Uni, duni, tê, salamê, minguê...

Uni, duni, tê, salamê, minguê...
Materiais a partir de textos da tradição oral

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Quinta provocação sobre o abecê nordestino

Nessa quinta provocação, vou mostrar e comentar (mas não muito, algumas dispensam comentários!) algumas falas preconceituosas que pesquei na internet sobre o nosso modo de pronunciar os nomes das letras no Nordeste, ou que revelam desconhecimento de sua natureza, mesmo pelos que o defendem. Lógico que há também comentários muito positivos na internet, defesas, saudosismos, afetos...mas, para o argumento que estou construindo, que parte da ideia de que há muito preconceito infundado e desinformação sobre isso, por ora vou apresentar mais os negativos...e só alguns positivos, que ninguém é de ferro! 

Colei os prints, mas também os links das páginas de onde os retirei. Em alguns casos, vale assistir aos vídeos.

A partir de um vídeo no Youtube, de uma criança recitando o abecê nordestino (que nomeiam de “baiano”), vejam o comentário, "salvando-nos": a culpa é da escola que ensina assim... Ainda bem que, junto, vem um outro comentário que, de fato, salva um pouco, ao menos culturalmente..mas trazendo uma ideia equivocada de "mais correto".


Nessa outra página, UtilisInutilis, embora se apresentem como um blog de humor, de inutilidade, também o é, segundo eles mesmos, de curiosidades e informação. Vejam o absurdo: 


Mas o pior é que, aos comentários revoltados com tamanha asneira, a resposta dos administradores é só a de que o blog é assumidamente um blog de humor, como se isso fosse licença e desse aval para o preconceito e a propagação da desinformação. Nas palavras deles: 

Somos piada! Uma das maiores! E o humor justifica...

“Rir com” é muito diferente de “rir de” – podemos até rir de algumas piadas que implicam em diferenças regionais, apesar de trazerem preconceitos e estereótipos, a gente pode rir de algumas delas e rir com eles também  – de outras regiões – sobre as coisas deles lá. Se faz isso entre amigos...

Mas aí não é isso. É preciso se responsabilizar pelo discurso que profere, não é porque é para ele engraçado que, automaticamente está liberado para ser “anta”! Tem informação equivocada sendo espalhada pelo blog. Chamar-se Utilis Inutilis não é desculpa para amenizar o preconceito pesado que é passado com ares de humor sem consequência.

Não bastasse a postura deles mesmos, olha o comentário de outro, que prova exatamente isso: que a "informação" é tomada por muitos não como piada, mas como verdade. E tome-lhe mais desinformação e preconceito na interpretação e "explicação"... 


Não vou nem comentar esse...não carece. Não vale meu tempo...

Sei bem que o Facebook, o Youtube e outras redes estão repletos de preconceitos e desinformação de diversas ordens – e com baianos, então, já vimos o circo dos horrores! Tem coisa que não dá nem para considerar, tamanho despautério...ou vamos parar de acreditar na humanidade. Não sou ingênua ao fazer aqui esse recorte, sei que a questão é muito mais complexa.

Mas, de todo modo, vamos a mais algumas pérolas sobre o tema em questão, em algumas postagens, vídeos e comentários. 

Diante do vídeo, que já é de zoação, vejam os posts e comentários. Essa de baiano ser preguiçoso é antiga, mas aqui reinterpretada com a preguiça de pronunciar as letras corretamente – e o próprio baiano reforça...se defende, mas reforçando... 


Gente! Socorro, pára que eu quero descer! Mesmo diante da canção linda de Luiz Gonzaga, mestre que dispensa apresentações, vejam os comentários:


Não Giancarlo, não era, É ainda ensinado, e não por analfabetos, mas por profissionais alfabetizados e letrados. Muitos baianos ilustres, da literatura, intelectuais, das artes em geral, com reconhecimento nacional e mesmo internacional, foram alfabetizados assim. Sinto lhe informar!

E outra resposta a Ingrid J.:



Outra de envergonhar Seu Lula:

Ficou com vergonha de quê? Perdeu uma chance de apresentar a rica diversidade cultural e linguística de nosso país... 



Para falar tamanha asneira, melhor ficar anônima mesmo...


Sem comentários...

A resposta ao comentário em defesa da variedade linguística é de chorar! Noção “sem noção” do que seja certo e errado, o que seja dicionário e o que seja linguagem...


O site Vida de Programador postou a seguinte tirinha, que gerou também alguns comentários. Dêlêlê se refere aos arquivos DLL. 
Comentários:

Êita, William, então DLL necessariamente se lê dê-ele-ele? Tá puxado... E Cesar, provavelmente ninguém - ou alguns, sim, quem sabe - pronuncia dêlêlê, porque siglas com pronúncias consagradas de uma forma podem ser pronunciadas nessa forma, mesmo por quem nomeia as letras de outro modo em outros contextos. Ou se pronuncia o caminhão FNM como efe-ene-eme? E FFLCH como efe-efe-ele-che? Vejam sobre isso o post da primeira provocação, aqui

E aqui um exemplo de que até pode ser que digam dêlêlê:
Pois é, isso de achar que as letras se dão a ler transparentemente, como lemos os numerais, é frequente... Por exemplo parece ser natural que L, M, R, se leia ele, eme, erre, não é? Só que não! Veja esse aqui:


É salutar, embora esse caso seja de um relato amistoso em relação à perplexidade de conhecer o nosso abecê. Mostro:


Mas vamos a mais um caso: comentários ao vídeo com Vampeta recitando o abc...não dá pra saber quais foram os comentários do apresentador e dos outros para avaliar o tom, mas, nos comentários, sim. Desinformação, deboche, preconceito pesado... Bem como defesas igualmente “bairristas”, em disputas tampouco produtivas de qual seria mesmo o alfabeto “correto”. Começaremos pelos mais leves...

Nesse comentário abaixo em defesa do modo de nomear as letras na Bahia, aparece a confusão entre letra e som e o julgamento de “correção”, que também não procede. 


Abaixo, outra ideia que não procede, mesmo de defensores, visto que a nomeação de efe, ele, eme, ene, erre, esse e etc, chegou a nós pelo alfabeto latino e não pela “americanização” posterior da cultura ocidental, em função das dinâmicas sociopolíticas e econômicas. 


Não foi só nesse comentário que já vi dizer que seria influência do alfabeto inglês, e a referência ao fato de que brasileiro gosta de imitar os americanos. Além de equivocado, será que precisa discordar, xingar, devolver com a mesma violência para defender o outro lado? Postas dessa forma, mesmo as defesas me parecem fragilizar a discussão.

No contexto de uma discussão sobre as pronúncias que seriam corretas das vogais E e O - se abertas ou fechadas -  surge um comentário, aqui, que defende a variação de "sotaque" quanto ao nome das consoantes também, mas incorre no mesmo equívoco de achar que nosso modo de se referir às letras não é nome, mas "entonação", pronúncia, "uso":



Justamente...se P é pê, o que impede de F poder ser fê, L ser lê? Que evidência há de que L deva ser, necessariamente, éle, e F, éfe? A afirmação toma como se houvesse uma evidência nas pronúncias em si mesmas...

Desse modo, às vezes, o que se revela nos comentários é o puro desconhecimento mesmo, não resvala ao preconceito - ou desconhecimentos como os casos acima, ou desconhecimento da existência desse modo de falar, como no caso abaixo. Nessa página de um professor português, em um post sobre a pronúncia da letra G – que em Portugal parece também oscilar entre gê e guê – o comentário é assim, com resposta certeira:


O seu Brasil, então, anônimo, não é o mesmo que o meu!

Mas essas situações, que revelam apenas a desinformação, não são nada diante das críticas pesadas aos baianos e à Bahia. Talvez ainda revoltados com os rumos da política nacional atual, talvez não...Não importa. O preconceito com nossa cultura é antigo. Vamos de volta aos comentários do vídeo de Vampeta, esse rendeu! E seguiremos com eles por algum tempo... Vamos lá, tem que ter estômago...




Ufa!!! A internet possibilitou termos a noção das asneiras que se pensa por aí... deu aval a esse bando de antas (coitadas das antas), que se reconheceram como muitos... (desabafo...desculpem...).

Bom, mas, às vezes, os próprio baianos dão “pano pra manga” ao preconceito, reforçando a opressão sofrida por seu próprio povo...e isso devido à desinformação, à falta de firmeza quanto a nossa identidade cultural e linguística e a certa exaltação ao que vem das outras regiões, supostamente mais “correto”. Nem todos os baianos falam assim, Daniel, mas ao desconhecer sua própria cultura, é você quem está em falta.


Não gente...principalmente se estão falando da Bahia, esse não é um jeito de decorar mais facilmente as letras ou de facilitar a aprendizagem quando criança, não se fala assim apenas na infância e, muito menos, é falar “anormalmente”. Nos referimos assim às letras, mesmo adultos, letrados. Pode até ter sido, na origem, um modo de facilitar a soletração – mas, pasmem! Isso veio da França e de Portugal, nem é “coisa de nordestino” nem originalidade baiana, ou algo do gênero. E esse “facilitar” em nada está relacionado à preguiça. No passado, antes da “colonização” do nosso abecê pelo outro dito oficial, aprendia-se assim, sem nenhum problema, mesmo na capital baiana. E em outras regiões do Nordeste também. O modo de referir a essas oito letras, diferente do outro abecê, não se limitava nem se limita à infância. Seguimos nos referindo desse modo às letras mesmo adultos – seja no passado, seja ainda hoje.

Conheço muita gente, muita mesmo, que fala assim, pronunciando as letras nordestinas nas situações sociais em que nos referimos a seus nomes (salvo nas siglas já consagradas). Podemos até usar as outras letras, mas se formos recitar o abecedário, muitos de nós só o faz com destreza, se for o nosso abecê, aprendido na infância. Na Bahia, esse modo ainda vive, ainda é ensinado e usado, para além da alfabetização, embora o outro abecê tenha substituído o nosso em muitas escolas.

Temos que buscar argumentos  mais contundentes e fortalecer esse traço de nossa identidade, e não simplesmente aceitar essa “colonização”, repetindo argumentos infundados.  Vamos defender esse uso, gente, não enfraquecê-lo!

Algumas defesas, entretanto, como essa abaixo, ficam no campo de disputas bobas, em termos de certo e errado, que não levam a nada, nem para defender, nem para criticar. Variar é próprio da língua... E aliás, essa defesa ou ataque, nesses termos de certo e errado, é “bairrista”, igualmente equivocada em termos histórico-culturais, como podemos ver:


Justamente, não tem isso de certo e errado, ainda mais quando se trata de um aspecto como esse, cuja historicidade mostra que ambos os modos tiveram origens muito remotas e ambos nos servem bem. Ambos nos servem bem! Podemos aprender a ler com efe ou com fê, são ambos legítimos. Como o último comentário acima citou, trata-se do mesmo alfabeto, só oito letras têm uma nomeação diferente. Tanto barulho por causa disso? (a questão é justamente porque isso só é um pretexto para escoar preconceitos outros, de outra ordem, com baianos e nordestinos). Inclusive, para quem se preocupa com a “oficialidade”, elas já são sim dicionarizadas, bem como, no Acordo de 1990/2009, as letras efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse são SUGERIDAS e há indicação de outras formas como realizações possíveis.

Como diz o comentário abaixo, mostrem as leis que dizem que nosso abecê está errado! Vamos buscar os fundamentos para justificar nossas posições! Vamos parar de querer justificar o injustificável – e por vários caminhos e argumentos podemos provar que são posições infundadas.


Mas em vez de revolta, de devolver na mesma moeda, prefiro me engajar em informar, em discutir a questão de modo fundamentado. Vamos reposicionar a questão, buscando informação. O desconhecimento é tanto motor de preconceito quanto da falta de firmeza na defesa desse traço de nossa identidade cultural, por nós mesmos.

No site do documentário Sertão como se falacuja equipe de filmagem, justamente, passou por diversos municípios do sertão nordestino, mostrando essa diversidade do modo de pronunciar as letras e sua relação com a cultura do Nordeste, encontramos esse comentário:


Não gente, efe não é nome e fê fonema – ele é que está confundindo palavra e fonema. Fê é o nome da letra no Nordeste. É lexicalizado, está dicionarizado. Fonema não se dicionariza, fonema não se pronuncia com ê, como já discuti em outros posts e como discutiremos mais a fundo em breve.

O desconhecimento, por vezes, é grave. Temos muitos nordestinos trabalhando e se alfabetizando em outras regiões, e recebemos nas escolas da Bahia crianças de outras regiões...Porque essas pessoas precisam passar por constrangimentos relativos a um conhecimento tão simples, de que 8 letras do alfabeto podem ter dois nomes diferentes em diferentes regiões. É tão simples de resolver – para que tanta celeuma inútil?

E isso vale tanto para quem ensina o abecê “oficial” dizendo ser a única forma correta, quanto para quem ensina o nordestino e aceita apenas essa forma. Temos duas formas, gente! Esse é um conhecimento que o Brasil todo deve ter. 

Vera o caso abaixo relatado, bastante suis generis, que envolve diferenças entre os próprios nordestinos: os baianos, que, em muitos casos, se mantêm mais fieis ao abecê que antes circulava no Nordeste, e os pernambucanos, que, ao que parece, já o esqueceram, ou ele se manteve/se mantém apenas em algumas partes do sertão pernambucano...

De qualquer modo, diferente dos casos mais frequentes, que são de baianos que aprenderam exclusivamente o fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si, e se veem confusos na alfabetização com o outro abecê, nesse caso aqui a confusão é, justamente, o contrário esse abecê (aí referido como sendo apenas da Bahia) ser imposto como o único correto. 


Percebem que a questão posta em termos de certo e errado não é favorável a NINGUÉM? Nem para assumir um abecê, nem o outro? Para ver outro relato interessante, ver aqui. Falar de diferenças regionais para aplacar o riso já instalado, como a autora do relato coloca, realmente não é bem o que resolve, mas se a diversidade for objeto de conhecimento desde sempre nas escolas, talvez possamos evitar tais constrangimentos.

Como as pessoas de diferentes regiões (e mesmo na mesma região) se deslocam por inúmeros motivos, o conhecimento, por todo Brasil, de que temos em nosso país dois modos de nomear algumas letras, é fundamental para que ninguém sofra esse tipo de constrangimento. Se nem no contexto do próprio Nordeste estamos imunes a isso, imagina entre diferentes regiões! Muita gente nem sabe que existe outra forma. Temos que, inclusive, desmistificar essa imagem do Nordeste como uma região culturalmente homogênea, tendo uma identidade única. Não é.

Agora, achar que o abc do sertão só existia na canção de Luiz Gonzaga, aí também já achei um pouquinho sem noção... e é uma nordestina! Nunca pensou no que a canção do conterrâneo queria dizer? Precisamos conhecer mais os nossos falares.

Pensando agora não em termos culturais, mas em termos linguísticos, um comentário a esse post traz, novamente, a confusão entre nome e som. Lógico que as letras nordestinas se aproximam mais do som – e por isso mesmo, tendem a facilitar a alfabetização – mas elas são nomes, não som, muito menos fonemas. Então, não tem nada a ver com método fônico. As letras, seja que nomes tiverem, representam fonemas  – isso é do funcionamento da notação da língua, não de um método específico de alfabetização, certo? 


É isso, gente... Diante de meu interesse pelo tema, fui pesquisando na internet e colecionando alguns prints, que me davam notícias de que, sim, há muito desconhecimento e preconceito quanto ao abecê usado em algumas partes do Nordeste. Usado antigamente de forma mais ampla e, em alguma medida ainda hoje, no sertão, mas usado especialmente na Bahia, mesmo hoje, onde ainda é ensinado em muitas escolas – geralmente simultaneamente ao outro – e mesmo na capital (a pesquisa que estou fazendo com professores de municípios baianos trazem notícias concretas sobre isso, em breve vamos conhecer os resultados).

A ideia de postar esses prints foi reforçada pela professora Dinéa Maria Sobral Muniz, da Faced/UFBA, quando apresentei esse estudo para uma turma dela de estágio supervisionado em língua portuguesa. É que, embora eu tenha os colecionado em minhas pesquisas pela internet, de início, fiquei reticente em postá-los, por receio de parecer que eu estaria entrando nessa disputa, nesses termos que questiono – o que não é o caso e o que não vejo sentido.

Meu intuito ao mostrá-los é apenas argumentar, a partir de dados concretos, que essa é, sim, uma questão importante de se discutir, embora aparentemente secundária nas pautas do campo da alfabetização. E é importante tanto pela questão cultural e sociolinguística envolvida, quanto devido ao fato de que, linguisticamente, nosso abecê faz todo o sentido, por nomear as letras de modo mais próximo a seus sons, usando o princípio acrofônico de forma direta – o que é tido como favorável ao estabelecimento de relação entre grafemas e fonemas, por vários estudiosos contemporâneo – como veremos em breve.

Esse princípio, aliás, como nos ensina o linguista Luiz Carlos Cagliari, está na origem mesma do nosso sistema alfabético, desde os fenícios. Retomado pelos romanos, foi essa ideia de os nomes dar pistas mais diretas dos sons das letras que, inicialmente, estruturou o alfabeto latino. Depois, como expliquei no post anterior, é que veio o jeito de nomear com o –e antes (efe) e não depois () da consoante.

Então vamos pesquisar mais, não é gente?

E para terminar, vejam que interlocução fantástica: o desconhecimento e o conhecimento em diálogo mais cortês, aqui. E voltemos aos ensinamentos de nosso querido Gonzagão:



Saudações alfabéticas,
Lica

Quarta provocação sobre o abecê nordestino

Muita gente – não nordestinos e nordestinos – acha que o modo de pronunciar as letras no alfabeto oficial é que é a correta, a certa.
O que é certo? Será que o certo é medido pela suposta precedência, na história? Ou por, mesmo não sendo o modo usado desde as origens, ficou sendo o certo, por motivos nobres e lógicos? Ou só repetimos, sem refletir, sobre essa "última palavra": “é o certo”?

É certo porque é o que foi definido como certo pela gramática? (e na Gramática cabe tudo? Cabe a língua viva?). 

Enfim...convido-os a refletir sobre o que é isso de “certo” que se teima em repetir (até em bradar aos quatro ventos), muitas vezes sem pensar.

Bom, se for pela precedência, digo que não é: no início do alfabeto romano, a pronúncia das letras F, L, M, N, R, era definida pelo som da letra mais um som “ê” APÓS esse som consonantal, ou seja fê, lê, mê, nê, rê, como dizemos por aqui até hoje. O ef, el, em, em, er, es vieram depois, ainda no alfabeto latino, e por decisão bem arbitrária (e, depois, ficou sendo efe, ele, eme...). Ou seja, também não “é certo” por alguma lógica esquecida no tempo...Se fosse lógico, aliás, seguindo o sistema proposto inicialmente, também o V e o Z deveriam ser ev e ez e não vê e zê. Veremos como é isso em breve!

Será que saber mais sobre essas origens, tanto de uma forma de pronunciar as letras quanto da outra, nos ajudará a começar a ver a questão de outra forma? Torço que sim! Por ora, o importante é entender que se o “certo” vem de precedência ou de lógica, não é!

E se é porque a Gramática diz, e pronto, advirto, relembrando a provocação anterior: o Acordo Ortográfico, assinado em 1990 (reafirmado em 2009 e recentemente tornado obrigatório), admite que os nomes das letras SUGERIDOS "não EXCLUEM outras formas de as designar”.

Então...desconhecimento não pode ser motivo de fechar questão. Vamos buscar outros argumentos, né gente? Porque o “porque é o certo” não dá mais!

terça-feira, 11 de julho de 2017

Terceira provocação sobre o abecê nordestino

Para quem segue achando que fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si são sons e não nomes das letras (outros nomes) lembro que essas formas são lexicalizadas, registradas em dicionário (Houaiss, Aurélio e outros).

Não aparecem (salvo uma delas) assim nomeadas no Novo Acordo Ortográfico (1990/2009), mas este indica a possibilidade de outras designações, após a apresentação do alfabeto convencional: “os nomes das letras acima sugeridos não excluem outras formas de as designar”.

Ah, mas o nosso guê, ah esse, sim, tem reconhecimento oficial, e não é de hoje! Consta lá no Acordo gê ou guê, podem conferir! Também em Portugal há certa alternância na nomeação da letra G (você leu gê ou guê aqui?), não há consenso, e há referências a essa questão bem antes de o Acordo a oficializar.

E para isso tudo há um motivo, uma história, que tem, justamente, a ver com o duplo valor sonoro que a letra pode ter no sistema, e com o uso do G, inicialmente, apenas com valor oclusivo, como em gato, gota, gula.

Então, sim, o som das letras guiam, também, historicamente, os seus nomes...Desde o início da história do alfabeto, como veremos em breve. Mas são nomes, não sons!
Aguardem!

domingo, 9 de julho de 2017

Segunda provocação sobre o abecê nordestino


Lá no meu sertão pros caboclo lê
Têm que aprender um outro ABC
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê

Luiz Gonzaga/Zé Dantas

Designado por muitos, inclusive por Luiz Gonzaga, de abc do sertão, o alfabeto nordestino ou abecê nordestino (como prefiro chamar), no entanto, ao menos aqui na Bahia, não é só do sertão (por isso mesmo prefiro nordestino). 

Eu mesma, menina da capital baiana, litorânea, fui alfabetizada com fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si, e ainda hoje temos visto esse modo nas escolas - seja ao lado do alfabeto oficial, seja no lugar dele... Podem acreditar! Agora não é só conclusão de notícias eventuais daqui e dali - estou vendo isso mesmo no levantamento que estou fazendo (pesquisa que vou divulgar aqui em breve).

Mas será que é isso, em capitais, é só na Bahia mesmo? Isso pode até ser mapeado. Mas por que será isso? Difícil responder essa...

Outra coisa: muitas vezes atribui-se o abecê do sertão ao fato de que o ensino da leitura e escrita inicial no sertão nordestino era basicamente feito por professoras leigas. Ora, eu sou moça da cidade, já disse, e minhas professoras eram letradas, formadas e urbanas. 
Desse modo, precisamos buscar explicações mais amplas para o uso e a permanência, hoje, do abecê nordestino na Bahia, inclusive, em Salvador. 

Sim, porque apesar do efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse ter chegado de cum força na nossa região, segurando uma bandeira escrita "alfabeto correto", o fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si seguem ainda por aí, às vezes dispersos, com pinta de menor valor, às vezes de cum força também.

Por isso, apesar de nordestino, defender suas próprias bandeiras, hoje, só podia ser na Bahia!
E vamos lá! Em breve, o estudo e a divulgação da pesquisa junto a professores de municípios baianos.
Lica


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Primeira provocação sobre o abecê nordestino

Gente,
Apesar de Luiz Gonzaga entoar, em seu ABC do sertão, "Lá no meu sertão pros caboclo lê/Têm que aprender outro ABC...", eu, menina da cidade, aprendi assim também... 

O levantamento informal que tenho feito há tempos sobre isso, já me deu alguma notícia de que na Bahia isso era também coisa da capital e, em alguma medida, ainda é, aqui e ali... 

Os nossos estagiários da Faculdade nos dão notícias de como veem isso nas escolas e, agora, com uma pesquisa mais formalizada, vamos conhecer de forma mais ampla como andam as coisas por aqui, na capital e em outros municípios...

É que além de um estudo sobre o abecê nordestino, estou fazendo uma pequena pesquisa sobre o uso do alfabeto nordestino no ensino da escrita. Fiz um questionário breve sobre o tema, para aplicar com professores de redes municipais baianas e de escolas particulares também. 

Aguardem o estudo sobre o uso do alfabeto nordestino, abecê nordestino, alfabeto do Nordeste ou, como preferem alguns, abc do sertão. E os resultados dessa mini pesquisa!

Enquanto isso, vou postar aqui, como no Facebook, algumas provocações para ir abrindo o apetite! Posto aqui também para agrupá-las, guardá-las, pois lá ficam perdidas no tempo, dispersas e pouco disponíveis ao reencontro...

Primeira provocação sobre o abecê nordestino:

Para aqueles que argumentam contra o nosso alfabeto dizendo que não se diz Guê 2 para G2 (Garagem 2), bê cê guê, para a vacina BCG, nem guê nê tê, para GNT, advirto: dizíamos, por exemplo, fê nê mê, para a antiga, mas famosa, marca de caminhões FNM, a primeira a fabricar caminhões no Brasil – foi o povo que assim a nomeou, e a fábrica nem foi instalada no Nordeste!

Veremos que esse tipo de argumento não constitui prova de que certo modo de pronunciar as letras é que é certo...

Soube eu que na USP, a Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, cuja sigla é FFLCH, se pronuncia, na intimidade, FeFeLéCh, e não EfeEfeEleCh (e já confirmei com alguns paulistanos), usando uma aproximação do som e não o nome oficial da letra (também para o CH, o som). E isso deve ser pra facilitar, né? EfeEfeEleCh é quase um trava-língua...

Falaremos sobre isso de facilitar, aguardem... e não tem nada a ver com nordestino gostar de coisa fácil...vamos guardar as conclusões "fáceis", que além de preconceito só mostram desconhecimento da complexidade das coisas...

Mas voltando a elas, as letras, o MMC e MDC, como vocês dizem por aí? Aqui, no meu tempo, era mêmêcê e mêdêcê mesmo... E olha...isso é na capital, não é no sertão, não, viu gente?

Enfim...vamos às próximas provocações e, em breve, aos posts e às novidades sobre o tema.


Abraços,
Lica

P.S. Mais sobre a FNM, aqui.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sobre materiais, produção de materiais e o que é antigo...

Raimunda era o nome dela...Dava pra se perder nos seus longos cabelos, tão compridos que eram. Enquanto dava suas aula, não dava para não nos perdermos em algum fio preso no coque, imaginando se, soltos, iam até os joelhos. As letras e os números se embaralhavam constantemente, interrompidos por esses pensamentos...
Raimunda tinha uma tesoura. Uma tesoura grande, de picote. Cortava bordas de pequenos papéis coloridos que se revelavam cheio de dentes, diante de nós, igualmente cheios de dentes em sorrisos de perplexidade... Chegavam assim os enunciados matemáticos ou as consignas de interpretação de textos, sempre embalados por cores e formas que os tornavam mais desejados, esperados, mais bem-vindos.
Os papeizinhos, que chegavam, às vezes, a nós, davam notícia de que as tesouras de Raimunda trabalhavam bastante (mas as de cortar papel, não a de cortar cabelo...esses insistiam em serem longos e misteriosos).

Eu adorava Raimunda. Eu adorava aqueles papeizinhos. Talvez eu adorasse Raimunda, porque eu adora ardorosamente aqueles pedacinhos coloridos, cobertos de palavras. 
Eu era boa aluna. Sempre fui. Nunca precisei de banca. Mas, com Raimunda, eu fazia banca. Malandra! Era na banca que os papeizinhos nos frequentavam mais vezes. E mais coloridos. Podíamos, lá, observar as linhas retas se transformarem, diante de nossos olhos e ouvidos, em lindos picotes que formavam quadrados, retângulos, círculos, embalados pela melodia forte da tesoura deslizando no papel: crec, crec... Era uma tesoura pesada, o som que fazia era potente. E eu... eu observava atenta aquela transformação, que acontecia emoldurada por meus olhos ávidos de admiração e um desejo enorme de saber fazer tamanhas delicadezas.
Não sei nada de Raimunda...tanto tempo se passou...mas quando vejo hoje no que deu a menininha, aluna na escola e na banca, fico quase com certeza de que tem um pouquinho de Raimunda em mim. 
...
Ao menos vejo olhos ávidos, embora já crescidos, diante de cores e formas, palavras e imagens, dentinhos e ondinhas, nas beiradas das coisinhas que faço. Não é só isso, claro, não é só sensorial. Expressa um trabalho de alfabetização ali. O que esses olhos ávidos dizem para mim sobre mim, eu não sei ao certo...é como se eu soubesse fazer uma mágica, que só quem me olha, vê... Eu mesma não sei bem ver. Só fazer...só faço... é muito natural... O sensorial tem peso nessas coisas de afeto pelas artes e fazeres e na memória do que foi bom de nossa passagem pela escola.

Mas é fato. Quer saber? Mesmo que eu não saiba ao certo se tudo o que lembro e conto foi mesmo exatamente como lembro e conto, tenho agora certeza, mais do que absoluta, de que trouxe um pouquinho de Raimunda em mim. 
E esses adultos de olhos ávidos também sabem da mágica que podem operar pequenos detalhes no dia a dia de uma sala de aula...valorando os gestos de fabricar coisinhas coloridas para seus alunos. São esses que vejo chegar perto de mim, querendo aprender a fazer esses materiais, deslumbrados quando percebem que podem mais do que pensavam; felizes de se verem em suas produções, pois mesmo materiais idênticos saem muito diferentes pela arte de cada um; surpresos de aprender alguma técnica bem simples, mas que nunca tinha ocorrido antes; atentos para tudo o que pode ajudar na beleza e funcionalidade do material para o uso na sala cheia de meninos e meninas aprendendo a ler e a escrever...
Mas eis que, vez por outra, encontramos um que – mesmo que com certo encanto no canto do olho – avalia essas produções como algo “meio antigo”...E aí vamos falar sobre isso de antigo.
Se antigo é esse fazer do professor, que como Raimunda cortava coisinhas para suas crianças, digo “que pena”! Que pena que a necessária profissionalização docente, combinada com condições de trabalho frequentemente sufocantes, tirou essa fabricação de materiais das agendas do professor. Que pena que não se tem mais tempo para fazer isso, que pena que há muitas patrulhas sobre a produção autoral dos professores, que pena que muitos esperam que tudo já venha pronto, padronizado... e com menos chance de despertar a lembrança de um professor por aquele ato singelo que só ele tinha de cortar o papel e de nos tirar um sorriso... Tá, se sou antiga? Sou...e sou com certo orgulho de mim por isso. Ponto!
Mas se antigo é porque são materiais feitos com papel, essa “coisa antiga”, diante de um mundo cada vez mais tecnológico, quanto a isso, também há muitos argumentos, mas estou com preguiça de desenvolver. Quem vive a sala de aula e quem experimenta os materiais, sabe bem do que estou falando. De todo modo, já escrevi um pouco sobre isso aqui, há muito tempo atrás, e lá já trago alguns desses argumentos. Por ora bastam. AQUI
Por último, e mais grave de todas as observações (e por isso desenvolverei mais detalhadamente), é de quem faz muxoxo, por julgar antigo um material que traz palavras, letras, reflexão sobre sons – essas unidades da língua menores que o texto, tão mal compreendidas em um modo tradicional de alfabetizar, e tão maltratadas quando encontramos modos mais amplos de compreender a questão da linguagem.
Ora, ninguém está negando o fundamento de base de que a apropriação da escrita se dá no contexto das práticas letradas, no convívio com a cultura escrita. Tomar o texto, e mais, os gêneros discursivos, como unidade de ensino, foi um avanço enorme nas propostas e concepções de ensino e aprendizagem da língua escrita. Mas não podemos “jogar o bebê fora com a água do banho”, como se diz. Virou quase heresia propor atividades em que a reflexão foca em letras, sons, palavras, sem o contexto de um texto (como se, aliás, jogar e brincar com sonoridades e palavras não fossem também, por si só, práticas socioculturais). A alfabetização, ainda que seja um processo discursivo, associado aos aspectos mais amplos da cultura escrita, relativos aos usos da linguagem, precisa focar também nos aspectos linguísticos, sejam esses notacionais ou fonológicos – não podemos esquecer que a notação alfabética é de base fonológica, ou seja, não é possível alfabetizar sem que essa dimensão esteja presente de algum modo. E ortográfica, ou seja, é preciso ir dando conta das convenções da escrita, perverso é esperar que descubram isso sozinhos.
Então, é preciso que se possa compreender a importância da faceta linguística (como diz Magda Soares), junto às facetas socioculturais e interativas – e nisso não há nada de antigo. As crianças são capazes de explorar inteligentemente o mundo da linguagem, dos textos, das palavras, mas também das letras, dos sons da língua, de palavras e parte de palavras... Trata-se de cognição, não de percepção. De metacognição. Refletir, construir conhecimentos na interação com os outros e com o objeto de conhecimento é diferente de treinamento mecânico, descontextualizado. 
Não há porque deixar as unidades menores que as palavras de fora das possibilidades de reflexão na alfabetização. A criança pensa – e pensa sobre tudo! Desse modo, é preciso rediscutir certas práticas e didáticas que ignoram a reflexão fonológica e o ensino sistemático de aspectos linguísticos do sistema como situações produtivas para a criança avançar nas suas construções e apropriações do funcionamento da escrita. Já viu banir as letras como algo meio “pouco” e menor no ensino da escrita? Já viu que absurdo tomar unidades como sílaba, fonema quase que como “palavrões”? Claro que a questão é COMO se faz isso. Não precisamos sair do oposto de uma alfabetização mecânica, baseada no ensino descontextualizado e repetitivo de letras e sílabas para o extremo de banir essas unidades do processo de ensino da língua escrita. É perverso não abordá-las, ou abordá-las muito assistematicamente em situação de uso dos textos, mas esperar das crianças que construam sozinhas esses conhecimentos. As situações de usos de textos podem ser também sistematizadas para se refletir sobre a notação escrita. Aliás, não é justo isso que propomos ao partir de textos da tradição oral? 
E aí, justamente, é que os jogos e materiais diversos para a alfabetização entram, como possibilidade metodológica produtiva de reflexão sobre a língua em contextos lúdicos e letrados. Assim, longe de antiga, a concepção que embasa os usos desses materiais é muito contemporânea, pois, assumindo a escrita como prática social e sistema complexo de notação da língua, busca caminhos para articular as aprendizagens linguísticas às socioculturais e discursivas, já liberta de concepções hegemônicas que, ao questionar os velhos métodos, jogaram fora junto aspectos importantes para a alfabetização. 
De qualquer modo, embora possibilitando situações de reflexão sobre a escrita baseadas em concepções contemporâneas de alfabetização, esse momento de fabricação e conversa, de recorte e picote, de colagem e bricolagem, me lembra, sim, um viés de tempo mais antigo, mas bem produtivo e positivo, em que as professoras faziam manualidades para levar aos seus alunos, num gesto jeitoso que, certamente, deixa marcas. Como Raimunda me deixou.
Se há algo de antigo relativo aos materiais que proponho nas oficinas, não é o seu uso ou as concepções subjacentes a eles. Talvez sim (ou não) os próprios materiais – artesanais na contramão de um mundo cada vez mais pré-fabricado – e a sua produção pelos próprios professores – que já não têm tempo, que “querem tudo pronto”. Eu ainda acredito em professores que querem ser autores de sua prática, que não querem tudo pronto, que querem sua marca e de suas turmas em recursos pedagógicos que selecionam, utilizam e produzem. Desse antigo outro - ah, desse - eu quero sim que falem, desse tenho orgulho!
Lica  

Texto escrito no período das Oficinas de produção de material para alfabetização na FACED/UFBA, em maio de 2017.