Uni, duni, tê, salamê, minguê...

Uni, duni, tê, salamê, minguê...
Materiais a partir de textos da tradição oral

sábado, 18 de setembro de 2010

Palavras Compostas

Oi, Gente, ó eu de novo...
O comentário de Cris ao post anterior me deu vontade de explorar um pouco mais os pequenos poemas de alguns desse livros com letras sugeridos no post. Viu como a interação é importante para eu continuar inventando, propondo, postando? Rsrsrsrs!!!!
Como escrevi em resposta ao comentário dela, de fato, muitos dos poemas de Elias José no livro "O que se vê no abecê", se prestam a fazermos mil extrapolações.
Cris propôs a sua turma o poema da letra Q, na verdade o poema do QU, já que o Q sempre aparece seguido do U na nossa língua, o que, aliás, é uma das boas descobertas das crianças a respeito do que é possível ou não no nosso sistema de escrita. Então, é assim:
"Na quadra ou no quintal,
o quinteto joga queimada
e queda de braço
sem quebrar o braço.
E queremos quebra-cabeça,
quebra-galho, queda-d’água
quebra-luz, quebra-queixo,
e queijo com goibada.”
Depois de ler e explorar o poema e, certamente, alguns de seus aspectos linguísticos, Cris propôs uma exploração das palavras compostas do texto, seus significados, definições. Isso já é bem interessante no sentido de as crianças tentarem, pelas definições das duas palavras em jogo, encontrar a definição da palavra composta, que por vezes tem uma relação mais direta com suas componentes e outras vezes menos. Como quebra-queixo, quebra-cabeça, por exemplo. Tem uma explicação, mas o composto refere-se a um doce e a um jogo. Há uma complexidade maior na definição. Maior ainda em quebra-galho! É uma exploração muito rica!
Ela propôs ainda analisarem outras palavras compostas, que não as do texto, formadas com a palavra "quebra", como quebra-mola, por exemplo, também tentando fazer as crianças expressarem o que achavam que significa.
Buscar essas definições a partir das próprias crianças é bem legal. Pode também, se ninguém acertar, ver o significado e tentar entender a explicação dessa composição. Em quebra-mola, que mola seria mesmo essa? Por que então aquele abaulado na rua chama-se assim? É um rico trabalho de enriquecimento de vocabulário que, explorando as palavras escritas também pode oportunizar a reflexão sobre a escrita.
Não satisfeita, ela propôs ainda que as crianças inventassem e definissem palavras compostas que não existem e conta que um aluno inventou o "quebra-túnel", dizendo que era um desvio para caminhões muito altos que não conseguem para passar pelo túnel! Muito divertido!
Talvez seja interessante depois listar, separadamente, junto com eles, as construções que existem e as que foram inventadas por eles, e ao fazê-lo levá-los a tentarem ir reconhecendo as palavras para decidir em que lista entra. Talvez assim, diante de tantas palavras compostas que não conheciam, atrapalhem menos essas com as que são inventadas. Talvez seja bobagem minha essa ressalva, gosto de invenções, ainda mais das invenções de linguagem de que as crianças são capazes! Mas como estão trabalhando vocabulário, talvez seja uma boa saída... e ainda permite que tenham que ler as palavras para decidir sobre sua lista e relembrar seu uso (inventado ou existente).
Um modo de formarem palavras inventadas é também misturar várias fichas com as palavras que entram na composição de palavras compostas do universo trabalhado, e ir recombinando-as, criando palavras existentes e não existentes. Em todo caso, sai coisas bem engraçadas. O reconhecimento das palavras também está em jogo aí.
Como eu sugeri no comentário, esse trabalho pode se estender também para outras expressões e palavras compostas, como as com "pé" (ex. pé-de-moleque, pé-de-vento), que são muitas na língua. Um livro muito bacana que trás expressões com "pé" é o livro de Elias José, "Sem pé nem cabeça", da Formato.


A canção Pé com Pé, do Palavras Cantada, é muito legal para explorar esses aspectos também, embora não traga prioritariamente palavras compostas, mas expressões idiomáticas.
Ah, só não me perguntem sobre os hífens da nova ortografia. Ainda estou me batendo com eles...

Pé Com PéSandra Peres / Paulo Tatit

Acordei com o pé esquerdo
Calcei meu pé de pato
Chutei o pé da cama
Botei o pé na estrada
Dei um pé de vento
Caiu um pé d'água
Enfiei o pé na lama
Perdi o pé de apoio
Agarrei num pé de planta
Despenquei com pé descaço
Tomei pé da situação
Tava tudo em pé de guerra
Tudo em pé de guerra
Pé com pé, pé com pé, pé com pé
Pé contra pé
Não me leve ao pé da letra
Essa história não tem pé nem cabeça
Vou dar no pé / Pé quente
Pé ante pé / Pé rapado
Samba no pé / Pé na roda
Não dá mais pé / Pé chato
Pegar no pé / Pé de anjo
Beijar o pé / Pé de meia
Manter o pé / Pé de moleque
Passar o pé / Pé de pato
Ponta do pé / pé de chinelo
Bicho de pé / Pé de gente
Fincar o pé / Pé de guerra
De olelha em pé / Pé atrás
Pé contra pé / Pé fora
A pé / Pé frio
Rodapé / Pé
Vejam o vídeo:



As expressões idiomáticas, ou frases feitas, são expressões de uso comum cuja interpretação é captada globalmente, pois se caracterizam por não ser possível identificar seu significado através de suas palavras tomadas de modo isolado, individualmente, nem de seu sentido literal. De tão repetidas, viram uma fórmula pronta para expressar uma idéia e passam a integrar o idioma.
Elas são excelentes para brincar com as palavras, enriquecer o uso da língua, perceber as sutilezas das contruções de significado e ampliar a possibilidade de compreensão de textos diversos, que trazem por vezes essas expressões, tão frequentes nas interações verbais da oralidade.
Por ora é isso. Vou postar outras possibilidades de exploração, do mesmo livro, dessa vez com poemas de outras letras. Da letra R pra começar, tá?
E assim vamos...
Beijos,
Lica

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"Abecedários poéticos"

Bom, minha gente, vamos então às indicações que prometi dos nossos “abecedários poéticos”, tal qual definidos no post anterior. São algumas sugestões. Quem tiver outras, mande!
Como eu sugeri antes, não são abecedários propriamente, mas livros literários que trazem o alfabeto, brincando com as formas gráficas e os sons relacionados às letras. Digo que não são propriamente abecedários, pois embora tenham uma intenção pedagógica também (ou ao menos possam ter um uso pedagógico), os recursos sonoros utilizados não são meros pretextos para o ensino, mas são próprios ao texto poético, sendo um dos aspectos responsáveis pelo prazer que causa a leitura de poesia entre as crianças.
Vamos a eles...

UMA LETRA PUXA A OUTRA, José Paulo Paes, Companhia das Letrinhas, 1993



Começo por esse livro de José Paulo Paes, que é composto por 23 poemas sobre o alfabeto. Cada letra do alfabeto ganha uma quadrinha que explora os fonemas relacionados à letra tratada. O autor propõe assonâncias e aliterações, tal qual trava-línguas. Ex. A quadrinha da letra s, por exemplo, é assim:

"O sapo saltou na sopa
de um sujeito que, sem mais papo,
deu-lhe um sopapo e gritou: - Opa!
não tomo sopa de sapo!".

Em alguns casos, o autor faz jogos de linguagem transformando palavras ressaltando o traço distintivo de uma letra/fonema. Assim acontece com a letra L:

“O L é uma letra louca
e faz a uva andar de luva
transforma a nota mi em 1000
cabra descobrir o Brasil”

Note como é sutil a referência que ele faz a Cabral – Pedro Álvares Cabral – sugerindo a subtração do fonema/letra L na última estrofe. É poesia pura, e de muita qualidade estética.





Esse livro possibilita, a partir dos jogos de linguagem que propõe nos textos, muitas ideias de brincadeiras com as letras, sons, palavras, quadrinhas. É só a gente inventar! A quadrinha do L, por exemplo, permite imaginarmos mil outras possibilidades de composição, decomposição e recomposição de palavras pelo acréscimo, subtração, deslocamento ou substituição de letras/fonemas. No caso de fazê-lo oralmente, têm-se uma ótima atividade de reflexão fonológica e, em presença da escrita, além disso, também permite trabalhar a relação entre letras e fonemas, fundamental para a apropriação do princípio alfabético.

Uma letra puxa a outra ganhou prêmios importantes e o título “Altamente Recomendável” pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ em 1992, na categoria poesia. Recomendadíssimo!


O BATALHÃO DAS LETRAS, Mario Quintana, Ed. Globo



Publicado em 1948, O Batalhão das Letras foi a primeira obra do poeta voltada para o público infantil e se diferenciava de outros livros destinados às crianças na época. Brincando com os versos e de maneira poética e lúdica, o autor apresenta as 26 quadras com as letras do alfabeto, trazendo elementos como brinquedos, brincadeiras e situações diversas, do universo infantil, ora enfatizando as formas gráficas das letras, ora os fonemas a elas correspondentes. Por vezes traz temática menos infantil.

Engraçado é que apesar da preocupação de Quintana com o público leitor, preocupação que aparece também nos sons, ritmos e imagens das quadras, além dos temas, parece que Quintana negou o valor dessa obra, impedindo sua republicação (cf. ZILBERMAN, 1982). Mas, de todo jeito, nos deixou esse abecedário poético que é, ainda hoje, muito rico de possibilidades. Várias foram as edições. Essa da figura acima tem ilustração de Eva Furnari.

*ZILBERMAN, Regina (org). Mário Quintana. São Paulo: Abril Educação, 1982.

PALAVRAS, MUITAS PALAVRAS..., Ruth Rocha, Ed. Quinteto.

Nesse livro, a autora mostra que cada letra do alfabeto é a primeira letra de muitas palavras. Com muita graça e muita rima, todas as letras do alfabeto vem apresentando palavras, seja em trava-línguas, seja em pequenas quadras ou poemas ou apenas listando-as.
"Com B se escreve:
Banana e Bala,
Bigode e Belo,
Barulho e Bule,
Balão e Briga,
Bolacha e Bolo
Boliche e Bola,
Burro e Barriga".
Por vezes ela propõe também, em suas rimas, brincadeiras metalinguísticas, como a do J:
"J com A
faz Já
J com E
faz Jé.
É com J que se escreve
A palavra Jacaré".
Dá para brincar de colecionar palavras várias, com cada letra, em caixinhas e fazer mil coisinhas com elas....
O QUE SE VÊ NO ABÊCÊ, Elias José, Ed. Paulus



Esse eu gosto muito!
São pequenos poemas que trazem cada letra do alfabeto enfatizando seus sons de modo a criar aliterações, assonâncias, sonoridades divertidas e belas imagens.
Traz também um poema, o Abecedando, com todas as letras do alfabeto, mais o ç, ch, cl, lh, nh, rr, ss...diz ele que com todas as letras, reinventa o mundo!
E a colorida e divertida ilustração de Daniel Cabral completa a beleza do livro.



Esse livro não traz poemas apenas com as letras, mas passeia também por questões de ortografia, quando traz poemas para alguns dígrafos, como nh, lh, ch, ss, rr: “Com nh apanho manhas nos sonhos” e “Dona Chica chegou da chácara debaixo da chuva, chinelinho encharcado, encharcado o seu cachorro”. E também encontros consonantais, como cl, e também o ç, dentre outros aspectos. Há poemas que jogam com os mesmos sons escritos por diferentes letras (ç, ss, s), sendo bem interessante, principalmente para as crianças que estão descobrindo ou já compreenderam o princípio alfabético e estão às voltas com a reflexão sobre ortografia.




NO BALANCÊ DO ABC, Elias José, Ed. Paulus


Nesse livro, singelamente ilustrado por Helena Alexandrino, Elias José propõe poemas cheios de humor, um pouco mais compridos, cada um enfatizando uma letra do alfabeto, como se fosse um trava-língua.
Aliás, dá boas ideias para inventarmos novos poemas-trava-línguas. Podemos fazê-los a partir de uma lista de palavras com letras/sons parecidos, por exemplo, combinando-os de modo meio nonsense.
Dá para dar boas risadas!
Exemplo: faca, foca, figo, frito, fio, fisga, fica, fura, frio: “a foca fica no fio/ fisga o figo/ fura a faca: sai do frio/ figo frito!
Aliás, inventar trava-línguas pode ser bem divertido, não só com letras iniciais, como com qualquer som. Por exemplo: a partir de VACA, FACA, MACA, TACA, SACA, MACACA, ressaltando do som intersilábico /-ACA/ podemos inventar “A vaca na saca / saca da faca /e taca na maca/ A louca da vaca / taca a faca na saca da macaca”.
Vixe! Vicia... Ô vício bom!
O ABZ DO ZIRALDO, Ziraldo, Melhoramentos

A Coleção ABZ, de Ziraldo, é composta de 26 livrinhos com pequenas histórias, sendo cada uma sobre uma das letras do alfabeto. Os livros começaram a ser lançados em 1990. Diz o autor que a mãe dele, quando o apresentou às letras, as apresentou assim, para cada uma, uma história. E é isso que ele faz no livro para mostrar como as letras “são coisas vivas, com nome, história e biografia”. Nesses livros, as letras viram personagens, com nome, história e vivem muitas aventuras. Ziraldo brinca com a forma das letras e por vezes também com os seus sons.

Ziraldo traz também, misturadas ao texto, várias referências a outros textos, como trechos de poemas de Drummond, Fernando Pessoa e Mário Quintana, verbetes de enciclopédia, canções de Gil e Vinícius e frases de romances de Gabriel García Márquez. Misturadas às ilustrações, traz pinturas de Miró, Monet e Degas. Um verdadeiro mosaico intertextual! Encontramos lá também curiosidades sobre alguns vocábulos.

Coleção ABZ, Ziraldo


Trecho: "Com essa boca tão grande, maior que a do Lobo Mau, o C, se ele pudesse, comia mesmo de Roma um pé de couve em Macau."

Veja todas as capas e alguns trechos em:
http://www.educacional.com.br/ziraldo/obras/livros_abz/livros_abz.asp



Foi lançado, mais recentemente, um livro de capa dura, O ABZ do Ziraldo, que traz todas essas as histórias em um só volume. Eu gostava dos livrinhos pequenos, mas essa é uma outra opção...

Ah! E agora o ABZ do Ziraldo é também um programa de TV! Já viram?
Tem contação de histórias, entrevistas e outras coisas.
(TV Brasil, transmitido pela TVE na Bahia)


Por ora, é isso, pessoal. Logo vem outras partes desse tema e todas as outras promessas, ok?
Espero que façam proveito!
Lica

P.S. 1: Confiram aqui alguns alfabetos ilustrados de Portugal indicados em um artigo sobre o tema (http://www.slideshare.net/mrvpimenta/midos-alfabetos-ilustrados):
Miúdos Alfabetos Ilustrados

View more documents from mrvpimenta

P.S. 2. Depois desse post, meses depois, já pesquisei e encontrei muuuuuitos outros títulos bacanas, daqui do Brasil e também de Portugal. Aguardem mais indicações e um material sobre alfabetos poéticos!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Abecedários

Algumas palavras...
Finalmente vou começar a postar sobe o tema que prometi. É que ele foi ficando grande, espichado, cheio de inserções. E ainda cresceria mais...aí não dá, né? Num blog! Não dá! Assim, resolvi postar por etapas, ok? Vai a primeira parte, primeiras palavras... e depois vão as outras partes...
Um pouco de história...
Existem e existiram sistemas de escrita diversos, não apenas alfabéticos, e existem alfabetos diversos, embora todos assentados no mesmo princípio de notação fonêmica das línguas faladas. Exemplos:

alfabeto grego e alfabeto cirílico

O sistema alfabético, com seu alfabeto, é um poderoso recurso para representar a língua, seja qual for a complexidade de suas estruturas fonológicas, especialmente porque, para notar explicitamente o máximo de estruturas fonológicas, exige um número muito reduzido de signos. Pouco mais que duas dezenas de letras são necessárias para notar todas as palavras de uma língua. Sabia que o sistema ideográfico chinês tem cerca de 50 mil signos?! Será que dá para aprender todos? Mas só os signos usuais, do dia a dia, chegam a 3 mil! Não dá aqui para falarmos mais sobre isso, mas garanto que estudar a história da escrita é muuuuuuuuito bacana para compreender melhor o nosso sistema e para alfabetizar. Até com as crianças é possível ver um pouco dessa história. O livro de Lia Zatz é bem interessante para começar a pensar nisso.

ideogramas chineses

Embora o sistema alfabético seja um sistema econômico, digamos assim, não temos a ilusão de que seja exclusivamente alfabético, pois não há uma letra para cada fonema numa relação biunívoca. Nem poderia. Mas ele é de base alfabética, fonográfica e essa natureza precisa ser considerada no ensino da leitura e escrita. Nosso sistema é ortográfico e considera também aspectos etimológicos. O princípio alfabético não dá conta, sozinho, da escrita das palavras. Se desse, escrever foneticamente já seria escrever corretamente, o que não é o caso, nem poderia. Ilusão achar que o alfabeto poderia resolver tudo, diante das variedades linguísticas, por exemplo. Não há reforma ortográfica que torne o alfabeto suficiente para escrever corretamente. Como diz Cagliari, o alfabeto foi uma invenção maravilhosa...que não deu certo! E o que o salvou foi a ortografia. E assim ele continua sendo muito funcional.

Recorrendo a fontes que contam a história de escrita e dos métodos de alfabetização, podemos constatar que desde a criação do alfabeto pelos gregos na Antiguidade Clássica (que tomaram emprestado o alfabeto consonantal do sistema de escrita dos fenícios, também resultado de apropriações de sistemas pré-alfabéticos da Antiguidade), surgiu o primeiro método de ensino de leitura (em um sistema que tem como base a fonemização da escrita). Era o método de soletração, também conhecido como método alfabético ou ABC, visto que se inicia pelo ensino das letras e enfatiza os nomes das letras para formar sílabas e soletrar as palavras (e não os seus sons, como no método fônico). Foi um método de ensino muito usado da Idade Média até o início do XX.

Para este ensino, surgiram os primeiros livros destinados à alfabetização, à aprendizagem da leitura e escrita: os abecedários, que são livros com as letras do alfabeto para ensinar a ler. No início, porém, nem eram livros no sentido preciso do termo.

Tabuletas com alfabetos foram, provavelmente, os principais objetos usados para a aprendizagem da leitura da Idade Média. Na Inglaterra, e em suas colônias americanas, utilizavam-se os hornbooks, entre os séculos XV e XVIII. Os hornbooks eram uma espécie de pá com as letras do alfabeto, para segurar pelo cabo, como este da ilustração ao lado. Alguns traziam as maiúsculas e minúsculas, e, por vezes, pequenos textos.

No Brasil, desde o final do século XIX, utilizavam-se as Cartas do ABC, livretos que traziam o alfabeto escrito de várias formas, valorizando a grafia. O método que se concretizava através desta cartilha era o método alfabético, de soletração. As cartilhas de outros métodos (sintéticos ou analíticos), no entanto, traziam também uma parte introdutória, com o alfabeto.

Imagem Cartas da Infância: de autoria anônima, a 1ª. edição das "cartas de ABC" é de 1905. Há, entretanto, indícios de que essa publicação é a introdução do Livro da Infância de Augusto Emílio Zaluar, escritor português radicado no Rio de Janeiro.

Estamos, hoje, muito longe do ensino da leitura pelo método da soletração (o bê-a-bá). O aprendizado das letras – seja de seus nomes e/ou sons – não é mais visto como prévio ao contato com as palavras e textos, descontextualizado e decorado. Não mais se considera tampouco que seja preciso aprender toda a ordem alfabética antes dos tateamentos em direção ao reconhecimento de palavras e à leitura. Hoje já sabemos que aprender as letras não implica em saber como o sistema de escrita funciona e em saber decodificar. As crianças têm muitas ideias sobre a escrita mesmo sem saber todas as letras.

No passado sugiram outros métodos, muito mais eficazes do que a soletração, como os métodos silábicos e fônicos (sintéticos) e os métodos analíticos, que tiveram seu papel e cumpriram a função de alfabetizar considerando os conhecimentos que se tinha no seu tempo. Embora ainda existam e tenham se renovado, hoje já se questiona esses métodos, no sentido de serem prescritivos, reducionistas em relação à complexidade da aprendizagem da língua escrita, baseados em concepções empiristas e associacionistas de ensino e por não considerarem os conhecimentos que hoje dispomos sobre os processos de aprendizagem dos sujeitos. O post da Mafalda, no marcador “Sobre Alfabetização” faz a crítica perfeita. Vejam lá!


Algumas cartilhas utilizadas na primeira metade do século XX no Brasil

Estudar a história do ensino da leitura e escrita, das ideias sobre alfabetização e dos métodos e cartilhas utilizados também é bastante produtivo para futuros professores, especialmente os alfabetizadores, da Educação Infantil ao Ensino Fundamental.
Estudos de diferentes áreas contribuíram para uma mudança de paradigma na alfabetização que hoje se propõe, sejam estudos linguísticos, psicolinguísticos, sociolinguísticos, passando pelas concepções construtivistas e sociointeracionistas e os estudos sobre letramento e consciência fonológica. Na bibliografia indicada na coluna à direita vocês podem ter uma referência básica de estudos nesse sentido.
O ensino da leitura e escrita, entretanto, seja a partir de que método ou concepção for, supõe também o aprendizado das letras, sua forma, seus nomes e sons, ainda que no âmbito de práticas significativas, sociodiscursivas, lúdicas e contextualizadas. Afinal de contas, elas são os signos que notam fonemas da língua falada. Podemos aprender as letras a partir dos nomes próprios dos alunos da classe, por exemplo, ou em contexto de pequenos textos que enfatizam os fonemas e as letras, em práticas lúdicas e poéticas, como as que sugerem os livros que indicarei aqui no blog, na continuação desse post.
Abecedários hoje...se é que os podemos chamar assim...
Dito tudo isso, quero justificar os posts sobre abecedários, que se seguirão a esse, dizendo que esses se tratam de livros que, hoje, dentro de novas concepções de alfabetização, vêm cumprir, ao lado de outros recursos, a tarefa de ensinar as letras e seus sons de forma lúdica, poética, interessante. Já não se trata de decorar as letras e a ordem alfabética, nem de tomar esse aprendizado como mera associação do desenho das letras a seus respectivos nomes ou como ponto de partida do ensino da leitura e escrita. O alfabeto, a categorização gráfica e funcional das letras, a relação entre letras e fonemas exigem a construção de conhecimentos complexos e diversas operações cognitivas.
É preciso, assim, assumir que, como conhecimento social, convencionado que é, essa aprendizagem se faz necessária, no bojo do processo de construção e apropriação gradual do sistema de escrita alfabética. Desloca-se o lugar e o modo da aprendizagem das letras do alfabeto, porém, mantém-se a necessidade de ensinar a quem está em processo de aprendizado da leitura e escrita, os signos utilizados para tal.
O que pretendo trazer para vocês são sugestões de alguns livros ou textos atuais, interessantes, que ora exploram as formas gráficas das letras, ora associam as letras a pequenos textos narrativos ou poéticos e jogos de linguagem, como assonâncias e aliterações. Assim, enfatizam não apenas o aprendizado gráfico, mas a reflexão fonológica em presença do escrito e a apropriação do princípio alfabético, através da relação entre letras e fonemas. Podemos observar em muitas dessas obras, espécies de “cartilhas poéticas”, a qualidade estética e a exploração poética da linguagem, e não simplesmente uma abordagem pedagógica, embora cumpram muito bem também essa função. Os livros sugeridos trazem também ilustrações de qualidade, que enriquecem o texto, tornam o livro ainda mais atraente e contribuem para proporcionar bons momentos de leitura, brincadeira e aprendizagem.
Vamos a eles! Aguardem o próximo post sobre os abecedários!
Bibliografia Básica dos posts sobre abecedários:

CAGLIARI, L.C. MASSINI-CAGLIARI, G. Diante das letras: a escrita na alfabetização. Campinas/SP: Mercado de Letras: ABL, 1999.
HIGOUNET, Charles. História concisa da escrita. São Paulo: Parábola, 2003.
MORAIS, A.G.de; ALBUQUERQUE, Eliana. Borges C. de; LEAL. Telma Ferraz (orgs). Alfabetização: apropriação do sistema de escrita alfabética. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
MORTATTI, Maria do Rosário Longo. Os sentidos da alfabetização (São Paulo: 1876-1994). São Paulo: UNESP; CONPED, 2000.
SOARES, Magda. Alfabetização e literatura. In: REVISTA EDUCAÇÃO: guia da alfabetização. Escrita e leitura: como tornar o ensino significativo. São Paulo: Segmento, CEALE, 2010. n. 2, 90 p. Edição especial.
ZATZ, Lia, A aventura da escrita: história do desenho que virou letra. São Paulo: Moderna, 1991.

sábado, 4 de setembro de 2010

Contador...

Ei, meu povo...
Já estou preparando novos posts, mas termino ficando com preguiça de terminar logo, sem o incentivo de vocês. Comentem, minha gente! Mandem coisas, interajam. É para vocês! É o que me move a querer escrever mais, postar mais, inventar mais! Vocês só ficam aí visitando silenciosamente...e eu sem saber de nada!!! Pôxa!
E vocês meninas que me escrevem por e-mail, fico com pena de algumas experiências relatadas não serem compartilhadas com os outros visitantes. Deixem de timidez!!!
Ó, estou no aguardo, heim?! Tem uns posts fresquinhos, quase prontos, esperando um empurrãozinho de vontade de terminar logo.
E o contador vai contando...
...isso estou vendo!
Lica