Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

terça-feira, 26 de julho de 2011

O que tem nessa venda?

Lince
O que tem nesta venda?
 .
Oi, gente,
Vou mostrar para vocês em breve um jogo que fiz a partir do livro “O que tem nesta venda?”, de Elias José. É da Editora Paulus, Coleção Ler Brincando (antigamente coleção Patati Patatá), e tem ilustrações de Rogério Coelho. Mas antes, vamos falar um pouco do livro e de suas possíveis explorações. Trata-se de um texto poético que propõe brincar com as rimas, com as palavras. Segue o texto abaixo, só para a compreensão do material proposto. Mas indico a leitura com as crianças no próprio livro, mostrando as ilustrações. Além de ser importante o contato com o próprio livro, é legal depois ele poder ser folheado, “relido”, retomado.
 .
O que tem nesta venda?
Elias José

Fui à venda comprar ricota.
Como não tinha, comprei torta.

Fui à venda comprar rabanete.
Como não tinha, comprei sabonete.

Fui à venda comprar leque.
Como não tinha, comprei pé-de-moleque.

Fui à venda comprar chá-mate.
Como não tinha, comprei tomate.

Fui à venda comprar mola.
Como não tinha, comprei cola.

Fui à venda comprar disquete.
Como não tinha, comprei chiclete.

Fui à venda comprar uma bola.
Como não tinha, comprei carambola.

Fui à venda comprar papel.
Como não tinha, comprei pastel.

Fui à venda comprar alho.
Como não tinha, comprei baralho.

Fui à venda comprar repolho.
Como não tinha, comprei molho.

Fui à venda comprar sapato.
Como não tinha, comprei pato.

Fui à venda comprar borracha.
Como não tinha, comprei bolacha.

Fui à venda comprar marmelada.
Como não tinha, comprei torrada.

Fui à venda comprar compasso.
Como não tinha, comprei cadarço.

Fui à venda comprar mala.
Como não tinha, comprei bala.

Fui à venda comprar pandeiro.
Como não tinha, guardei o dinheiro.

Fui à venda comprar apontador.
Como não tinha, comprei grampeador.

Fui à venda comprar caqui.
Como tinha, comprei e comi.

Fui à venda comprar amendoim.
Já está na hora de pôr um fim.

Que a rima não o prenda
Ao falar das compras na venda.
.
O Lince, por sua vez, é um jogo conhecido, da Grow, cujo tabuleiro tem um monte de figuras pequenas espalhadas, que devem ser encontradas pelos jogadores, no caso do jogo original, a partir de pequenas fichas sorteadas, com as mesmas figuras.  Há algumas adaptações no mercado, mas todos mais ou menos nessa mesma linha. 

Originalmente, é um jogo de acuidade e percepção visual, atenção e agilidade. Entretanto, aqui, no contexto da alfabetização, ele foi adaptado para favorecer, além desses desafios, a reflexão fonológica e o reconhecimento de palavras (leitura). 

Entretanto, antes de jogar o jogo do Lince “O que tem nesta venda”, é preciso ter lido o livro, brincado com ele e, por isso, nesse primeiro post vou dar algumas sugestões de exploração do livro e, em seguida, vou fazer o post sobre o jogo Lince “O que tem nesta venda”? com fotos do jogo e a apresentação de suas formas de jogar, certo?

Sugerimos, então, após apresentar o livro, fazer uma primeira lida com boa entonação, levando as crianças a perceberem as sonoridades, e depois uma lida parando na segunda rima, para os alunos completarem oralmente, com a rima que o livro propõe, ou com outras, como palhaço, braço, abraço, para rimar com compasso e cadarço. Assim vão surgindo novas rimas...

Brincar de falar outras rimas, além das do livro é bem interessante, pois, em si, já é uma atividade de reflexão fonológica sobre rimas, como a brincadeira de “lá vai a barca carregadinha de ______ (feijão): agrião, avião, caminhão, sabão, melão, mamão, pão...”. Pode-se fazer isso apenas oralmente e, depois, dependendo do nível do grupo, listar essas palavras sugeridas por escrito, para fazer atividades diversas de reconhecimento de palavras, como reconhecer uma palavra indicada entre todas, agrupar as palavras que rimam, analisar semelhanças e diferenças, dentre outras propostas. 

A rima é uma unidade sonora à qual as crianças são muito sensíveis, desde pequenas. Nessas atividades a criança precisa prestar uma atenção mais deliberada às rimas, constituindo-se em boas atividades de consciência fonológica. A consciência fonológica pode incidir sobre diferentes unidades, rimas, palavras, partes de palavras, sílabas, unidades inter e intrasilábicas e fonemas, quando é então chamada de consciência fonêmica. A rima é a forma mais elementar de consciência fonológica, mas muito interessante para favorecer a familiaridade com a reflexão sobre os sons da língua e, posteriormente, suas representações por escrito. Além disso a rima é matéria da poesia e da linguagem em geral.

A reflexão fonológica favorece a apropriação da leitura na medida em que o nosso sistema de escrita é de base fonológica e as descobertas das sonoridades podem ajudar, em outros contextos, as associações entre sons da língua e os signos da escrita. Através de atividades com poemas, trava-línguas e jogos fonológicos, as crianças vão sendo convidadas a ampliarem suas possibilidades de reflexão fonológica ludicamente, desde rimas a fonemas. 

Quanto ao livro de Elias José, sugiro também a ampliação do texto, oralmente de início, com propostas de outros produtos para a venda. O texto permite essa criação livre, apoiada na estrutura repetitiva dos versos. Dependendo do grupo, pode-se propor depois também a produção escrita (coletiva, com o professor escrevendo no quadro ou individual e em duplas). Assim, poderíamos ter o professor iniciando: “Fui à venda comprar feijão. Como não tinha, comprei _______”. (os alunos completam oralmente com algo que rime com feijão: /ão/). O professor pode listar para si mesmo uma série de rimas que não aparecem no texto para sugerir ao grupo. Por exemplo: /igo/: trigo, umbigo, amigo...; /orte/: sorte, morte, corte, serrote...; /ia/: melancia, pia, alegria; /ento/: cimento, vento, assento, coentro (as rimas podem ser perfeitas ou não, vale também as rimas toantes, em que só se repetem os sons das vogais, não das consoantes, como em “ricota” e “torta”, no livro).

Pode propor também os próprios alunos sugerirem ambas as palavras: “Fui à venda comprar _______. Como não tinha, comprei _______”. Não importa se o “produto” for imaterial, como amor, morte, saúde... Afinal, é poesia, né? Nesse caso, para constarem no Lince, esses produtos têm que ser representados por algum símbolo, combinado no grupo – o que em si é uma boa atividade – como, por exemplo, usar um coração para representar a palavra amor, uma cruz para a morte, um sorriso para a alegria...

A partir das rimas surgidas nessas atividades de produção textual, oral e/ou escrita, pode-se montar outro tabuleiro de Lince – além do original, só com as rimas do livro –, mais amplo, com mais figuras, mais cartas de indicação e mais fichas de palavras, tornando o desafio ainda maior. Desse modo, o texto lúdico-poético do livro, as atividades propostas e os jogos de alfabetização articulam-se ainda mais, ampliando a leitura do livro, sua apreciação, sua fruição estética e literária, o jogo das sonoridades, ao mesmo tempo em que se trabalha a reflexão sobre aspectos do sistema de escrita alfabética. Oralidade, alfabetização, letramento literário... tudo articulado. Não é esse o caminho metodológico que queremos?

É isso, gente!
Aguardem o post do Lince, o jogo ficou bem legal!
Lica


P.S. Como já escrevi os outros posts sobre materiais com esse livro, eis aqui o Lince e aqui outros joguinhos

P.S. Gente, olhem o livrinho bacana que Ana fez com sua turma, a partir do livro de Elias José e com os nomes das crianças: http://www.slideshare.net/AnaLuciaAntunes/livro-o-que-tem-na-venda-do-1-ano

12 comentários:

  1. Lica que coincidência.... Comprei o livro no domingo e não aguentei e li hoje para os alunos...
    Trabalhei com o folheto de supermercado, onde os alunos cortaram os produtos colocaram o nome e calcularam os preços do que eles comprariam...
    Amei as sugestões...
    Obrigada....

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  2. Oi, Lilian,
    Que coincidência mesmo, heim?
    Agora já tem outras dicas de exploração!
    Em breve vou postar o Lince e estou fazendo também um Bingo e um Baralho Fonológico a partir desse livro.
    Bjs,
    Lica

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  3. ui ui ui !!Esperando ansiosamente....minha eterna pró, nosso café ainda ta de pé???
    Bjs
    karina

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  4. Essa Karina é doidinha, mesmo, né?
    Eu tô lembradíssima do nosso café, mulher, pensei até que você tinha se esquecido!
    Por mim, está de pé.
    Um dia sai!!! Rsrsrsrs.
    Pode aguardar que o post será em breve, breve.
    Bjs,
    Lica

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  5. Oi, Lica,
    Achei fantástica a ideia do Lince, estou aqui só imaginando como vai ser.
    E aguardando...
    Um beijão!
    Leila

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  6. Olá, gente!
    O mais interessante e legal desses jogos é que realmente cumprem sua função e ajudam muito o professor! Digo isso porque tenho uma turma de alfabetização com 15 crianças. Estava há 10 anos trabalhando com outras "séries". Acabei descobrindo o blog da Lica, me animei e comecei a montar alguns materiais. Trabalho em Petrópolis e a escola onde trabalho fica onde aconteceu a tragédia de janeiro. Começamos as aulas no dia 21 de março, o que me deixou apreensiva, mas ao mesmo tempo com vontade de colocar meus jogos em ação. Todos os dias as crianças perguntam se “vai ter jogo?”. Eles gostam muito! Um dos que mais usei foi o faltando vogais e no meu grupo quase não percebi o período silábico, graças às reflexões que ele produz. Alguns grupos já têm autonomia e como conhecem as regras, jogam sozinhos. Assim, posso dar atenção especial aos que precisam.
    Atualmente tenho 10 crianças alfabéticas, com muitas questões ortográficas já resolvidas. A leitura deles é fluente. 3 são silábica-alfabéticas e 2 ainda pré-silábicas, sendo que uma delas entrou para a classe em maio. Espero conseguir ajudá-los a avançar em suas hipóteses até o fim do ano.
    Esses jogos, bem como os kits de atividades a partir de livros, funcionam para mim como um professor a mais em sala de aula, um braço direito! Penso que todos os alfabetizadores deveriam conhecer e experimentar, pois certamente irão gostar.

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  7. olá, parabéns
    hoje precisamos de pessoas como você para contribuir na formação academica das crianças
    sílvia ambrogi

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  8. Oi, meninas,
    Já estou preparando o post, Leiloca, pode aguardar.
    Bem vinda, Sílvia! Apareça sempre!
    Ana, muito obrigada por seus comentários, é importante ter o feedback de quem está na sala de aula e também pelo que pode ajudar a incentivar os que estão longe, que não podem vir a uma oficina, a também ir montando os seus acervos com as dicas do blog.
    Valeu, meninas!
    Lica

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  9. Lica,
    Muito interessante o Lince, especialmente o fonológico, mas gosto ainda mais dessa exploração prévia do livro que você sugere. Dá pra ver que você se preocupa em o livro não ser usado apenas como pretexto para trabalhar a alfabetização ou com ele ser inclusive esquecido em favor do jogo. Isso é uma preocupação muito coerente e salutar.
    Parabéns pelo seu trabalho.
    Vou indicar seu blog para minhas alunas de graduação, sou professora de cursos de Pedagogia.
    Um abraço,
    Vânia

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  10. Obrigada, Vânia!
    Tenho essa preocupação sim, de não perdermos a dimensão de pura fruição estética dos poemas e narrativas literárias. Não podemos não usar os textos para aprender sobre a língua, em qualquer nível de ensino, já que queremos uma aprendizagem significativa, contextualizada, no contexto dos usos efetivos da linguagem. Mas também não podemos tornar o texto um mero disparador das outras coisas, pois aí é empobrecê-lo, diminuí-lo, privar os leitores de sua natureza literária.
    Por isso, além de sugerir sempre uma boa exploração prévia do texto, que inclui a fruição estética, proponho atividades, jogos e materiais a partir dos textos, mas que, favoreçam a apropriação do texto, sua apreciação, sua permanência. E, no caso do poema, que permitam durar no poema, durar no encanto, na forma, nas sonoridades...
    É nessa exploração que acredito! Penso ser isso a alfabetização no contexto do letramento literário.
    Espero estar no caminho...
    Um abraço,
    Lica

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  11. Perfeito!
    Com certeza está no caminho.
    Como você mesmo indagou no post: afinal, é o caminho metodológico que buscamos, não e?
    Mais uma vez, parabéns!
    Abraço,
    Vânia

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  12. Obrigada mesmo, Vânia.
    Abçs,
    Lica

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