sábado, 28 de julho de 2012

Livros Ilustrados

Oi, gente,

Hoje eu quero falar um pouquinho sobre alguns livros ilustrados muito bacanas.

Os livros ilustrados aos quais me refiro não são necessariamente todos os livros de literatura infantil, que geralmente são ilustrados, trazendo diversos tipos de relações entre o texto e a imagem. São livros ilustrados no sentido mais específico dos picturebooks ou álbum ilustrado/livro-álbum, conforme discute Ramos (2011). Nos livros ilustrados em questão, a relação texto-imagem é essencial para a construção do sentido, a informação visual é essencial para completá-lo e não apenas ilustrativa do que diz o texto verbal. Considero aqui os livros ilustrados, como os considera Linden (2010), aqueles em que a qualidade expressiva é dada essencialmente pelo elemento visual e o sentido pela apreensão simultânea dos elementos da relação texto-imagem. No caso de livros só com imagens, sem texto, são chamados de livro-imagem. No livro ilustrado, texto e imagem possibilitam leituras integradas, complementares, inteligentes, desafiando o leitor e surpreendendo-o a cada página.

A ilustração é, sem dúvida, constitutiva da literatura infantil em geral, gênero sempre artisticamente pensado na relação entre as duas linguagens, verbal e visual. A ilustração não é nunca um mero adereço, mas a relação entre elas e o papel da imagem na construção do sentido pode variar muito. Mais do que qualquer outro livro infantil, a ilustração nesse tipo específico de livro a que me refiro, tem um papel ainda mais importante, definindo o sentido da leitura. A  ilustração nunca se apresenta como uma simples "tradução” da linguagem verbal para a linguagem visual; o sentido está justamente na relação híbrida entre essas duas linguagens. A imagem divide com a palavra o espaço da página possibilitando um modo particular de contar e de ler a história, na qual se entrelaçam de modo complexo as linguagens verbal e visual. 

Bom, se a linguagem visual tem um papel muito importante nesse tipo de livro, é natural que elementos da linguagem visual sejam considerados. Nos livros que quero indicar hoje, os autores brincam com um elemento muito importante da linguagem visual, que é o enquadramento. O enquadramento é o resultado de escolhas dos elementos que vão aparecer na cena apresentada, o que será visível. Pode-se, assim, a depender do efeito que se quer criar, enquadrar toda a cena, parte dela, um detalhe, enfim, várias possibilidades que definem os planos. O plano é a maneira pela qual se enquadra uma imagem para obter determinado efeito, com determinado objetivo, como realçar uma cena, uma expressão, chamar a atenção para um detalhe, um objeto, uma situação, dentre muitos outros. Há vários tipos de planos: plano geral, plano de conjunto, plano médio, close e plano detalhe. 

O plano geral mostra amplamente todos os elementos da cena, uma paisagem ou cenário completo. No plano de conjunto o personagem ou objeto retratado aparece inteiro em um ambiente específico ou mostra-se um grupo de personagens/objetos. No plano médio, um trecho do ambiente é mostrado, com pelo menos um personagem/objeto em quadro, aparecendo da cintura para cima ou do joelho para cima (plano americano). No close, enquadra-se o rosto do personagem. Por fim, o plano detalhe mostra uma parte do corpo de um personagem ou objeto, ou apenas um objeto que foi destacado de uma cena. Esses são os planos quanto ao enquadramento. Na linguagem visual existem ainda muitos outros planos e elementos referentes a outros aspectos.

Nos livros que quero indicar aqui, os autores brincam com alguns desses planos e enquadramentos, propondo charadas visuais ao leitor, que, ao virar a página ou a aba numa página, tem a charada solucionada. Bom, vejamos os livros. 

O primeiro livro é "Os Bichos também sonham", de Andréa Daher e Zaven Paré, da editora WMF Martins Fontes. A partir da pergunta: "Com o que os bichos sonham quando dormem?" e do sonho do tamanduá, os sonhos dos diferentes bichos que vão aparecendo em close vão se emendando aos outros, através das dicas, tanto no texto, quanto na ilustração - através de planos de detalhe dos bichos que protagonizam os sonhos dos anteriores - num encadeamento sucessivo. E no fim, o tamanduá, que começou tudo, também acaba por ser um sonho de algum outro bicho, fechando o círculo.

O livro, assim, brinca com o close - close do animal que sonha - e o plano detalhe, para dar a dica do animal que é objeto do sonho do outro... e assim por diante. O plano detalhe sugere, dá a pista visual, reforçada pela pista verbal e, ao virar a página, o bicho que era sonho aparece em close, pronto para sonhar com outro bicho... Vejam aqui: 

Os bichos também sonham 

O outro livro é "Onde eles estão?", de Fernando Vilela, da Brinque-Book. Nesse livro há um jogo entre animais grandes e pequenos, pois os pequenos estão sempre ali, mostrados por inteiro, na maioria das vezes em grupo, numa superfície que, ao virar a aba da página, se revela o animal grande (ou uma flor, em um dos casos). Assim, em uma página lemos.."Os peixes pegam carona..." e, abrindo a aba: "nas asas das arraias". As "asas" das arraias, que pareciam ser a água do mar, aparecem então por inteiro, revelando-se.



Diferentemente do outro livro, não há informação verbal que também dê pistas do que será revelado, e a informação visual é bastante discreta e ambígua, tornando o desafio de tentar adivinhar e a surpresa muito maiores. Na verdade, a imagem esconde e revela ao mesmo tempo as novas possibilidades a cada página. Esconde por não nos mostrar o todo onde estão os animaizinhos, e por, por vezes, sugerir uma coisa que depois revela-se outra. E revela ao nos fornecer um pedacinho, uma dica, uma cor... mas revela escondendo, já que prega uma peça, fazendo, às vezes, parecer uma coisa que não é. Por exemplo, carrapatos sobrem em uma aparente montanha, que enfim se revela a corcova de um camelo.

E esse jogo de revela-esconde é dado pelos diferentes enquadramentos. O enquadramento vai do micro ao macro, mostrando planos diferentes a depender do ponto de vista: o plano de conjunto para o animal pequeno é, ao mesmo tempo, o plano detalhe para o animal grande (ou o girassol) e depois abre-se um plano de conjunto também para o grande, revelando-se a charada. O livro, assim, apresenta oito charadas visuais, desafiado o olhar, nos fazendo aprender a olhar...

Esse livro de Fernando Vilela é de uma coleção intitulada, justamente, "Surpresa", que conta com mais dois livros, no mesmo estilo: "Eu vi!" e "O disfarce dos animais".


Sobre o "Eu vi!", podemos ler no site da Brinque-Book: "Todos nós podemos ver formas fantásticas na natureza, nas asas, nos pelos ou nas escamas de alguns animais. Neste livro, cada página revela uma surpresa para você". Então, eis uma das charadas visuais:





O "Disfarce dos animais" traz a temática do disfarce, da camuflagem. Os animais se escondem por vários motivos, seja para se proteger, sobreviver, para se esconder de seus predadores, seja para surpreender suas presas. Alguns animais têm disfarces naturais, como o camaleão, que muda de cor. Outros se escondem em carapaças ou misturando a sua cor com a cor do ambiente, outros encontram formas de chegar sorrateiramente... O urso polar, por exemplo, esconde seu nariz preto com as patas brancas para se disfarçar na neve...



Bom, gente, é isso. Vou pesquisar mais livros com essas surpresas. Ah, tem também as narrativas visuais, sem texto, nesse mesmo princípio, como um livro-imagem do mesmo autor, Fernando Vilela, chamado "A Toalha Vermelha", muito bonito, em que as imagens vão fazendo o papel de uma lupa e a história vai seguindo...Bem como o conhecido livro-imagem "Zoom", de Istvan Banyai. Ambos da Brinque-Book. 

Podemos até pensar também em alguns materiais a partir desses livros indicados aqui, mas por enquanto eu indico apenas a leitura deles. Mas em si já são um grande jogo visual! Por ora indico uma atividade de produção muito bacana de um livro de revela-esconde, proposto no site Kids Indoors (site muuuuito bom!), que pode ser produzido como um livro único (cada livro, um livro), pensando bem em que detalhes da imagem vão ser reveladas na fenda recortada, ou pode ser um livro reutilizável, como é sugerido lá. Confiram! Já fiquei pensando aqui em fazer uns temáticos...

É preciso aprender a ler considerando as imagens, a ler a imagens... e a imagem tem sua linguagem própria, traz elementos peculiares para a constituição do sentido. Como a linguagem visual é algo muito importante e pouco explorada no trabalho com a leitura, sugiro abaixo alguns livros que podem ser interessantes para o aprofundamento nesse tema. 

Um abraço a todos,
Lica

LINDEN, Sophie Van der. Para ler o livro ilustrado. São Paulo: Cosac Naify, 2010.
FARIA, Maria Alice. Como usar a literatura infantil na sala de aula. 3.ed. São Paulo: Contexto, 2004.
OLIVEIRA, Ieda de (Org.). O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra, o ilustrador. São Paulo: DCL, 2008
OLIVEIRA, Rui de. Pelos jardins de Boboli: reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
RAMOS, Graça. A imagem nos livros infantis: caminhos para ler o texto visual. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.
SOUZA, Luciana Coutinho Pagliarini. A Trama do Texto e da Imagem: Um Jogo de Espelhos. São Paulo: Annablume, 2010

sábado, 9 de junho de 2012

TRILHAS

Oi, gente,
Conforme prometido, segue o post sobre o T.R.I.L.H.A.S. 
Caixa Trilhas
Fui indicada,  no final de 2011, para participar do Projeto Trilhas, pela professora Lícia Maria Freire Beltrão, da Faculdade de Educação da UFBA, pois o projeto, de âmbito nacional, estava solicitando professores ligados às Universidades para compor a Rede de Ancoragem Trilhas, como Formadores Estaduais do Projeto. Quando tive notícia do que era o Trilhas, não hesitei, pois ele tem muito a ver com o meu trabalho em alfabetização, letramento e literatura infantil, como vocês poderão ver. 

Informo, entretanto, que fiz parte do Projeto até 2013 e agora já não tenho mais relação institucional com o Instituto Natura, pois o Formador Estadual - que era a minha função na então chamada Rede de Ancoragem (hoje o funcionamento é outro) - não existe mais na dinâmica das formações.

O Trilhas foi desenvolvido a partir de uma parceria do Instituto Natura (IN) e da Comunidade Educativa CEDAC, e, a partir de 2011, também com o Ministério da Educação. Trata-se de um projeto alinhado com o Plano de Metas Todos pela Educação, que tem como uma das metas, até 2022, ter toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos.

Em 2012, cerca de 3.300 municípios de todo o país – escolhidos entre os que têm o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) baixo, as grandes cidades e todas as capitais – receberam o kit de materiais Trilhas, alcançando 72 mil escolas públicas, 140 mil professores e mais de três milhões de alunos. Na Bahia são mais de 200 municípios.

O projeto tem a intenção de contribuir, pela via do material e da dinâmica de formação continuada que implica, com o processo de ensino e aprendizagem das crianças, buscando torná-las verdadeiras usuárias da leitura e da escrita, e consequentemente, com a melhoria do IDEB das escolas e municípios.

Segue um vídeo, Formação de Leitores, que embora já esteja desatualizado em termos dos números que apresenta, e refere-se ao Trilhas quando o projeto ainda era voltado para a Educação Infantil, contribui muito para compreendermos o que o Trilhas propõe.


O Trilhas é um conjunto de material para instrumentalizar e apoiar o trabalho do professor no campo da leitura, escrita e oralidade, com o objetivo de inserir as crianças do 1º ano do Ensino Fundamental em um universo letrado. É importante ressaltar que, embora atendida pelo 1º ano do Ensino Fundamental, a criança de 6 anos continua sendo uma criança de 6 anos, com seus modos próprios de construir conhecimento e de ser criança, e o objetivo do 1º ano continua sendo o acesso à cultura escrita. Assim, o material, que tem como foco a literatura infantil e os jogos de linguagem, prioriza a garantia de acesso à cultura escrita e a formação de leitores nesse segmento, considerando a criança de 6 anos em suas especificidades.

Assim, é um material voltado especificamente para o 1º ano. Entretanto, como o Trilhas inicialmente foi concebido para a Educação Infantil – de 4 a 6 anos – é um material que pode ser também aproveitado para esse segmento, bem como para as séries iniciais, na qual ainda encontramos crianças que precisam ter firmados os seus processos de letramento e alfabetização. O próprio material prevê adaptações possíveis nas atividades propostas.

A Caixa traz materiais específicos para o uso com as crianças – jogos, livros de literatura e materiais pedagógicos -, bem como materiais de estudo e apoio ao professor:
  • Caderno de Apresentação, com a apresentação do material, suas premissas e fundamentos;
  • Cadernos de Orientação para o encaminhamento de atividades que têm como referência os livros literários;
  • Cadernos de Estudo, para aprofundar os conteúdos tratados nos Cadernos de Orientação;
  • Caderno de Jogos.
Há também os Cadernos direcionados a outras instâncias do processo educativo, como o Caderno da Secretaria e o Caderno do Diretor, implicando todos nesse processo.


As caixas Trilhas, entregues nas Secretarias Municipais de Educação e nas próprias escolas, contêm os Cadernos citados, os jogos e materiais pedagógicos e são acompanhadas de um acervo de 20 títulos de livros, dentre livros de textos narrativos, textos poéticos e canções, todos constando do acervo do FNDE.

Os Cadernos de orientação são organizados por gêneros e compõem os blocos de materiais. São três blocos: O Trilhas para ler e escrever textos, o Trilhas para abrir o apetite poético e o Trilhas de jogos.












O Trilhas para ler e escrever textos traz os seguintes cadernos de orientação: Histórias clássicas, histórias com animais, histórias com engano, histórias com acumulação e histórias com repetição. Cada caderno toma um dos livros do gênero como referência e indica mais um ou dois livros do acervo, do mesmo gênero, que podem também ser usados como referência para as atividades propostas. Como há uma abordagem das características dos gêneros, outros livros, fora do acervo de 20 livros do Trilhas, podem também ser usados. O Trilhas propõe, na verdade, um material aberto, flexível, a partir do qual o  professor aprende procedimentos produtivos, e pode usá-los em diversas situações outras, com diversos outros livros.

O Trilhas para abrir o apetite poético traz os cadernos de poesias, de parlendas, de canções e de histórias rimadas, que são pequenas histórias com enredo mínimo, ressaltando-se as sonoridades, a estrutura poética e a repetição. Alguns dos livros de canções e parlendas são acompanhados de CD. Também aqui aprendem-se procedimentos que podem ser usados com vários outros poemas, canções, parlendas e histórias rimadas que não apenas as dos livros do acervo Trilhas. Por esse motivo, o material pode ter longa vida, não se esgotando nos livros que propõe de início.

Os Cadernos de orientação, tanto do bloco de textos narrativos, quanto do bloco de textos poéticos, trazem uma estrutura semelhante, para ajudar o professor a se apropriar do material. E em ambos os blocos há um Caderno de Estudos que desenvolve, de modo objetivo, claro e conciso, as discussões importantes sobre as atividades propostas nos Cadernos de Orientação. Isso faz do material um todo articulado e auto-explicativo.

Além dos livros, esses dois blocos contam ainda com algumas cartelas relacionadas a atividades propostas a partir de determinados livros. Essas aqui são do livro A Casa Sonolenta, apoiando o reconto da história, o trabalho com a estruturação da narrativa e a memorização.


O terceiro bloco, o Trilhas de Jogos, tem uma estrutura diferente, pois apresenta em um único Caderno tanto os jogos, suas regras, os aspectos linguísticos que cada um deles trabalha, quanto a reflexão e estudo sobre esses conteúdos. O Caderno é dividido em duas partes. Na primeira, apresenta os jogos de linguagem propriamente ditos, que são os jogos que vêm na caixa Trilhas. São dez jogos de linguagem, ora com ênfase em aspectos fonológicos ou fonográficos, ora em aspectos semânticos e morfológicos. Essa parte traz duas tabelas bem interessantes, que resumem de modo muito claro para o professor, as aprendizagens envolvidas em cada jogo e os aspectos linguísticos relacionados a eles. Na segunda parte, o caderno traz uma reflexão sobre os jogos de faz de conta, o trabalho com a linguagem no contexto das brincadeiras.


Os jogos fonológicos ou fonográficos são bem interessantes, eu particularmente adoro o Bichos Malucos, que citei em um post recente, o Nomes Escondidos e o Batalha dos Nomes. Esses, dentre outros jogos, como o Rimas e o Descubra o Invasor, se parecem muito com propostas que fazem parte do meu próprio acervo de jogos e que tenho apresentado aqui no blog. Por isso mesmo, minha identidade com o Trilhas foi grande.

Também percebi, brincando com meu filho, Joaquim – que quis jogar todos quando a caixa chegou lá em casa –, que é possível adaptar as regras de um e de outro jogo para jogar com os menores, como é o caso dele, ainda com 5 anos. O próprio material propõe adaptações, e podemos sempre inventar outras.

Uma coisa muito interessante do material é que ele não tem uma sequência única e rígida de uso pelo professor. Cada atividade e o conjunto das 8 atividades de cada Caderno, por um lado, são apresentadas numa sequência lógica, bem estruturada, que dá subsídios consistentes à ação do professor. Por outro lado, o professor tem autonomia para escolher por onde quer começar, que Caderno, que livro de literatura, que jogo... por onde vai seguir depois, se vai apresentar diferentes propostas de diferentes blocos simultaneamente – porque pode ser interessante – enfim, o professor, no seu planejamento, junto com o seu coordenador, pode escolher caminhos, trilhas, e montar o seu planejamento de forma bem diversa, particular, própria. Aliás, é por isso mesmo que o projeto se chama Trilhas, no plural, variadas, e trilha que dá um rumo, mas também pode ser construída no próprio caminhar. Essa flexibilidade do material, ao mesmo tempo em que dá apoio ao trabalho, faz do Trilhas um material atrativo, pois possibilita ser articulado com outros projetos e ações já desenvolvidas em cada escola, classe, município. Essa flexibilidade foi muito comemorada nos Encontros Estaduais aqui na Bahia. Como ele traz o que é essencial às crianças desse segmento - o acesso à cultura escrita, à linguagem, à literatura, a formação de leitores, a reflexão linguística - e como o faz através do jogo e da literatura - essenciais e muito bem vindos a essa faixa etária, sempre haverá um lugar para ele. Considera, desse modo, a especificidade da criança de 6 anos, e traz o que é fundamental a esse momento de sua escolaridade. 

Outra coisa que julgo ser muito interessante do projeto é o foco no letramento literário. Não que seja menos importante o trabalho com outros gêneros textuais que circulam socialmente - isso está implicado no próprio conceito de letramento. Mas o Trilhas faz a escolha de enfatizar a importância da literatura no acesso à cultura escrita de crianças dessa idade, no letramento de crianças atendidas na rede pública, que podem ter menos acesso ao repertório literário fora da escola. E isso eu vejo de forma muito positiva, já que muitas práticas de letramento, focadas em gêneros textuais mais funcionais, por vezes reduzem o valor do letramento literário em função de discursos sobre a formação cidadã. Ora, cidadania também se constrói com a formação de bons leitores e de sujeitos que têm acesso à linguagem artística, poética, literária.   

Bom, vou falar um pouco sobre a lógica de funcionamento do projeto. O Trilhas, no início, criou, para sua implementação nos municípios, uma Rede de Ancoragem, que envolvia diferentes instâncias. As ações da Rede começaram no Encontro Nacional, em que nós, Formadores Estaduais de todo o Brasil, estivemos presentes, para conhecer o projeto e planejar os Encontros Estaduais, junto à equipe do IN e CEDAC. Também faziam parte da Rede a UNDIME e o CONSED, como articuladores estaduais que ajudavam a fazermos a ponte com os municípios. Os participantes dos Encontros Estaduais, vindos de diversos municípios, eram representantes de Secretarias Municipais e/ou Estaduais de Educação, professores e técnicos, que seriam os Formadores Locais e terão a responsabilidade de fazer os Encontros Locais em seus municípios, com os diretores e coordenadores das escolas da rede. Estes seiam, por sua vez, os Formadores Escolares e teriam a responsabilidade de encaminhar, nos espaços formativos estabelecidos nas escolas, o estudo e implementação do Trilhas, o planejamento e encaminhamentos das ações do projeto, no âmbito da formação continuada, chamados no projeto de Encontros Escolares. Cada instância de formadores envolvidos na Rede contava ainda com Cadernos de apoio, com orientações para o planejamento dos Encontros de implementação do Trilhas.


A Rede de Ancoragem, eu brinco, se parecia com A Casa Sonolenta, em que vamos desenvolvendo as ações em cada instância até a ponta – os professores e as crianças – e as crianças são como a pulguinha da história, que dá uma mordidinha e... assim vai de volta, implicando cada instância, que vai dando notícia de como as coisas estão acontecendo. O acompanhamento dessas ações se deram, em grande parte no Portal Trilhas, fundamental para o funcionamento da Rede de Ancoragem. 

Os Formadores Locais tinham o papel fundamental de fazer a ponte entre nós e os municípios,  de pensar em como o Trilhas ia se articular às ações de formação continuada de cada município, considerando o tamanho e a estrutura de sua rede de ensino e as organizações formativas de cada uma. A Rede de Ancoragem Trilhas tinha essa característica de considerar a realidade de cada município, o que cada rede municipal já havia estabelecido como ação formativa, ao mesmo tempo em que demandava uma dinamização dessas ações caso estivessem pouco desenvolvidas ou sistematizadas em alguns municípios.

Os conteúdos dos Encontros de implementação do Projeto eram sempre mais ou menos os mesmos, só que direcionados à instância específica. Era sempre importante apresentar o projeto, os materiais, o Portal Trilhas – onde acontecerão as ações da Rede –; encaminhar a discussão sobre o tempo escolar para o estudo e as organizações de ações formativas de implementação e de acompanhamento do projeto; abordar os fundamentos, premissas e concepções do projeto, com a discussão sobre o acesso à cultura escrita e, por fim, pensar no planejamento e produzir as pautas de trabalho para os Encontros da instância seguinte. No nosso caso, aqui na Bahia, discutimos a questão da garantia ao acesso à cultura escrita a partir do prezi que vocês podem conferir aqui: Cultura Escrita


Na Bahia fomos 4 Formadoras Estaduais. Quando entrei para o Trilhas, indiquei também Luciene Santos, minha amiga querida e contadora de histórias maravilhosa, e esta indicou Aline Moura, outra amiga, que também já havia convivido conosco em contexto de trabalho e de pós-graduação... E nós compomos, assim, o trio de formadoras da Bahia: trio nordestino, trio mocotó ou trio elétrico, não sei. Sei que nos afinamos muito bem e esperamos que essa parceria produtiva possa repercutir em uma boa atuação do Trilhas na Bahia.  Além de nós três, Bete Monteiro também entrou na equipe, para cuidar do grupo que faz parte do Projeto Chapada, também ligado, de algum modo, ao Instituto Natura, e com suas especificidades.

Nosso trabalho era conjunto, em parceria com muitas pessoas, desde a equipe toda do Instituto Natura e CE Cedac, equipe dez!, até os professores de classe, que íamos conhecendo através do Portal. Conhecemos pessoas muito profissionais nesse caminho, comprometidas com a educação de nossas crianças, pessoas maravilhosas, pessoas de todo lugar. Fica aqui o meu agradecimento por fazer parte desse projeto. 

 Maria Slemenson, do Instituto Natura, Luciene, eu e Aline, no brinde ao Trilhas!
Hoje, já em 2015, o TRILHAS mudou muito. A Rede de Apoio à Educação (que substituiu a Rede de Ancoragem) concentra suas formações em algumas localizações e o Instituto fornece cursos gratuitos à distância para os demais interessados, pelo Portal Trilhas. 

Para se informar sobre o Projeto hoje, acesse http://www.portaltrilhas.org.br/ e siga o Facebook do Instituto Natura.

Bom, espero que o post tenha ajudado os que estavam curiosos a conhecerem um pouco do que é o Trilhas. Fiz questão de postar sobre o projeto aqui, já que estive muito envolvida, mas principalmente porque dialoga muito com as propostas do blog.

Para quem faz parte da rede municipal e trabalha com turmas de 1º ano do Ensino Fundamental, fiquem atentos para ver se sua escola foi contemplada, ok? Aliás, podem verificar isso no Portal Trilhas, clicando aqui: Escolas Beneficiadas
Lica

Para mais informações, ver links:

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Trilhas

Oi, gente,
Ando sumida, eu sei...
 
Mas espero que quem chegue aqui no blog por agora, ou os mais eventuais por aqui,  aproveitem para ver posts mais antigos. Já tem bastante coisa! Para quem vem sempre e aguarda novidades, tenham um pouquinho de paciência e não se esqueçam de mim, tá?

É que, além da pressão da tese, eu sou Formadora Estadual do Projeto Trilhas, e o trabalho agora em abril e maio está sendo bem intenso. Trata-se de um projeto voltado para o primeiro ano do Ensino Fundamental da Rede Pública de municípios em todo o Brasil, envolvendo alfabetização, letramento e literatura infantil, e que tem o Instituto Natura, a CE Cedac e o MEC como parceiros.

Em breve farei um post sobre o Trilhas.
Essa semana e na próxima estarei formando representantes de secretarias de educação de vários municípios baianos, que serão os Formadores Locais do Trilhas, mas em breve prometo fazer um post mais detalhado sobre o Projeto, ok?

Inté breve,
Lica

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Arquivo Alfabético Poético

Oi, minha gente,

Hoje eu vou postar sobre um material muito especial. Especial porque é um material que vem sendo feito há tempos. Porque é cheio de possibilidades.... nada está pronto de antemão..... Especial também porque é um material meio trabalhoso e dispendioso (mas pensaremos em adaptações). Mas, especialmente, porque foi o primeiro material todo pensado a quatro mãos. É o Arquivo Alfabético Poético. Esse é um dos kits de Arquivos Poéticos, junto com outros que venho pensando, como o de Sergio Capparelli, já postado aqui.

Tive essa ideia do Arquivo Alfabético desde que fiz um post sobre os abecedários poéticos, lembram? Está no link Abecedários Poéticos.  A ideia era fazer um arquivo, um fichário mesmo, com fichas separadoras, indicando as letras de A a Z. Só que seria um arquivo a partir de livros que trazem o alfabeto com poemas ou jogos de linguagem. Em cada parte, colocaríamos os poemas, de cada livro, dedicados àquela letra do alfabeto indicada na linguetinha do fichário. 

Veja na figura uma ideia do que é.

O Arquivo Alfabético não apresenta, nesse caso, atividades para esses textos/livros – ao menos não ainda, mas já temos planos de pensar em incluir sugestões – mas sim os próprios textos, com suas ilustrações. Vocês podem se perguntar “sim, mas se temos os livros, para que o arquivo?” – pergunta bem pertinente. Os livros são fundamentais. Mas pensamos que ter esse material em forma de fichas seria bem interessante, pois podemos manipulá-las independentemente, trabalhando com todos os textos de uma determinada letra, por exemplo, ou todos os textos de um mesmo autor/livro.  A ideia do fichário com esse tipo de texto de alfabeto vinha me perseguindo faz tempo...

Pois bem, quando compartilhei essa ideia, ainda um esboço, com Ana Lúcia Antunes, minha amiga de longe e já parceira naquela essa altura, ela logo comprou a ideia e passamos a desenvolver juntas o projeto. Da ideia inicial foram surgindo outras, e também pequenas questões foram aparecendo. Primeiro selecionamos os livros – há muitos! – cada uma de nós conhecia um tanto, cada uma ia descobrindo novos, que cabiam no arquivo. Foi uma pesquisa muito bacana. 


Assim, nessa primeira versão do Arquivo, que pode crescer ainda, entraram 16  livros, de vários autores e editoras (ver lista dos livros abaixo, na nota do post). Temos ainda o ABC Doido, de Ângela Lago, que estamos avaliando se entrará nesse arquivo ou constituirá um kit próprio. No fichário, de cada livro, tem as fichas correspondentes a cada letra e a capa.

Exemplo da parte correspondente à letra A do Arquivo:


Tomamos conhecimento, em nossas pesquisas, de uns livros desse tipo muito legais, de Portugal, mas apenas um deles consta no arquivo, pois Ana conseguiu encontrá-lo. Os outros conseguiremos em outra oportunidade.

O projeto foi todo pensado e elaborado junto com Ana, desde a escolha e a digitalização (escaner) dos livros até a concepção do material – como seriam as fichas, o tamanho delas, como resolveríamos a inclusão das imagens em alguns livros, o jeitão das fichas separadoras, o aumento da fonte dos textos em alguns casos etc. Nos complementamos muito bem em todas essas etapas, Ana sempre experimentava tudo rapidinho e trazia ótimas ideias e soluções. Uma decisão muito importante, que vislumbrei desde o início, foi a de colocar cada livro/autor em fichas de uma mesma cor, assim poderíamos tanto usar o material pela letra que o texto homenageia (tipo todos os textos que falam da letra A), como usar todos os textos de um mesmo autor/livro, indicado pela cor da ficha em que esses textos são colados. Mais tarde veio a ideia do “flex”... Volto a ela, já já.

Com todo o material digitalizado, pronto para imprimir, Ana, no entanto, saiu na frente na produção efetiva do Arquivo – impressão, montagem, plastificação, confecção da caixa. Como estou muito ocupada e com as vistas meio comprometidas, adiei um pouco a confecção do meu. Assim, o que mostro aqui nas fotos para vocês é o Arquivo de Ana, que já está prontinho, pois ela queria começar o ano já usando com sua turma. Nada como uma boa motivação para pormos a mão na massa, né? 

Essa iniciativa de Ana foi muito importante para irmos testando e revendo algumas coisas do Arquivo, pois no fazer mesmo, com a mão na massa, apareceram muitas outras questões a serem resolvidas. Íamos discutindo as saídas, as possibilidades, experimentando e achando as soluções. Assim, Ana tem muitas dicas a dar sobre a confecção, e vai contribuir com isso num próximo post. Esse aqui é só para apresentar o material.

Para fazer a caixa do Arquivo mesmo, foi uma novela. Á medida que as fichas iam ficando prontas, é que íamos tendo a dimensão do tamanho da caixa que precisaríamos para guardá-las. E essa tal caixa ia aumentando, aumentando. Ana ia de lá mandando dizer quantos centímetros já mediam tantas fichas de livros prontas, e eu de cá tomando susto! Não tínhamos essa noção. Mas foi divertido nos surpreender com um tamanho jamais imaginado. Ou seja, íamos descobrindo como fazer o kit, fazendo-o. E descobrimos que era preciso mandar fazer a caixa sob medida, para ser forte e grande o suficiente, sem folgas desnecessárias nem apertos, pois o material era pesado também, quando plastificado na gráfica. Só foi possível descobrir isso com as fichas ficando prontas. Além disso, precisaria ficar esteticamente bem arrumadinho na caixa e com folga para manusear as fichas, procurar fichas pelo meio do arquivo, mexer os separadores para lá e para cá. O jeito que Ana pensou para a caixa é fantástico, bem como um arquivo mesmo, que ao abrir vemos as linguetinhas de fora. Mas demorou um pouco de acertarem fazer isso onde ela encomendou. A primeira caixa que ela mandou fazer ficou apertadinha, embora linda, vejam:



Ela ainda está buscando a caixa perfeita, pesquisando daqui, medindo dali, tomando susto se eu descubro mais um livro que pode virar ficha. A ideia é que fique mais folgadinha, como essa, ao lado, provisória. Ou seja, em breve, Ana nos dará a dica da caixa ideal e a novela terá, enfim, um fim. 

Os vendedores de lojas, bem como nossos maridos, nos acham meio doidinhas... Rsrsrs!!! 

Com o material já sendo confeccionado por Ana, pensamos também em fazer as fichas separadoras “flex”. “Como é isso?” – perguntou Ana, achando que eu estava inventando coisa. Ah, nada mais é do que ter a ficha separadora de um lado com as letras do alfabeto, para separar no fichário o material por letras (todos os textos de cada letra do alfabeto) e, virando a ficha separadora, para separar por autor/livro, ter a linguetinha com a cor correspondente ao livro, a cor das fichas daquele autor. 


Vejam que, assim, podemos arrumar o fichário de dois jeitos diferentes, por letra ou por cor, a depender de como vamos usá-los com as crianças. E Ana deu corpo a essa ideia fazendo com muito esmero suas fichas separadoras. Plastificadas, as linguetinhas com as letras de um lado e a cor do outro ficaram um show!

Como eu disse no início, o Arquivo Alfabético Poético não indica, em si, as possibilidades de uso do material, mas elas são infinitas. Ana pretende postar, em algum momento, algumas sugestões ou atividades que desenvolver em sua turma. Eu também prometo fazê-lo de tempos em tempos. Mas cada um pode – e deve – explorar o Arquivo, bem como os livros a partir do qual é feito, de muitos jeitos. Só ler os textos já é bem bacana. Trabalhar as letras assim, no contexto de textos poéticos, certamente será uma delícia! Por outro lado, cada livro/kit de fichas poderá apresentar possibilidades diversas, por sua própria natureza, assim como cada textinho pode dar atividades interessantes independentemente de seu conjunto, como fiz uma sugestão no post que está no link O que se vê no R, a partir do poeminha de Elias José para a letra R, ou no link  O que se vê no Q, para a letra Q.

Bom, minha gente, por ora é isso, apenas para apresentar o material, o Arquivo... Ele está lindo assim, não acham? Mas é possível fazer adaptações para simplificar e baratear a confecção, para mais pessoas poderem experimentar fazer um Arquivo para o seu grupo, mesmo que não entrem todos os livros. Em breve postaremos mais sobre ele, com essas dicas.

Agradeço a Ana por compartilhar as fotos de seu Arquivo pronto com a gente, além, claro, pela parceria nesse projeto que agora é totalmente nosso, totalmente compartilhado. Vejam mais fotos no post de Ana, no link Álbum Arquivo Alfabético Poético. Não está lindo, colorido,  maravilhoso?!!!! Pois é... A gente chega lá! Eu chego lá!!!

Para ver uma das propostas que Ana fez a partir do Arquivo, veja no blog dela, aqui.

Ah, lembrem que, de qualquer modo, apenas a indicação dos livros usados no arquivo já é também uma boa sugestão para trabalhar com as crianças, heim? E, como sempre digo, ter os livros, manuseá-los, lê-los, é fundamental.

Espero que gostem,
Um abraço,
Lica

Lista dos Livros do Arquivo Alfabético Poético:
  1. Uma letra puxa a outra (José Paulo Paes). Companhia das Letrinhas 
  2. O que se vê no abecê (Elias José). Ed. Paulus
  3. As Letras (Lalau e Laurabeatriz). Ed. Amarilys
  4. Palavras, muitas palavras (Ruth Rocha)
  5. No Balancê do Abecê (Elias José). Ed. Paulus
  6. O Batalhão das Letras (Mario Quintana). Ed. Globo
  7. Bichodário (Telma Guimarães). Ed. Escala
  8. De Letra em Letra (Bartolomeu Campos de Queiroz). Ed. Moderna
  9. Alfabetário (José de Nicola). Ed. Moderna
  10. ABC quer brincar com você (José Santos). Ed. Companhia Editora Nacional
  11. ABC das Rimas (César Obeid). Ed. Salesiana
  12. Bichionário (Nilson José Machado). Ed. Escrituras
  13. Quem lê com pressa tropeça (O ABC do trava-língua). (Elias José). Ed. Lê/Casa de Livros.
  14. ABC e Numerais: pra brincar é bom demais. (Tatiana Belinky). Ed. Cortez
  15. Alfabeto dos bichos (José Jorge Letria). Ed. Oficina do Livro
  16. ABC (Tatiana Belinky). Ed. Elementar

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Bichos Malucos

Oi, gente! 

Quando eu era professora do segundo ano, há muuuuuito tempo (era ainda primeira série que se dizia), eu fazia uma atividade bem divertida com os meus alunos, e chamávamos de Bichionário.

Era assim: cada um criava um bicho maluco, misturando um bicho com outro. Separa, junta, funde, confunde, cria, recria, inventa, e eis que surgia um bicho esquisito, formado de dois outros. Era preciso criar os seus nomes, desmontando e remontando as palavras, para escolher um nome para cada bicho inventado, a partir dos dois nomes que lhe deram origem. Às vezes começávamos pelo desenho, às vezes pelos nomes, rindo com as experimentações linguísticas. A brincadeira chamava-se Bichionário, pois depois de criados os nomes e desenhados os bichos, cada criança deveria descrever o seu animal, oralmente, para eu escrever, ou por escrito. E assim fazíamos nosso Dicionário de novos bichos: Bichionário! Lembro de um deles, muito simpático que se chamava BORBOFANTE! Adivinhem como ele era!!!???

Outros nomes legais: minhogato, tartanhoca, botucano, araranta, patopótamo, quatigre, lebelula (sem acento, libélula + lula), girafoca, hipopato, porcoruja, cavaca, pulgato, cobraleia, sapavão, maripeixe, gorilatixa, camelontra, ovelhama, abelhama, tubaranha, camundoninha, emacaco, rinocoelho, rinocegonha, cigarrato, jacabelha... e por aí vai...

Certa vez eu tentei fazer um material que eram metades de bichos estilizados que se encaixavam uns com os outros, e assim, surgiam as várias possibilidades. Mas nunca terminei. De todo modo, dando de antemão as características que serão usadas de cada bicho (ou a parte de cima de um e a parte de baixo de outro; ou a parte da frente de um e a parte de trás de outro), eliminam-se muitas outras possibilidades de fusão, como o elefante com asas de borboleta ou a borboleta de tromba e asas-orelhas, como eram as borbofantes. Prefiro que as próprias crianças criem seus bichos. Saem misturas bem legais! Misturanças, bichos bem malucos mesmo...

Muitas são as possibilidades de combinação nos desenhos e também nos nomes. Podemos usar todo o nome e juntar, podemos usar parte de um e de outro, podemos inclusive, quando as palavras permitem, criar palavras que compartilham letras, vogais ou consoantes, e não sílabas, como P em mariposa e peixe formando MARIPEIXE ou o A em ARARANTA. O importante é que ambos sejam, de algum modo, reconhecido no novo nome. Para ter graça. 

Esse tipo de criação chama-se "mot-valise", ou palavra-valise. O mot-valise, ou portmanteau-word, é uma palavra inventada, que se forma pela fusão de outras (duas ou mais) existentes no léxico de uma língua. Encaixa-se uma na outra, formando um sentido também fundido, misturado. Geralmente a nova palavra se forma perdendo o início de uma e o final da outra, implicando em supressão de sílabas (mas não necessariamente). Há mot-valises em que a sílaba final da primeira palavra é igual à primeira sílaba da segunda palavra, como em MACACOBRA. Por vezes, assim como em MACACOBRA, usa-se toda a palavra. Quer um exemplo? ARARANTA e MORANGOTANGO. Morantogotango é bem interessante, pois bastou acrescentar o M inicial e formou-se uma valise com duas palavras grandes. E o que caracteriza a palavra-valise é justamente compartilhar o sentido. Quer ver? Isso dá até piada: 

 – O que é um pontinho vermelho pulando de galho em galho?
 – É um morangotango!

O escritor Lewis Carroll, que inventou a expressão portmanteau word,  as usou e as explicou no livro Alice no País dos Espelhos, quando Humpty Dumpty explica a Alice um trecho do poema Jaguadarte: "Veja bem, é uma palavra-valise - dois significados embrulhados (empacotados) numa  palavra só". As palavras-valises carregam, como uma mala, mais de um significado. A própria palavra portmanteau designa um tipo de valise com dois compartimentos.  

Carroll utilizou palavras-valise em outros textos, como em um poema que fala do Snak, que é um monstro ao mesmo tempo tubarão (shark) e serpente (snake). O mot-valise pode tornar-se, então, um recurso de criação literária, e foi/é usado por muitos autores. Mas ele ocorre na vida de todo dia também. Quem já não viu os nomes combinados do nome da mãe e do pai ou dos avós, como Dagoberto (Dagmar e Roberto), Florisvaldo (Florisbela e Osvaldo), Francineide (Francisco e Neide)... Como bem ressalta Leminski, o tal smog londrino, terra de Carroll, é um misto de smoke (fumaça) e fog (neblina): uma fublina? Rsrsrsss...

A liberdade lúdica da língua e seu movimento constante possibilitam a criação de inúmeros vocábulos novos - seja por necessidades expressivas, práticas, científicas, poéticas ou lúdicas - e mot-valise é um desses recursos.  Certamente tem esse ingrediente cômico. A condensação de palavras implica, muita vezes, em um jogo, que conduz ao humor, ao riso, ao lúdico. O que permite esse jogo é justamente a invencionice da e com a linguagem, articulando a imaginação, a riqueza e vitalidade da língua a seus próprios mecanismos restritivos.  

Bom, voltando para os bichos... Existem vários livros que trazem essa ideia de brincar de formar animais esquisitos a partir de outros, como O Livro da Confusão, de Ilan Brenman e Fê, da Melhoramentos, e o de Valéria Belém, chamado O Livro dos Bichos Malucos, da Editora Nacional. 

Ei-los:




No Livro dos Bichos Malucos há uma história de um menino que cria o livro dos bichos malucos. 

No Livro da Confusão - em que ressoam as palavras confundir (com- fundir), fundir, fusão, confusão - aparecem a balenta, a galonça, o elefato,  o hipocaré, dentre outras misturas não exclusivas a animais. Todos eles muito bem apresentados nos desenhos de Fê.

Recentemente descobri um livro de Arnaldo Antunes e Zaba Moreau que também brinca com essa ideia e que nos presenteia com bichos bem interessantes. Chama-se Animais, e é da Editora 34. Como no livro de Brenman,  não há aí apenas misturas de animais com outros animais, mas também com outras coisas/palavras. Algumas misturas são verdadeiras pérolas, misturas elaboradas em que uma palavra só vira poesia: MARIPOUSA!

Mas vamos por ora falar das misturas de animais.


Os autores nos apresentam o papagalo, o vacavalo, o cangorila, o camalo ou cavelo, a leonça, a jabutirica, o porcodilo, a baleoa e o largato (lagarto com gato, vejam só!). Todos muito bem ilustrados. 

Esse recurso pode aparecer também em outros livros, em algum momento do enredo, como é o caso do livro "Ajidar, O Dragão da Terra", de Marjane Satrapi, da Editora Biruta, que em certo momento da trama apresenta a confusão que foi feita um dia em que a Terra começou a tremer. Eis algumas dessas confusões, usando a estratégia do mot valise:



Bom, gente, acho que já deu para ver que se trata de uma brincadeira bem interessante, divertida e cheia de bons desafios para refletir sobre as palavras, sílabas, letras. Esse é um recurso interessante para trabalhar com as crianças na alfabetização, pois favorece reflexões sobre diferentes aspectos da linguagem, desde aspectos semânticos, aos aspectos fonográficos, passando pelos morfológicos. 

O nome dos animais representa uma unidade de sentido (palavra) que, desmontada e remontada, cria uma nova unidade de sentido. Trabalha-se aí a noção de palavra, a formação de palavras e a segmentação e montagem de palavras (análise e síntese) a partir de unidades diversas, silábicas ou não. 

Podemos sugerir que cada um faça os seus, podemos dar dois bichos e ver as propostas diferentes de recombinações que aparecem, podemos dar os nomes dos bichos esquisitos e eles tentarem descobrir e desenhar. Uma criança pode criar o nome e o outro desenhar e vice-versa. Descobrir os dois animais que deram origem ao bicho inventado apresentado e depois escrever seus nomes, observando o que se mantém do nome original e o que saiu, pode ser também uma ótima situação de reflexão. Quando se tratam de nomes que compartilham mesmas unidades sonoras, silábicas ou não, refletir sobre as diferenças e semelhanças é também bem interessante. Para inventar os nomes, muitas reflexões sobre os sons e as grafias têm que ser feitas. Se a brincadeira é feita oralmente, reflexões sobre os sons, se for feita por escrito, reflexões sobre as relações entre unidades sonoras e gráficas.  

O Projeto TRILHAS, uma parceria do Instituto Natura, CE Cedac e MEC, cujos materiais estão chegando às escolas de muitos municípios do Brasil inteiro, traz em seu acervo de jogos um jogo que se chama justamente "Bichos Malucos", baseado nesses princípios que estamos aqui discutindo. São cartelas de bichos cortados ao meio para serem compostos, e cada jogador deve dar, oralmente, um nome para o bicho que ele formar, a partir de decomposições e recomposições orais dos nomes dos bichos que lhe deram origem. É bem legal! Veja mais aqui.

Uma dica de minha amiga Ana Antunes é o livro "E agora Zezé, que bicho que é?", da editora Lê, que ela disse que seus alunos adoram! É desses livros cujas páginas cartonadas são cortadas ao meio e cada metade de cada animal representado na página pode ser combinada com as metades de outros bichos, basta virar as páginas... 

Cada bicho é acompanhado por um pequeno texto e todos são relacionados a uma letra do alfabeto. Assim, temos bichos de A a Z... Outras possibilidades de brincar ainda com isso também...




Vejam como ficam, virando as páginas:


 

E muito interessante, como já sugeri antes, é sugerir que as crianças inventem os nomes dos animais formados a cada vez, considerando os nomes dos dois bichos que o originaram: que tal a obelha ou avelha? Que tal jacazebra? E elefoca? É muito divertido inventar, desmontar e remontar as palavras, ver que nomes ficam mais bacanas... 

Depois desse post, ainda encontrei um livro que é o que mais se parece com a brincadeira do Bichionário que eu fazia com meus alunos, relatada no início desse texto. Trata-se de Misturichos, de Renata Bueno e Beatriz Carvalho, da Martins Fontes. Com o procedimento de mot valise relatado acima, as autoras vão misturando um bicho com outro e formando novos bichos...Assim, desfilam a tucananta, a borbolonça, a vacalinha, a camelha, a hipopotaleia, o macacol, dentre outros... 



Se assemelha ao Bichionário tanto pelo tipo de mistura proposta nos desenhos, que é uma misturança livre e não uma parte toda de um animal e outra de outro, quanto pelo acompanhamento de um pequeno texto falando do novo bicho formado. 
Cada uma das autoras desenhou um animal e depois elas foram compondo os misturichos... E a Renata Bueno escreveu um textinho poético que fala algo sobre cada novo ser. 

O da vacalinha, que aparece aí na capa, é assim: 

"A vacalinha não gosta muito de pastar. 
Cisca, cisca, cisca... 
e de sua teta 
sai gemada para o jantar!"

Acho que por ora é isso! Essas dicas de atividades são brincadeiras garantidas e, além disso, muito produtivas como trabalho com a linguagem, pesquisa inteligente das crianças sobre as palavras, bem como com a expressão plástica. As dicas de livros e brincadeiras, como viram, ora implicam em inventar nomes, ora em inventar o jeito dos bichos serem, ora já trazem os nomes malucos e as misturas, ora as crianças é que devem combinar e criar. Ora por escrito, ora oralmente, ora desenhando, ora apreciando... Mas sempre sempre, provocando a criatividade e o sentido lúdico, e propondo brincadeiras com a linguagem! Brincadeiras que se constituem em construções linguísticas imprescindíveis para o processo de alfabetização... 

Experimentem! 
Até breve,
Lica

P.S. Depois desse post conheci um livro, espécie de bestiário - agora também um aplicativo para ipad - muito interessante nesse sentido. É o Animalário Universal do Professor Revillod, da Orfeu Mini. Olha isso:


Os animais são comuns, mas quando passamos as partes das páginas separadamente, eis que surgem criaturas fantásticas, estranhas. O gesto de decomposição e recomposição que fazemos, ao manipular o livro, cria e recria a linguagem e as imagens.  O aplicativo para ipad você pode conferir aqui e, para o vídeo do livro, aqui

Como esse, tem outro aplicativo para ipad que se chama Chamboule tout, com o mesmo princípio. Ei-lo:



Tem esse outro App bacana, pena que é em inglês, pois justamente, ele não só propõe a composição de bichos malucos formados por três partes diferentes, como também a recomposição de seus nomes, numa brincadeira bem bacana de ler os nomes malucos! Se bem que, pode ser bem interessante para aprender os bichos em inglês! Chama-se Miximal:



Tem um livro alemão que é isso aí também:




E pesquisando mais achei esse outro livro indiano, de imagens lindas, That's how I see things, com alguns animais compostos de outros. 
 




Bonito, né?
Vejam outras propostas aqui.
Inté outros bichos malucos!!!

Voltei! 
E agora com essa dica deliciosa também, de André Letria e José Jorge Letria, da editora portuguesa Pato-Lógico. É o livro Estrambólicos. O livro é desses que permitem diversas composições. Combinando diferentemente os 1/3 de páginas, podemos formar vários monstros malucos (mas eles já são malucos mesmo compostos por suas próprias partes, imagine!), As várias combinações tanto formam o corpo deles quanto seus nomes e suas características - como nas dicas acima do Animalário, livro e App, do App Maximal, e do livro alemão. Só que aqui são monstros mesmo... Muito divertido!



Agora, bem depois do post, achei esse livro-jogo da Estrela Cultural, Brincabichos, que vem  com um livro com textinhos poéticos e um baralho de cartas para montar os bichos em três partes, bem amalucados. Eles indicam 3 modos de jogar, nós podemos inventar outros!

Livro:
Cartas:

É isso aí!!!
Vamos amalucar os bichos e monstros!!! 
Lica

Algumas referências:

CARROLL, Lewis. Alice: Edição comentada. Introdução e Notas: GARDNER, Martin. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice no pais das maravilhas/Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Tradução e organização: LEITE, Sebastião Uchoa. São Paulo: Fontana/Summus, 1977.
LEMINSKI, Paulo. Anseios Crípticos 2. Curitiba: Criar, 2001. Disponível em: http://www.slideshare.net/Letrasuni/paulo-leminski-anseios-crpticos-2-pdfrev