Uni, duni, tê, salamê, minguê...

Uni, duni, tê, salamê, minguê...
Materiais a partir de textos da tradição oral

domingo, 13 de abril de 2014

Leitura e Escrita na Educação Infantil

Só para registrar, posto aqui a palestra que dei para o Fórum Baiano de Educação Infantil, sobre a leitura e a escrita nesse segmento. O momento é muito oportuno para essa discussão, já que com a Entrada da Educação Infantil no sistema de ensino, juntamente com as metas governamentais de alfabetização até os 8 anos (ou 6...essa seria outra discussão...) - ações muito positivas para a educação de nossas crianças - podemos também vislumbrar efeitos negativos dessa junção de ações.
 
Se não houver clareza sobre o trabalho com a leitura e escrita na Educação Infantil, corremos o risco de retomar práticas preparatórias exaustivas ou adiantar práticas do 1º ano do Ensino Fundamental, ferindo concepções de educação dos pequenos e princípios conquistados no trabalho com esse segmento, como a importância do brincar como cultura da infância e modo próprio de aprenderem.
 
Esse é o momento de discutirmos sobre como apresentar, de modo intencional, planejado, a cultura escrita para as crianças pequenas,  como uma prática sociocultural e objeto de conhecimento que lhes dizem respeito também, considerando, no entanto, seus modos de aprender, de construir os conhecimentos e as especificidades da Educação Infantil.
 
 
Abordando concepções e práticas, passeamos pela literatura, os gêneros textuais, a reflexão fonológica, as brincadeiras com a poesia oral, enfatizando o trabalho tanto em termos do letramento, do acesso à cultura escrita, quanto em relação à apropriação gradual do sistema de notação da língua. Acho que a conversa foi boa e espero poder continuar contribuindo com o debate!
 
É isso, minha gente!
Lica

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Facebook

Gente!
Como esse ano atípico não tem me permitido estar tão presente no blog, para os que ainda não foram lá, vão e curtam a página do blog no Facebook, na qual tem dado para ser mais assídua ao menos para algumas dicas, já que lá é tudo mais vapt vupt!


Beijos,
Lica

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Defesa de Tese

Gente, estou sumidíssima, mas é por uma boa causa.
Finalmente saiu a tese e a defesa já está marcada!
Ainda terei um resto de ano pesado, mas aos poucos vou retomando o blog, as oficinas, os materiais.

 A pesquisa procura tornar observáveis os modos de apropriação de elementos de narrativas verbovisuais – quadrinhos, mangás, desenhos animados, filmes e games – nas histórias escritas por crianças e discutir sobre suas implicações para o ensino da escrita. As marcas de relações intertextuais diversas e de intercâmbios entre as diferentes linguagens revelaram procedimentos astutos e, ao mesmo tempo, a construção de habilidades da criança em dar conta da textualidade própria à escrita, diferente de quando se tem o apoio no visual.

Quando a versão digital estiver disponível no Repositório da Universidade, disponibilizo o link, ok?

Muito obrigada pela paciência de vocês, e não desistam de mim!
Um abraço,
Lica

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Publicação

Oi, gente!

Ando sumida, muito trabalho, reta final de redação da Tese para defesa lá para setembro. Por isso os posts estão rareados e só no Face de vez em quando aparece uma notícia...

Mas logo que essa correria acabar, volto ao blog com força total!

Escrevo hoje para divulgar o lançamento de uma publicação sobre Educação Infantil, que conta com um artigo meu. A publicação, contendo artigos de vários pesquisadores e professores, é intitulada "Estudos e Passagens do Proinfantil na Bahia". 


O meu artigo intitula-se "Tá iquito aqui! Eventos de letramento e as práticas de leitura e escrita antes da alfabetização". 

Esse é um artigo que escrevi já faz um tempo, um pouco depois da apresentação que fiz sobre eventos de letramento no SIEPE de 2010, que está postado aqui. Ele segue essa ideia de discutir sobre o tema a partir de eventos de letramento efetivamente vividos por meu filho Joaquim, minha enteada Dora e algumas outras crianças. Daí o "Tá iquito aqui", frase que ouvi muito de um e de outro e que agora ilustra e ilumina o título de minhas reflexões.

Em breve verei como disponibilizar o artigo digitalmente, ok?

Um abraço,
Lica


Referência completa: ARAUJO, L. C. . Tá iquito aqui! Eventos de letramento e as práticas de leitura e escrita antes da alfabetização. In: Mary de Andrade Arapiraca; Lícia Maria Freire Beltrão; Cleverson Suzart Silva. (Org.). Estudos e passagens do Proinfantil na Bahia. 01ed. Salvador: EDUFBA, 2012, p. 49-64.

domingo, 14 de abril de 2013

O Canto do Galo


Oi, gente!
Vou contar hoje um pouquinho sobre um pequeno material que surgiu - como o Jogo do SIM e do NÃO - de uma brincadeira com as palavras inventada por Joaquim, meu filho.

Em 2012, no contexto do projeto que culmina na Feira de Livros da escola, cujo gênero explorado foi a poesia, Joaquim apreciou muitos poemas, seja na escola ou em casa, e foi  aprendendo sobre esse gênero que brinca com as palavras, as sonoridades, seus sentidos e nonsenses, que traz um caráter lúdico, com suas metáforas, sua graça, seu riso ou encantamento... 

Como eu trabalho na escola e sou uma das responsáveis por esse projeto da Feira de Livros (cuido da área de Leitura, Escrita e Oralidade na escola...e Matemática também!), eu estava muito envolvida na produção de oficinas para os professores, indicação de livros, poemas, organização de materiais e propostas, bem como orientação aos professores quanto à produção de poemas pelas crianças (e Joaquim percebia isso). Assim, também para me agradar e fazermos coisinhas juntos, ele investiu muito nessa onda poética que tomou conta de nosso dia a dia. 

Ele também memorizou alguns, que recitava com muito gosto!

Eu lhe apresentei os poemas de Sérgio Capparelli, autor de que gosto muito, e desse autor, ele memorizou alguns pequenos poemas. Outros, maiores, ele recitava junto com a minha leitura, dizendo as passagens que lembrava, enfatizando rimas, respondendo, quando a estrutura do poema era de perguntas e respostas, ou recitando junto comigo quando a estrutura repetitiva permitia essa declamação compartilhada. 

Os que ele mais gostava, desse autor, eram "Minha cama", "Guaraná com canudinho" e "Relâmpago". Todos esses poemas estão na antologia de poemas do autor, intitulada "111 poemas para crianças", da LP&M, que dei pro pai de Joaquim há muito muito tempo atrás, ressaltando o poema "As sardas de Dora", em homenagem (minha) a sua filhota. 

Joaquim costumava recitar os poemas em casa, no carro, em qualquer lugar, orgulhoso que estava, tanto de sua memória quanto de estar fazendo parte dessa grande movimentação coletiva em torno da poesia na escola. Ele se interessou de verdade! 

Dois dos poemas curtinhos que Joaquim memorizou, "Cores" e "Manhã", viraram jogos orais muito interessantes, completamente criados por ele. E de um deles, fizemos um kit para brincar também com o poema escrito. É desses jogos orais e escrito que vou falar para vocês agora.

Manhã

O Canto
Do galo
Abre as cortinas
Do dia

Cores

No fim do dia, cansadas,
As borboletas penduram as asas,
Pra não amarrotar as cores.

Um dia, indo para a escola, ele começou a recitar o poema Manhã e, logo em seguida, começou a propositadamente trocar palavras de lugar no poema, criando efeitos de sentido interessantes, engraçados e, por vezes, nonsense. Rimos muito e eu também contribui com algumas sugestões. 

"O canto do galo abre as cortinas do dia" virou, para Joaquim, "O canto do galo abre a cortina do dia", no singular. Não teve jeito de ele consertar... Mas, no fim, isso facilitou o jogo de palavras que inventou... com a licença de Capparelli. Licença, viu, Capparelli? 

Olhem as novas frases que surgiram dessa brincadeira e vejam que interessante, ainda mais inventada por uma criança de 5 anos!:

O canto da cortina abre o dia do galo
O dia do galo abre o canto da cortina
O canto do dia abre a cortina do galo
A cortina do galo abre o canto do dia
O galo do dia abre a cortina do canto

Tudo isso só trocando, oralmente, as palavras de lugar. Gente, achei isso que ele inventou  fantástico! Decompondo e recompondo o poema, trocando as palavras de lugar na frase, ele descobriu uma brincadeira muito bacana com os sentidos, além de ser uma ótima brincadeira metalinguística com frases e palavras. Sem saber, ele brinca aí, inclusive, com o eixo paradigmático da frase - como diriam os linguistas - que é o eixo das possibilidades, das relações virtuais entre unidades da frase que são comutáveis por outras, ausentes na frase, mas possíveis (ex. Em "Eu como banana", posso trocar banana por maçã, feijão, ou trocar o verbo conjugado "como" por amo, detesto...). 

Pois bem, vejam que coisa, né? Nesse caso ele trocou as próprias palavras da frase de lugar,  cambiando os possíveis nesse eixo paradigmático, experimentando os sentidos engraçados que isso originava. E, como bom conhecedor intuitivo da estrutura de sua língua, só trocava determinadas palavras, não todas... Trocava os substantivos entre si, que por sinal, por vezes mudavam de sentido: em "o canto do galo", canto é canto, substantivo relacionado ao verbo cantar. Já em "o canto da cortina" ele pensou no canto mesmo, na junta, na esquina da cortina, no cantinho dela, ponto de encontro entre duas retas, ainda que retas de tecido esvoaçante. Fantástico! Joaquim brincou de lego com as palavras, diriam os mais poéticos!

E toda essa multiplicação de sentidos que a brincadeira proporcionou certamente o fez se apropriar ainda mais da versão original, já que dizia coisas lindas sobre as imagens poéticas que estavam ali postas, como o que seria abrir as cortinas - ou a cortina -do dia... 

Como poema não é para ser interpretado ao pé da letra, nem é caso de impor um único modo de interpretá-lo, deixei voar a polissemia das imagens poéticas e, por dias, ele voou longe. E bem perto da simplicidade complexa do poema...:

- Mãe, quando abre a cortina, fica claro, não é? Então... Abre a cortina para ficar de manhã e fecha para ficar de noite. E a culpa é do galo!

Depois que tomou gosto, ele começou a fazer a mesma brincadeira com o poema Cores, ainda que nesse poema as trocas fossem mais complexas e as possibilidades, menores. Assim, surgiram coisas como:

No fim do dia, cansadas,
As borboletas penduram as cores,
Pra não amarrotar as asas.

No fim do dia, cansadas,
As borboletas amarrotam as asas,
Pra não pendurar as cores.

No fim do dia, cansadas,
As asas penduram as cores
Pra não amarrotar as borboletas.

E assim ia ele, inventando... e eu gostando e entrando na brincadeira também. Inventamos muitos jeitos de dizer o poema. É gostoso, experimentem!

Depois de toda essa exploração oral, resolvemos fazer um fatiado do poema Manhã. Na verdade, brincar com o fatiado foi um jeito que pensei para contar essa história nossa no Sarau do UQT, grupo do qual faço parte. No fim, lá ele nem quis fazer comigo, tímido que é, mas sem a plateia, em casa, brincamos muito. Como ele sabia o texto de cor, íamos montando a partir do reconhecimento que ele ia fazendo das palavras, ajustando o oral e o escrito, ajudado também por minhas intervenções, questionamentos. Agora ele brincava de lego com palavras escritas, como tijolinhos de som e sentido que ia juntando, separando, recombinado. Foi muito legal!

No início não tinha me ocorrido fazer o fatiado, mas depois caiu a ficha, e daria muito certo, especialmente se mantivéssemos "a cortina" no singular... Essa adaptação era importante na escrita, para não ter que fazer mais fichas com artigos e preposições para encaixar com cortinas a cada vez que a trocássemos de lugar, nem o verbo "abre" precisaria ter a versão "abrem", para o mesmo fim. Ia ser mais complicado. Como esse singular já foi incorporado na brincadeira oral, achei que era tudo bem mantê-lo no fatiado. Capparelli que nos perdoe.

E o fatiado ficou assim:

E recombinando de outros jeitos...


Bom, é isso, gente. Esse foi o relato de outra experiência lúdica de Joaquim com as palavras, frutos de nossas interações em torno da linguagem oral e escrita.

E não esqueçam, no poema original são as cortinas, metáfora da manhã, que são abertas pelo canto do galo... no plural, heim?
Lica



sexta-feira, 15 de março de 2013

Festa das Letras


Gente,
Meu pequeno Joaquim - já não mais tão pequeno - fez 6 anos... está na Alfabetização - no primeiro ano! E como agora a escrita e a leitura fazem festa lá em casa, considero importante registrar aqui o seu aniversário, que foi , justamente, a Festa das Letras! 

Eis o convite, onde escrevi o nome de cada convidado no quadrinho em branco. Vi essa ideia de convite uma vez num site ao pesquisar um pouco para fazer essa festa.


A festa foi na escola, tinha tudo a ver fazê-la lá, com seus colegas que estão no mesmo barco, nessa aventura com as letras. Como isso é assunto de alfabetização, e como para uma mãe que trabalha com isso esse é um momento especial, registro aqui no blog o que vivenciamos para essa comemoração dupla: do nascimento e do início formal do processo de alfabetização. Digo formal porque as crianças não esperam datas nem autorizações para aprender e a pensar na escrita - nem em nada -, não é? Assim, pensar em letras, sons, palavras, textos e tudo o mais, são eventos constantes no dia a dia de Joaquim, desde muito tempo, muitos desses eventos registrados em um caderninho que intitulei "Eventos de Letramento do Joaquim", e que tem pérolas desse processo. Já virou até artigo,  que já foi publicado, e em breve vou ver como disponibilizo para vocês.

Bom, voltando ao aniversário, na onda da animação para aprender a ler, tivemos essa ideia da Festa das Letras juntos, já faz algum tempo, e ele nunca esqueceu, sempre falava... Já é praxe na nossa família, e sabido pelos amigos e colegas, que os aniversários de Joaquim sejam sempre assim inventados, diferentes e home made mesmo, "feito-em-casa", como se diz. Já fizemos por exemplo um grito de carnaval a fantasia, muito legal, e a Festa dos Monstros, no ano passado, que foi show de bola, com aqueles monstrinhos de pano que fiz de lembrancinha e que até hoje os amigos têm como naninha para abraçar na hora de dormir. Um dia eu mostro!

Assim, desde algum tempo já animado com a ideia da Festa das Letras, Joaquim sugeriu algumas coisas para a festa, como jogar bingo de letras no dia, fazer biscoitinhos de letras para a lembrancinha, colocar letras no bolo. Assim fizemos. A ideia era fazer as letras dos nomes de cada criança e cada uma ganhar seu saquinho com suas letras para se deliciar. Mas delícia também foi a preparação.Como não achei cortadores médios, fizemos  biscoitinhos e biscoitões: os nomes inteiros de biscoitinhos de letras e a letra inicial grande. 

Biscoitinhos sendo feitos, 4 tipos de massa, normal, integral, polvilho e chocolate:





E os biscoitinhos prontos:

A vez dos biscoitões, em massa e assadinhos, de polvilho e de chocolate:

Foi um trabalhão para concretizar essa ideia de Joaquim, que certamente veio de nossas outras investidas em fazer biscoitos em casa. Já teve até de lembrancinha, uma vez, biscoitos que iam com a receitinha digitada em um papel de caderno,  imitando até as manchinhas de cozinha, gordura e farinha. Pois ele deve ter juntado isso com as a ideia das letras e tchanram! 

Para o toque final, inventei mais uma coisa: Joaquim escreveu, em cada inicial grande, o nome dos colegas com canetinha comestível. Ou ele olhava numa lista e copiava, ou eu dizia as letras e ele escrevia. 


A essas ideias dele - os biscoitos e o bingo - eu juntei outras, como o Caça-palavras com o nome dos convidados no verso do convite e o poeminha das letras iniciais de cada um, que foi nos saquinhos de biscoito (todas dos livros O Batalhão das Letras, de Mario Quintana, ou de Uma letra puxa a outra, de José Paulo Paes). A preparação foi trabalhosa, mas muito divertida!



Aliás, os poeminhas também foram para a decoração, junto com uma versão maior do Caça-palavras, com as respostas, para todos que não acharam seus nomes poderem achar. A professora ficou de depois ler com eles e continuar a brincadeira.


Uma letra puxa a outra e era letra para todo lado! Na mesa, letras de e.v.a e dados de letras se misturavam às comidinhas. Na foto, a mesa ainda em arrumação. E no bolo - ah, o bolo ficou como gosto, simples e bonito - coloquei balas de gelatina de letras Fini e ficou bem colorido. Vejam:



Depois dos parabéns, dos abraços contagiantes, dos presentes e das lembrancinhas, propomos as mesas de jogos e jogamos variações do bingo, todos do meu acervo. As crianças se dividiram em três grupos, cada um com um adulto ajudando e "cantando" as letras. Uma animação só! 

Um deles era um Bingo de Letras normal, só de identificação das letras.


Mas jogamos também o Bingo de Letras-Palavras, em que as letras formam palavras, embora a criança só tenha mesmo que procurar em sua cartela a letra que foi "cantada". Nesse caso, há várias letras repetidas na cartela, e têm que marcar todas. Esse jogo tem uma variação mais desafiante, para adiante, como vocês podem ver mais abaixo. 


Por fim, jogamos também o 4 Cartelas, que é como um bingo, com as letras de uma palavra na cartela, mas só que cada jogador só pega uma palavra de cada vez. Também nesse caso jogamos a versão do jogo que solicita das crianças apenas o reconhecimento das letras "cantadas". 


Esse jogo também tem uma versão mais desafiante, em que as crianças têm que imaginar a palavra escrita, pois em vez de ter as letras nas fichas, tem os quadradinhos vazios, apenas a figura é indicada. E em vez de marcar com feijões ou outro marcador qualquer, têm que preencher os quadrinhos, cujas letras foram "cantadas", com fichas de letras. O desafio aí é para os que têm hipóteses de escrita alfabética ou silábico-alfabética. Vejam as duas versões abaixo:


A outra versão do Bingo de Letras-Palavras tem no mesmo princípio, as crianças têm que colocar as fichas de letras nos quadradinhos correspondentes à medida que as letras são "cantadas" e, para isso, precisam ir pensando em como se escreve aquela palavra, representada na cartela apenas pela figura. 

Para esses dois jogos, o interessante é poder ter as crianças de uma mesma sala jogando o mesmo jogo, só que com desafios diferentes, de acordo com o domínio da leitura e escrita de cada uma. E heterogeneidade na sala de aula é o que não falta, não é? Salas homogêneas não existem! 

Enfim, gente, a festa foi simples, mas muito legal. Espero que tenha sido uma "cosquinha" em cada uma das crianças, para se aventurarem com gosto na aventura da escrita.

Meu pequeno - já não tão pequeno - está muito animado!
Beijos,
Lica

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Sobre os materiais deste blog

Esse é um texto mais atualizado sobre os materiais apresentados nesse blog, a partir de um dos primeiros posts que fiz. É um texto que dá uma ideia geral dos materiais do acervo e ajuda a organizar em blocos os jogos e materiais que vão sendo postados, considerando sua natureza.

Os jogos, materiais, atividades, dicas e as oficinas apresentados nesse blog destinam-se a todos que se interessam por alfabetização e que buscam ampliar seu repertório de propostas didáticas fundadas em firmes concepções de aprendizagem e ensino da língua escrita.

Enfatiza-se aqui a perspectiva de aprendizagem do sistema de escrita em contexto de letramento, por um lado, e a especificidade do processo de aprendizagem do sistema alfabético, por outro, confluindo para o que Magda Soares chama de "Reinventando a Alfabetização", ou seja, o trabalho específico com o sistema de escrita, com a identificação das palavras, sem perder de vista o eixo relativo à construção do sentidos na leitura e o contexto mais amplo relativo à cultura escrita. 

As atividades propostas a partir dos materiais apresentados focalizam a aprendizagem do funcionamento do sistema de escrita alfabética, o trabalho de reflexão fonológica, a mobilização de estratégias de leitura, a pesquisa inteligente, e abordam as diferentes unidades da língua – texto, palavra, sílaba, grafemas e fonemas e unidades inter e intrasilábicas (maiores e menores que a sílaba, como -OLA em bola, escola, sacola, viola, cola... e TR em troco, trinco, trator, truque...) – em contexto de exploração de textos - orais e/ou escritos - e de jogos. 

Costumo separar os materiais, kits e jogos que fazem parte do acervo que venho construindo, em três diferentes blocos, que, no contexto das Oficinas, se organizam, algumas vezes, em três módulos. Por ora, vou apresentar brevemente cada um desses blocos e, depois, à medida em que os posts forem aparecendo, aprofundaremos a discussão em torno de cada um deles. 


No primeiro bloco incluem-se os materiais confeccionados a partir de textos da tradição oral – que são expressão da cultura popular, parte de nosso universo cultural – estruturados para favorecer a leitura através de estratégias diversas, bem como a reflexão sobre a escrita alfabética e ortográfica. 

São kits confeccionados a partir de parlendas, trava-línguas, adivinhas, quadras, cantigas, ditados populares, frases feitas, permitindo atividades diversificas para diferentes níveis de leitura. Nota-se nesse bloco que, em se tratando de gêneros originalmente orais, é fundamental não perder de vista a sua abordagem em termos de oralidade. Para discutir mais sobre esse aspecto, e sobre textos da tradição oral, ver a brochura de minha autoria aqui

No segundo bloco, incluem-se os materiais confeccionados a partir de textos de vários gêneros literários, como fábulas, contos, lendas e contos indígenas e africanos, histórias infantis, quadrinhos,  poesia, favorecendo ainda mais a articulação entre letramento e alfabetização. 

Aqui encontramos também materiais produzidos a partir de narrativas audiovisuais, tão presentes na cultura infantil contemporânea - como desenhos animados e filmes de animação - e parte do repertório de “textos” dos sujeitos infantis, considerando a noção de múltiplos letramentos.


Esse bloco se desenvolveu a tal ponto que, hoje, em seus desdobramentos, acolhe as Caixinhas de Livros - sobre as quais vocês podem conhecer mais aqui - e os Arquivos Poéticos - que, por ora, inclui os Arquivo Alfabético Poético e o Arquivo Capparelli, que vocês podem ver  no link, clicando neles. Novos Arquivos estão no forno! 

Há Caixinhas de Livros que namoram com os Arquivos Poéticos, como a Caixinha O que tem nesta venda, a partir do livro de Elias José de mesmo nome, da Paulus, já que o que o livro traz é um texto com a ludicidade e o ritmo próprios ao texto poético. Confira parte dos materiais aqui. Essa Caixinha - ou Arquivo - rendeu outros jogos e posts, como o Lince, dentre outros. Todos eles se encontram tanto no marcador Caixinhas de Livros quanto no marcador Arquivo Poético. Confiram na lista de marcadores do lado direito da sua tela! No marcador Caixinhas de Livros vocês podem encontrar também os posts de Caixinhas a partir de outros livros infantis. Os materiais das Caixinhas e Arquivos são voltados para diversas atividades de reflexão sobre a leitura e a escrita a partir das histórias ou poemas, cuidando sempre, no entanto, de preservar o aspecto literário, estético como primordiais e prioritários em relação ao aspecto pedagógico. A esse respeito, ler o post sobre Literatura e Alfabetização, aqui

No terceiro bloco, incluem-se jogos diversos, com diferentes objetivos relativos à aprendizagem da escrita e leitura, como o aprendizado de letras, a apropriação do sistema alfabético, a consciência fonológica e a ortografia. O jogo, com sua natureza lúdica e intrinsecamente sociocultural, vem aqui contribuir para a reflexão sobre diversos aspectos da língua. Por vezes, os mesmos jogos, com pequenas adaptações, podem favorecer a reflexão de crianças em diferentes níveis de apropriação da escrita. 

Os jogos desse bloco não têm relação  com um texto, mas muitos jogos a partir de textos - incluídos no bloco anterior - são similares aos categorizados aqui. São classificados lá por serem produzidos a partir de determinado livro, parlenda ou poema, mas se assemelham a alguns postos aqui, como o caso do Bingo de Rimas, da Caixinha de O que tem nesta venda, e outros jogos do Arquivo Capparelli, por exemplo. 

Divido os jogos em:


  • Jogos de reflexão fonológica;
  • Jogos para aprender sobre a estabilidade da escrita, de usar e ampliar o repertório de modelos de escrita convencional (que a criança aprende a reconhecer globalmente);
  • Jogos para aprender sobre letras e usar a ordem alfabética;
  • Jogos para refletir sobre os princípios do sistema alfabético e sobre as correspondências grafofônicas;
  • Jogos para consolidar as correspondências grafofônicas e trabalhar a ortografia.

  • Por vezes, evidentemente, esses três blocos de materiais se imbricam e outras categorias ou novos aspectos em cada categoria podem surgir, já que a invenção, adaptação, inclusão de novos materiais ao acervo é constante, a partir do próprio desenvolvimento das oficinas e das trocas com outros educadores. Em cada Oficina que promovi até hoje, houve sempre quem inventasse, partindo dos materiais e atividades propostas, novos materiais ou novas atividades, variantes, adaptações, considerando as classes singulares que cada professor tem.   Já houve quem adaptasse alguns jogos para crianças menores, outros para crianças maiores, professores de inglês tendo ideias para o ensino de língua estrangeira a partir dos materiais, tentativa de pensar adaptações para crianças de inclusão... 

    As oficinas e também o blog, nesses anos, têm sido espaços de trocas, inclusive, para que possam ser ampliadas  essas possibilidades. O blog, nesse sentido, pode funcionar também como um registro, um testemunho desse processo de ampliação de repertório, de acervo,  de propostas, tanto para mim, para minhas/meus alunas(os), quanto para quem vier visitar essa página. Portanto, opine, interaja, discorde, pergunte, oferte... Esse é o meu convite...

    O caminho da literatura trouxe, ainda, essa prática de dica de livros e comentário sobre eles ou de exploração de gêneros de textos (como as histórias acumulativas e os tangolomangos, a partir dos quais fiz alguns posts recentemente). Tenho feito também alguns posts com propostas de atividades não atreladas a um material específico. O blog tem sido, assim, esse meu espaço de compartilhamento de ideias, de criação, de experimentação e de boas parcerias.
    Abraço,
    Lica

    segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

    Troca letras e palavras flutuantes...

    Post vapt vupt...

    Um dia, já há algum tempo, postei o poema de José Paulo Paes, Letra Mágica, a propósito do qual eu comentei sobre atividades em torno da noção de par mínimo. Eis o poema abaixo e o post aqui.

    Letra Mágica

    Que pode fazer você
    para o elefante
    tão deselegante
    ficar elegante?
    Ora, troque o f por g!

    Mas se trocar, no rato,
    o r por g,
    transforma-o você
    (veja que perigo!)
    no seu pior inimigo: o gato.

    Dessa vez o trago de novo para dar a dica de textos que brincam com essas trocas de letras, esse pareamento de palavras diferentes a partir de uma só diferença de fonema e letra. Brincadeira com os aspectos fonológicos e fonográficos da linguagem. Pura poesia também! 

    Bom, e para provocar, são bons textos para, inclusive, nos lembrar das possibilidades de reflexão fonológica e fonográfica que a poesia nos oferece, muito mais gostosas do que o trabalho mecânico de treinamento fonológico que certos programas de alfabetização propõem. 

    No livro A turma do ABC, de Fátima Miguez, Nova Fronteira, vários são os pequenos textinhos poéticos que trazem duas ou três palavras formadas por par mínimo. São bem simples, mas bem lúdicos e dão boas brincadeiras. Eis dois deles:

    Salta o S do sapo,
    o P entra no papo...
    O sapo está no papo
    ou é papo de sapo?

    O Z de zoada
    faz muita zoeira,
    prefiro o T de toada.
    É som de primeira.


    O livro História em três atos, de Bartolomeu Campos de Queirós, da Global, brinca com os três atos: o ato do gato, o ato do pato, o ato do rato... E na história, outras ressonâncias sonoras aparecem, como as aliterações do fonema /g/ em "O pato bica a garra do gato e engole o G" e fonema /p/ em "o gato arranha o pé do pato e papa o P". Esse livro foi presente de minha amiga Aline Moura. 

    Essas brincadeiras de trocas de letras são muito interessantes para tornar observável o diferencial entre essas palavras que, no caso, aqui, diz respeito aos fonemas /g/, /p/ e /R/ e as letras que os representam G, P e R. Os fonemas consonantais, especialmente os oclusivos (como é o caso de /p/, /g/) - pois os fricativos e os vibrantes (como o /R/), por exemplo, são mais fáceis de serem isolados dos sons orais que os acompanham e, por consequência, mais fáceis de serem percebidos - são unidades muito abstratas para as crianças, que percebem o todo, a unidade silábica e, por um tempo, julgam que são essas as unidades representadas pelas letras. E elas percebem assim justamente porque a fala é co-articulada, pronunciamos a sílaba, não os fonemas isolados, e são os sons orais que constituem o núcleo da sílaba. 

    Ora, para se alfabetizarem, é certo que as crianças precisam se dar conta dessas unidades fonêmicas. Mas, diferente de treinamentos fonêmicos sem sentido algum para elas, isso é perfeitamente possível de ser feito através de atividades de reflexão fonológica (fonêmica) em presença da escrita - ver as palavras escritas, compará-las, ajuda as crianças a observarem as diferenças gráficas (entre as letras) e associarem essa diferença às diferenças fonológicas de cada palavra, que é a diferença que o fonema, justamente, implica. E observar brincando com a poesia da linguagem é muito mais divertido, implicado e contundente! 

    O que dizer, por exemplo, da poesia de Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles, livro que é cheio dessas brincadeiras com rimas, pares mínimos, assonâncias e aliterações? São recursos estilísticos da poesia, que, propondo mil ressonâncias das palavras umas nas outras, conferem musicalidade e ritmo às estrofes - e constituem em matéria fantástica para a reflexão sobre a língua! Vejam esse, Tanta tinta, que adoro:


    Tanta Tinta

    Ah! Menina tonta
    toda suja de tinta
    mal o céu desponta!
     
    (Sentou-se na ponte,
    muito desatenta…
    E agora se espanta:
    Quem é que a ponte pinta
    com tanta tinta?…)
     
    A ponte aponta
    e se desaponta
    A tontinha tenta
    limpar a tinta
    ponto por ponto
    e pinta por pinta…

    Ah! a menina tonta!
    Não viu a tinta da ponte.

    Bom, e lógico, muitos outros autores brincam com essas trocas fonêmicas, como o próprio José Paulo Paes, autor que, aliás, tem muitas maravilhas de poemas em que outros jogos de palavras aparecem, como alguns do Uma letra puxa a outra, que é parte do kit Arquivo Alfabético Poético, postado aqui. Mas vale à pena lembrar alguns, especialmente aqueles em que acrescentando-se letras vão surgindo outras palavras... Note que nem sempre a palavra está de fato presente, mas só aludida pelo sentido do enunciado, como Cabral, palavra aludida no verso que diz que a letra L faz "cabra descobrir o Brasil". Eis alguns:

    L é uma letra louca
    e faz a uva andar de luva
    transforma a nota mi em 1000
    cabra descobrir o Brasil

    É com o H
    Que a filha sai da fila,
    Que malha sai da mala.
    Com H a mana faz manha.

    São textinhos muito indicados para as crianças prestarem atenção na escrita das palavras, na mudança mínima de fonema que faz com que as palavras mudem completamente, ótimos para as reflexões do processo de alfabetização! Dá para fazer várias brincadeiras...  

    Mas como poema e linguagem são constituídos de significantes e significados, do jogo entre eles, ambos colaborando com a construção de sentido e em sua poesia, além dos jogos com os sons e grafia, temos também jogos com os significados.  Assim, já outros poemas trazem o foco nos diferentes significados de uma mesma palavra, brincando com a semântica da língua, com figuras de linguagem, figuras de estilo - e não mais com os aspectos fonológicos e gráficos. José Paulo Paes mesmo tem os poemas "Inutilidades", Pura verdade" e "Atenção, Detetive", obras de puro deleite semântico.

    Atenção Detetive

    Se você for detetive
    Descubra por mim
    Que ladrão roubou o cofre
    Do banco do jardim
    E que padre disse amém
    Para o amendoim

    Se você for detetive
    Faça um bom trabalho
    Me encontre o dentista
    Que arrancou o dente do alho
    E a vassoura sabida
    Que deixou a louca varrida

    Se você for detetive
    Um último lembrete
    Onde foi que esconderam
    As mangas do colete
    E quem matou o piolho
    Da cabeça do alfinete.


    Inutilidades

    Ninguém coça as costas da cadeira.
    Ninguém chupa a manga da camisa.
    O piano jamais abana a cauda.
    Tem asa, porém não voa, a xícara.

    De que serve o pé da mesa se não anda?
    E a boca da calça se não fala nunca?
    Nem sempre o botão está em sua casa.
    O dente de alho não morde coisa alguma.

    Ah! se trotassem os cavalos do motor ...
    Ah! se fosse de circo o macaco do carro ...
    Então a menina dos olhos comeria
    Até bolo esportivo e bala de revólver.

    Ele brinca aí com a polissemia das palavras e com a figura de estilo chamada de catacrese, que é quando se usa emprestada uma palavra em seu sentido figurado por falta de uma palavra própria. Mesa não em pé, cadeira não tem costas, tomamos emprestado esses termos usados para seres vivos e usamos para esses objetos. Assim como cabeça ou dente de alho...eis a catacrese. E usar simultaneamente os dois sentidos de banco, manga, cavalos, bala, etc, é brincar poeticamente com a polissemia das palavras. Vê que a graça está em captar ao mesmo tempo os dois sentidos - ao menos- dessas palavras? Muito bacana, não é?

    Olha como ele usa essa figura de estilo e polissemia também no seu poema Pura verdade, em que fala de "braço de mar coçando o sovaco", de "ângulo obtuso ficar inteligente e a boca da noite palitar os dentes", de "pé de vento calçar as botinas" e de "cavalo-motor sacudir as crinas". E o autor fecha o poema brincando com o aparente ilogismo, dizendo: "É a pura verdade/A mais nem um til/E tudo aconteceu/Num primeiro de abril"! 
    Desse tipo de jogo com a semântica, com a polissemia, muito bacana também é o livro Isso, isso, de Selma Maria, da Peirópolis, em que a autora traz coisas assim, em forma de verbetes, imagens poéticas muito interessantes:

    Biruta
    A pessoa quanto mais biruta fica mais se perde no pensamento
    A biruta quanto mais biruta fica mais acerta a direção do vento.

    Bamba
    A piada bamba faz rir
    A corda bamba faz cair.


    Canto
    Um gato acha seu canto dentro da casa
    o passarinho solta seu canto lá na mata.

    Bom, quanto a isso, é a própria matéria da poesia, não é? Figuras de linguagem, de estilo, imagens poéticas, brincadeira com os sons e significados... Matéria de fazer poema, matéria de fazer linguagem, tudo a ver com aprender sobre a língua...

    No processo de produção para a Feira de Livros da escola onde trabalho, fizemos  oficinas de poesia com várias propostas de "desembolorar" as palavras, brincando com a polissemia, as metáforas, os sentidos literais e conotativos, a construção de imagens poéticas... Esse livro foi muito usado nessas aventuras poéticas, com os professores e com as crianças! 

    É isso, gente! 
    Ah, completem essa leitura com o post antigo, citado, que você pode ver aqui.
    Beijos,
    Lica