segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Eco de Palavras

O Eco

O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: "Onde? Onde?"

O menino também lhe pede:
"Eco, vem passear comigo!"
Mas não sabe se o eco é amigo
ou inimigo.

Pois só lhe ouve dizer:
"Migo!"

(Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo)


O poema de Cecília, O Eco, é um ótimo texto a partir do qual brincar com palavras, suprimindo partes delas - fonemas, sílabas ou partes maiores que a sílaba - numa atividade de reflexão fonológica muito interessante. Gato pode virar ato e abelha, belha (supressão do /g/ e do /a/), macaco pode virar caco ou aco (supressão do /ma/ ou do /mak/), abacate pode virar cate ou ate (supressão do /aba/ ou do /abak/).
A compreensão do texto supõe o conhecimento do que seja o eco e como ele funciona. Disso depende o jogo de sentidos do poema.
Pois bem, feita a exploração do texto, que tal brincar de eco? Experimentar "ecoar" palavras diversas é bem divertido e constitui uma rica oportunidade de reflexão fonológica. Pense aí como ficariam, por exemplo, as palavras abacate, pente, besouro, gato, flor, sapo, abelha, dinossauro, atalho, estante, prato...e tantas outras... Percebe quantas situações interessantes podem aparecer, apenas com a reflexão sobre a oralidade, sem a presença do escrito? Ou seja, sem a visualização das palavras escritas, apenas operando sobre o significante sonoro, podemos segmentar as palavras de vários modos.
E depois, com a presença do escrito - das palavras escritas -, quantas situações mais podem aparecer? Pense, se o eco de prato é /atu/, podemos brincar de achar palavras dentro de palavras: prato/ato. E se o eco de prato for /ratu/, com r tremido, o que acontece quando escrevemos essa palavra? Fica RATO, sem o r tremido (ao menos não na nossa variedade linguística regional). Vê quantos desafios?
E ainda podemos indicar o eco e as crianças descobrirem palavras que podem ter sido ditas. Ex. Se sou o eco e digo: /enti/, que palavras podem ter sido ditas? Pente? Dente? Vamos adivinhar?
Essas atividades chamam a atenção para outras segmentações sonoras, outras unidades sonoras, que não a silábica, tão mais enfatizada na alfabetização, por ser a unidade mínima da emissão sonora e facilitadora de segmentações, ao menos na nossa língua. Mas há unidades maiores que a sílaba, como -ola em bola, cola, rola, mola... Há unidades menores que a sílaba, como -tr, em trem, trator, triângulo, trufa. Há unidades fonêmicas e silábicas... A diversidade na exploração dessas unidades favorece enormemente a reflexão fonológica, a flexibilidade do pensamento e a apropriação do princípio alfabético, fundamental para aprender a ler e escrever. Todas essas unidades fonológicas podem ser exploradas simultaneamente em brincadeiras diversas - como a do eco, que inclui, nesse caso, também a unidade texto, fonte da brincadeira.
Brincar de eco é muito bacana! Experimentem!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Alfabeto

Vejam que livro de alfabeto bacana:




Eu que estou preparando um post sobre abecedários interessantes, adorei esse livrinho de Marion Bataille, uma designer francesa, com pop-ups e efeitos visuais bacanas. É um abecedário em três dimensões, da editora Sextante.

Ele me foi apresentado por minha amiga Ana Aurélia, que o adquiriu em Parati, na Flip desse ano.

Valeu, Aninha!

Mais adiante escreverei sobre os abecedários, alfabetos ilustrados, aguardem! Adoro letras...

Lica

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pê de Pai

O dia dos pais passou, encontrei um belo livrinho, de edição original portuguesa, que eu e Joaquim, meu filho, demos para o seu papai ontem. E já fui logo pensando em um material para fazer com ele, visto que tem ilustração e cores bem bonitas... Bom, me vieram umas ideias que compartilho com vocês.

O livo é Pê de Pai, de Isabel Minhós Martins e ilustrações de Bernardo Carvalho. No Brasil saiu pela editora Cosac Naify. Em Portugal foi editado pela editora Planeta Tangerina, que vocês podem conferir no site http://www.planetatangerina.com/ ou no blog http://www.planeta-tangerina.blogspot.com/. Na edição da Cosac veio uma tira envolvendo a capa, com palavrinhas do músico Moreno Veloso, filho de Caetano.
Pê de Pai foi premiado e ganhou menção honrosa em prêmios internacionais referentes a ilustração e design. Vale à pena dar uma espiadinha e, inclusive, procurar outros livros da dupla, como Depressa, Devagar, por exemplo, bem bacaninha também. A Yara Kono, lá da Planeta Tangerina, me contou que há outros livros da editora saíndo em breve no Brasil pela Cosac Naify, aguardem! Aliás, deem uma olhadinha no blog da Planeta Tangerina, é bem legal!
Voltando... O livro Pê de Pai apresenta imagens cúmplices de pai e filho/filha... mas dispensa palavras outras que as que definem o jogo entre eles. Por isso, não digo mais nada, conto em imagens:



Na tradução para o português brasileiro (!!!), o "pai travão" passou a "pai freio de mão", o "pai grua" passou a "pai guindaste", o "pai tractor" passou a "trator" e o "pai escadote", "escada", mostrando que nem tudo se resolve com reforma ortográfica!!! Mas em quase todo o resto do livro, a edição brasileira segue a original portuguesa.
São 24 páginas de pai tudo o que for. E certamente poderíamos imaginar outras tantas... olha uma dica aí! "Pai sacola", "pai vento", "pai estante"... quantos mais? Aqui em casa o pai é também "papai paquinho", alusão aos tantos parquinhos que o pai propunha à filha, quando tinha entre 2 e 3 anos. Quantas outras histórias de pais e filho(a)s dariam outras tantas páginas!!! Talvez umas nem tão alegres, mais aflitas... Que tal saber dessas histórias de pais-tudo?
Aliás, cada página do próprio livro também poderia ser o ponto de partida para muitas histórias: "pai avião"..."pai chocolate", "pai ambulância"... o que mesmo levou a essas cenas e o que aconteceu em seguida? Podem virar histórias coletivas interessantes.
Bom, vou fazer um material assim: as ilustrações em fichas grandes (mas podem ser menores que as páginas do livro), colando as imagens impressas em papel mais grosso, tipo duplex. Escaneando as páginas podemos ajustá-las ao tamanho que quisermos. Mas gosto grande! Depois em fichas menores, as palavras trator, cabide, avião, casaco, sofá, motor, colchão, despertador, cavalinho..., enfim, tudo no que o pai pode se tornar. Dá para fazer fichas em letras de imprensa maiúscula e também fichas em minúsculas, se quiser oferecer diferentes letras.
É recomendado que se alfabetize com letra de imprensa e existem bons argumentos para isso - de linguístas, construtivistas e outros mais - com os quais eu particularmente concordo. E escolhe-se então as maiúsculas. Mas, por outro lado, também é importante que as crianças reconheçam outros tipos de letra, afinal elas estão presentes nos textos que circulam socialmente e, a menos que queiramos (!!!) voltar ao tempo em que se controlavam os escritos para que não apresentassem elementos supostamente dificultadores do processo (como sílabas complexas, por exemplo), temos que assumir a presença de tipos diversos de letras. Assim, me parece, cabe ao professor com sua sensibilidade perceber a hora de apresentar outras possibilidades, de acordo com o domínio que as crianças têm do sistema alfabético, da categorização gráfica e funcional das letras do alfabeto e do conhecimento que têm dos tipos de letras que veem nos diversos suportes de escrita de seu entorno. É como penso.
Então, nessa versão do material, para associar os nomes às figuras, as crianças terão que fazer um esforço para reconhecer as palavras das fichas de palavras, mas, ao mesmo tempo, podem recorrer à escrita cursiva da ficha com as ilustrações, como apoio a sua leitura. Nesse caso, se esforçarão para associar a letra cursiva à letra de imprensa. E essa escrita cursiva pode ou não facilitar, dependendo do que sabem sobe a grafia dessas letras. É um desafio interessante.
Mas podemos também fazer um outro material, com as figuras das ilustrações recortadas cuidadosamente, fazendo um contorno bonito, excluindo o escrito e aproveitando parte do fundo nesse contorno, e colar em um papel mais grosso. Nesse caso as imagens podem ser menores. Não dá para eu mostrar porque ainda não fiz meu material, só está na minha imaginação! Estou aqui compartilhando a ideia, bem fresquinha, com vocês. Quando eu fizer, prometo que mostro!
Bom, nesse caso, as crianças têm que associar a imagem, o que ela representa, e as palavras correspondentes. Ou seja, a imagem do pai sofá (sem a escrita disso) à ficha com a palavra SOFÁ. Para isso, terão que se lembar o que cada figura representa, a partir das diversas leituras e explorações prévias com o livro.
Essas palavras das fichas podem também ser classificadas por letras ou sílabas iniciais ou finais, por tamanho, número de letras ou sílabas, bem como servir para fazer trens de palavras, tal qual explicado no post da copa do mundo, o que tem uma bandeira do Brasil.
No meu kit farei também essas palavras todas fatiadas em letras móveis, para outras tantas possibilidades, como formar as palavras a partir de sua hipótese de escrita ou pensando na ortografia ou, ainda, com o modelo da escrita cursiva nas fichas de imagem. Fatiadas em sílabas também é outra possibilidade. Além de montar as palavras previstas nas fichas de imagens, pode-se também recombinar letras ou sílabas em novas palavras.
Uma coisa bem interessante que me ocorreu, agora pensando em outro tipo de atividade, é brincar com as crianças de definir cada pai desse e escrever essas definições delas. Deve sair muita coisa legal! Depois pode fazer um mural com as imagens e as definições ou até um livrinho com ilustrações das próprias crianças. Pode também escrever e ilustrar outras tantas coisas incríveis nas quais um pai pode se transformar, como falamos anteriormente. ...aliás, e uma mãe também... Que tal fazer a versão Mê de Mãe? Eu ia gostar!
Encontrei também outra dica bem legal, de brincar de adivinha, no próprio blog da Planeta Tangerina, aqui nesse link. Escreve-se em fichas outros tipos de pais: "pai pente", "pai termômetro", "pai chapéu" etc... e após sortear uma, sem ninguém ver, o adulto dá uma definição, para as crianças adivinharem que pai pode ser. E completo: no contexto da alfabetização, podem encontrar entre as fichas, a que corresponde ao pai descrito. Se já têm certa autonomia no reconhecimento das palavras, ou de parte delas, podem tentar adivinhar a partir da leitura. Se não, precisam antes adivinhar o que é, para então buscar reconhecer entre as fichas aquela com o pai que procuram.
Bom, mas tudo isso só vale se, antes, curtimos muito o livro, como livro: folhear, ler, ouvir, conversar, sentir. Trata-se, antes de tudo, de um livro. E de um livro que pode nos falar muito da complementaridade entre texto e imagem.
É isso gente, o dia dos pais já passou...mas quem precisa de dia dos pais para falar deles? Nunca é fora de tempo lembrar das coisas bacanas que parecem tão prosaicas. E nunca é fora de hora para transformar as coisas de todo dia em poesia e arte e aprendizagem.

Lica


domingo, 1 de agosto de 2010

Nomes próprios e Poemas

Sabe, eu sempre acho que o nome próprio, essa primeira palavra que recebemos do mundo, fonte primeira de nossa identidade, é também a porta de entrada para a alfabetização. Junto com os textos todos, as histórias, os livros, eis que essa palavrinha insiste em querer ser escrita em desenhos, pertences, cartinhas salpicadas de letras... e lidas, para fazer-se reconhecido, identificar-se, dizer de cada um...
Dentre as tantas coisinhas que podemos fazer com os nomes próprios e, dentre essas, as que podemos fazer para pensar sobre letras e sons da língua, palavras e partes de palavras, adoro os anagramas, a decomposição e recomposição dos nomes, o passeio das letras, a poesia sapeca das letras se movendo nos nomes...
É Elias José quem faz o primeiro convite:
Há poesia no seu nome

“Se você falar o seu nome, poderei achar outros nomes dentro dele, só com as letras que ele traz. Com estas palavras e outras de ligação, posso escrever um poema engraçado como a cara de espanto que você está fazendo. Ficará bem musical, pois os sons são os mesmos das letras do seu nome. Parece que está duvidando, não é?
Imaginemos que o seu nome seja Argemiro. Você diz que detesta este nome, mas era o nome do seu avô paterno. O seu pai quis homenageá-lo à sua custa. Acho que depois dessa brincadeira, não vai achar que é um nome feio assim. É até simpático. Vamos ver quantos nomes há no seu nome:

ARGEMIRO! ARGEMIRO? ARGEMIRO, ARGEMIRO...

Olha que eu vejo um ar gostoso batendo no corpo, dento do seu nome. Vejo um mar imenso que vem em ondas, que batem na praia e nas pedras. Tem cheiro, som e gosto salgado. Pode ser tocado, sendo frio ou quente, dependendo do sol. Está meio frio agora, mas é bom senti-lo no corpo. Olha quanta água no seu nome! Há um rio em Argemiro. Rio de águas limpas que correm levando folhas, batendo em pedras, que gemem. É tão limpinho este rio que vejo cardumes de peixes. E vou pelo seu mar ou rio, Argemiro, e remo e rio. Giro o ramo que geme. E vou para Roma e miro e remiro e oro e rimo. De poesia, o nome Argemiro tem até rima. Mas cuidado! Você sabe o que significa ira e ela está quentinha no seu nome, pronta para destruir quem dela se aproxima. Mas esqueça as coisas negativas e goste muito da poesia que mora no seu nome, Argemiro.

E aí, você não se animou em descobrir a poesia do seu nome?”

Elias José, A Poesia pede passagem: um guia para leva a poesia às escolas. São Paulo: Paulus, 2003.

Pois, então, já tentaram?

Para encontrar outras palavras dentro de seu nome, vale também duplicar letras que o compõe, especialmente as vogais. Depois de brincar disso, professor, que tal tentar com as crianças? Pode ser no papel, mas é muito, muito legal com as letras móveis. Sugiro, como material, ter muitos kits de letras móveis, para atividades e jogos diversos, e um kit de nomes próprios, os nomes (o tal crachá, pode ser) em fichas grandes e os nomes em letras móveis. Gosto de letras grandes também. Cada um com seu nome, formado com letras móveis, podem tentar fazer seus rearranjos, desarrumar e rearrumar, trocar e deslocar e, então, encontrar palavras, adormecidas ou falantes, escondidas em seus nomes.

E com as palavras, que tal poesia?

E é Bartolomeu Campos de Queirós quem faz, aqui, o segundo convite. No seu Diário de Classe, em vez de nomes completos, presenças, ausências, frequência, notas, resultados, conteúdos, rendimentos, registros de aulas e de habilidades e dificuldades, ele traz poemas dos nomes...de A a Z...

Ele caça palavras dentro dos nomes e depois, ele as poesia.

Diz ele:

“Se olho para uma palavra, descubro, dentro dela, outras palavras. Assim, cada palavra contém muitas leituras e sentidos. O meu texto surge, algumas vezes, a partir de uma palavra que, ao me encantar, também me dirige. E vou descobrindo, desdobrando, criando relações entre as novas palavras que dela vão surgindo. Por isso digo sempre: é a palavra que me escreve. Leia a palavra janela, tentando encontrar as outras palavras que nela estão debruçadas. Aí, você compreenderá como foi fácil escrever este Diário de Classe”.

J A N E L A

. . . E L A

. A N E L .

J A N E . .

. A N E . .

. A N E L A

J A . . L A

E ele nem usa, nos poemas, todas as palavras que encontra... Dá até para fazer outros tantos poemas... Com Graça, ele fez graça e garça, falando da própria brincadeira de trocar letras. Deixou raça, rara e garra (duplicando o r nos dois casos) e outras de fora. Com Joseane, achou outros nomes dentro do nome. E com Luciana fez os dois, palavras e nomes. E assim vai...

GRAÇA

Se Graça trocar
de lugar as letras,
a garça voa.

E a menina,
sem graça,
fica sozinha.

.

JOSEANE

Jane ama José,

José casou com Ane.

Como nasceu Joseane?

E o que foi feito de Jeane?

.

LUCIANA

Lia na lua

recados

de Luci e Ana,

lembranças

de Lina e Lana

e saudades

de Luana.

Bartolomeu Campos de Queirós, Diário de Classe, São Paulo: Moderna, 1992.

Que tal, professores, tentar fazer pequenos poemas com as palavras que moram dentro dos nomes de seus alunos? Que tal eles ajudarem?

Pois bem... Sabe que muitos poetas se utilizaram desse recurso para fazer seus poemas? Encontram palavras dentro dos nomes ou dentro de outras palavras, duplicam letras para perseguir outras tantas e mudam uma letra, umazinha só, formando pares mínimos (lembram do post sobe pares mínimos?), que também formam sonoridades bem interessantes. Poema, vocês sabem, é um jogo com a linguagem, com os sons, com os sentidos articulados à sonoridade das palavras.

Querem ver um desses? É o Colar de Carolina, de Cecília Meireles.

Colar de Carolina
Cecília Meireles

Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas
da colina.
O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral

nas colunas da colina.


CAROLINA: em Carolina tem coral, colar, cor, coroa, colo, cal, colina (e coluna, que com colina, faz um par mínimo!), todas palavras que Cecília colocou lá. E ainda tem colore e corre, que não se faz com a letra i, mas se faz com o som / i /, que quase aparece em Carolina (quem aparece é seu “irmão”, o fonema / ĩ /, um i nasal). CORADA também só acrescentou o D, as outras letras estão lá e a palavra ressoa em coral...

Bom, gente, e com letras, palavras, nomes e belos poemas, muitas outras tantas coisas podemos fazer. Dentre essas muitas, já pensaram em brincar de recitar um poema suprimindo algum fonema? É um jogo de reflexão fonológica de nível bem complexo, mas que dá para brincar. Precisa saber de cor ou ir dizendo após a leitura de cada verso...
Experimentem dizer ou ler o Colar de Carolina, ou qualquer outro poema repleto de aliterações e assonâncias, sem pronunciar algum fonema recorrente, como o fonema / k / do Colar de Carolina, por exemplo. Ou, no poema do nome Luciana, ler/recitar sem o fonema / l /, correspondente à letra L. Dá para dar bastante risada! E é sério!!!
Experimentem também brincar de suprimir, deslocar, acrescentar ou substituir letras/fonemas, finais ou iniciais, nos nomes das crianças. Ex. LARISSA: Arissa, Lariss, Tarissa, Barissa, Farissa, Clarissa, Larisse... Conheço quem já tenha feito o livro dos nomes, cheio de experiências desse tipo, feitas em sala, seja cada criança com o seu, seja um coletivo. Lindos!!!
Aliás, sobre poesia com o nome e as letras do nome, vai mais uma de Cecília, O Mosquito escreve. Aqui, são as letras do nome do inseto, m-o-s-q-u-i-t-o, que se revelam no poema. Dá para tentar fazer parecido com os nomes de pessoas. Melhor até que os já meio batidos acrósticos.

...

O Mosquito Escreve
Cecília Meireles
O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.

O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.
Este mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.
Oh!
Já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever seu nome.
Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?
E ele está com muita fome.
Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo, Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1987.
Por hoje, é isso, em breve, novos posts sobre a sonoridade dos poemas, as rimas, aliterações e assonâncias que provocam sentido, ritmo, beleza aos poemas. E ensinam sobe esse gênero, suas características, além de favorecer muitas situações de reflexão fonológica, brincando e apreciando jóias da literatura. Se bem que em parlendas e trava-línguas tem outro tanto disso...só que em contextos mais nonsense, também ótimos para focar a atenção nos significantes e não no significados – ótimo exercício de reflexão fonológica. Chegaremos lá!
Fiquem ligados,
Lica

sábado, 26 de junho de 2010

Caixinhas de Livros

Os kits das Caixinhas de Livros são xodozinhos que faço a partir de alguns livros infantis que tenho em meu acervo... Compõem-se de caixinhas contendo materiais preparados a partir de diversos livros de literatura infantil. Cada caixinha, um livro diferente, seja da literatura infantil brasileira ou estrangeira, todos muito bacanas para as crianças nessa idade, em processo de alfabetização, e também para crianças menores. Meu filho, quando tinha 3 anos, adorava!

O propósito dessas caixinhas é dispor de um material estruturado a partir das histórias, para que, após serem lidas, depois da fruição estética e literária completa, e mesmo após gerarem outras situações de conversa, de leitura e de produção escrita, no âmbito do letramento, possam também favorecer atividades de reflexão sobre o sistema alfabético de escrita, o uso dos conhecimentos disponíveis sobre o funcionamento desse sistema e de diversas estratégias de leitura pelas crianças.

Os livros literários são, aqui, contextos e não pretextos para refletir sobre a língua escrita. Livros literários são, primordialmente, objetos artísticos, com função estética, lúdica, literária. Sua leitura envolve a formação humana, a fantasia, a imaginação, a humanização, a formação leitora mais completa. Não podemos perder isso de vista em nenhum momento. Os materiais são possibilidades de durar mais nas histórias, seguir com seus personagens e enredos, não são recursos para "matar a literatura" - a leitura não deve ter como fim a análise da língua, que não deve ser o foco principal. Jamais a leitura literária deve ser pretexto para abordar os conteúdos linguísticos. Mas, dito isso, a leitura literária é também muito importante para ampliar as experiências das crianças com a linguagem, ampliar o vocabulário, se apropriar de certas construções linguísticas, se familiarizar com o discurso próprio da escrita, com os procedimentos e comportamentos leitores. E também pode constituir um contexto significativo para refletir sobre a língua, em seus aspectos notacionais e fonológicos, no processo de alfabetização. Tudo depende de como o recurso é proposto e se relaciona com os repertório literários.   
Ouvir, contar, contar junto, fruir, apreciar, discutir, reler, ler junto, recontar, contar para um escriba, reescrever, fazer coletivamente listas de personagens, reconhecer as palavras na lista, brincar com as palavras... Organizar os nomes dos personagens em ordem de aparição em certas narrativas pode ajudar no reconto, parear o personagem com as cores que sugerem (Bom dia todas as cores), ou com as suas onomatopeias (Dorminhoco) ou o que eles fazem ao dormir (a casa sonolenta), ajuda a firmar os eventos da história e também apoia o reconto. Enfim, muitas são as práticas de leitura e escrita que podem favorecer o letramento e a alfabetização a partir de livros de literatura infantil, e algumas envolvem reconhecimento de palavras, consciência fonológica, completar palavras com letras, formar palavras, relacionar entre partes do escrito e do oral, dentre outras propostas. 
Com os pequenos, a leitura oral feita – bem feita – pelo adulto já é essencial a sua formação como leitor. É comum começarem a recontar partes, com a entonação de leitura, como se lessem também. As situações de “como se lessem” constituem-se em eventos de letramento muito importantes para a formação de comportamentos leitores. Formação de leitores.
No acervo de materiais que venho desenvolvendo, há Caixinhas de livros diversos, como Bruxa, Bruxa, A Casa Sonolenta, Bom Dia Todas as Cores, Os Amigos da Bruxinha, Dorminhoco, dentre outras. No momento estou preparando caixinhas a partir dos livros O Grúfalo, estudando possibilidades de um jogo de trilha, do livro Maria-vai-com-as-outras e do livro O rei Bigodeira e Sua Banheira. Essas caixinhas, todas elas, fazem parte das propostas do Módulo II das Oficinas de Produção de Material, constituindo-se como materiais produzidos a partir de gêneros textuais diversos, no caso, gêneros da cultura escrita, literária.
Hoje vou postar sobre a Caixinha do livro Bruxa, Bruxa.
O livro Bruxa, Bruxa, Venha a Minha Festa, de Arden Druce, da editora Brinque-Book, em si, já é ótimo para propor situações de aprendizado da leitura, pois sua estrutura favorece a leitura da história quando ainda não se sabe ler, possibilitando antecipações do escrito pelas repetições e imagens. A história é contada por meio de um diálogo que se repete, mudando apenas os personagens. Assim, depois de lida uma vez pelo professor, pode ser lida como uma história interativa, as crianças contribuindo com a leitura das frases que, rapidamente, memorizam pela repetição.
As crianças podem, a princípio, “ler” as primeiras frases, que são sempre o nome do personagem daquela página, em vocativo, e indicado pela ilustração, e o convite à festa: “Bruxa, Bruxa, por favor, venha à minha festa”, “Lobo, lobo, por favor, venha à minha festa”... E o professor lê as frases seguintes, “Obrigado, irei sim, se você convidar a (o)...”, e lê o nome do personagem, que vai figurar na próxima página. A última palavra que o professor lê, o nome do personagem seguinte, dá a pista para a próxima frase das crianças. Ex. “Obrigado, irei sim, se você convidar o Espantalho”: “Espantalho, Espantalho, por favor...”.
Com o tempo, as crianças podem ler essas frases em resposta também, usando algum recurso para saber o personagem que se segue, como, por exemplo, uma lista dos nomes ou fichas com esses nomes. Individualmente é comum ver as crianças “pescarem” virando o cantinho da folha para ver a ilustração da página seguinte, que guiará sua leitura. As ilustrações, aliás, de Pat Ludlow, são fantásticas, ao mesmo tempo belas, horripilantes e oníricas. Grandes e impactantes.
Por sua estrutura, é também uma ótima história para se recontar de memória, individualmente ou coletivamente. A única coisa que é preciso controlar, tendo as frases repetitivas memorizadas, é sequência dos personagens que vão aparecendo. Essa sequência pode, justamente, ser apoiada numa lista ou fichas de nomes numeradas ou dispostas na ordem de aparição dos personagens.
Assim, a forma como surgem os personagens da história, e sua estrutura recorrente, favorecem o uso do kit Bruxa, Bruxa de modo muito produtivo em atividades de alfabetização.
O Kit da Caixinha de Bruxa, Bruxa permite compor atividades de leitura e escrita de palavras que correspondem aos personagens da história, em três diferentes formas: palavras inteiras, segmentadas em sílabas e em letras móveis.
Assim, o kit pode ser usado de diferentes modos. No caso das palavras inteiras, pode ser proposta a produção de lista dos personagens, pela ordenação dos nomes a partir das ilustrações das páginas; a procura (leitura por estratégias diversas), entre as palavras, do personagem indicado pela professora, a partir de diversos indícios; cada palavra – as palavras devem ser distribuídas entre as crianças ou mesas –, pode ser relacionada à figura do livro mostrada ou nome do personagem dito oralmente (pode-se fazer também pequenas versões das imagens dos personagens para compor o kit); pode-se ainda fazer comparações entre os nomes nas fichas, encontrando semelhanças e diferenças entre dois deles ou entre todos. As atividades aí são de leitura de palavras, de reconhecimento delas a partir de estratégias de leitura e dos conhecimentos que se tem de valores sonoros de letras, de relações entre o oral e o escrito em diferentes níveis. As fichas com os nomes, com as palavras inteiras, podem também ser arrumados em ordem alfabética e até provocar uma reescrita da história a partir de uma nova sequência e um novo desfecho...(no livro, começa-se a história com a Bruxa e volta-se, no final, a ela própria).
A lista produzida com as fichas, com a sequência dos personagens, pode ser afixada na sala e proposta como apoio para o reconto. Essa é uma situação muito bacana de produção de lista, pois ela terá um objetivo bem definido, sua leitura terá um propósito comunicativo: apoiar a memória para que recuperem a sequência e recontem a história. Desse modo, a atividade de alfabetização, de reflexão sobre o sistema alfabético (compor a lista a partir do reconhecimento dos nomes escritos nelas) se integra completamente com a de letramento (recontar a história mantendo sua estrutura, seu sentido, a linguagem própria ao texto). Alfabetizar letrando... refletir sobre a escrita em atividades de produção de sentido.
No caso das palavras segmentadas em sílabas, os alunos serão solicitados a compor os nomes dos personagens, sejam indicados pela professora ou associados às figuras, em atividades semelhantes às descritas acima. Trata-se de uma atividade de síntese de sílabas, de leitura e escrita de sílabas para formar palavras (ainda que com sílabas móveis e não com o lápis, o gesto de escritura).
Formadas as palavras, as mesmas atividades podem ser propostas. Além disso, pode-se comparar palavras pelo número de sílabas, pelas sílabas (iniciais ou não) idênticas, como co-bra e co-ruja (interessante também perceber que no som podem ser diferentes, embora na escrita não), pode-se identificar em palavras diversas a mesma sílaba em posições diferentes e pode-se ainda ler as palavras retirando-lhes uma das sílabas ou trocando-a por outra. Ex. em co-ru-ja, se substituirmos o ru pelo pi de pirata, como ficaria? (co-pi-ja). Pode-se então brincar: Essa palavra existe? E se existisse, o que acham que seria? Experimentar juntar as sílabas de palavras diferentes e tentar ler que "doidice" saiu também pode ser interessante. Um nome de personagem bem maluco e engraçado pode surgir, provocando situações de leitura, escrita, produção de novas histórias. Ex. ES-PI-LO-XA (ES de espantalho, PI de pirata, LO de lobo e XA de bruxa). O que - ou quem - seria isso?
No caso das palavras segmentadas em letras móveis, trata-se de atividade de escrita, de composição das palavras, em situações diversas e atividades como as já descritas. Para crianças que já escrevem alfabeticamente, ou quase, compor os nomes dos personagens a partir de letras móveis constitui-se em uma situação de reflexão ortográfica. O fato de haver na caixinha apenas as letras necessárias para a composição dos nomes dos personagens da história permite que as próprias crianças controlem suas produções, pois sobrando ou faltando letras significa que é preciso rever alguma das palavras e pensar sobre o que pode estar incorreto do ponto de vista ortográfico.
Como nas atividades com sílaba, também aqui pode-se brincar de suprimir, acrescentar, deslocar letras das palavras formadas e ver que palavras ou palavras inventadas surgem, havendo inclusive a possibilidade de uma rica discussão sobre o que a língua permite como palavra (copija não é uma palavra que exista, que tenha significado, mas seria possível na língua portuguesa) e as sequências que não formam palavras possíveis, no âmbito das estruturas silábicas do português (ex. cpija). Essas situações podem se constituir em ricas reflexões para crianças com hipóteses silábico-alfabéticas e alfabéticas.
Para os que escrevem a partir de uma hipótese silábica, a composição de palavras com letras móveis é uma boa oportunidade para refletirem sobre a escrita, no âmbito de sua hipótese, bem como para confrontar sua hipótese com a dos colegas, especialmente se trabalharem em duplas ou pequenos grupos. Nesse caso, e especialmente se consideram o valor sonoro das letras em suas escritas, aparecem grafias como, por exemplo, crj, oua, cua, para a palavra coruja, produtivas e aceitáveis nesse nível de reflexão sobre o funcionamento do sistema de escrita, pois consideram a sílaba como unidade que se grafa com uma letra.
Outra coisa que pode ser incluída na caixinha do Bruxa, Bruxa, são suas  partes fatiadas (as frases de cada página, uma com o convite, outra com a resposta) para as crianças colocarem em ordem. Assim, elas deve relembrar a ordem da história, dos personagens que vão se sucedendo uns aos outros, ou podem também se apoiar  na ordem das palavras numa lista (ou montada com o material) e ir tentando encontrar a sequência das frases fatiadas, que correspondem aos turnos de fala nesse grande diálogo encadeado. É bem interessante!

Bom, é isso, gente, essa é a Caixinha Bruxa, Bruxa. Essas foram as possibilidades que couberam nessa caixinha em especial. Experimentem, tentem também criar outras possibilidades. Compartilhem!
Essa é a Caixinha Bruxa, Bruxa. Outras caixinhas, outras coisinhas, cada uma, algumas peculiaridades. Caixinhas semelhantes, caixinhas diferentes. Cada uma tentando explorar as possibilidades singulares de cada narrativa.
E vão pensando nos livros dos acervos de vocês, o de casa, o da escola, o da vontade de tê-los... Como seriam as caixinhas dessas histórias? Espero provocá-la(o)s a imaginarem isso e, quem sabe, produzirem suas próprias caixinhas.

Busque nos marcadores "Caixinhas de Livros", na lista ao lado direito da página e veja lá outras caixinhas com materiais a partir de livros literários. 

Lembrete: não é para ter caixinha para todos os livros que ler, certo? Por vezes a leitura em si basta. Aqui são algumas propostas, para alguns livros. Só isso. Se todo livro lido gerar atividades, podemos empobrecer a ideia de leitura literária, escolarizando demais o que é muito maior nessa relação da criança com a literatura, certo? 
Lica

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Clima de Copa do Mundo


BRASIL
Aproveitando a oportunidade e a motivação da Copa do Mundo, vou apresentar nesse post uma ideia de material e de atividades com as bandeiras e nomes dos países participantes da Copa do Mundo de 2010. Esse material foi proposto por Mariana Capinã Vitoriano da Silva, que está cursando o 5° semestre de Pedagogia na UFBA e fez uma oficina comigo agora em junho, no contexto da disciplina Alfabetização, ministrada pela professora Mary Arapiraca.
Mariana, que faz estágio como professora numa turma de EJA, aproveitou o interesse dos alunos por futebol para abordar o tema a partir de textos, curiosidades, informações e jogos. Para trabalhar a leitura e a reflexão sobre o sistema de escrita, Mariana propôs algumas atividades com as bandeiras dos países e seus respectivos nomes. As bandeiras dos países da Copa podem ser encontradas na Internet, basta copiar, colar no Word, escrever seus nomes em tamanho grande, com letras maiúsculas, de preferência, e imprimir. Ela fez Preguicinha com os nomes dos países escritos em fichas de papel e depois também pediu à turma para organizar os nomes dos países em ordem alfabética, montando um varal com as bandeiras e os nomes. Notem que para organizar em ordem alfabética, é preciso levar em conta não apenas as letras iniciais, mas também as seguintes, criando uma ótima situação contextualizada de aprendizagem de letras e da ordem alfabética. Ex. Como colocar Espanha, Eslovênia e Eslováquia em ordem alfabética? Essa é uma pergunta que vai gerar interessantes discussões e reflexões.
Atenção: a atividade foi originalmente desenvolvida em uma turma de EJA, mas pode também ser proposta numa turma de crianças. Pode-se introduzir as bandeiras aos poucos, à medida que forem acontecendo os jogos e as leituras e conversas sobre a Copa. Pode-se começar também pelos países mais conhecidos ou separados por continente. O tratamento vai depender da turma, da motivação, do interesse, dos conhecimentos que forem sendo partilhados.
Para quem não sabe, a Preguicinha é um nome que se dá àquela atividade interessante que se faz, geralmente, com nomes próprios, de cobrir a palavra com um papel e ir mostrando letra por letra, variando a letra mostrada – letra inicial, segunda letra, ou última letra, penúltima letra – para que os alunos tentem descobrir qual é a palavra escondida. A Preguicinha pode ser feita com outros universos de palavras, como personagens de uma história, animais estudados, lista de comidas do São João, ou seja, várias possibilidades, inclusive com os países da Copa. Antes os alunos devem saber que países são esses, para lembrar das possibilidades de palavras que tem naquele universo. Ex. Se não sabem que Eslováquia é um nome de país participante da Copa, como vão poder sugerir esse nome ao verem a letra E seguida da letra S?
A Preguicinha é uma atividade muito bacana, pois exige que os alunos considerem e analisem cada elemento por vez, cada letra, que comparem, antecipem, verifiquem, discutam possibilidades, pensem sobre as letras iniciais e finais das palavras, usem os conhecimentos que têm sobre letras e sons. É bacana principalmente quando há, nos universos de palavras possíveis (daquele campo lexical trabalhado), também palavras que se iniciam ou terminam pelas mesmas letras. Desse modo, quando as letras iniciais, segundas, finais coincidem, é preciso que os alunos busquem outros indícios, letras mais pelo meio da palavra, para descobrir a palavra escrita. Ex. Argélia/ Austrália/ Argentina; Espanha/ Eslovênia/ Eslováquia.
Se as bandeiras e os nomes dos países forem colados, separadamente, em papel mais grosso, tipo duplex, pode-se ainda propor outras tantas atividades, como colocar no centro da roda ou em mesas os pares (bandeiras e nomes) embaralhados para os alunos associarem as bandeiras dos países aos seus nomes. É um jogo que pode se chamar As Bandeiras e Seus Nomes. Para isso, evidentemente, precisam reconhecer as bandeiras ou a professora deve informar, oralmente, cada uma qual é. A ideia de explorar bastante as bandeiras antes, expor na sala, em varal ou na parede, junto com seus nomes, como fez Mariana, já favorece o reconhecimento de bandeiras de diferentes países. Mas na hora dessa atividade de associação da palavra com a figura, essa "pesca" não pode estar mais exposta, senão não precisa haver esforço de reconhecimento das palavras. O professor pode também distribuir apenas os nomes pelas mesas ou por cada aluno e mostrar à turma cada bandeira dizendo o nome do país correspondente. A mesa ou o aluno que estiver com a ficha com o nome do país, deve então mostrar.
Outra atividade interessante, que também fazemos muito com os nomes próprios, é o Trem de Palavras. Distribuem-se os nomes dos países entre os alunos e coloca-se uma ficha com um dos nomes no chão, essa é, naquele turno, a locomotiva que vai puxar os outros nomes. Ex. Brasil. Quem tiver uma palavra que tenha alguma característica semelhante à palavra Brasil, que está no centro, coloca ao lado, no trem. Ex. Portugal, pois termina com L, como Brasil. Quem segue colocando a próxima palavra deve considerar a palavra Portugal, não mais Brasil. Ex. Paraguai, pois começa com a mesma letra P. E assim por diante... Terminado o trem (alguns países podem ficar de fora ou também é possível ver onde eles poderiam se encaixar no trem), começa-se outro, outro turno, com uma nova palavra como locomotiva.
O professor pode solicitar que cada aluno justifique a escolha da palavra incluída no trem ou que os outros colegas digam o critério que uniu as duas palavras em cada jogada. Pode também ir provocando os alunos a considerarem, aos poucos, diversos critérios: letra final, letra inicial, segunda letra, letra do meio, número de letras, número de sílabas, presença de determinada letra (ex. Brasil e Chile: ambas têm a letra I), presença de determinada sílaba, nome composto, presença de acentuação etc. Levar os alunos a considerarem sempre critérios formais, não semânticos.
Uma variante do trem é o jogo Pares de Palavras, que é interessante também com nomes próprios. Coloca-se as fichas com os nomes (próprios ou dos países ou outro universo qualquer de palavras) embaralhadas, viradas para baixo, de modo que os nomes não sejam vistos. Cada aluno, no seu turno, desvira duas palavras aleatoriamente e tenta encontrar, entre elas, alguma característica comum às duas (critérios diversos, como os apresentados acima, para o trem). Todos podem ajudar, caso o aluno não encontre. Se realmente não houver algum critério que as unem, o jogador pode virar as cartas e desvirar mais duas, ou virar apenas uma das duas e desvirar mais uma. Pode-se também propor que tentem reconhecer, ler, as duas palavras que escolheram, cada jogador ou a turma toda ajudando. Prefiro o jogo pelo jogo, sem ter quem ganhe ou quem perca.
Enfim, muitas outras atividades podem se desdobrar. Invente a sua! Se inventar, mande para a gente pelo blog, para socializarmos outras possibilidades.
E vamos torcer também, né, gente?!
Agradeço a você, Mariana, por sua contribuição.
Lica

sábado, 22 de maio de 2010

Seminário de Alfabetização e Letramento

Oi, pessoas,
Esse post é para compartilhar com vocês a participação dos jogos e materiais em um seminário, o I SENAL - Seminário Nacional de Alfabetização e Letramento, que aconteceu de 18/05 a 21/05, em Itabaiana/SE, cidade próxima a Aracaju, onde há um campus da Universidade Federal de Sergipe. O evento teve como tema "Oralide e Escrita em suas múltiplas dimensões", com a participação de diversos palestrantes interessante, em especial a Profa. Leda Tfouni, pesquisadora importantíssima na área de Letramento.
Nas sessões de Comunicação, além de um artigo referente a minha pesquisa de Doutorado, apresentei, também um trabalho intitulado "Jogos e materiais para alfabetização em contextos de múltiplos letramentos", abordando questões referentes aos materiais para alfabetização, que embasam sua utilização. O artigo foi produzido e apresentado em co-autoria com a Profa. Mary Arapiraca, da Faculdade de Educação/UFBA.
Vocês podem conferir o artigo completo abaixo ou no link:
Vocês podem conferir também os slides da apresentação, com fotos e pequeno texto introdutório, no seguinte link:
http://www.slideshare.net/Licaraujo/slides-jogos-senal-4111296
Por ora, é isso. Em breve, novos posts, novos materiais, novas atividades... Aguardem!
Lica

sábado, 24 de abril de 2010

Trava-língua



Você conhece o trava-língua do digo Digo digo Diogo? É assim:
QUANDO DIGO DIGO
DIGO DIGO
NÃO DIGO DIOGO
QUANDO DIGO DIOGO
DIGO DIOGO
NÃO DIGO DIGO
Conseguiu dizer? Então tente mais rápido...e mais rápido...e mais rápido... E depois, tente com as crianças...
O trava-língua Digo Diogo deve ser bem explorado para que as crianças consigam dizê-lo cada vez mais agilmente, de cor.
Para ajudar a explorá-lo e a memorizá-lo, várias brincadeiras podem ser realizadas, como dizê-lo oras bem devagar, oras sussurrando, oras dizê-lo lentamente, ressaltando o verbo dizer conjugado (digo), oras enfatizando o nome (Digo). Interessante também é substituir os “digo” que não são verbos por nomes das crianças, para compreenderem melhor a estrutura do trava-língua e perceberem o jogo de palavras que provoca aquela sonoridade específica no trava-língua original (digo Digo):
Quando digo Maria
Digo Maria
Não digo João
Quando digo João
Digo João
Não digo Maria

Além de brincar de pronunciar cada vez melhor e mais rápido, pode ser proposta uma ordenação coletiva, ou em pequenos grupos, duplas, do texto fatiado em palavras ou versos. Além de se constituir em uma boa situação de leitura e de reflexão sobre a escrita, também ajuda na memorização.
As atividades propostas a partir de material estruturado tanto podem ser os fatiados, quanto outro jogo de fichas com palavras contrárias, usando o texto para fazer uma atividade oral com os contrários. O desafio será substituir as palavras DIGO e DIOGO por palavras contrárias e dizer o trava-língua, também atentando para a pronúncia clara e rápida. Para isso o trava-língua deve estar bem decorado.
Ex. Claro e escuro:
Quando digo claro
digo claro
não digo escuro
quando digo escuro
digo escuro não
digo claro
Alguns jeitos de brincar...
Cada criança ou dupla de crianças recebe um par de fichas contendo as palavras contrárias (CLARO/ESCURO) e tenta reconhecê-las. A professora diz os contrários que foram distribuídos e as crianças devem tentar dizer qual é o seu par. A professora deve ajudá-los nessa tarefa, de acordo com o nível de leitura do grupo e da dupla. Um outro modo de distribuir é dar apenas uma das palavras do par e pedir que achem a outra embaralhada na mesa ou no centro da roda.
Depois dessa atividade de exploração e tendo todas as palavras sido reconhecidas ou indicadas pela professora, começa-se a brincadeira.
A proposta é cada um dizer o trava-língua substituindo Digo e Diogo mostrando as duas palavras quando as enuncia. Pode ser um da dupla dizendo e o outro mostrando. Outra possibilidade é cada dupla mostrar o seu par e alguém do grupo reconhecendo as palavras, é escolhido para dizer o trava-língua, lendo-as. Ou, ao contrário, o trava-língua modificado é dito por alguém e quem tem o par em questão se identifica.
Uma outra variante é cada criança receber apenas uma das palavras do par e dizer o trava-língua usando sua ficha, mostrando-a, dizendo também o seu contrário. Quem tiver a palavra contrária deve então mostrá-la também.
A proposta, em todos os casos é sempre dizer o trava-língua substituindo pelas palavras contrárias a partir da leitura das fichas. Todos podem ajudar, pois o objetivo é tentar reconhecer as palavras usando estratégias diversas e os conhecimentos que se dispõe sobre o sistema.
Caso a turma seja muito heterogênea, cuidar para que os que têm domínio de leitura não respondam sempre pelos outros, dando, por exemplo, diferentes tarefas para eles (ex. os que leem pode ter a tarefa de dizer o trava-língua e os que não, de identificar e mostrar as palavras).
Depois da brincadeira, os que escrevem alfabeticamente, podem escrever as versões que mais gostaram ou inventar outras. Os que ainda não têm domínio de leitura e escrita autônomas, podem ordenar o fatiado em palavras, sendo cada vez preenchido com essas palavras (escritas em papel cortado em forma de fichas), formando-se, assim, novas versões do trava-língua. As crianças devem encontrar os pares correspondentes embaralhados.
Em termos do processo específico de alfabetização, essa atividade contribui para o uso dos conhecimentos que se dispõe sobre o sistema de escrita e o uso de estratégias de leitura na identificação das palavras, por um lado e, por outro, para a ampliação do repertório de “modelos estáveis”: palavras que funcionam como modelos de escrita convencional, que as crianças passam a reconhecer – toda ou em parte – constituindo em fonte de informação sobre o sistema de escrita e de comparação e confronto com as hipóteses infantis.
Tudo isso a partir de um texto da tradição oral, que traz brincadeira, desafio de pronúncia e de memória, bem como aprendizado do léxico. As palavras contrárias podem também ser usadas em contextos de produção coletiva ou individual de textos, construção de personagens e lugares de narrativas, suas características, descrição de objetos etc. Tendo o repertório de palavras disponíveis, as crianças podem consultar sua grafia para indicá-la à professora escriba ou consultar para escrever textos de próprio punho.
Seguem abaixo algumas sugestões de contrários para confeccionar as fichas, mas podem ser muitas outras as possibilidades, várias, podem até sair de contextos de histórias...
As minhas são impressas com letras de imprensa grande, cortadas e coladas em papel grosso, tipo duplex, do mesmo tamanho, e plastificadas. Ficam mais bonitas e duram bem mais! São todas brancas, mas é possível fazer também cada par de uma cor. Cria outras possibilidades, mas inviabiliza aquela sugestão de dar uma palavra para encontrar, dentre todas as outras, o seu par.
Ah! E quando digo brincar, digo brincar, não digo estudar!
Beijão,
Lica
largo/estreito
comprido/curto
mais/menos
perto/longe
bonito/feio
alto/baixo
forte/fraco
Muito/pouco
duro/mole
fino/grosso
triste/alegre
fundo/raso
grande/pequeno
cedo/tarde
leve/pesado
cheio/vazio
dentro/fora
aberto/fechado
...e inventem outros!!!
Esse kit e proposta foram elaborados a partir de uma ideia de brincadeira de Mary Arapiraca, minha fada madrinha, Emília muito sabida e inventadeira das palavras!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Kit filmes

Kit Filmes de Animação
O kit de títulos de filmes de animação compõe-se de imagens de filmes infantis de animação, mais contemporâneos, e seus respectivos títulos. Esse é um material destinado a crianças em fase de alfabetização, em especial a um determinado público infantil que conhece tais universos da cultura infantil midiática. Ver os filmes, discutir sobre eles, quando esses não são assistidos em casa, pode se constituir em situações interessantes de ampliação do repertório de narrativas audiovisuais das crianças.

O objetivo desse kit é fazer as crianças encontrarem o título do filme representado em cada imagem, a partir de indícios como tamanho da palavra, letra inicial, de conhecimentos prévios da relação entre letras e sons, bem como, a partir da leitura visual das palavras ou parte de palavras.
As atividades a partir do material são de leitura de títulos. Algumas fichas com as imagens que representam os filmes e as fichas com seus respectivos títulos podem ser distribuídas nas diferentes mesas, para que duplas ou pequenos grupos possam tentar fazer os pares imagem-título, ou todas as fichas podem ser apresentadas no centro de uma roda e todos fazerem coletivamente.
O professor pode também mostrar a imagem (ou o título) e pedir que as crianças encontrem, no centro da roda, o seu título (ou imagem correspondente). O mesmo procedimento pode ser feito com as fichas distribuídas entre as crianças e quem tem a ficha que faz par com a que a professora mostrou, mostra. Todos podem ajudar.

O professor deve ficar atento ao modo como as crianças vão encontrando as respostas e a seus argumentos. Os desafios da atividade serão tanto mais interessantes a depender de como o professor e as próprias crianças vão problematizando as estratégias usadas para tentarem ler e os conhecimentos que trazem para resolver as questões.

sábado, 10 de abril de 2010

Narrativas Audiovisuais


Sobre os kits confeccionados a partir de narrativas audiovisuais[1]
Filmes, filmes de animação, desenhos animados etc

Filmes, desenhos, videogames são, hoje, fonte de narrativas que constituem o repertório da cultura infantil contemporânea. Muito da experiência narrativa de hoje não vem exclusivamente das narrativas do repertório escrito, literário, nem do repertório oral, mas também, e muito, das narrativas midiáticas, audiovisuais. Os formatos audiovisuais se incluem no rol dos gêneros discursivos. É preciso, assim, pensarmos em conceitos ampliados de texto, leitura e letramento, que possam abarcar esses gêneros da comunicação mediada e considerá-los parte do repertório de práticas sociais que se articulam ao letramento da sociedade e dos indivíduos que nela se inserem.
O surgimento do cinema, da TV, da internet e outras mídias trouxeram novos modos de relacionar-se com a leitura e a escrita, deslocando as práticas antes próprias ao livro. As práticas de leitura que formaram outras gerações são diversas das práticas que estão formando as novas gerações de leitores. Gerações socializadas na cultura oral e na cultura letrada veem hoje as gerações mais novas socializando-se no âmbito das tecnologias de comunicação e informação audiovisual.
Muitos dos gêneros audiovisuais são atravessados, de algum modo, também pela linguagem verbal, constituindo-se em textos híbridos, em que a cultura oral, escrita e audiovisual se imbricam. Na verdade, a classificação dos textos em verbais ou visuais tende a se esmaecer e a nos fazer conviver com textos e linguagens híbridas. O movimento dos gêneros na cultura contemporânea, e da expansão da escrita, exigem que se conceba a textualidade para além da organização verbal. O conceito de “texto” não pode se esgotar no oral e na escrita da mesma forma que as linguagens não se esgotam no oral e no escrito. O texto, muito frequentemente, apresenta-se como uma combinatória de diferentes linguagens: um produto híbrido, um conjunto articulado de signos podendo fazer uso de linguagens verbais e visuais.
É preciso, assim, pensar em um conceito ampliado de letramento, ou letramentos, que abarque as práticas sociais letradas que circulam na sociedade, não restritas à escrita, mas que impliquem uma pluralidade de escritas, textos, linguagens. Inclui-se, assim, no saber ler, “saber ler” e fazer usos de uma diversidade de gêneros: livros e jornais impressos, mas também jornais televisivos, filmes, desenhos animados, videoclipes, games, hipertextos. Do mesmo modo, é preciso conceber um conceito ampliado de texto e de leitura. Ler, nesse sentido, é mais do que a capacidade de ler textos verbais, é um processo de compreensão de expressões formais e simbólicas, por meio de qualquer linguagem. Textos, nesse sentido, são materializações de discursos sejam eles verbais, verbo-visuais ou visuais.
A ampliação dos conceitos de texto, leitura, letramento e gêneros discursivos permite, assim, abranger, na reflexão sobre o aprendizado da escrita, os gêneros da comunicação mediada e permite-nos pensar numa perspectiva de letramentos múltiplos.
A escola precisa implicar-se na reorganização que atravessa o mundo da leitura, da escrita, dos relatos, da constituição do universo de narrativas no mundo contemporâneo. Assim, é interessante incorporar tais “textos” no letramento e alfabetização das crianças, afinal, constituem-se em narrativas do repertório da cultura infantil contemporânea e, como tal, devem poder circular também na escola.
Mesmo considerando que é preciso formar sujeitos críticos – inclusive das produções culturais midiáticas e sua natureza marcadamente mercadológica – e mesmo que tenhamos também que considerar as diferenças entre as linguagens verbal e visual no aprendizado da escrita e suas particularidades, a escola não pode furtar-se a considerar o hibridismo das linguagens, a heterogeneidade dos textos, a multiplicidade de letramentos. As narrativas provenientes de mídias audiovisuais a que as crianças estão expostas contemporaneamente, constituem-se em produtos culturais que elas consomem, nos quais se reconhecem e que constituem seus modos de ser, agir, dizer e dizer-se.
Sem desconsiderar o discutível valor de muitos produtos da mídia, é preciso poder considerar a sua recepção a partir dos sentidos que os sujeitos produzem sobre os produtos que consomem. É muito importante que o campo da educação se aproxime da visão que as crianças e jovens têm desses produtos, e os reconheçam como expressão de sua subjetividade, identidade e cultura.
Desse modo, a abordagem das narrativas audiovisuais na perspectiva do letramento precisa considerar essas questões. Na perspectiva da alfabetização, as narrativas audiovisuais são fontes de textos privilegiados para refletir sobre o sistema – como títulos, nomes, listas – tanto quanto os textos da tradição oral e da cultura escrita.
Títulos de filmes, personagens de desenhos animados, de filmes, listas de seus nomes, podem gerar materiais para alfabetizar e render boas atividades de reflexão sobre o sistema alfabético. Desde a exploração da leitura visual que podem fazer, e a consideração do tamanho da palavra, até a reflexão sobre letras e seus valores sonoros, bem como o uso de estratégias de leitura, do conhecimento de partes de palavras e comparação com outros nomes próprios, etc.
É interessante ressaltar que, entre títulos e nomes de personagens, há aqueles em inglês, sendo que, frequentemente, apresentam relações fonográficas ou grafemas não presentes na língua portuguesa. De fato, esse aspecto pode gerar alguma dificuldade para crianças que estão ainda começando a se apropriar das relações fonográficas e grafemas possíveis na sua língua materna. Entretanto, parece também interessante poder discutir, a partir dos questionamentos que surgirem, do conhecimento de palavras em inglês do repertório das crianças, sobre as letras, em inglês, terem outros sons, como o U de UP e o E de Wall-E; sobre encontros de letras que não existem em português, como shr, em SHREK, e sh, como em SHERI de Sheri Khan (Mogli) etc. Um desafio interessante.
Muitas palavras em inglês circulam no universo de palavras de crianças e adultos na contemporaneidade. Embora não seja o caso de sistematizar com elas as correspondências fonográficas de outras línguas quando estão se ocupando disso na sua própria língua materna, não podemos desconsiderar essa enorme presença de vocabulário em inglês e de usos de sons e grafias que não são próprios ao português no cotidiano das crianças. Isso também se relaciona com o letramento, já que muitas práticas sociais de leitura e escrita que circulam socialmente (incluindo-se o conceito de “leitura” de modo ampliado), exigem conhecimentos básicos dos valores sonoros de letras, em inglês.
De todo modo, cabe lembrar também que, sendo esses “textos” muito apreciados pelas crianças, podem constituir-se em materiais muito atrativos.
Os kits propostos são apenas uma base para o trabalho. Muitos outros poderão ser confeccionados, a partir do interesse dos alunos, de seu repertório próprio de filmes e animações.
Para as crianças que não tiveram a oportunidade de assisti-los, um bom começo é propondo fazê-lo. Evidentemente, é preciso refletirmos sobre a discussão – não pouco polêmica – relativa ao valor, à qualidade dessas narrativas e o papel da escola diante da formação ética e estética das crianças.
Uma citação de Sarmento parece-me apropriada para fechar, brevemente, essa discussão:
“A colonização do imaginário infantil pelo mercado é um dado da sociedade contemporânea que não se pode ignorar. Mas, do mesmo modo, não se pode também ignorar a resistência a essa colonização, através das interpretações singulares, criativas e frequentemente críticas que as crianças fazem (...), reinvestindo essas interpretações nos seus cotidianos, nos seus jogos e brincadeiras e nas suas interações com os outros. Afinal, todas as colonizações são imperfeitas...”
(SARMENTO, 2003, p. 16)[2]

Aguardem! Em breve serão postados aqui alguns dos kits e jogos a partir de narrativas audiovisuais!


[1] Reflexões retiradas do meu Projeto de Tese: “Clic!...E Era uma vez. Marcas de narrativas visuais na escrita de crianças em contexto escolar”. Perspectivas de autores diversos, citados no referido projeto, são referidas nesse texto.
[2] SARMENTO, Manoel J. Imaginário e culturas da infância. Cad. Educ. Fae/UFPel, Pelotas (21):51-59, jul./dez. 2003. Disponível em: