho da palavra, até a reflexão sobre letras e seus valores sonoros, bem como o uso de estratégias de leitura, do conhecimento de partes de palavras e comparação com outros nomes próprios, etc.
    É interessante ressaltar que, entre títulos e nomes de personagens, há aqueles em inglês, sendo que, frequentemente, apresentam relações fonográficas ou grafemas não presentes na língua portuguesa. De fato, esse aspecto pode gerar alguma dificuldade para crianças que estão ainda começando a se apropriar das relações fonográficas e grafemas possíveis na sua língua materna. Entretanto, parece também interessante poder discutir, a partir dos questionamentos que surgirem, do conhecimento de palavras em inglês do repertório das crianças, sobre as letras, em inglês, terem outros sons, como o U de UP e o E de Wall-E; sobre encontros de letras que não existem em português, como shr, em SHREK, e sh, como em SHERI de Sheri Khan (Mogli) etc. Um desafio interessante.
    Muitas palavras em inglês circulam no universo de palavras de crianças e adultos na contemporaneidade. Embora não seja o caso de sistematizar com elas as correspondências fonográficas de outras línguas quando estão se ocupando disso na sua própria língua materna, não podemos desconsiderar essa enorme presença de vocabulário em inglês e de usos de sons e grafias que não são próprios ao português no cotidiano das crianças. Isso também se relaciona com o letramento, já que muitas práticas sociais de leitura e escrita que circulam socialmente (incluindo-se o conceito de “leitura” de modo ampliado), exigem conhecimentos básicos dos valores sonoros de letras, em inglês.
    De todo modo, cabe lembrar também que, sendo esses “textos” muito apreciados pelas crianças, podem constituir-se em materiais muito atrativos.
    Os kits propostos são apenas uma base para o trabalho. Muitos outros poderão ser confeccionados, a partir do interesse dos alunos, de seu repertório próprio de filmes e animações.
    Para as crianças que não tiveram a oportunidade de assisti-los, um bom começo é propondo fazê-lo. Evidentemente, é preciso refletirmos sobre a discussão – não pouco polêmica – relativa ao valor, à qualidade dessas narrativas e o papel da escola diante da formação ética e estética das crianças.
    Uma citação de Sarmento parece-me apropriada para fechar, brevemente, essa discussão:
    “A colonização do imaginário infantil pelo mercado é um dado da sociedade contemporânea que não se pode ignorar. Mas, do mesmo modo, não se pode também ignorar a resistência a essa colonização, através das interpretações singulares, criativas e frequentemente críticas que as crianças fazem (...), reinvestindo essas interpretações nos seus cotidianos, nos seus jogos e brincadeiras e nas suas interações com os outros. Afinal, todas as colonizações são imperfeitas...”
    (SARMENTO, 2003, p. 16)[2]

    Aguardem! Em breve serão postados aqui alguns dos kits e jogos a partir de narrativas audiovisuais!


    [1] Reflexões retiradas do meu Projeto de Tese: “Clic!...E Era uma vez. Marcas de narrativas visuais na escrita de crianças em contexto escolar”. Perspectivas de autores diversos, citados no referido projeto, são referidas nesse texto.
    [2] SARMENTO, Manoel J. Imaginário e culturas da infância. Cad. Educ. Fae/UFPel, Pelotas (21):51-59, jul./dez. 2003. Disponível em: