Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Mais Caixinha de Livros

Bom Dia Todas as Cores


Oi, gente! Como prometido há tempos, mais uma Caixinha de Livros, ou seja, caixinhas com materiais estruturados para alfabetização, a partir de livros de literatura infantil. A primeira Caixinha foi com o livro Bruxa Bruxa, essa é com o livro Bom Dia Todas as Cores, de Ruth Rocha.

O livro, da Editora Quinteto, conta a história de um camaleão que muda de cor de acordo com as opiniões de seus amigos da floresta, até resolver dizer “não” e ficar da cor que ele mais gosta, independente das opiniões. É uma história divertida e bem interessante, seja apenas para fruir, seja para provocar boas discussões.
Uma proposta interessante é relacionar a discussão sobre o camaleão que não sabia (e aprendeu) a dizer “não”, com a ovelhinha Maria do livro Maria-Vai-com-as-Outras, de Sylvia Orthof, que ia sempre com as outras (o rebanho) e também não sabia dizer “não” (mas aprendeu também).
Nos dois livros, os protagonistas descobrem que podem ser eles mesmos, pensar por si mesmos, escolher, fazer o que têm vontade. Em Maria-Vai-com-as-Outras podemos acompanhar o processo de mudança de Maria, suas expressões e reflexões. E em Bom Dia, vibrar com a firme decisão do Camaleão.
A história Bom Dia Todas as Cores traz alguns personagens, os animais da floresta (camaleão, sabiá, sapo, pernilongo, louva-a-deus), e fala de muitas cores, das cores que ele vai mudando, de acordo com a opinião dos amigos da floresta.
Muitas são as possibilidades de exploração do livro. Podemos, depois de ler, explorar os personagens, o que eles fazem na floresta (cada um tem atividades descritas no texto), de que cores gostam e sugerem ao camaleão, treinar suas falas para uma dramatização... Como o camaleão, depois de um tempo, na história, vai mudando de cor sem que a gente saiba exatamente que animal a sugeriu, podemos também imaginar outros diálogos, outras sugestões de animais. Ex. Que animal teria sugerido mudar para roxo? Por quê? Que será que ele fazia na floresta?
Podemos propor também a leitura de um texto informativo sobre essa capacidade dos camaleões de mudança de cor, para compreender melhor para que e como eles fazem isso. Na verdade a razão principal não é a camuflagem, o mimetismo, ou seja, ele não muda de cor de acordo com o ambiente, como outros animais que se camuflam. A camuflagem pode acontecer, mas as cores mudam mesmo é sob influência do humor, da luz, da temperatura e tem um papel importante na comunicação, seja para atrair parceiros ou para repelir inimigos. Suas cores indicam se estão furiosos ou assustados.
Interessante é também ouvir e cantar a canção “Camaleão”, do Palavra Cantada, no CD Mil Pássaros (ver letra abaixo)


CAMALEÃOPalavra Cantada
O camaleão rosa-choque ou rosa-grená
Despertou numa manhã tão cheia de cores no ar
Deu bom dia para a violeta, roxo e lilás
Lavou o seu rosto no orvalho verde a brilhar
Eu visto a cor que eu quero
Se é sol eu sou o amarelo
Subiu pelos galhos da figueira e ficou marrom
Encontrou o vaga-lume aceso e virou néon
Quando ouviu o sabiá cantando já mudou de tom
Qualquer cor que pinte pela frente ele acha bom
Eu visto a cor que eu quero
Se é sol eu sou o amarelo

Nesse CD tem também a narração da história pela própria autora, Ruth Rocha, sendo outra possibilidade de escuta. Para as crianças que já têm certa autonomia de leitura, uma leitura dramática do livro é interessante, cada um ficando com uma fala, inclusive o narrador.

O Kit Caixinha de Livros do livro Bom Dia Todas as Cores constitui-se dos nomes das cores que aparecem na história (podemos incluir também as cores que aparecem na canção) e o nome dos personagens. Para as crianças em processo de alfabetização, a leitura de palavras do texto – o nome dos personagens e das cores – pode se constituir em uma boa situação de reflexão e leitura quando ainda não se sabe ler e também de leitura e escrita para aqueles que estão começando a dominar o funcionamento do sistema alfabético.
Na Caixinha, os personagens aparecem como palavras inteiras, segmentadas em sílabas e em letras móveis. As cores aparecem em palavras inteiras (mas podemos também apresentar segmentadas).
As palavras inteiras podem servir para apoiar o reconto da história, quando organizadas em listas. Essa é uma atividade rica de leitura de palavras em uma lista que apóia o reconto e a reescrita, que são atividades de letramento. Essa atividade de apoio ao reconto propicia a leitura como busca de informação, apoio à memória numa situação em que essa leitura se faz necessária. Os personagens podem também ser associados às cores que eles sugeriram ao camaleão, para ajudar o reconto e/ou reescrita. Para ler o personagem e a cor que se segue na história, as crianças terão que contar com a memória e usar indícios das palavras para ler sem saber ainda ler de fato.
Para as crianças que ainda não leem nem escrevem convencionalmente com autonomia, mas que já relacionam segmentos orais e escritos, encontrar uma palavra inteira, indicada pelo professor, dentre todas disponíveis, constitui-se em uma boa atividade de leitura, de investigação, reflexão, reconhecimento, usos de estratégias e conhecimentos disponíveis, de busca de indícios para ler sem saber ainda ler.

As palavras segmentadas em letras permitem algumas atividades de escrita (montagem). As crianças podem montar de acordo com indicações da professora, considerando o domínio que têm de leitura e escrita. Os que já têm certo domínio podem montar sozinhos. A montagem das palavras segmentadas em letras constituirá, para os que têm hipótese alfabética, um desafio de ortografia. Para os que têm uma hipótese silábico-alfabética também se constitui em um bom desafio, ajudando a ganharem mais firmeza na compreensão do funcionamento do sistema alfabético.
Os que ainda não lêem nem escrevem convencionalmente com autonomia, podem montá-las de acordo com suas hipóteses, comparar propostas, ou ainda usar a palavra inteira como referência, como modelo presente, para encontrar as letras e recompor as palavras.
As palavras segmentadas em sílabas permitem a montagem chamando a atenção para segmentos maiores que as letras, podendo ser proposta a crianças que ainda teriam dificuldade de montar palavras letra por letra, mas que podem reconhecer e juntar sílabas para compor palavras.
O Kit está sendo enriquecido no momento, para ganhar novos elementos. Ele vai passar a contar ainda com fichas com as cores que aparecem na história, para que as crianças possam associar o nome escrito da cor à cor da ficha, também buscando reconhecer as palavras por indícios diversos. Fichas com os personagens da história também estão sendo confeccionadas, com o mesmo propósito de associarem os seus nomes a suas figuras.

A caixinha Bom Dia Todas as Cores deve ser, evidentemente, bem colorida!!! Como gostaria de ser um camaleão, ao menos o nosso amigo camaleão, apesar de ele gostar mais mesmo é do cor de rosa!
É isso, a quem me pediu o post sobre esse livro e essa caixinha, e aos demais, bom proveito!
Lica

12 comentários:

  1. Meu Deussss!!!!!!!! Nem acredito....
    Ohhhh Lica, muitissimo obrigada!!!
    Farei uso de suas ideias com certeza. Nossa veio no momento certo. Estou trabalhando com o livro O pássaro sem cor, que também trata de cores... farei ligações entre eles. Vai ser ótimo!!

    Com aquele aluno que ainda não consegue identicar as letras, pensei em fazer um alfabeto das cores: A de azul, B de branco... Que acha??? É uma maneira não é???

    Querida..... Deus te abençõe

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  2. Oi, Renata! Que bom! Tá vendo, uma coisa vai puxando a outra, por isso sempre faço questão de dizer que só indico algumas sugestões possíveis. Muitas outras podem ser inventadas! Mande dizer depois como foi.
    É legal a ideia do alfabeto das cores, só não vão ter cores para todas as letras, né? Pode também pedir que arrume as cores pela letra inicial (e aí você entrega fichas com todas as cores que imaginar): azul e amarelo para um lado, verde, vermelho, vinho para o outro...e assim por diante. Ou até, depois, quando ele avançar mais e já puder associar sons às letras, dar fichas com as cores (pintadas mesmo) e cartões com as letras, para que ele arrume as cores pela letra inicial delas. Ex. Junta o cartão amarelo e o azul com o cartão com a letra A.
    Renata, fico feliz de ver que você está ligada, participando, e sempre tão gentil e carinhosa.
    Obrigada também,
    Lica

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  3. Meu nome é Ana e sou professora há alguns bons anos. Na maioor parte do tempo trabalhei com séries mais adiantadas mas sempre pesquisei sobre alfabetização, assunto que sempre me fascina. Em 2011, volto a trabalhar com o primeiro ano e estou muito entusiasmada. Gostaria de pedir, além desses que aparecem no blog, que lista de livros são indicados para o trabalho inicial de alfabetização? Sei que todos podem ser de alguma forma aproveitados, mas, quais os que vc indicaria?
    Grata
    Ana

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  4. Oi, Ana,
    Tudo bem?
    Repare...tudo depende do que você está pensando em propor com os livros. Livros para ler para as crianças são muitos, narrativas, poesias. Muitas possibilidades. E nessa seleção, deve ser considerado não apenas os bons títulos como também os interesses daquela turma específica. Viu o comentário do professor que me pediu indicação de livros de terror? Pois é...
    Se são livros para também trabalhar os aspectos relacionados ao sistema, aí temos duas possibilidades. Ou livros em geral, bacanas, que possam possibilitar propor atividades de alfabetização a partir deles - como no caso do que sugiro nas Caixinhas de Livros. Ou livros para a leitura autônoma das crianças, apropriados para esse momento inicial. E esses, sim, devem ser escolhidos com mais critérios.
    Como você não especificou, fiquei meio em dúvida.
    Eu estava preparando um post sobre isso, na sequência do post sobre os abecedários/livros de alfabeto, mas parei por causa do corre corre. Se puder esperar um pouco, prometo postar. Estou viajando e volto lá para meados de janeiro.
    Dê mais detalhes do que quer que eu mando alguns títulos.
    Um abraço,
    Lica

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  5. Lica, obrigada pela resposta. Vou ficar aguardando suas novas surpresas. Depois do seu texto cairam as minhas fichas!!!!! Realmente os livros dependem da minha intenção. Ou seja, são muitas possibilidades. O que vem em minha mente é o medo de perder tantas oportunidades no meio de tantas possibilidades! Não sei se me fiz entender. São tantas opções que o professor pode se perder dentro delas. Como não encontrei muitos blogs interessantes, quase não utilizo essa ferramenta na net, mas, mexendo aqui e ali no seu, encontrei os kits de livros e fiquei encantada com as idéias. Concordo plenamente com você de que o trabalho deve iniciar-se com o nome dos alunos. Gostaria de uma opinião sua. Dentro da rotina semanal, o que não pode faltar? Sei que a leitura de gêneros variados deve ser diária. Sendo assim, o trabalho com um livro especificamente seria diário, explorando todas as possibilidades e só então partir para outro, variando o gênero? E ainda, abusando da boa vontade, observei alguns jogos onde há a presença de sílabas. Sabemos que a questão fonológica está presente no nosso sistema de escrita (que muitos insistem em não levar em conta), e que talvez seja esse um dos motivos do fracasso (se é assim que podemos dizer),de uma metodologia que privilegia o conhecimento da criança. A minha pergunta é:qual o momento exato de levar a criança a pensar na sílaba? Quando sai do período pré-silábico e está no período silábico?
    Agradeço pelo interesse. Um abraço
    Ana

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  6. Oi, Ana, fico muito contente com a sua participação e com podermos trocar ideias.
    Você mesma já respondeu...não pode faltar leitura. No mais, o planejamento depende muito do grupo, de como estão, cada um e como grupo, para poder avaliarmos o que e quanto, tanto em termos de letramento, quanto de apropriação do sistema alfabético. Muito importante também são as atividades de reflexão fonológica.
    Quanto às sílabas, nem devemos tomá-las como a rainha da alfabetização, nem demonizá-la como fazem algumas perspectivas. A segmentação silábica (oralmente) é tão natural em nossa língua que, por isso mesmo, o método silábico de alfabetização teve tanta aceitação por tanto tempo. A emissão das palavras se dá de forma co-articulada e, por isso, sempre falamos os fonemas consonantais articulados com os vocálicos. Por isso também o fonema é uma unidade tão mais abstrata e mais difícil de ser percebida. Tão natural, então, é as crianças passarem por uma etapa silábica!
    Tudo isso pra dizer, respondendo a sua pergunta, que o que importa mesmo é, oralmente, propor atividades que tornem observáveis para as crianças diversas segmentações sonoras simultaneamente, sem gradação rígida: fonêmica, silábica, inter e intrasilábica... Por exemplo, ficamos tão presos à sílaba que esquecemos de brincar com unidades maiores, como por exemplo, -ola em bola, cola, escola, mola. Não é sílaba, é maior que a sílaba (intersilábica) e permite, em atividades com a escrita presente, perceber que escrevem do mesmo modo no final. Bem como trator, trilho, trem, treco, tromba, truque...que tem -tr, que menor que a sílaba como unidade comum (intersilábica). Dá pra fazer tantos jogos orais bacanas! Tem tanta poesia e parlenda e travalíngua que permite brincar...Ou seja, sílabas, fonemas, rimas, aliterações, partes de palavras, assonâncias, tudo isso constitui em material riquíssimo para explorar, em presença da escrita ou não.
    Nessa perspectiva, não há isso de "a hora de apresentar a sílaba". Certo é que crianças que estão na fase inicial da hipótese silábica ainda vão ficar confusas com a ideia da sílaba escrita com mais de uma letra, é aos poucos que vão vendo que uma só não dá conta. Mas nosso papel é, cuidando para deixá-las se mover em sua hipótese, fazer provocações para que vão percebendo que "o buraco é mais embaixo, não é?
    E lembre-se: uma coisa são as atividades de segmentação e composição oral, dentro de atividades lúdicas, poéticas, de jogos de linguagem, outra são tais atividades em presença da escrita, que exige um outro esforço das crianças.
    Ana, não se perca em tantas possibilidades, não, viu? Se ache!!!!
    Bom, por ora é isso,
    Vamos trocando,
    Bjs,
    Lica

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  7. Oi Lica, então, pelo que entendi, o certo é trabalhar em todos os momentos com os textos variados (aqueles que mais se ajustam a necessidade),variando também a estratégia( oral, escrito...), com todas as crianças, ajudando a cada uma de acordo com o estágio em que se encontra, intervindo, fazendo perguntas pertinentes para conduzir seu raciocínio em busca de uma escrita convencional?
    Grata. Um abraço Ana.
    PS: Gostaria de elogiar seu trabalho e também de agradecer por perder seu pouco tempo compartilhando seu saber. Saiba que a multiplicação desses saberes faz muito bem a mim, a você, mas, principalmente a educação.Parabéns!

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  8. Obrigada, Ana, fico bem feliz com suas palavras.
    Compartilhar o saber, acho, é o que é - ou deveria ser - o mais genuíno papel de um educador. E é isso que eu sou.
    Quanto ao trabalho, você percebe bem o espírito da coisa.
    Volte sempre!
    Lica

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  9. Lica, seu blog fica cada vez mais rico de ideias maravilhosas. Visitei hoje e fiquei encantada. Breve mandarei o meu Kit do livro "O grúfalo "e "o filho do Grúfalo", estou terminando e vou te mostrar lá na Via Magia.
    Estou em Salvador. um abraço com carinho,
    TElma Maria

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    Respostas
    1. Oie já publicou o Grufalo eo filho dele??

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  10. Oi, Telma!!!
    Estás de volta!
    Mande mesmo pra eu ver. Fiquei curiosa!
    Bom saber que você está continuando a sua produção de materiais.
    Nos vemos em breve,
    Bjs,
    Lica

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  11. Oi, Clair,
    Você se refere a postar sobre a caixinha de livros do Grúfalo? Pois é, essa é uma caixinha que ainda não fiz. Tenho umas ideias, esbocei algumas possibilidades, mas como queria fazer um jogo de trilhas (ou, ao menos, também um jogo de trilhas) e jogo de trilhas é mais complicado, terminou ficando só como projeto. Mas um dia sai! Com certeza!!!
    Lica

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