ATENÇÃO: O caso da letra G é especial, pois ambos os nomes, gê e guê, dão pistas de um dos valores sonoros que a letra assume no sistema, ambos sendo oficialmente reconhecidos, e o caso do J também, pois tem um processo de nomeação diferenciado. De qualquer modo, no nome jota ouvimos muitos sons que não fazem parte do valor sonoro da letra J, sendo o nome ji mais simples, como o si. Discutiremos sobre isso mais em detalhes na publicação sobre essa temática.
sexta-feira, 27 de outubro de 2017
Abecê Nordestino. PARTE 2: Argumentos da história do alfabeto
Oi, gente!
Vamos à Parte 2 de nosso estudo sobre o abecê nordestino, trazendo argumentos da história do alfabeto. A parte anterior a essa está aqui.
Quando
o alfabeto surgiu entre os povos semitas, as letras, como nos lembra Cagliari
(2009a), partiram de uma lista de palavras (alef,
beth...), cada uma com um som inicial diferente e cujos significados
remetiam à forma figurativa dos hieróglifos egípcios que foram adotados.
Ou
seja, parece que as letras eram motivadas pelas imagens do objeto designado
pela palavra e a letra inicial dessa palavra remetia ao som dessa letra. Isso é
muito importante para nossa discussão. Cagliari (2009, p. 40-41) diz que “essas
palavras passaram a ser os nomes das letras e um modelo de referência para se
achar qual letra deveria ser usada, ao se analisar as palavras em seus
segmentos fonéticos consonantais”.
O
exemplo clássico disso é a primeira letra do alfabeto semítico, nomeada de aleph, que significava boi, e era
representada pelo hieróglifo para boi. Assim, esse hieróglifo ficou sendo a letra
que representava aquele som inicial da palavra aleph, o som /a/ - que era meio gutural, não como nossa vogal hoje.
Nessa
origem do alfabeto, “um princípio acrofônico era a chave para decifrar e
escrever o alfabeto: bastava saber o nome das letras, reconhecer o som
consonantal e usar o caractere correspondente para escrever as consoantes que
iam sendo detectadas nas palavras a serem escritas” (CAGLIARI, 2011, p. 3). Ou
seja, isso de os nomes das letras darem a pista de seus sons, é que se chama de
princípio acrofônico e, como estamos vendo, esse princípio está presente desde
a origem da escrita alfabética. Aliás, é por isso mesmo que Cagliari
(2009b, p. 14) diz que quem inventou a escrita inventou ao mesmo tempo as
regras da alfabetização”.
Então,
essa lista de palavras – primeiro abecedário, por assim dizer – serviu de base
para o princípio acrofônico e acabou originando os nomes das letras. Embora
remetendo a formas figurativas da escrita hieroglífica, o que guiou o
estabelecimento dos nomes das letras foi, desde o início, a pista dos seus
sons. Como Cagliari enfatiza, o alfabeto foi inventado através do princípio
acrofônico: no nome das letras (em geral no início da palavra, mas não
necessariamente) ocorre o som mais característico que a letra representa no
sistema. E no início, era a letra inicial do nome que remetia ao som das
letras.
Os
gregos adaptaram o alfabeto semita dos fenícios aos fonemas sua língua e também modificaram os nomes das
letras, que passaram a ser apenas nome de letras – nomes próprios – não mais
vinculadas a um significado outro. Mas, em essência, mantiveram o mesmo
princípio, ou seja, o funcionamento do alfabeto pelo princípio acrofônico: os
nomes das letras gregas davam pistas do som dessas letras, e também nesse caso,
de forma mais direta – era a letra inicial que se remetia ao valor sonoro da
letra. Suas formas gráficas também perderam o caráter icônico, os nomes das
letras, assim, já não seguiam o sentido, mas tão somente o princípio
acrofônico.
Percebam,
então, que esses sistemas, que foram a base do nosso alfabeto latino, seguem
esse princípio acrofônico pelo som
inicial dessas palavras, ou seja, o som /a/ era representado pela letra alfa, cujo som inicial /a/ corresponde
ao som daquela letra; o som /b/ era representado pela letra beta...
Chegando
ao alfabeto latino, percebeu-se que, como a escrita alfabética se baseia na
relação entre fonemas e grafemas, que o que importa é o som das letras, não era
necessário que as letras tivessem nomes próprios. Assim, ao se apropriarem do
alfabeto grego, por meio dos etruscos, e estabelecerem o alfabeto latino, os
romanos modificaram os nomes das letras. E como nomear as letras? – Eis a
questão. É Cagliari (2009a) quem continua a nos contar sobre isso. Os romanos
entenderam que, se a chave para decifrar
as letras estava nos seus nomes, não era necessário ter nomes próprios,
especiais, para essas letras, como no alfabeto semita ou grego, bastava o nome
remeter ao som das letras. Ou seja, se a escrita alfabética é baseada no
princípio acrofônico, bastaria identificar os sons das letras para constituir
seus nomes.
Com os
sons orais das vogais, que são fonemas que soam, era fácil nomeá-las: bastava
lê-las e esse era o nome delas: A, E, I, O, U. Como as consoantes precisam do
apoio de uma vogal para serem pronunciadas, optou-se, para nomeá-las, por usar
uma vogal de apoio. Desse modo, pareceu prático designar as letras por monossílabos
iniciados com o som mais representativo
de cada uma delas, seguidas de uma vogal, no geral a letra E, tornando esse
nome pronunciável. “Assim, as letras
passaram a se chamar a, bê, cê, dê,
etc” (CAGLIARI, 2009a, p.70). Por essa lógica, as letras F, L, M, N, R, por
exemplo, deviam seguir esse mesmo sistema: fê,
lê, mê, nê, rê... E o autor continua assim: “No começo, as consoantes se
diziam pelo som inicial mais a vogal E, exceto K, que se dizia ka, Q que se dizia qu e X que se dizia iks”
(CAGLIARI, 2009a, p. 70). Se essas eram as exceções, então a afirmação nos faz
pensar algumas coisas:
1) que
sim, de início se dizia fê, lê, mê, nê, rê...;
2) que
os nomes das letras mudam na história.
Em
outro texto (CAGLIARI e MASSINI-CAGLIARI, 1999, p. 177), afirma-se também que em
algum momento da história do alfabeto latino, “havia duas maneiras de se dizer
os nomes das letras, pois algumas tinham sofrido uma mudança de nome passando a
ser ditas com um -e inicial, seguindo o som da consoante, como em ef, el, em, em, er e es”. Então, vejam
que coisa interessante!
Cagliari
(2009a,1999) relata que na época de Varrão (116-27 a.C.) havia os dois modos de se referir aos nomes das letras – ou seja, pronunciados de forma mais direta
como na origem do alfabeto latino, com a letra inicial dando pistas do som que
representam (ou seja fê, lê, mê...) e a versão com o -e anteposto ao F, L, M, N, R.
De qualquer modo, isso
quer dizer que, indo longe na história do alfabeto, essa forma precede à forma efe, ele, eme, erre...Varrão foi um
filósofo e enciclopedista romano, que escreveu a mais antiga gramática latina.
Nela, há uma sistematização, além de outras coisas, dos nomes das letras, pelo
critério seguinte: distinguindo as consoantes oclusivas das demais, as não-oclusivas (fricativas, laterais, vibrantes e nasais) recebiam a
vogal de apoio – a letra E – antes do som consonantal representativo do som da
letra, ou seja: ef, el, em, en, er, es
(depois pronunciadas em português como efe,
ele, eme, ene, erre e esse).
Assim,
na época de Varrão havia as duas designações possíveis para essas letras – a
antiga, fê, lê, mê, nê, rê – e essa
estabelecida pelas regras novas. Se foi proposta do próprio Varrão ou não, não é fácil comprovar. Há quem remeta a mudança na nomeação das letras ao alfabeto etrusco, intermediário entre o grego e o latino. E essa forma nova de dizer o nome das
letras em latim passou, depois, de algum modo, para muitas das línguas europeias,
como o português (mas não apenas para as línguas neolatinas). Vê então que,
indo lá para trás, podemos questionar a precedência e mesmo a lógica dessa
nomeação? Por razões históricas, a sistematização da época de Varrão ficou valendo, mas
poderia nem ter ficado.
Notem que, para novas letras que foram surgindo depois - porque as línguas e suas notações são dinâmicas e mudam na história -, essa regra do -e antecedido nos nomes de letras que representam fonemas não oclusivos nem foram mais consideradas – o que nos faz relativizar a necessidade e pertinência da regra. As letras V e Z, embora representem fonemas fricativos (ou seja, não-oclusivas), sendo – tal qual usadas hoje – incorporações tardias no alfabeto latino, não entraram nesse sistema para as não-oclusivas. Ou seja, pela regra de formação dos nomes das letras dessa época, uma vez ganhando esses outros valores sonoros, as letras V e Z deveriam se chamar eve e eze...!!! E foi assim? Não, né?
Quando essas letras, com esses
sons, surgiram, deram-lhes os nomes mais diretos, como se fossem oclusivas,
pelo sistema da época de Varrão: vê, zê. Então
para onde foi a lógica? Isso nos leva a pensar na arbitrariedade da
determinação dos nomes das letras e, consequentemente, sobre o que seja certo
ou errado nesse contexto. Essa determinação pode, realmente, ser tomada como o
parâmetro, a medida de todas as outras alternativas de nomeação das letras? Nessa época, os estudos gramaticais enfatizavam muito essa diferença entre os fonemas constritivos e oclusivos - essa distinção ir parar nos nomes das letras pode ter sido um arranjo bem próprio ao conhecimento gramatical da época, não é? E ainda assim, arbitrário e sem um lógica interna que, de fato, justifique-o. Tudo bem que, por algum motivo (não exatamente linguístico ou lógico), esse modo de nomear ficou valendo, no curso da história, e se consolidou - mas a questão é: isso pode ser determinante para se tornar o único abecê legítimo?
Assim, esse
aspecto da história do alfabeto nos remete, novamente, à nossa discussão sobre o abecedário nordestino,
seja em termos de sua validade cultural, seja em termos de sua funcionalidade
na alfabetização (sobre isso aprofundaremos mais nas partes 3 e 4). Saber dessa
origem dos nomes das letras – seja em uma ou na outra realização – não nos
ajuda a relativizar o uso do alfabeto “oficial” simplesmente porque “é o
certo”? Não nos ajuda a recuperar a possibilidade de transmissão de nosso saber
cultural de forma mais contundente? A assumirmos que no Brasil temos duas
formas de nomear as letras? Tudo o que muda, exige historicidade para não se
julgar inadvertidamente sobre o que seria “certo” ou “errado”, naturalizando o
que tem história e, por vezes, uma história que não justifica, exatamente,
tomar as coisas – mesmo no recorte de um dado momento histórico – como verdade
dada, única, regida pela dicotomia certo/errado.
Se o alfabeto
que se firmou como modo valorizado de designar as letras na língua portuguesa foi
constituído historicamente, essa origem nos ajuda a relativizar essa história
de “correto” e de “precedente”. A história nos ajuda a ver que nada é dado,
assim, não pode ser considerado, essencialmente, e em si mesmo, o “correto”.
Esse modo legitimado, “oficial”, não o é por razões necessariamente
linguísticas, mas históricas, sociais, culturais, envolvendo relações de poder,
a distribuição do poder entre os falares das regiões e dos sujeitos sociais.
Desvelar
essas raízes e essa precedência não implica, no entanto, usar tais
conhecimentos para argumentar sobre um suposto alfabeto “mais correto”, seja
qual for, ou coisa do gênero, não se trata de disputa. Na verdade não é o que
veio primeiro que importa, de fato, mas mostrar que, justamente, isso não
constitui um argumento válido para legitimar uma forma em detrimento da outra.
O que propomos é um reposicionamento da questão.
A
história do alfabeto, contando-nos sobre a origem dos dois modos de designar as
letras, também nos ajuda a entender que não procede dizer que efe
é nome e fê é som – e muito menos
fonema – pois mostra que os nomes das letras, desde o início, foram dados a
partir do princípio acrofônico, e inicialmente, pela relação mais direta: a
primeira letra do nome da letra dando pista do fonema (ao menos de um dos
fonemas) que essa letra representa. Por que, então, essa insistência em afirmar
que se trata da oposição nome e som? Por que achar estranho lê, fê, rê...serem nomes, se bê, pê, tê...o são sem nenhum problema? Fê só soa estranho (para alguns) porque
se acostumaram com efe, não porque fê seria intrinsecamente estranho.
Naturalizar o circunstancial por desconhecimento pode não ser o problema, o
problema maior é não querer considerar as circunstâncias para continuar
defendendo o que lhes “soa melhor”.
As
consoantes F, L, M, N, R e S, que mudaram de nome, tendo o som consonantal
precedido da vogal E (ou I, no caso do S), em vez de seguido dela como as
demais letras, são as que se distanciaram mais do princípio acrofônico. Ainda
são regidas, de algum modo, por esse princípio, pois o som da letra de referência continua lá
(o fonema /f/ se ouve em efe), mas
não é mais no início da palavra, como nas escritas fenícia e grega e,
inicialmente, também no alfabeto latino. E afinal, como Healy (1996)
define que “o princípio que permite usar um sinal para representar a primeira
letra da palavra que se quer referir chama-se acrofonia (‘som inicial’)”, é mesmo o som inicial do nome da letra inicial que define o princípio acrofônico.
Diante disto, o que a história parece
mostrar é que, com esse sistema de nomeação da época de Varrão, afastou-se mais o nome de algumas letras de
suas formas sonoras correspondentes, e por razões bastante arbitrárias. Ainda que haja uma lógica na mudança, a lógica é externa, por razões outras, e não por ter um sentido para a nomeação das letras.
Certo é
que a representação do som da letra seguida da vogal favorece mais o
estabelecimento da relação entre nome da letra e o fonema que ela representa,
pois esse nome, construído como é no alfabeto nordestino, é mais aproximado de
seu valor sonoro nas palavras – discutiremos adiante as implicações disso na
alfabetização, o próximo post traz
argumentos que reforçam essa ideia.
Os
argumentos da história do alfabeto, entretanto, se nos ajudam a desvelar a origem
dos dois abecês, não explicam exatamente os usos do abecê no Nordeste do Brasil
–especialmente no sertão, mas não apenas, amplamente na Bahia, mais não apenas –em
tempos bem mais próximos de nós, antes de o modo oficial de pronunciar as
letras chegar às suas escolas.
É sobre
isso que discutiremos no próximo post, o Post 3, em que traremos argumentos da história da alfabetização no Brasil.
terça-feira, 17 de outubro de 2017
Sertão como se fala
Esse post é apenas para registrar o lançamento on-line do filme realizado por Leandro Lopes e o Coletivo Adiante, já bastante referido aqui no blog e no Face.
Para ver o filme em tela grande, clique no ícone de aumento da tela, no título abaixo ou aqui:
É isso, gente.
Assistam!Lica
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
Abecê Nordestino. PARTE 1: As letras e o alfabeto nordestino
Antecede esse texto a parte da Introdução, já postada.
Discutir
sobre o abecê nordestino no contexto da alfabetização, requer tanto uma abordagem
de cunho cultural, quanto linguística e pedagógica. Nessa primeira parte
busca-se contextualizar a questão da nomeação das letras nesse abecê, esboçando
o posicionamento quanto ao lugar do aprendizado das letras na apropriação da
escrita alfabética, bem como introduzir as questões culturais e linguísticas que
envolvem os usos e o ensino do abecê nordestino, apresentando, em especial, o
argumento sociolinguístico que perpassa a problemática posta nesse estudo.
No post aqui no blog, irei apenas trazer
notícias do que será discutido nessa parte, no estudo que será publicado em
breve, tanto devido ao tamanho do texto, quanto para manter a surpresa.
a. Letras...seus nomes, seus sons, seus
traçados...
Nessa
parte, vamos discutir sobre o lugar das letras na alfabetização. Entre perspectivas
que negligenciam a aprendizagem das letras, pois enfatizam que a alfabetização
se dá na imersão nas práticas letradas, e, no outro extremo, a perspectiva que
aborda o ensino das letras, seus traçados, seus nomes e/ou seus sons, de forma
mecânica e descontextualizada das práticas de leitura e escrita, é preciso, e
possível, achar um caminho outro que não essa oscilação entre extremos. Aprender
os elementos da notação alfabética também faz parte das aprendizagens relativas
à cultura escrita e aprender as letras não se resume a aprender uma lista de
caracteres. As letras são os caracteres da escrita! Caracteres de um sistema complexo. As
crianças que convivem com a cultura escrita, desde bem pequenas, sabem disso,
podem saber disso, querem saber. Elas têm contato com letras de diversos tipos,
traçados, presentes em diversos materiais, em diferentes situações
socioculturais, apresentando, desde cedo, um interesse crescente por essas marcas gráficas, principalmente aquelas letras presentes em seus nomes próprios, de seus
familiares e colegas.
Exemplo de atividade mecânica tradicional.
Para superar
práticas de alfabetização que se construíram operando um apagamento das
práticas de leitura e escrita, que investiam na cantilena do alfabeto inteiro, na
grafia de letras individualizadas, descontextualizadas, na soletração de letras
e/ou na junção delas em sílabas soltas, foi preciso radicalizar, tivemos que
nos armar contra isso, que era igualmente maltratar os caracteres da escrita
alfabética. Mas será que, para defendermos as perspectivas com foco nos textos
e discursos, é necessário nos armar contra as letras em si mesmas e seu
aprendizado, operando igualmente um apagamento dos aspectos linguísticos da
notação alfabética? É preciso aprender as letras, claro! Aprender a
reconhecê-las e grafá-las, aprender seus nomes, para podermos nos referir a
elas e ir aprendendo as relações com seus “sons”,– são aspectos que fazem parte
das aprendizagens linguísticas e da metalinguagem envolvida no aspecto
notacional da linguagem escrita.
Aprender
os nomes das letras, discutiremos mais adiante, é importante também porque os
nomes dão pistas de seus “sons”, no caminho de apropriação da notação
alfabética.
Os
estudos históricos e linguísticos de Cagliari e Massini-Cagliari (1999) nos
ensinam sobre a constituição e a beleza do alfabeto, suas possibilidades e
limites, sobre a configuração gráfica e funcional das letras e a relação entre
essa configuração gráfica e a configuração funcional, na alfabetização, bem como nos ensinam sobre o princípio
acrofônico (CAGLIARI, 2009a, 2009b), que usamos para decifrar os valores
sonoros das letras, e sobre o qual falaremos muito aqui ainda. Com Cagliari (2009a, 2009b, 2011) aprendemos
tantas coisas interessantes sobre as letras e o alfabeto, através dos tempos e
espaços, na história da constituição dos sistemas de escrita pela humanidade. Essa
história mostra a importância das letras na constituição histórico-social da
escrita, do sistema alfabético, e em sua aprendizagem pelos sujeitos. É a essa
potência que nos referimos aqui ao falar das letras.
As
letras não negam os textos! Elas são os seus tijolos. Assim, reafirmo as letras
e a sua aprendizagem como aspectos importantes no campo da alfabetização,
marcas que interessam às crianças – mesmo às pequenas, quando convivem com a
escrita no dia a dia. Trata-se de um conhecimento que é social, que precisa ser
ensinado às crianças, no contexto da apropriação da cultura escrita.
Bom,
mas essa história toda sobre letras é, também, para justificar a conversa sobre
o alfabeto nordestino – ou do abecê do
sertão, como dizem. Ao menos, por ora, por isso. Ou seja,uma conversa sobre o
jeito de chamar as letras, atribuído ao falar do Nordeste, do sertão. E vamos
então ao abecê nordestino.
b. O abecê nordestino
O jeito
de falar as letras no Nordeste é referido, muitas vezes, como uma variedade
linguística do nordestino, outras vezes como vício de linguagem, curiosidade
exótica, às vezes com uma tolerância regional quase romântica, outras vezes
sendo alvo de chacota e preconceito, como vimos aqui. Como nos ensina Maurizzio Gnerre (1985, p.
4)“[...] uma variedade linguística ‘vale’ o que ‘valem’ na sociedade os seus
falantes, isto é, como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas
relações econômicas e sociais”, e nesse quesito, o preconceito com o Nordeste
extrapola as questões linguísticas, o preconceito linguístico é, pois, antes de
tudo um preconceito social. Em vez de tomar todas as formas como variações, um
modo de falar, nessa perspectiva, é visto em comparação com uma forma tomada
como a correta – que o é por razões históricas, políticas, sociais, não
propriamente linguísticas. Como nos lembra Bagno (2002a, p. 180), Fontes,
referindo-se ao português do Brasil em relação ao lusitano, já denunciava, em 1945, que o “desprezo de
nossa língua anda sempre irmanado ao descaso por tudo o que ela representa: a
gente e a terra do Brasil”. O mesmo se dá entre os falares, as gentes e as
terras de diferentes regiões do Brasil.
Como
pano de fundo sociocultural em que a questão do abecê nordestino está ancorada,
e fazendo coro com o campo científico de estudos sobre as variedades
linguísticas e sobre o preconceito social envolvido nessas questões, trago aqui
a voz de Marcos Bagno, no prefácio do Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro,
que diz que, apesar de todo o avanço científico na área da linguística,
especialmente da sociolinguística, continua circulando na sociedade concepções
de língua falada e escrita que são arcaicas. O autor, de certo modo, ressalta o
papel da mídia brasileira, que não parece estar interessada em dar um
tratamento científico aos fenômenos de linguagem, tratando do tema a partir de
caricaturas dos falares regionais. Diz Bagno (apud NAVARRO, 2004, p. 12): “Em
suas manifestações sobre a língua, a mídia brasileira perpetua uma série de
crenças infundadas, baseadas numa visão estreitamente normativista e
estereotipada dos conceitos de ‘língua certa’ e ‘língua errada’” que “ajudam a
preservar e a nutrir um tipo de preconceito profundamente arraigado na nossa
cultura, o preconceito linguístico, fator de exclusão social”.
Dialogando
com essa perspectiva de fundo – mas não apenas essa – é que vou me debruçar
aqui sobre o abecê do nordeste, ou seja, o jeito de nomear as letras fê, guê,
ji, lê, mê, nê, rê, si. Lembro, inclusive – como já postei aqui numa das
provocações que iniciaram essa discussão – que essas formas estão registradas
em dicionário (Houaiss, Aurélio e outros) e indica-se outras possíveis designações
no Acordo Ortográfico de 1990, reiterado em 2009. O argumento – tal qual ouvi
ou li aqui e ali – de que esse abecê “oficial” seria o certo porque “está na
gramática”, nas normas para a língua, não tem lastro nos estudos
sociolinguísticos e nem mesmo nesses documentos descritivos ou normativos. Para
nós, da área de linguagem, não há nenhuma dúvida de que gramática não é
sinônimo de língua – que é muito mais ampla e apresenta variações – para o
senso comum, no entanto, esse poderia ainda se constituir em um argumento para
defender o alfabeto “oficial” como o correto e basear posicionamentos
preconceituosos. Vemos no entanto, que nem isso se sustenta. Precisamos, pois,
sair de uma posição de preconceito ou de ingenuidade, e estabelecer uma
discussão realmente frutífera e esclarecida sobre o tema.
E para
dar início a essa discussão esclarecida, começaremos pelos artistas nordestinos
da palavra, representantes da voz da cultura popular em articulações com a
cultura em geral, que muito nos ensinam nesse sentido. Luiz Gonzaga, em seu “ABC
do sertão” (composta com Zé Dantas), é quem nos dá a notícia mais certeira do
jeito de falar o alfabeto no sertão nordestino. Assim também é o cordel “A
letra é rê e não erre”, do baiano Noédson Valois, o Nonói contador de “causos”,
menos conhecido, que afirma esse abecê, defendendo-o melhor do que nós – estudiosos
do campo da linguagem – poderíamos fazê-lo.
Ouvir aqui.
A
canção contribuiu muito para divulgar essa prática do ensino do alfabeto,
inclusive, fora do Nordeste do Brasil, mas, a despeito disso, como vimos na
quinta provocação sobre o abecê nordestino, postado aqui no blog, há quem
consiga até mesmo criticar a canção, sob o argumento de que “assassina a língua
portuguesa”, ou que Gonzagão era analfabeto e por isso não conhecia os “fonemas”,
dentre outras pérolas, que vocês podem ver aqui. Note-se, entretanto, que, de
algum modo, o uso desse abecê aparece na canção como algo escolar: “pros
caboclo ler, têm que aprender outro abecê”, “na escola é engraçado...”. Se Lua
fala do sertão por contraste, como alguém que se encontra num entre-lugar, do
qual pode ver a diferença, pode julgar “engraçado”, quase assumindo – digamos
assim – certa comicidade ou atraso na situação. Ou seja, fala para uns e para
outros, então.
Nonói,
por sua vez, é mais explícito no seu jogo de contrastes, argumenta e
contra-argumenta sem dó. Falar erre, esse, ele... seria, para ele, uma inovação
sem necessidade, o abecê “oficial” seria uma espécie de “remendo”. E, para
isso, brinca com as palavras: “a letra é rê e não erre!” Com Nonói, não vamos
errar!
CD
Bahia Singular e Plural (IRDEB, 2000) – Vol. V (faixa 6)
Ouvir aqui:
No caso desse cordel, a afirmação do uso do abecê aparece para além da escola, para além do momento do ensino da leitura – “é assim que a gente lê” –, embora, evidentemente, relacione-se também com o contexto escolar.
Essa pérola de Nonói
foi José Rêgo que me mostrou, e faz parte, igualmente, do repertório da
Canastra Real, junto com o “ABC do sertão”.
Antes
de seguir, quero não deixar dúvidas a respeito do lugar do qual eu mesma falo –
sou nordestina e o alfabeto que aprendi, aos 5 ou 6 anos, era nordestino... (e
eu não era do sertão, mas de Salvador mesmo). Falo desse lugar... Então,
sigamos.
Já vi
atribuírem o uso desse alfabeto no sertão ao fato de os professores, nesse
contexto, serem, em grande parte, professores leigos, antes das instituições e
dos programas de formação chegarem aos municípios mais distantes dos centros
urbanos. Ora, podemos nos perguntar: por serem leigos, não tiveram acesso ao conhecimento
“correto” do nome das letras ou, por estarem longe do discurso oficial, estavam
menos sujeitos à “colonização” desse modo de falar, à hegemonia dos modos de
ser da linguagem falada nas regiões sul e sudeste? Será que ele era usado só no
sertão mesmo? Sou moça da alfabetizada no início dos anos 70, na capital, zona
urbana litorânea, minha professora era formada, e só vim conhecer o efe, gê, jota,
ele, eme, ene, erre, esse quando bem maior que isso! Até hoje oscilo entre um e
outro...e pronuncio, sem pensar nem pestanejar, normalmente, as letras
“nordestinas”. O alfabeto sai, de mim, mais rápido e natural assim... E então, mesmo
considerando que não é tão simples discernir o alcance daquilo que venha a ser “sertão”,
se no Brasil o conceito é, geralmente, associado ao interior, bem como à
aridez, ao atraso, à miséria, ao iletrado, de falar chulo, e, mais
objetivamente, no sentido geográfico, considerado uma subárea ou sub-região que
envolve vários Estados – Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio
Grande do Norte e Sergipe – podemos, então, questionar que seja só do sertão
mesmo, ainda que reconheçamos sua forte identidade sertaneja – quem somos nós
para negar Seu Lua, não é? Mas, então, por que esse alfabeto ficou sendo no
Nordeste? Porque ficou sendo do sertão? É do Nordeste ou é do sertão? E é só do
Nordeste? Por que será que permaneceu mais forte na Bahia? Por que será que na
Bahia não é só no sertão que “se ouve tanto ê”, diferente de outras capitais
que estão, efetivamente, na sub-região do sertão, mas já o “esqueceram”? Será
que no processo de “invenção” do Nordeste, tal qual discute Albuquerque Jr.
(2009), toda a região Nordeste ganhou um caráter sertanejo e por isso, caberia
falar de abecê do sertão, mesmo havendo uso na capital, ao menos na Bahia? E mais...
quem determinou o alfabeto “correto”? De onde surgiu o efe, e de onde surgiu o fê?
O gê, o guê, o jota, o ji?... Qual as raízes de cada um deles?
Essas
são questões que precisamos colocar, mesmo que algumas, não consigamos
responder. Para tentar compreender alguns desses aspectos, ou ao menos buscar
mais indícios e trazer a complexidade da questão à mostra, se faz necessário
mergulhar em um campo complexo de informações históricas, que envolvem ora a
história da escrita, da constituição do alfabeto,ora a história dos métodos de
alfabetização no Brasil. E ainda tem a cultura do Nordeste...São muitos
aspectos a considerar.
Um
argumento de base nessa questão é o argumento das variedades linguísticas e
suas relações com questões de ordem cultural e sociopolítica. Entretanto, mesmo
se tomarmos a questão do abecê pelo viés da variação linguística regional, com
todo o respaldo sociolinguístico e cultural para validá-lo, ainda me parece
faltar uma discussão mais ampla sobre ouso desses dois tipos de alfabeto, suas
origens, seus usos, suas funcionalidades. Assim, é pertinente situar a
problemática e trazer alguns aspectos para continuarmos a pensar sobre isso, fundamentando
nossa defesa do alfabeto que usávamos e ainda usamos, em alguma medida, no
Nordeste, e buscando um posicionamento mais potente diante desse uso. Embora
não seja uma pesquisa fácil de ser feita, e se ache pouca coisa sistematizada
sobre o tema, quero levantar ao menos alguns aspectos que possam, porventura,
contribuir nesse sentido. E não apenas para os nordestinos! Trata-se de uma
herança cultural brasileira e da história da alfabetização no Brasil!
Nisso,
saber como, historicamente, se chegou a essas duas formas de designar certas
letras – o fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si e o efe, gê, jota, ele, eme, ene,
erre e esse – ajuda bastante a situar a questão de outro modo. Quem traz alguma
informação sobre isso, desde a constituição de nosso alfabeto latino, é o
linguista Luiz Carlos Cagliari, ao tratar da origem do alfabeto na história da
escrita (Parte 2). Cagliari é quem nos ajuda a desmistificar, em primeiro
lugar, isso de que uma forma seja mais correta que a outra (2009a), mostrando
as origens remotas de ambas as formas do alfabeto.
Nada
mais pertinente para combater o preconceito linguístico e o tom jocoso do
preconceito social, imbricado naquele, do que passear um pouco pela
historicidade dos fenômenos. Não para criar disputas, justificar-se, mas para
reposicionarmos a questão em outros termos. É sobre isso que falaremos na parte
2, no próximo post. Aqui!
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
O ABECÊ NORDESTINO E AS LETRAS NA ALFABETIZAÇÃO
Introdução
Lá no meu sertão pros
caboclo lê
Têm que aprender um outro
ABC
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê
Luiz Gonzaga/Zé Dantas
Há muito tempo me interesso por
alfabetização...e há muito tempo me interesso pelo alfabeto... e pelo “alfabeto”
que se falava e ainda se fala em alguns lugares no Nordeste, e que ainda se
ouve fortemente na Bahia. Por aqui ainda se vê ensinado nas escolas, como vamos
constatar com a pesquisa que estou fazendo entre professores baianos, e cujos
resultados darei notícias por aqui. O alfabeto, no sentido do sistema de
notação da língua, é o mesmo, isso está claro! O que muda é apenas o jeito de
nomear as letras. E talvez, por isso, fosse mais apropriado falar em “abecê no
Nordeste”.
Não se trata de sotaque, mas de
nomes outros. Quando essas letras são convocadas a dizer seus nomes e soam em
alto e bom som, observamos que esses nomes se aproximam mais do som que lhes
são correspondentes: fê, guê, ji, lê, mê,
nê, rê, si, como é o caso de outras letras, como o bê, pê, tê, vê, zê, dentre outras letras ditas “oficiais”, e que
ninguém estranha. Esses oito sons que se diferenciam do abc convencional dão
“pano pra manga” – como se diz.
Mostrei aqui no blog inúmeras
ocorrências de desconhecimento e de preconceito contra esse abecê. Um
desconhecimento comum é o de que efe é
nome e fê é o som da letra. Ora, esses
nomes das letras podem ter, sim, nascido da tentativa de nomeá-las por seus sons,
somando-lhes uma vogal de apoio. Mas os nomes das letras são unidades lexicais,
os fonemas não. Fonemas são unidades representadas por letras (por grafemas),
não são lexicalizados. Precisamos, como venho discutindo aqui, ir além dessa
conclusão de que efe é nome e fê é fonema, som. É engraçado que esses
nomes, fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si,
sejam associados à fonética, ao som, mas bê,
cê, dê, pê, quê, tê, vê e zê,
construídos pelo mesmo princípio, não o sejam – e tenham, sem pestanejar, o
status de nomes de letras! Veremos adiante, na parte 2, que esse argumento se
desfaz quando entendemos que em sua própria origem, o alfabeto trazia, em sua
essência, essa ideia de o nome das letras darem pistas dos seus sons.
Para esclarecer melhor nossas
ideias sobre a questão, podemos recorrer a argumentos pela via das diferenças
culturais e variações linguísticas regionais, juntando essa questão às tantas
outras referentes aos falares nordestinos. Os argumentos culturais e
sociolinguísticos são, de fato, primordiais nessa discussão. Entretanto, eu sempre
quis poder aprofundar mais a discussão sobre isso. Para além da variação e da
defesa dos traços que compõem a nossa identidade cultural, eu queria
compreender onde vêm esses dois abecês distintos e seus usos no Brasil, que
notícias essa origem e seus usos no ensino da língua de antigamente nos dão
sobre sua legitimidade, e trazer a discussão para o campo da alfabetização
hoje. E esse estudo, que traz algumas luzes e muitos questionamentos, nasceu
desse desejo. O abecê usado na Bahia sempre me intrigou.
Somou-se a isso, o fato de que
meu marido, José Carlos Rêgo, artista da Canastra Real – Contos em cantos, tem o “Abecê do Sertão”, de Luiz Gonzaga e Zé
Dantas, no repertório de algumas apresentações e, sempre que a conversa é com
professores, lembra do que me ouviu falar a esse propósito, uma vez, referente
ao princípio acrofônico. Voltaremos a essa questão adiante. Por ora, refiro-me
a isso, pois essa conversa sobre o abecê com a Canastra – uma das conversas que
temos entre nós nessa nossa parceria por temáticas afins – foi um dos
empurrõezinhos que tive para, enfim, retomar essa ideia, essa vontade, e concretizar
a escrita desse texto. Aliás, planejar uma aula-espetáculo para
alfabetizadores, junto com a Canastra Real, é um dos planos para hora
dessas....mas eu fico só com a parte aula...a parte de se “amostrar” do
espetáculo, fica com eles!
![]() |
| http://canastrareal.wixsite.com/canastrareal/ |
Além das defesas e dos ataques
ao nosso abecê, ouvi contar também
situações em que educadores e pessoas em geral, de fora do Nordeste, nunca
tinham ouvido falar desse modo de pronunciar os nomes das letras do alfabeto.
Mesmo nordestinos, salvo parte dos baianos, parecem ter certo estranhamento com
essa forma de nomear as letras, bem como há baianos que atribuem esse uso a
algo antigo, limitado ao momento da alfabetização. Assim, será que faz sentido
mesmo denominá-lo alfabeto ou abecê nordestino, ou ainda abecedário nordestino?
Ele é/foi realmente do Nordeste? Em todo o Nordeste? Só no Nordeste? Só no
sertão? É abecê da Bahia? É um abecê só da alfabetização inicial ou esses nomes
perduravam para se referir às letras? São questões instigantes, discutiremos sobre
elas adiante, por ora, quero assumir a expressão “abecê nordestino”, mas com
essas ressalvas. É bom lembrarmos que a questão da identidade cultural regional
não é tão simples. É preciso, como ressalta Albuquerque Jr. (2009),
desmistificar a ideia de um Nordeste culturalmente homogêneo.
Recentemente foi lançado o
documentário “O Sertão como se fala”,
realizado pela equipe do Coletivo Adiante, já referido aqui no blog. Revendo o trailer:
Como alguém muito interessada
sobre isso, confesso que eu fui assistir ao filme esperando um pouco mais de
informações sobre a nosso abecê. O filme
é muito bacana e cumpre o papel que lhe cabe como “ensaio audiovisual”, apresentando
e provocando esteticamente a discussão, divulgando a identidade cultural e
linguística na contramão do que circula na grande mídia e no senso comum. Mas,
ainda assim, me deixou com gostinho que “quero mais”. Mas isso porque eu já
tinha esse interesse prévio e o desejo de entender mais as raízes desses dois
abecês. Apesar de anunciar que se propunha a investigar as raízes deste modo de
falar, a partir de narrativas de alunos e professores que aprenderam e ensinam
as letras do alfabeto do sertão, bem como narrativas de artistas da palavra e
alguns estudiosos, o documentário não mergulha muito nessas origens – visa apenas
a mostrar que ele ainda está por ali seja em uso ou na memória de habitantes do
sertão nordestino. Tem um mérito grande de apresentar esse modo de pronunciar
as letras como parte de uma herança cultural sertaneja mais ampla, explora
aspectos dessa cultura e até a relação desse falar com outros aspectos que
criam a ideia – e o filme a problematiza – de um nordeste esquecido, leigo,
atrasado. Aponta também o aspecto do desaparecimento dessa prática pela
padronização do alfabeto, o que é bastante interessante. Uma coisa bem bonita é ver os artistas da palavra ressaltarem a poética do nosso abecê, em contrapartida ao uso padrão do abecê "oficial".
Mas achei que há pouca investigação, de fato, com foco nas raízes e nos usos desse abecê, culturalmente e linguisticamente, talvez, justamente, pela pouca informação que temos disponível sobre o tema. No próprio site do projeto podemos ler:
Mas achei que há pouca investigação, de fato, com foco nas raízes e nos usos desse abecê, culturalmente e linguisticamente, talvez, justamente, pela pouca informação que temos disponível sobre o tema. No próprio site do projeto podemos ler:
Tendo em vista a falta de material de pesquisa acessível e produções que tratem sobre o tema, o “Sertão como se fala” pretende construir um registro artístico de aspectos históricos e sociais que podem estar em extinção no Brasil e propiciar uma reflexão crítica sobre o imaginário popular, social e político do povo sertanejo. Deste modo, o filme terá como característica a responsabilidade social e cultural de manter viva a memória, o pensar e também de valorizar a cultura brasileira – em especial a da região sertaneja, aquela de maior miséria e desigualdade do país.
Claro que entendo que se trata,
aí, do registro artístico de uma questão sociocultural e histórica, e não de
uma pesquisa científica e, de fato, como já sublinhei, há pouco material sobre
o tema. Mas considerando a intenção dos realizadores em contribuir para
valorizar e manter viva essa memória, esperei que a perplexidade das indagações
sobre os usos desse alfabeto levassem a uma construção discursiva mais
substantiva. Por vezes, a realidade dos professores leigos de antigamente e um uso não-padrão do alfabeto quase
ficam valendo como explicações da origem desse falar, o que me pareceu muito
simplório e ainda sob a égide de certa primazia cultural do outro alfabeto. O
letrado? Estaria aí em jogo um anúncio de um suposto conflito entre o registro
regional oral e o registro escrito, letrado, mais erudito? Está certo que o
alfabeto nordestino pode ter se propagado oralmente, a partir de mutações que
foram estabelecidas por certa tentativa de facilitação da alfabetização, assim
como há aí também algo do conflito que se estabelece entre o ensino da escrita
tipicamente escolar, fundado na norma culta, e os diferentes usos informais e
populares da língua, como discute Colello (2011, p. 65). Mas a história parece
que é bem mais complexa do que isso, como veremos adiante, na parte 3 do texto.
Além do mais, práticas orais e práticas letradas se imbricam de formas bem mais
complexas do que polaridades estanques dão conta. A professora que me
alfabetizou, aqui em uma escola particular renomada de Salvador não era leiga!
O ensino da escrita tipicamente escolar na Bahia, mesmo na capital, incorporou
esse jeito de dizer os nomes das letras. Por isso mesmo, uso, preferencialmente, a expressão “abecê do Nordeste” e não “do sertão”. Precisamos olhar para esse
fenômeno de modo mais amplo.
Claro que a produção
audiovisual referida vale, e muito, por chamar a atenção a um aspecto que pode
estar se acabando, devido à “colonização” do modo supostamente “correto” de
pronunciar as letras e por divulgar e propiciar uma reflexão crítica sobre essa história e herança cultural do Brasil. Só por isso, já é válida. Para mim,
valeu também por saber que tem outros estados em que ainda “se ouve tanto ê”...
porque perguntando aqui e ali a gente da capital, em outros estados, vi pouca
presença desse abecê na referência das pessoas. Temos ele ainda vivo em
Salvador. E porque é muito bonito, bem realizado, instigante.
O foco do filme é esse
mesmo, cultural. Linguisticamente, os argumentos ficam ainda vagos, mas isso porque é próprio ao filme trazer a questão pelas vozes dos moradores dos municípios. E nessas vozes, aparecem
alguns elementos, mas não houve intenção de uma costura discursiva que desse pistas sobre esse modo de pronunciar as letras e seu uso. Com certeza, além de talvez não o intencionaram, os
realizadores se esbarraram nas lacunas de informação, nos limites entre os
objetivos de uma obra audiovisual e de um estudo mais aprofundado. E aí,
justamente, entram outras referências... Nem tudo que era minha expectativa,
era intenção deles com o filme. Claro! A vontade de entender mais era minha! Assim, como eu não sei compor nem cantar, como Seu
Lua, nem fazer filmes, como Leandro o Coletivo, eu pesquiso...eu estudo...eu provoco...eu escrevo...
Minha contribuição!
O lugar do qual eu falo,
entretanto, reafirmo, é de educadora, interessada no campo da linguagem, da
alfabetização e da cultura escrita como parte da cultura mais ampla. Assim,
preocupo-me não apenas com os aspectos histórico-sociais dessa discussão, da
defesa de um modo culturalmente legítimo de nomear as letras, mas também, seu
aspecto pedagógico. Portanto, além de buscar entender – na medida do possível –
um pouco mais sobre a questão desses dois modos distintos de pronunciar o
alfabeto no Brasil, pretendo tecer considerações também a respeito do uso das
letras e suas relações com as unidades sonoras da língua, como parte do
processo de alfabetização e sobre a legitimidade e a pertinência, em termos
linguísticos, do alfabeto nordestino na alfabetização. Disso, aí sim, eu
entendo um pouco mais... Não se trata de argumentar sobre substituir o
“tradicionalmente” usado, nem folclorizar a variação regional. O que quero é
que ele possa ser ensinado, como foi por muito tempo – e ainda o é – em alguns
lugares da região nordestina, ao lado desse, como um outro modo de designar as
letras – e não como vício, erro, ignorância, como por vezes lhe é atribuído, ou
mesmo como uma inventividade original – que também, provavelmente, não o é. E
para deixar claro, igualmente, como ele pode favorecer, sim, o processo de
alfabetização. Aliás, “tradicionalmente usado” é algo muito relativo, e, nesse
caso, pode não significar precedência no uso...pois poderíamos indagar: esse uso nordestino não
seria um retorno a uma lógica original do alfabeto? Essa questão será
aprofundada adiante, na parte 2 desse estudo.
Estrutura
Assim, com essas intenções, o
texto se organiza, aqui no blog, em seis partes (e será postado aqui por
partes), conforme indicado no sumário, sendo que, na parte 1, após essa Introdução, a
discussão sobre esse lugar das letras do alfabeto na alfabetização é,
justamente, colocada e iniciada, seguindo-se da apresentação da questão que
envolve o chamado alfabeto nordestino, trazendo um argumento de base e
transversal a todos os outros que é a questão da variação linguística. As três
partes que se seguem, que constituem o estudo sobre o tema, serão retrabalhadas
também e publicadas em uma brochura impressa, que sairá em breve. Aqui no blog
vou trazer apenas um resumo das questões que serão discutidas na publicação,
que será também disponibilizada para download aqui, quando pronta.
Na parte 2 do texto (segundo post
dessa série), serão apresentados alguns argumentos da história da escrita – em
particular da história do alfabeto – que podem dar pistas para entendermos
melhor a problemática em questão, especialmente a origem dos nomes das letras do
alfabeto latino e sua evolução para o português. O efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse, têm, todas elas, data de
nascimento! Isso tem, como veremos, implicações na discussão em questão,
sobretudo na minimização da polêmica sobre o que seja o “alfabeto correto”.
Já
na parte 3, os argumentos serão da
história da alfabetização no Brasil, da história das metodologias de ensino da
escrita, que inclui a temática do nome das letras. Embora esta seja uma
história repleta de lacunas, havendo pouca informação efetiva sobre essa
questão em particular – ao menos pouca informação divulgada – ela pode nos
ajudar, ao menos, a entender a questão como algo que vai além da regionalidade,
a levantar
hipóteses sobre o porquê da designação diversa de algumas letras e a
compreender a origem (nada nordestina) e os motivos (nada infundados) da ideia
da facilitação da alfabetização, pela nomeação das letras próxima a seus sons.
A parte 4 traz os argumentos de pesquisas atuais sobre o papel e o
efeito do conhecimento do nome das letras na alfabetização, na apropriação do princípio
alfabético, ou seja, no estabelecimento das relações entre fonemas e grafemas.
Também aqui há fortes indícios para argumentar sobre a legitimidade da nomeação
das letras no alfabeto nordestino.
O intuito de buscar esses
argumentos, no entanto, ao lado da defesa das variações linguísticas, não é
alegar precedência histórica para entrar em disputas, nem explicar para
justificar nosso abecê, buscando aval dos que supostamente usam o abecê
“correto” (não precisamos de aval para usar nosso abecê), mas para mostrar que
a alternância entre as duas formas de nomear as letras existe desde a origem do
alfabeto latino e, na língua portuguesa, também em Portugal, e desde o início
da história da alfabetização no Brasil.
A parte 5, por sua vez, que será postada apenas aqui no blog, por
enquanto, trará a comunicação dos resultados de uma mini pesquisa feita sobre o
uso dos abecês por os professores de alguns municípios baianos, onde, ao que
parece, esse uso ainda resiste, insiste, se faz presente, vivo. Mesmo na
capital! Esses dados podem revelar muito sobre essa permanência ou não do uso
do alfabeto, dentre outros aspectos, coisa que vemos assistematicamente aqui e
ali relatadas. Veremos. Esses dados serão apresentados também em artigos, mas
não na publicação impressa do estudo. Não por enquanto.
A parte 6 será construída aos poucos, sempre dinâmica, acolhendo
novas contribuições. Serão apresentados lá os depoimentos de estudiosos do
campo da linguagem, da alfabetização, depoimentos de professores, e quiçá de
nordestinos em geral, com suas memórias...e de não nordestinos tocados, de
algum modo pelo tema, bem como contribuições de artistas, escritores, que
queiram contribuir com algum “comentário” por via de linguagens e gêneros
diversos: ilustração, tirinha, cordel, crônica...o que for. Enfim, contribuição
de todos que quiserem e puderem contribuir, seja com algum alinhavo ou
desalinho, para a essa discussão, bonita e pertinente, sobre o nosso alfabeto.
E ainda tem a parte dos comentários no próprio blog...aberta a todos!
Vamos continuar a conversa na Parte 1, aqui.
Vamos continuar a conversa na Parte 1, aqui.
terça-feira, 5 de setembro de 2017
Décima provocação sobre o abecê nordestino
Essa décima
provocação é para divulgar mais sobre o documentário O sertão como se
fala, sobre o modo de nomear as letras no Nordeste, mas também,
sempre oportunidade de rediscutir sobre a questão.
Um programa de TV da Assembleia Legislativa de Minas Gerais fez uma entrevista com Leandro Lopes, realizador do filme O Sertão como se fala. O mote do documentário é o abecedário nordestino, mas o filme é muito mais do que sobre isso! No momento está correndo festivais, mas, em breve, será disponibilizado. Assistam!
Enquanto isso, vejam a
entrevista, em três partes.
Parte 1: nessa parte, o
documentário é apresentado e se discute, basicamente, a questão do abecedário e as questões culturais da região.
Como estou estudando sobre o
tema, não posso deixar de comentar uma ou outra coisa. Como temos visto por
aqui, nos posts sobre o tema, enfatizo que, na Bahia, esse abecê não
é apenas do sertão, mas também da capital. Gerações e gerações de
soteropolitanos, assim como os baianos do interior, aprenderam assim. E ainda
se ensina em algumas escolas... O sertão, seja em sua definição geográfica,
como sub-região do Nordeste, seja em sua construção cultural identitária e
imaginária, não abarca a cidade de Salvador. Por isso, tenho dito que prefiro
falar em abecê nordestino, embora eu reconheça sua forte identidade sertaneja.
Além disso, como também já
insisti, trata-se de nomes de letras, não de sons. Letras mais próximos dos
seus “sons” – da fonética, como Leandro ressalta – mas são nomes também. Por
que é engraçado que esses nomes, fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si, sejam
associados à fonética, ao som, mas bê, cê, dê, pê, quê, tê, vê e zê não
o sejam...e tenham, sem pestanejar, o status de nomes de letras? Esse argumento se desfaz quando entendemos que em sua própria origem, o alfabeto trazia, em sua essência, essa ideia de o nome das letras darem pistas dos seus sons.
Parte 2: nessa parte, a
conversa é mais sobre o sistema de financiamento do filme.
Parte 3: nessa parte,
conversa-se sobre a viagem, a operacionalização do projeto, mas também
retoma-se a questão do abecê, lá entre os minutos 6:28 a 8’. E dou essa
precisão apenas porque quero fazer outra observação aqui.
Leandro defende o abecê do
sertão como identidade cultural dos nordestinos sertanejos, e teve a
curiosidade e a iniciativa de correr o Nordeste para mapear, em forma de
documentário, a quantas anda essa questão hoje. Ainda assim, acolhe a
naturalidade de seu desaparecimento, talvez por tomá-lo como um modo
circunstancial de falar o abecê, apenas no sertão, apenas no momento da
alfabetização.
Eu não acho que o
"esquecimento", a "perda" desse abecê, seja um processo tão
natural assim... Depende do que seja isso de "natural"... O processo
histórico é natural? O que acho é que há forças de "colonização" e de
discriminação que atuam aí, e que podemos, sim, ao menos, criar resistência,
pelo conhecimento, pelo reconhecimento... como é o que eu tento aqui contribuir, com
esse estudo, que é como eles também contribuem com o filme. Penso que o Doc talvez
possa mais do que ele pretende – que o abecê do sertão viva como memória. Tomara!
Tudo bem defender que nosso
abecê viva, ao menos, como registro histórico. Mas eu, de minha parte, quero
mais! Como baiana, educadora, “alfabetizadora”, que vejo ele ainda por aí nas
nossas escolas, na recitação de nossas crianças, na referência de adultos em
situações cotidianas em que referir-se às letras se faz necessário, acho que,
pelo menos na Bahia, ele pode ter vida para além da memória. Eu, que o vejo
para além do sertão, para além do Nordeste – como um dos modos de falar o
alfabeto no Brasil – torço para que permaneça vivo mais do que como história!
Precisamos, nós
nordestinos, reconhecer esse modo de nomear as letras como um modo nosso, tão
funcional e correto quanto o outro, conhecer sua história, sua legitimidade
cultural e linguística, para que o Brasil todo também possa conhecê-lo e
reconhecê-lo!
Para assistir ao filme:
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