A intervenção nas salas de aula se desenvolverá em colaboração com as professoras regentes, numa perspectiva de pesquisa com a escola, com os professores, e não sobre a escola e sobre os professores. Pesquisas e mais pesquisas são feitas sobre a escola, como se os seus efeitos naturalmente pudessem chegar a elas. O intuito aqui é trabalhar junto com a escola, favorecendo a construção compartilhada de saberes e fazeres dos pesquisadores e professores.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
Pesquisa sobre Jogos e materiais pedagógicos na alfabetização
Como
vocês que me acompanham sabem, tenho pesquisado e desenvolvido, já a algum
tempo (desde 2001), um acervo de materiais e jogos de apoio ao trabalho de
alfabetização. De início, eu usava esses materiais em alguns contextos de
formação de professores, mas especialmente em minhas aulas de didática da
alfabetização, na Unijorge, onde eu lecionei por 8 anos.
Foram
os próprios alunos que me pediram para que eu os ensinasse a produzir esses
materiais...E assim surgiram as oficinas de produção de material. Fiz oficinas
na Faced, no curso de formação que a UFBA desenvolveu com professores da Rede
Municipal de Salvador – o Projeto Salvador – e em muitos outros contextos. Já
são muitos anos de produção, divulgação e envolvimento com jogos e materiais
pedagógicos para a alfabetização.
Já
intencionando tornar esse trabalho mais acadêmico, procurei sempre apresentar e
produzir artigos com essa temática, durante minha pós-graduação, ao lado das
produções e apresentações da tese, que não focam a alfabetização inicial.
Desde
2014, quando ingressei na Universidade Federal da Bahia como professora
concursada, venho me organizando para tornar esse trabalho com jogos, materiais
e oficinas articulado tanto ao ensino, quanto à pesquisa e extensão. No ensino,
está presente em minhas aulas de Alfabetização e letramento – componente pelo
qual fiquei responsável na Faculdade – e eventualmente, também no Estágio
Supervisionado – componente em que estou igualmente envolvida. Cabe ressaltar
que, por esse interesse em especial, também orientei, durante esse período na
UFBA, alguns Trabalhos de Conclusão de Curso sobre jogos na alfabetização.
A
partir de 2015, comecei a esboçar a pesquisa “Jogos e materiais pedagógicos na
alfabetização”, apresentando um primeiro esboço no Geling - Grupo de pesquisa
do qual faço parte na Faculdade de Educação, e ao qual a pesquisa se filia.
Em
2016, organizei o projeto e consegui dois bolsistas pelo Programa Institucional
de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), bem como se juntaram a nós algumas
estudantes voluntárias – geralmente alunas minhas dos componentes Alfabetização
e letramento ou de Estágio. E, assim, começamos a desenvolver a pesquisa.
A
pesquisa tem como objetivo maior discutir o papel da dimensão material da ação
e na formação docentes, buscando identificar, analisar, desenvolver e divulgar
jogos e materiais pedagógicos (bem como seus usos e as concepções subjacentes)
nas práticas alfabetizadoras da Educação Infantil (4 a 5 anos) e do 1º ao 3º
anos do Ensino Fundamental (com foco, especificamente, na Rede Municipal de
Ensino de Salvador), ampliando o conhecimento sobre esses recursos pedagógicos
nas instituições escolares e também no contexto de formação inicial de
professores, na Universidade, a partir da pesquisa, produção permanente e
mobilização de acervos.
Nas
escolas da rede, propomos fazer um levantamento de acervos, discursos e
práticas referentes a jogos de linguagem e materiais pedagógicos na
alfabetização, bem como uma intervenção nas salas de aula – numa perspectiva de
pesquisa etnográfica colaborativa. Apostamos no fato de que conhecer esses
discursos e práticas possa desencadear uma discussão importante sobre a
problemática da pesquisa, tanto no contexto escolar, quanto na instituição
formadora.
A
equipe de pesquisadores irá produzir jogos e materiais de acordo com as turmas
em que a intervenção será desenvolvida, em oficinas que serão também abertas
aos professores da rede e a interessados em geral, constituindo-se como
atividade de extensão. A ideia é que cada participante saia com seus kits e, no
caso das pesquisadoras, kits que serão usados na intervenção nas escolas.
A intervenção nas salas de aula se desenvolverá em colaboração com as professoras regentes, numa perspectiva de pesquisa com a escola, com os professores, e não sobre a escola e sobre os professores. Pesquisas e mais pesquisas são feitas sobre a escola, como se os seus efeitos naturalmente pudessem chegar a elas. O intuito aqui é trabalhar junto com a escola, favorecendo a construção compartilhada de saberes e fazeres dos pesquisadores e professores.
A intervenção nas salas de aula se desenvolverá em colaboração com as professoras regentes, numa perspectiva de pesquisa com a escola, com os professores, e não sobre a escola e sobre os professores. Pesquisas e mais pesquisas são feitas sobre a escola, como se os seus efeitos naturalmente pudessem chegar a elas. O intuito aqui é trabalhar junto com a escola, favorecendo a construção compartilhada de saberes e fazeres dos pesquisadores e professores.
Ao lado
de seus acervos pessoais, os bolsistas da pesquisa confeccionarão, igualmente,
materiais para uso na Faculdade – por docentes e discentes, em contextos
diversos (aulas, estágios, pesquisas discentes etc), constituindo-se um
Laboratório de Acervos Pedagógicos (LAP). Essa ação favorece, a reflexão
sobre essa dimensão material no contexto da formação de
professores, a partir da ideia da constituição de uma "paleta
metodológica" do futuro professor, como sugere Meirieu, em seu
livro O cotidiano da escola e da sala de aula.
Ressalta-se,
no entanto, que essa dimensão material da ação docente, e toda essa ideia de
produção de material em contexto de formação de professores, longe de estarem
ancoradas em uma perspectiva instrumental e tecnicista, apoia-se em firmes
concepções de alfabetização, de linguagem, de aprendizagem; na compreensão do
papel dos aspectos notacionais e fonológicos na apropriação da escrita; nos
aspectos didáticos relativos aos objetivos de aprendizagem; considerando
igualmente, as etapas necessárias à produção de materiais didáticos produtivos.
Essa discussão tem relação com a problemática da pesquisa, tal
qual fundamentada e discutida no projeto.
Recentemente,
inclusive, a pesquisa foi beneficiada pelo Programa de Apoio a Jovens Doutores
(PROPESQ) e terá direito, além de a mais um bolsista, a recursos
financeiros para itens de capital e custeio, favorecendo o desenvolvimento dos
materiais do LAP. Com isso, contaremos com equipamentos e todo o material
necessário para a produção e manutenção do acervo de jogos e materiais da Faculdade
de Educação.
Além da
constituição do acervo, novos artigos foram e serão escritos para divulgar a
pesquisa e todas essas ações a ela articuladas.
Há,
assim, em todas essas ações, uma intenção de alçar tanto a dimensão material da
ação docente, quanto os aspectos linguísticos da alfabetização, a um lugar mais
prestigiado nas práticas alfabetizadoras. A intenção da pesquisa é, justamente,
argumentar que os jogos e materiais pedagógicos podem constituir, junto com
outras estratégias, em recursos importantes e interessantes nas metodologias
que enfatizam os aspectos linguísticos da apropriação da escrita, ao lado dos
aspectos sociodiscursivos e interativos, em contextos lúdicos, reflexivos e
letrados. Porque não se trata, evidentemente, ao enfatizar os aspectos
linguísticos, de manter e/ou retornar a práticas mecanicistas, reducionistas,
mas de considerar as especificidades das aprendizagens da notação alfabética,
numa perspectiva de linguagem escrita como prática social e sistema complexo de
notação, que é preciso se apropriar para participar mais amplamente da cultura
letrada. A questão é como trabalhar esses aspectos, e aí entram os jogos e
materiais e a discussão sobre o seu alcance, limites e possibilidades no ensino
da língua escrita.
Desse
modo, creio que concretiza-se, nesse momento, minha intenção de trazer as
oficinas e os acervos – no âmbito dessa discussão maior sobre a dimensão
material da ação e formação docente – para a minha vida acadêmica, articulando
pesquisa, ensino e extensão.
Tudo
isso para dizer que esse trabalho ganha agora essa dimensão e estou feliz dessa
trajetória, aqui bem resumidamente relatada.
Por
ora, é isso!
Lica
domingo, 18 de setembro de 2016
Oficina Eva Furnari
Oi, gente!
No ano passado fiz uma oficina, que chamei de Eva
Furnari e a brincadeira com a linguagem oral e escrita, na Ciranda do
Brincar, evento da Faculdade de Educação da UFBA, por ocasião da Semana Mundial
do Brincar. Postei fotos da oficina no Facebook e Instagram do Blog e, vira e
mexe, me perguntam sobre a oficina e sobre as caixinhas com os materiais a
partir dos livros de Eva. Pois bem, resolvi contar um pouquinho aqui sobre
isso, tá? Mas só um pouquinho, para não perder a graça de quem vai, ainda,
participar...pois pretendo, sim, fazer mais vezes.
Como vocês podem ver, para começar, tento cuidar do clima,
arrumando as coisas para remeter ao universo de Eva... Uma toalha de bolinhas
ali (mesmo eu de blusa preta de bolinhas brancas...), coisiquinhas, elementos
para trazer o universo até a sala de aula da Faced. Espalhei os nomes dos
personagens de Eva pela sala toda...um jeito de trazer essas sonoridades e
esse universo já na chegada... E é cada nome!!!
Então...Depois de entrarmos no universo da autora, com seus
personagens engraçados e seus nomes cheios de trocadilhos e sonoridades, de nos
apresentarmos à moda de Eva, como ela se apresenta em Pandolfo Bereba, com
alguns de seus defeitinhos e qualidades - que dialeticamente são os mesmos -
nós entramos, enfim, no mundo das narrativas. Fomos conhecendo Pandolfo através
do acionamento de estratégias de leitura várias, fomos descobrindo as
estratégias narrativas da autora com livros como Umbigo Indiscreto... e
passeando por diversos gêneros textuais, que são fonte de brincadeiras em
alguns livros dela - como Felpo Filva, Operação Risoto, dentre outros, de forma mais eventual.
Para isso Felpo Filva é imbatível! Adoro! E, assim, entrando pelas histórias e seguindo pelos gêneros de
texto, chegamos às listas!
E chegamos pela via do livro Listas Fabulosas, que já comentei aqui e aqui. O livro traz várias listas engraçadas, sempre com sete
itens, cada uma sendo a lista de um personagem... Tem lista das profissões mais
difíceis do mundo (tipo dentista de jacaré, babá de onça...), de coisas que não
sevem para nada, de nomes preferidos de duplas caipiras inventadas, dentre
várias outras. Tudo isso é contextualizado em uma narrativa que conta sobre o
clube das listas de uma cidade inventada. Inventa é coisa, essa Eva!
Para explorar o livro na oficina, fiz uma caixinha (caixona) que
contém as listas (que dei uma para cada dupla ou trio), um dado gigante com os
personagens (escolhi só 6, pois dados com mais faces é mais difícil de
confeccionar - mas chegarei lá!). E tem também carteirinhas de sócios do clube
das listas - aí só firula para ajudar formar os grupos. Pois bem, a ideia é
simples, mas correu de forma muito bacana. Pedi que cada grupo (dupla ou trio)
produzisse mais um ou dois itens de sua lista e, depois, pedi a um assistente
para lançar o dado. O personagem que saísse no dado indicaria a lista que
deveria ser lida, pois cada uma delas tem o nome de seu dono-personagem. E
assim foi...fomos achando graça das listas - que ainda não tinham sido lidas
para o grupo - e das propostas de itens dos colegas. Rimos bastante. E foi um jeito diferente de ler o livro...
Inacreditável! Das listas, passeamos ainda pelos problemas
matemáticos...é... teve quem se remexeu na cadeira ou amoitou, matemática
sempre parece assustar um pouquinho a quem muito se interessa por literatura.
Não, não é a oficina errada, Eva também brinca com a matemática, em seus
livros. São eles: Os Problemas da família Gorgonzola e Problemas Boborildos. No
fim, estava todo mundo relaxado brincando com operações e situações esdrúxulas
a resolver.
A famosa Bruxinha finalmente chegou com Truks, para apresentar as
narrativas sem texto de que Eva muito gosta. Depois de explorar o livro,
assistimos a um vídeo em que a autora conta de suas criações e da Bruxinha em
especial (aqui). E a bruxinha chegou fazendo muita
a-tra-pa-lha-ção! Espalhou as letras e as sílabas por toda a sala... Mas não
conto o que a gente fez para catar tudo, senão perde a graça da oficina, ok?
Mas garanto que foi uma surpresa só!
E não é que, de repente, a bruxinha apareceu em pessoa? Ganhei
essa Zuzu (quando ela ganhou um nome, era esse...mas continuo preferindo
Bruxinha) de uma amiga querida, Ana Lúcia Antunes. Ela não podia faltar, né?
Surgiu de repente, também de dentro de uma caixinha...(caixona). E veio fazer
parte da brincadeira!
E como a bruxinha tem muitos amigos, trouxe uma caixinha antiga
que tenho, do livro O Amigo da bruxinha. É um livro sem texto, com historinhas
curtas em imagens, cada qual, na sua maioria, com 6 tiras. Para a caixinha, as
tiras foram fatiadas, cada história com sua cor (calma! não cortei o livro,
escaneei e imprimi...ou fiz cópia colorida, não lembro mais...). Para cada
grupo dei uma história embaralhada, para montar a história. Depois conferimos
para ver se ficou diferente da do livro... Tudo isso, pano para muita manga e
conversa...
Daí saímos das narrativas e fomos para a
tradição oral e o texto poético...para brincar com as palavras...
O kit Adivinhe se puder foi feito a partir do livro de mesmo nome
e trata-se de um livro de adivinhas da tradição oral, que Eva selecionou e
ilustrou. Eva é ilustradora também, vocês sabem, né? O kit conta com as
cartelas com as perguntas-adivinhas e as respostas escritas. Um grupo fica com
as perguntas, outro com as respostas. Uma folia para descobrir! Sabendo oralmente
as respostas a cada uma, mesmo quem não sabe ainda ler com autonomia pode achar
as palavras escritas que respondem à adivinha, seja por meio de dicas (começa
com a letra A...Tem 5 letras...), seja por meio de indícios, de pesquisa
inteligente sobre letras, seus sons, pedaços da palavra... Ver sobre isso aqui nesse post.
Brincar com as palavras é com Eva mesmo!!! Seus 4 livros mais
marcantes nesse sentido, são o Não confunda, o Você troca?, o Assim assado e o Travadinhas. De três deles eu fiz caixinhas, com a proposta para a oficina. São
coisinhas simples, mas que quando apresentadas assim, bonitas, guardadinhas,
com a surpresa prontinha para sair da caixa, vira festa! Começamos com o Não confunda - o livro que diz o avesso do que
diz, porque a coisa mais certa a fazer aí, é confundir para brincar... Ela diz,
na verdade: confunda! Confunda para brincar com os sentidos e as sonoridades...
Então, aceitamos o desafio!
Na caixinha Não confunda, forrada com tecido de bolinhas, tem só
pares de palavras rimadas e papeizinhos para cada um escrever seu "não
confunda"... Para quem conhece o livro, sabe do que eu estou falando. Para
quem não conhece, segue um exemplo. No livro diz, por exemplo: "Não
confunda...ovelha abelhuda...com abelha orelhuda...". Criar "não
confundas" é isso aí mesmo, achar pares de rimas, trocadilhos, graças com as
palavras.
Para dar uma forcinha, a caixinha tem alguns pares de rimas, para
ajudar... como: "metida/fedida", "robótico/estrambótico"
"amarelado/empinado", "nojenta/briguenta",
"remela/janela"...e por aí vai... Mas depois que o sujeito pega o
jeito, nem precisa mais das sugestões. A mente já vai logo vasculhando palavras
e confundindo-as para criar pares espertinhos de
"não confundas"... Experimentem! As crianças amam!!! Com elas,
geralmente, se começa com coisas simples, sem cobrar tanta burilação, seja de
ritmo, seja na construção da graça. Mas algo que rime. Por exemplo, pode até
começar com o nome: "Não confunda Gabriel com pastel". É
simples, mas pra fazer com mais graça e burilação, dá trabalho...tem que pensar
na coisa que vai trocar e pelo quê, achar algo interessante, pensar no ritmo
dos versos e nas sonoridades, achar trocadilhos produtivos. Um trabalho poético
e tanto! Exercitem!
O Assim, Assado só fizemos ver...não tem caixinha, por
enquanto. O livro é de pequenas situações sapecas... Não achei jeito de
provocar uma produção de "assim assados"... Mas uma possibilidade que
pensei...mas não fiz ainda...é dar o mote, ou seja, dar o Era uma vez + o personagem...e
aí cada um criar sua situação. Exemplos da autora: "Era uma vez, um médico
aprendiz...quando operava a paciente, aumentava-lhe o nariz", "Era
uma vez, um time da pesada...jogava futebol, com bola quadrada"...
É preciso lembrar
que as ilustrações dão um sentido a mais e uma graça toda especial aos
"não confundas", "você trocas" e "assim assados"
nos livros da autora... Não podemos deixar de chamar a atenção a esse elemento
ao ler e fruir desses livros.
Travadinhas...falta esse. Tenho chamego
por todos, mas esse gosto há muito tempo, quando eu ainda trabalhava em escola
e tinha uma versão diferente do que é editado agora (só acha em sebo, agora).
Mas falo disso daqui a pouco. O Travadinhas é um livro com pequenos textos que
são verdadeiros trava-línguas, com situações com a graça peculiar de Eva
Furnari. Tipo: "O monstro branco tem tromba preta e o monstro preto tem
tromba branca", "Chilique de bicho de luxo é um lixo, e chilique de
bicho de lixo, é um luxo" - tente falar rápido!!! Pois é, a caixinha
das Travadinhas compõe-se, justamente, desses textinhos da autora, para cada um
retirar e ler o mais rápido que conseguir... Não precisa dizer que demos muitas
risadas, não é? Simples assim!
As travadinhas, como os trava-línguas, são isso, né? Travar
e destravar a língua, para brincar com as palavras, que, do modo em
que estão organizadas nos textos desafiam a pronúncia. Trava-línguas
(e as travadinhas, nisso) são ótimos contextos para a reflexão fonológica, no
nível dos fonemas e unidades intrasilábicas (como os encontros consonantais,
por exemplo), seja no nível epilinguístico (só brincar, sem controle deliberado
e consciência plena das unidades fonológicas), seja no nível metalinguístico
(refletindo de forma mais consciente e deliberada, observando a relação entre a
escrita e o oral: que sons parecem se repetir e desafiam nossa pronúncia? Vamos observar no
texto, que letras grafam esses sonzinhos que se repetem?). Os fonemas
consonantais são unidades mentais e muito abstratos para uma cabeça não
alfabetizada. É difícil pensar neles separados dos sons das vogais, que se
ligam a eles na emissão sonora, pois a fala é co-articulada. E um jeito de se
prestar atenção a eles é justamente no contexto dos trava-línguas e de textos poéticos
que recorrem a essas aliterações (repetições de fonemas consonantais). Sim,
gente! É preciso entender um pouquinho de fonologia e do trabalho lúdico com a
consciência fonológica para alfabetizar!
Mas voltando ao livro Travadinhas antigo, nesse, os textos eram
maiores e usávamos, na escola em que eu trabalhava, para brincar com essas
aliterações e para trabalhar com a ortografia. Exemplo de texto:
Xavier se queixou pro chefe da cozinha:
- Poxa! Chega de chucrute murcho com chuchu!
Quero churrasco de salsicha
e bolacha de chocolate com chantilly!
O xucro do chefe trouxe churrasco de chantilly
e biscoito de salsicha com chuchu.
Viram que os textos são bem maiores? Pois é. Esse dava pra brincar
com o fonema /x/, que pode ser grafado com X ou CH, dava uma ótima situação
para trabalhar a ortografia.
Pois bem... Depois de brincar com tantos textos e palavras, com
sonoridades e ritmos, e depois de falar sobre aprender sobre a língua em
situações lúdicas e letradas, não podíamos deixar de lembrar que é preciso não
perder de vista o texto literário, quando o tomamos para refletir sobre
aspectos linguísticos da apropriação da linguagem escrita. Precisamos discutir
sobre a função estética não ser engolida pela função pedagógica. A função primordial
da literatura é encantar, fruir, sua natureza é estética, artística. Não
podemos abordar pedagogicamente os textos, matando justamente essa natureza
literária - tomando o texto como pretexto, como dizem... Mas defendo muito que
a análise da língua pode ser - a depender de como fazemos - muito produtiva
para ampliar, inclusive, a fruição literária...para durar nos textos...fruir
mais amplamente deles... Afinal, as sonoridades, as rimas, as aliterações são
matéria da poesia tanto quanto da alfabetização.
É isso gente! A oficina termina com uma festa da Bruxinha - que
nem deu tempo de a gente preparar - mas que deixo como curiosidade para a
próxima, ok? Próxima oficina, próxima postagem...
Espero que tenha dado uma ideia (só uma ideia...) da oficina e
inspirado vocês, seja a ler mais Eva Furnari, seja a brincar com seus
textos...e, quem sabe, a fazer umas caixinhas...
Um beijo e um queijo,
Lica
terça-feira, 16 de agosto de 2016
Plano de Atividade: PARLENDA Hoje é Domingo
TIPO DE ATIVIDADE: Leitura para todos e
escrita para os alunos que já consideram o princípio alfabético (mais ou menos
sistematicamente)
CONTEÚDOS:
- Gênero textual parlenda
- Estratégias de reconhecimento de palavras e
ajuste do falado ao escrito
- Consciência fonológica de rimas, com e sem
presença da escrita
- Escrita convencional/ortografia
OBJETIVOS:
- Aprender mais sobre o gênero parlenda e ampliar o repertório de parlendas para brincar
- Utilizar estratégias diversas de
reconhecimento de palavras
- Ajustar oral ao escrito para reconhecer
palavras sem saber ler
- Utilizar o conhecimento sobre o valor sonoro
das letras
- Refletir sobre as rimas sem e com presença da
escrita – consciência fonológica de rimas
- Pôr em jogo o que sabe para escrever
convencionalmente
AGRUPAMENTOS:
Coletivamente: reflexão fonológica
Duplas agrupadas por níveis semelhantes
de possibilidade de escrita e leitura
ORIENTAÇÕES
DIDÁTICAS:
(essas orientações podem ser
desenvolvidas gradativamente, ao longo de mais de uma aula)
Fazer um levantamento
dos conhecimentos prévios dos alunos sobre parlendas, os perguntando sobre quais eles
conhecem. Solicitar que os alunos falem algumas parlendas desafiando a turma a
repetir. Depois das trocas brincantes quanto às parlendas que conhecem, brincar
com algumas elas trocando as palavras rimadas, fazendo graça e abordando
oralmente a consciência fonológica de rimas: as crianças produzem as rimas a
partir das palavras trocadas em parlendas conhecidas. Além de muito divertido,
da graça com os nonsenses criados, trabalha-se aí a produção de rimas,
capacidade importante de consciência fonológica.
Ex.
“Hoje é quinta...pé
de .... (?)... (ex. cinta)”;
“Rei, capitão,
soldado, aprendiz...moço bonito do meu...(nariz)...
“Meio dia, Macaco entorta... Panela
no fogo, Barriga... (é ricota)”.
Depois desse momento,
pode-se escrever algumas das rimas no quadro e analisar as semelhanças sonoras
e gráficas entre os pares com segmentos rimados: quinta/cinta (rima
soante paroxítona), aprendiz/nariz (rima soante oxítona),
entorta/ricota (rima toante paroxítona)...
Após essa exploração
oral, a professora irá recitar uma parlenda de memória, para que os alunos
ouçam e repitam, podendo também escolher uma entre as que os alunos já
conhecem, como “Hoje é Domingo”. Certificar se os alunos sabem o texto de cor
e, se não sabem, brincar de repetir de várias formas, garantindo a memorização,
como dizer um verso e eles repetirem; depois dizer um verso e eles dizerem o
que vem depois...e assim, sucessivamente; dizer um verso aumentando ou
diminuindo a voz quando pronunciar as palavras rimadas etc.
Quando a maioria
tiver memorizado o texto, entregar uma cópia da parlenda trabalhada oralmente,
fazendo a leitura com o dedo, mostrando que o ritmo dos versos ajuda na
leitura, mesmo que eles ainda não saibam ler com autonomia. Depois, recolher os
textos e dar o mesmo texto com partes lacunadas, solicitando que os alunos
leiam juntamente com a professora, descobrindo as palavras que faltam.
Para
as duplas de crianças que ainda não leem com autonomia, entregar um banco de
palavras da parlenda (palavras desordenadas, não na ordem que aparecem no
texto). Dependendo das possibilidades das crianças, lacunar apenas uma palavra
por verso e, se precisar, ajudar dando dicas sobre letra inicial, letra final,
tamanho da palavra. Para as duplas de crianças com que já consideram o valor
sonoro das letras, entregar o banco de palavras da parlenda com outras palavras
parecidas misturadas, para aumentar o desafio, o grau de dificuldade.
Para
os alunos que já consideram o princípio alfabético, seja de forma sistemática
ou ainda assistemática (como os silábico-alfabéticos), entregar o texto
lacunado sem o banco de palavras, para que as escrevam refletindo sobre a
escrita das palavras, a ortografia.
No
final pedir para que as duplas confrontem suas respostas com outras duplas.
O mesmo procedimento pode ser feito com
outras parlendas, assim como com outros textos da tradição oral.
RECURSOS: Papel, lápis, texto lacunado, 2 tipos de banco de palavras
PARLENDA:
Hoje é domingo
Pé de cachimbo
Cachimbo é de barro
Bate no jarro
O jarro é de ouro
Bate no touro
O touro é valente
Machuca a gente
A gente é fraco
Cai no buraco
Buraco é fundo
Acabou-se o mundo
LACUNADO:
Hoje é _______
Pé de ________
__________ é de ______
Bate no ______
O _____ é de _____
Bate no touro
O touro é ________
__________ a gente
A gente é ______
Cai no _______
_______ é _______
Acabou-se o _______
As aulas podem seguir abordando novas
parlendas, com outros encaminhamentos, explorando tanto a consciência
fonológica quanto o reconhecimento de palavras, para que as crianças vão, aos
poucos ampliando o repertório de parlendas e aprendendo sobre suas características,
usos e tipos (letramento), avançando em suas capacidades de reconhecer palavras
por decifração e outras estratégias, articulando o nível textual (consideração
do contexto textual para a leitura), lexical (reconhecimento cada vez mais
automático das palavras) e sublexical (reconhecimento pela decifração, ampliando
a reflexão fonológica com vias a articular, gradativamente, fonemas e grafemas).
Outros textos da tradição também podem ser abordados nesse sentido. É fundamental que as crianças vão aprendendo sobre as características, os usos e funções das parlendas, seus diversos tipos, a partir do contato com várias parlendas, brincando com elas, usando-as para o que de fato são (para brincar, pular corda, bater as mãos, escolher quem vai jogar, brincar com as palavras etc...) e não numa aula teórica sobre essas características, usos e tipos. Essa sistematização pode vir depois, após se apropriarem desse gênero sem perder de vista suas funções brincantes e de gênero oral, que precisa, antes, circular na oralidade. E não como introdução à exploração das parlendas.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
Oficinas...
Ando com muita, muita saudades das oficinas... Por conta do doutorado, depois do concurso, depois do tanto de coisa que fazemos na Universidade, ainda não consegui retomá-las...Nos últimos tempos têm acontecido apenas de forma pontual, breve, em um ou dois encontros, sem aquele tempo de dedicação que faz toda a diferença... "Uma terapia" diziam os participantes!
Mas retomarei em breve, no contexto mesmo da UFBA, como Extensão, em diversos formatos.
Seja para os nossos estudantes, atividade ligada aos componentes de Estágios Supervisionados e de Alfabetização e Letramento - estou envolvida em ambos - seja para os estudantes interessados em geral, sejam ainda oficinas abertas ao público em geral, quero fazer esse compromisso comigo mesma e com vocês que me perguntam, escrevem, me provocam nos corredores da Faced...
Além disso, estou elaborando um projeto de pesquisa sobre jogos e materiais para alfabetização, ligada a meu grupo de pesquisa na Faced/UFBA, e articulada a essa pesquisa haverá também ações de Extensão nesse sentido. Falarei mais em breve. Já a apresentei em alguns eventos científicos, falta detalhar as ações e mandar ver!
Por ora serão oficinas presenciais - não há outro jeito para produzir material - mas quem sabe penso depois em um formato para contemplar quem está longe, não é?
Enfim...o post é só um desabafo, uma promessa, um modo de me comprometer mais em fazer acontecer logo!
Ando muito, muito saudosa das oficinas!
Abraço,
Lica
quinta-feira, 11 de junho de 2015
E a catacrese?
Oi, gente!
Fiz dois posts comentando sobre a catacrese, figura de linguagem muito usada na nossa língua cotidiana. Por isso, senti necessidade de fazer um post dedicado a ela.
Fiz dois posts comentando sobre a catacrese, figura de linguagem muito usada na nossa língua cotidiana. Por isso, senti necessidade de fazer um post dedicado a ela.
Como comentei lá no post anterior, muitas vezes, as palavras têm um sentido que revela o uso de uma figura de linguagem chamada catacrese, que é uma espécie de metáfora que se cristalizou pelo uso. Quando usamos, por exemplo, "pé da mesa", “braço de mar”, “olho do furacão”, tomando de empréstimo as palavras “pé”, “braço” e “olho”, usando-as fora do seu sentido habitual, estamos fazendo uso da catacrese. Muito frequentemente, essa transposição tem relação com uma vaga semelhança entre um conceito e outro, como o pé da mesa ser algo que se remete, de algum modo, aos pés humanos.
Expressões com pé são inúmeras! Aqui no blog tem um post com expressões com pé, vejam lá: aqui.
Haja partes de nosso corpo para virar catacrese! Mesmo em enunciados bem sérios, olha só: “Isso é a cara desse país”, “o desenvolvimento é corpo do trabalho acadêmico”... Quer ver como usamos muitas catacreses no nosso dia a dia?
Pé de mesa, pé de página, braço de cadeira, batata da perna, orelha de livro, dente de alho, cabeça de alho, asa da xícara, fio de azeite, coração da floresta, maçã do rosto, coroa do abacaxi, casa de botão, boca da noite, céu da boca, cabeça de prego, raiz do problema, folha do livro, cabeça de repolho, olho do furacão, olho da rua, boca do túnel, banana de dinamite, cabelo de milho, pele de tomate, leito do rio, trânsito engarrafado, embarcar no avião...
Vejam o caso da expressão “embarcar no avião”. Originalmente usada para a entrada em um barco, hoje é utilizada para entrar em qualquer meio de transporte: avião, metrô, trem, ônibus... E engarrafar? Já pensou nisso?
A catacrese é uma espécie de metáfora esquecida...
A metáfora é um recurso fundamental da poesia...mas não é usada só em gêneros poéticos, lógico! Ela é uma das ferramentas essenciais para desembolorar as palavras, dar a elas novos usos, refrescá-las! Na metáfora há uma transferência da significação própria de uma palavra para outra significação, como uma comparação implícita que o autor faz, criativamente.
Mas pense: se a metáfora é essa figura de linguagem que consiste em empregar uma palavra em um sentido que não lhe é comum ou próprio numa relação de semelhança entre os dois termos, então, a catacrese é uma espécie de metáfora!
Mas pense: se a metáfora é essa figura de linguagem que consiste em empregar uma palavra em um sentido que não lhe é comum ou próprio numa relação de semelhança entre os dois termos, então, a catacrese é uma espécie de metáfora!
Sim, mas é uma metáfora repetida, gasta, diferente da metáfora poética que desembolora as palavras – que é o ofício do poeta! É uma metáfora que foi usada por falta de uma palavra específica para designar um termo, havendo então um desvio de sentido. A catacrese ocorre quando, por falta de um termo específico ou melhor para designar um conceito, toma-se outro por empréstimo. Trata-se de termos inicialmente usados apenas para suprir uma lacuna de um termo específico para tal, mas que foram usados tantas vezes que seu uso se cristalizou, passando a constituírem expressões que têm significados bem próprios. Por isso é como uma metáfora esquecida... Esquecida de seu papel de uso inusitado, conotativo...
Tendo a metáfora como referência de figura de linguagem emblemática da poesia, uns dizem que a catacrese é uma metáfora “obrigatória”, imperativa. Usa-se a palavra fora de seu significado usual, mas, pelo uso, ela se impõe, e já não é percebida como se empregada em um sentido figurado – isso que é próprio da metáfora. Assim, a catacrese é metáfora por nascer do princípio da comparação, da similaridade; é esquecida por já não ter a força conotativa; e é "obrigatória" por ceder antes a um imperativo de uso do que a necessidades expressivas e intenções poéticas.
Quando dizemos, então, que a catacrese é uma metáfora gasta, usada por falta de termo específico ou melhor, há aí um sentido negativo dessa figura de linguagem. Esse sentido negativo é reiterado pela própria origem do termo catacrese: a palavra vem do latim catachresis, que tem origem no grego katakhresis, que significa “mau uso” – e no caso aqui, mau uso das palavras! Guardemos essa ideia, mas para a desconstruirmos em seguida...
Entretanto...(e aqui vamos começar a desconstruir e nuançar um pouco essa ideia negativa...retirar a catacrese desse lugar de “mau uso”...) ...ela pode voltar à poesia... como podemos ver nos poemas de José Paulo Paes, Inutilidades, Atenção Detetive e Pura Verdade. São poemas que brincam, essencialmente, com as catacreses. Duas delas estão no post já citado acima - e estão aqui. Outra, aqui:
Quando dizemos, então, que a catacrese é uma metáfora gasta, usada por falta de termo específico ou melhor, há aí um sentido negativo dessa figura de linguagem. Esse sentido negativo é reiterado pela própria origem do termo catacrese: a palavra vem do latim catachresis, que tem origem no grego katakhresis, que significa “mau uso” – e no caso aqui, mau uso das palavras! Guardemos essa ideia, mas para a desconstruirmos em seguida...
Entretanto...(e aqui vamos começar a desconstruir e nuançar um pouco essa ideia negativa...retirar a catacrese desse lugar de “mau uso”...) ...ela pode voltar à poesia... como podemos ver nos poemas de José Paulo Paes, Inutilidades, Atenção Detetive e Pura Verdade. São poemas que brincam, essencialmente, com as catacreses. Duas delas estão no post já citado acima - e estão aqui. Outra, aqui:
PURA VERDADE
Eu vi um ângulo
obtuso
Ficar
inteligente
E a boca da
noite
Palitar os
dentes.
Vi um braço de
mar
Coçando o
sovaco
E também dois tatus
Jogando buraco.
Eu vi um nó
cego
Andando de
bengala
E vi uma
andorinha
Arrumando a
mala.
Vi um pé de
vento
Calçar as
botinas
E o seu
cavalo-motor
Sacudir as
crinas.
Vi uma mosca
entrando
Em boca fechada
E um beco sem
saída
Que não tinha
entrada.
É a pura
verdade,
A mais nem um
til,
E tudo
aconteceu
Num primeiro de
abril.
Além de seus usos poéticos possíveis, temos que lembrar que a língua e as figuras de linguagem não estão a serviço apenas da poesia, mas da língua, da língua de todo dia...
Por exemplo, é bom reparar que a catacrese tanto pode acontecer ocupando o lugar de uma palavra faltante (como em "embarcar no avião") quanto substituindo um termo exato ou técnico por um menos formal ("barriga da perna" em vez de panturrilha, "céu da boca" em vez de palato). Vê como a linguagem é danada e, no dia a dia dos falantes, vai ganhando asas?!
Por exemplo, é bom reparar que a catacrese tanto pode acontecer ocupando o lugar de uma palavra faltante (como em "embarcar no avião") quanto substituindo um termo exato ou técnico por um menos formal ("barriga da perna" em vez de panturrilha, "céu da boca" em vez de palato). Vê como a linguagem é danada e, no dia a dia dos falantes, vai ganhando asas?!
Então, precisamos não nos apegar ao sentido negativo dessa figura de linguagem.
Acontece que a catacrese, com seus neologismos semânticos, funciona, de todo modo, como um mecanismo de formação de novos sentidos para as palavras, de ampliação do léxico. Hoje usamos "encaixar" com o sentido de colocar algo em um espaço onde ele cabe perfeitamente, mas originalmente, encaixar significava colocar em caixas... Há assim também um enriquecimento da língua, de seu dinamismo, pelos usos “gastos de metáforas esquecidas”!
O que seriam os engarrafamentos se não houvesse a catacrese? E dos pés de galinha, que seriam só rugas como tantas outras... a língua precisa da catacrese... e mesmo a poesia a acolhe de volta!
Vejam vocês: a catacrese não é matéria bruta para muitas brincadeiras com as palavras e para a poesia? Muitos autores não brincam, justamente, com as catacreses? Falamos de José Paulo Paes, mas ele não é o único.
Eva Furnari, mestra em brincar com as palavras, traz uma lista baseada em catacrese em seu livro “Listas Fabulosas”. É a lista da personagem Olfa, que brinca com essas inutilidades, entre o sentido real e a catacrese. Já postei sobre isso, também aqui.
Outro exemplo é a canção “Composição Estranha”, de Ronaldo Tapajós e Renato Rocha, que usa ao mesmo tempo metáforas e catacreses:
Usei a cara da lua
As asas do vento
Os braços do mar
O pé da montanha
Criei uma criatura
Um bicho, uma coisa
Um não-sei-que-lá
Composição estranha
O coração da floresta
Batia em seu peito
E a sua voz
Boca da noite
Para sua voz
Boca da noite
Para sua voz
Reparem que na primeira estrofe, nos versos 1 e 2, ocorre uma metáfora, pois há aí uma relação de similaridade novidadeira entre os termos "cara" e "lua" e os termos "asas" e "vento". Nos versos 3 e 4, apesar de pressupor o mesmo processo metafórico, as palavras "braços" e "pé" foram empregadas fora de seu contexto próprio a partir de outro recurso, a catacrese. No verso 1, 4 e 6 da segunda estrofe também ocorre a catacrese.
Catacrese
De falar de catacrese
chegou a vez afinal:
é palavra usada fora
de seu sentido real,
mas que, por falta dum termo
próprio, se torna usual.
Uma cabeça de prego
eu encontrei na madeira;
Esse menino se senta
só no braço da cadeira;
Rasgou-se a manga da blusa
vou atrás de costureira.
Ontem na perna da mesa
uma topada levei;
Me tremi de medo quando
no avião embarquei;
Nessa sopa tão gostosa
um dente de alho botei.
É um cordel do livro "As figuras de linguagem na linguagem do
cordel", de Janduhi Dantas, Editora Vozes. Já no livro "Crônicas da
Norma: pequenas histórias gramaticais", de Blandina Franco e José Carlos
Lollo, Ed. Callis, os autores explicam a catacrese assim:
" - Quebrei a catacrese!
Putz, não pode ser! Justo a catacrese? Ela era a minha menina dos olhos!
- Pois é...
- Mas você é desastrado mesmo! Semana passada quebrou o braço da cadeira, na outra o pé da mesa...
- Mas o pé da mesa quebrou porque você não martelou direito a cabeça do prego que prendia ele.
- Ah, então a culpa é minha! E a asa da xícara, você quebrou por quê?
- A asa da xícara eu quebrei porque o chá queimou o meu céu da boca!
E a catacrese? Quebrou por quê?
- A catacrese foi sem querer! Você acha que eu ia quebrar a catacrese de propósito?
- De propósito não, porque você sabe que se fosse de propósito eu dava um soco na boca do seu estômago!
- Você não teria coragem!
- Teria sim! E quebrava a maçã do teu rosto!
- Duvido!
- Duvida? Eu ainda mordia a tua batata da perna!
- Ah, é? Então vem! Vem!
E os dois se engalfinharam e começaram a brigar e quebraram tudo o que ainda estava inteiro naquele lugar. Não sobrou nem um dente de alho, nem uma orelha de livro, nem uma boca de fogão ou de garrafa pra contar a história."
E os dois se engalfinharam e começaram a brigar e quebraram tudo o que ainda estava inteiro naquele lugar. Não sobrou nem um dente de alho, nem uma orelha de livro, nem uma boca de fogão ou de garrafa pra contar a história."
Acho
que agora deu pra entender, né?
...e
sigamos brincando com a linguagem...
Abraço,
Lica
P.S. Se
não entendeu, precisa de mais um exercício. E se entendeu, mesmo assim, mostre
que está sabido(a) em catacrese, marcando todas as que aí aparecem no texto
acima.
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