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quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Mais abecê nordestino!

Desde 2019, formalizei, em um estudo e uma pesquisa exploratória, um interesse antigo que era entender a origem de nosso abecê nordestino e discutir sobre sua legitimidade cultural e linguística, para tentar compor argumentos que contribuíssem para o seu não desaparecimento, ao menos na Bahia, em que ainda se usa e, sim, ainda se ensina esse modo diferente de pronunciar as letras. Tenho falado em diversos contextos, entrevistas e eventos, tenho escrito sobre (aqui blog tem várias postagens, tem publicação em jornal e já há artigos publicados e a caminho). E sempre que sou interpelada sobre isso - como fui pela entrevista para a matéria que saiu no g1 recentemente, volta em mim a comichão de espalhar conhecimento e da militância quanto à manutenção de nosso abecê. Nos próximos anos, se tudo conspirar a favor, teremos novidades. Em 2026 deverá sair um novo artigo e em 2027 saio para Pós-Doc para aprofundar e arrematar os estudos. A ideia é tentar finalizar o livro que estou escrevendo sobre essa temática, que interessa não apenas ao campo da alfabetização, mas a nossa cultura.

Por isso, vira e mexe eu saio "futucando" a internet para encontrar material sobre o assunto, em geral muito incompletos e, algumas vezes, preconceituoso (sobre os preconceitos, ver post Quinta provocação, aqui no blog). Mas há também muito reconhecimento cultural, com a valorização da variante regional dos nomes das letras e, mais raramente, reconhecimento do valor linguístico para a alfabetização de crianças. Entretanto, ainda há muitas compreensões parciais ou equivocadas quanto a esse modo de pronunciar as letras. Por vezes a ênfase para validá-lo apoia-se apenas na questão da variação linguística, quando temos diversos elementos outros para argumentar sobre a legitimidade cultural e linguística desse abecê. No meu estudo, lanço mão de quatro principais argumentos para desvendar suas origens, seus usos e afirmar sua legitimidade, combatendo o desaparecimento gradual do nosso abecê.

A matéria no g1 ajuda a fazer essa discussão chegar a mais pessoas no Brasil - tem gente que NUNCA ouviu falar desse abecê, nem no forró de Luiz Gonzaga e Zé Dantas! Mas embora feita com muito zelo por Emily Santos - que foi alfabetizada na Bahia, nos anos 2000, e conhecia daí esse abecê - uma matéria é sempre muito curta e não dá para aprofundar muito. Mas serve muito como aperitivo, além de, mais uma vez, renovar meu interesse e minha labuta em torno dessa questão. Veja a com chamada dela à matéria no canal do g1.

Bom, nessas tantas reedições de meu interesse e pesquisas na internet, encontro sempre novos materiais por aí, e resolvi fazer esse post comentando um material que encontrei na última varredura que fiz na internet - que mostra o quanto essa publicação que está ainda no forno é necessária e já está mais que em tempo de sair. Vamos conhecer mais sobre o abecê nordestino? Mas enquanto a obra não sai, sigo falando em pequenas doses, comentando aqui e ali.

A matéria, que saiu já há uns 2 anos, é essa, no quadro "De onde é que vem?", do programa Você em Dia, da TV Record Sergipe. A matéria toca em pontos importantes, arrodeia outros, ficando apenas na superfície, e traz também alguns pontos que podemos problematizar, sem que se minimize a boa abordagem que deram, em geral, à temática, considerando o contexto de uma rápida reportagem de TV.

Começo afirmando que a matéria valoriza alguns pontos extremamente importantes:
1. Apresenta o abecê nordestino como portador de uma sonoridade gostosa, "aprazível aos ouvidos" - diz o linguista entrevistado - sem afirmar equivocadamente que as letras nordestinas são sons e as oficiais são letras. Fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si - não são sons, são nomes de letras! Ponto para eles!
2. Apresenta esses nomes mais próximos dos sons das letras como muito produtivo para a alfabetização - aspecto que podemos observar empiricamente nas salas de aula, mas que também tem validação em pesquisas científicas de alguns campos.
3. Apresenta ambas as formas do abecê usadas no Brasil como corretas, sem entrar na ladainha do certo x errado, feio x bonito, culto x iletrado. Reconhecem esses nomes de letras como variedade regional do Nordeste, afirmando a variação linguística positivamente. Por incrível que pareça, é um ponto ainda a afirmar, dadas às tantas incompreensões e aos preconceitos que circulam por aí.
Mas sobre esse último ponto, a matéria não menciona sobre as dinâmicas históricas e sociais que engendraram a mudança na educação referida, que, em verdade, remete a uma "colonização" do nosso abecê pelo dito oficial, culto e certo. Afinal, as mudanças não vêm "do nada", muito menos de uma suposta e efetiva superioridade atestada do outro abecê - que é o que fica subentendido, se não é problematizado. E digo suposta, porque nada valida tal ideia.
O quadro se chama "De onde é que vem?", mas essa questão, no fim, nem é respondida - não é simples mesmo responder. Mas nos meus estudos, busco argumentos para descortinar possíveis cenários e fazer hipóteses, quando não é possível afirmar, fundamentando-se tanto na história da constituição do alfabeto quanto na história da alfabetização no Brasil. O professor que fala sobre isso até menciona a história do alfabeto, mas apenas para, então, argumentar sobre as diferentes variantes que surgiram depois do alfabeto latino constituído. Não, essa história nos dá muito mais pistas! A historiografia é lacunar, mas há pistas para ter um entendimento melhor da questão. Mas, claro, não é possível aprofundar em uma matéria na TV. Precisaria ser uma reportagem mais longa. Só assinalo, desse ponto, que o argumento da variação linguística, embora seja um argumento bem importante, não é o único!
O nosso abecê, definitivamente, não é o abecê do Luiz, como dito na reportagem! Não é a linguagem dele, como se ele a inaugurasse. E, portanto, não é licença poética ele cantar o nosso abecê. O abecê nordestino tem uma história. Nosso querido Luiz Gonzaga, junto com Zé Dantas, de fato, nos trouxe uma enorme contribuição com o delicioso forró "ABC do Sertão", que levou esse nosso jeito de pronunciar as letras para ouvidos de todo o Brasil. Não podemos negar nem minimizar a delícia de forró. Mas esse abecê não é exclusivo do sertão e, talvez, essa ideia possa ter reforçado, sem querer, a ideia de que é de uso de supostos matutos, iletrados, ensinado por professoras leigas do interior nordestino. Ele mesmo, ao lado da exaltação, faz certo deboche, como se ele, de origem "matuta" do sertão, estivesse de fora, não é? O Eu, meus pais e gerações anteriores, aprenderam esse abecê e em Salvador, que não é interior, nem sertão. O abecê nordestino, depois de ir desaparecendo em outras regiões do Brasil e localidades no Nordeste, inclusive as mais urbanas, ao menos na Bahia, seguiu sendo usado no sertão, na zona rural, e em especial, de modo mais amplo, na Bahia. Por isso, talvez, foi referido como "do sertão". Ou talvez porque o sentido de "sertão" tenha mudado historicamente. Isso tudo porque, rebobinando um pouco para trás na história, esse uso não era exclusividade do sertão e nem mesmo do Nordeste! Pasmem!
Então é isso gente! Vemos nas entrevistas, os participantes "mais antigos", que ainda têm memória de usá-lo e aprendê-lo, já misturando os dois abecês, ao falar o abecedário - o que prova o quanto a memória vai se esvaindo. A reportagem mostra uma criança, então, já totalmente "trabalhada" no abecê dito oficial - o de efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse. Os mais velhos têm, sim, ainda uma memória do abecê que aprenderam com as avós, pais ou na escola, porque, como eu disse, a tal "colonização" tem sido efetiva. Mas isso não autoriza a sugerir que seja um alfabeto antigo, não mais usado ou ensinado, como se ouve muito declararem por aí, sem nenhum fundamento. Ele ainda é usado, os nomes dessas letras ainda são referidos no cotidiano, há memória dele em várias gerações, ao menos na Bahia, litoral ou interior, zona rural ou urbana, e ainda é ensinado, sim, em algumas escolas, que seguem valorizando-o, cultural e linguisticamente. A pesquisa empírica, exploratória, que realizei em 2019 aponta isso. E com a minha voz, meu papel na formação de alfabetizadores, espero que novas gerações de docentes baianos possam seguir ensinando-o, mostrando que, no Brasil, temos dois jeitos de nomear certas letras, e defendendo-o do desconhecimento e do preconceito, a partir de fundamentos - que é o que pretendo com esse estudo, as publicações dele decorrentes e esses esclarecimentos em diversos contextos.

Convido a quem se interessa pelo assunto e que, realmente, gostaria de saber mais sobre isso, a acompanhar as postagens, seja aqui no blog (marcador Abecê Nordestino) e na BIO e Destaques dos IGs @oficinasdealfabetizacao e @lap_faced (Instagram). Aqui no blog, há cerca de 20 postagens sobre o assunto e nas BIOs e Destaques dos IGs indicados, outras tantas. Inclusive links para artigos. Na BIO do LAP - Laboratório de Acervos e Práticas que coordeno na FACED/UFBA, tem mais links do que aqui no blog, mas aqui tem já textos iniciais aprofundando um pouco nessa questão e nos argumentos que serão objeto do livro que vou terminar e publicar daqui a um tempo. Como eu disse, sair para Pós-Doc em 2027 tem como objetivo principal terminar essa publicação. Até a capa eu já tenho, feita pelo mestre J.Borges, que já nos deixou, mas me deixou esse presente.

É isso, gente! Tenho estado menos frequente aqui, mantendo as postagens nos dois IGs do Instagram, mas é significativo que eu volte aqui para falar justo disso... É que está me convocando, me interpelando...de novo! Preciso atender a esse chamado de terminar esse estudo. Penso que será uma contribuição importante. Como me disse Mabel Veloso, que também quis saber de onde vinha esse abecê quando era professora, mas não achou nada: "nunca deixe de pesquisar isso"! É uma missão que assumi, Mabel! Para que nenhuma professora nunca mais queira saber mais sobre isso e não encontre nada.

Confiram as postagens aqui no marcador Abecê Nordestino!


sexta-feira, 17 de março de 2023

Abecê nordestino no Congresso UFBA 2023

Apresentação sobre o abecê nordestino no Congresso da UFBA 2023. José Rêgo (Pinduka), mestre em educação (FACED/UFBA) e doutorando em Artes cênicas (ETUFBA), é também o mestre da Canastra Real: contos em cantos. Pesquisador do campo da cultura infantil, também é artista que performa iguarias do cancioneiro e da poética popular, em repertórios para crianças e adultos.



Foi uma apresentação interativa, unindo relato de estudos e pesquisa e deleites culturais. Desenvolvo desde 2017 um estudo e uma pesquisa empírica sobre nosso abecê, como vocês que acompanham aqui as postagens sabem, pois tem bastante coisas sobre isso no marcador "Abecê nordestino" aqui no blog.

A investigação, que é exploratória, qualitativa e envolveu pesquisa bibliográfica e empírica, ficou parada durante a pandemia, em razão de desafios acadêmicos, profissionais e também pessoais. E agora retomo-a para comunicar resultados. E junto-me a José Rêgo nesse interesse pelo modo de pronunciarmos as letras em nosso abecedário nordestino, que ainda dura e resiste na Bahia. Essa parceria só enriquece a discussão, que extrapola o campo da alfabetização, pois envolve nossa cultura, nossos falares, algo que diz respeito a todos e todas nós.


Nessa apresentação no Congresso UFBA, primeira mais formal que fazemos juntos (como casal, já falamos, cantamos e recitamos muito o nosso abecê em roda de amigos), mesmo abordando estudos de diversos campos que nos ajudam a defender a validade cultural e linguística de nosso abecê, bem como resultados e discussão de pesquisa, foi uma apresentação leve, costurada à fruição poético-musical, à brincadeira com a língua, à interação com o público, que foi ficando craque no abecê nordestino a cada provocação.

Para acordar o abecê dentro de nós, a língua em estado de jogo, mostrando que é mais fácil para os que aprenderam as letras nordestinas, mas também que, esquentando a cada estrofe, a tarefa ia ficando mais fácil, Pinduka abriu com o Galope à Beira Mar Soletrado, de Xangai e Ivanildo Vilanova, começando a conversa sobre tudo isso. Mas que soletrado difícil, até para os "falantes" do abecê nordestino!!! Como método de alfabetização, a soletração é um procedimento proscrito, mas como brinquedo da língua, nos desafia, traz esforço de driblar a língua e riso, muito riso!

A fruição reflexiva seguiu com o ABC do sertão casadinho com A letra é rê e não erre, de Nonói Contador de causos, o Noédson Valois, apurando com o público o sabor desse abecê, no canto e na poesia. É interessante notar que Luiz Gonzaga e Zé Dantas falam de um abecê que, ao mesmo tempo, exaltam como nordestinos, mas também veem "de fora", achando engraçado "ouvir-se tanto ê". Já Nonói é mais aguerrido, separando "nós" e "eles", nós cá falando fê, correto, e eles lá que "errem" com o erre, em uma defesa bem regionalista, de quem afirma, com razão, a beleza e a justeza de nosso abecedário.

Nossa defesa do abecê nordestino, que nada mais é que um abecedário em que oito letras têm nomes diferentes das do abecê dito oficial, não é regionalizante, que afirme uma identidade cultural própria, fechada em suas fronteiras, naturalizando os recortes geográficos e simbólicos ligados à ideia de região de Nordeste, que, como imaginário, como espaços simbólicos, são invenções, construções.

Mas tampouco queremos nos alinhar ao discurso que anula as heterogeneidades e a diversidade presentes nas especificidades das culturas regionais, em prol da nacionalidade ou de uma visada global universalista. Afirmar o regional sem ser regionalista é um equilíbrio que exige uma perspectiva menos estanque de analisar os fenômenos culturais.

Entretanto, feitas essas ressalvas, digo com Nonói: "A letra é rê e não erre! Garanto que não errei. [...] Se você prefere, erre! Com o rê não errarei."

Depois desse introito, que contou também com boas reflexões de Pinduka sobre o sabor de nosso abecê, apresentei o estudo e a pesquisa que desenvolvi (e ainda estou estudando) sobre o assunto. Eu trouxe brevemente os argumentos de diferentes campos do conhecimento que nos permitem argumentar sobre a legitimidade cultural e linguística desse abecê. A historiografia da alfabetização e do alfabeto, os estudos sobre variação linguística, pesquisas atuais sobre o papel do nome das letras na alfabetização inicial, nos ajudam a entender o que está em jogo nisso de termos dois abecedários diferentes no Brasil e permitem validar o nosso modo de nomear as letras, que não é invenção de nordestino iletrado nem obra de professoras leigas da zona rural nordestina, como se pensa muitas vezes. 


Nesses argumentos, a discussão sobre o princípio acrofônico se faz rainha, costurando tudo, todos os argumentos, pois, como diz Cagliari, ele é, ao mesmo tempo, a chave da constituição do sistema e da apropriação do funcionamento da escrita alfabética, ou seja, quando o sistema alfabético foi constituído com base nesse princípio, forneceu também a chave para a alfabetização. E o X da questão é justo esse, as letras nordestinas têm muito mais a ver com isso do que as letras ditas oficiais!!! Ao menos sete delas!

Bom, depois desse breve passeio pelos estudos que fiz, apresentei também o projeto e alguns dados da pesquisa realizada junto a docentes, que revelam que o abecê nordestino ainda está, sim, presente nas práticas alfabetizadoras, embora menos do que no passado, claro. Ideias advindas de desconhecimentos mostram que conhecer mais diversos elementos do nosso sistema de escrita ajuda a valorizar mais nosso abecê, para que ele possa seguir circulando nas escolas e não desaparecer, "colonizado" pelo abecê hegemônico, dito oficial, tido erroneamente como o correto, culto e belo.

E ao final da nossa apresentação, como toda situação de aprendizagem merece (rsrsrsrs), Pinduka fechou a mesa tomando a lição! E foi fácil, foi, com o Abecedário de Gerônimo, canto e resposta, e todo mundo craque no abecê!

Fizemos um compilado da apresentação, para vocês poderem ter um gostinho do que aconteceu lá, veja aqui.


E você aí? Já aprendeu o nosso abecê? Já começou a mudar seu conceito sobre ele?

segunda-feira, 11 de março de 2019

Alfabeto Nordestino no jornal

Saiu no dia 09/03/2019 um artigo meu no jornal Correio da Bahia sobre o alfabeto nordestino, estudo que venho fazendo para divulgar mais sobre a legitimidade cultural e linguística de nosso jeito de nomear as letras do alfabeto. Há várias postagens aqui no blog sobre isso e sobre esse estudo e a pesquisa empírica que estou desenvolvendo sobre a temática. pesquisem pelo marcador Abecê Nordestino.

Vamos lá professoras e professores baianos!
Vamos cultivar nosso abecedário, que é legítimo, bonito e muito funcional. Vamos ensinar às crianças que temos dois jeitos de nomear essas oito letras no Brasil! E dar a ver essa nossa particularidade cultural ao resto do país, quebrando esse preconceito, de início, entre nós mesmos.

Print do jornal:

Página do jornal on-line:


O link para ler o texto no jornal on-line: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/alfabeto-nordestino

Referência: Correio da Bahia, ano XL, nº 13278, Artigo, p. 2, Sábado, 09 de março de 2019.

O artigo foi indicado no Jornal Pensar a educação em pauta, aqui, do Pensar a educação, pensar o Brasil, aqui: http://pensaraeducacao.com.br/pensaraeducacaoempauta/educacao-em-debate-edicao-228/

Estou sem tempo de avançar e terminar esse estudo e pesquisa - concentrada que estou em fechar minha outra pesquisa, bem como as demandas da UFBA - mas não o deixo de lado, esse meu xodó de abecedário!

E para não perder a oportunidade, mostro aqui o que disse uma "sem noção" no twitter do Correio sobre esse artigo. Prefiro, evidentemente, o tweet de cima, mas vejamos o "nível" da argumentação..."Sem noção" é pouco, né, gente? Coitada...


...E se é para radicalizar, tudo isso e mais gostoso de falar e ouvir, sim, Ary! 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Abecê Nordestino. PARTE 3: Argumentos da história da alfabetização

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Olavo Bilac

(Poema “Língua portuguesa”)

Saltando bastante no tempo do post anterior para esse, exploraremos nessa parte o campo da história da alfabetização no nosso país, para tentar entender melhor como é que, talvez, isso de um abecê diferente do dito oficial chegou por aqui... no Brasil, no Nordeste... na Bahia... e buscar, nessa história, outros argumentos para a discussão em foco. Digo “tentar”, pois essa é uma história de muitas lacunas...

Embora os oito nomes de letras no Nordeste tenham sido – e, ao menos na Bahia, sejam ainda – usadas também para se referir às letras em situações sociais diversas em que é preciso nomeá-las, é fato que no ensino primário é que essa nomeação se constitui e se firma...ou se perde... Por isso, além de meu interesse ser, em última instância, o ensino da língua escrita, ir ao campo da história da alfabetização é fundamental para colhermos mais elementos para a nossa discussão mais ampla sobre essa temática. 

Como nos lembram Frade (2005) e Mortatti (2000), inicialmente, no Brasil, o ensino das primeiras letras se dava pelo método sintético da soletração, ou método alfabético, um dos mais antigos. Esse foi o método empregado desde a antiguidade, chegando até nós via Portugal, e usado aqui nos períodos colonial e imperial, até o momento em que a escolarização, e a alfabetização em particular, passaram a constituir em preocupação na formação do país, no final do século XIX e início do século XX. Apesar de questionado desde essa época, e hoje proscrito das práticas alfabetizadoras, trazê-lo vale aqui como ponto de partida para nossas reflexões sobre o alfabeto nordestino, já que esse método investe, justamente, no nome das letras como unidade inicial da alfabetização, e porque foi, como veremos, a porta de entrada para uma nomeação diversa das letras do alfabeto. No método da soletração, uma vez aprendidos os nomes e formas gráficas das letras do alfabeto e de saber reconhecê-las fora da ordem, passava-se a soletrar pelo nome das letras (bê-a-ba, bê-e-be, be-i-bi...), formando sílabas, para, então, formar palavras (bê-o-bota-a-ta = bo-ta). Ou seja, para ler, ao visualizar as palavras, era preciso dizer os nomes das letras e soletrar, traduzindo em sons aquela palavra visualizada.

Frade (2005) pondera que o método trazia a vantagem de o nome das letras (com algumas exceções) remeterem a pelo menos um dos fonemas que elas representam na escrita – conquista do princípio acrofônico, quando as letras latinas foram nomeadas, como vimos no post anterior 2. Por outro lado, nem sempre a remissão dos nomes das letras a esses fonemas é muito direta. E é aí que entram os dois tipos de soletração que estiveram presentes no ensino das primeiras letras, ao menos no Brasil imperial.

Diante da palavra BANANA, por exemplo, o aluno soletrava: bê-a-ba, ene-a-na, ene-a-na = banana. Esse modo de soletrar refere-se, conforme indica Mortatti (200) e também Frade (2014), à soletração antiga, praticada no Brasil até final do século XIX. Ouve-se aí mais sons na palavra ene do que o fonema que a letra N representa e, desse modo, como discute Frade (2014), o aluno precisava abstrair o excesso de sons da soletração para encontrar a sílaba, NA: ene-a = na, e depois encontrar a palavra (quando era o caso). Esse argumento tem relação com o que foi discutido anteriormente sobre o princípio acrofônico ser mais direto no caso dessa letra ser pronunciada nê. A forma nê-a-na parece bem menos penosa. É um modo mais direto de soletrar, devido ao fato de que o nome nê se remete mais simétrica e diretamente ao fonema /n/ do que o nome ene, em suas combinações com as vogais.

Frade (2005) afirma, inclusive, que talvez tenha sido, por isso mesmo, que se tenha criado outro modo de pronunciar os nomes das letras, criando-se um outro abecedário, como o usado no Nordeste. Os nomes de algumas letras, nesse abecê, ajudam, justamente, a “retirar o excesso de sons na palavra”, a “eliminar algumas sobras de sons, na hora da junção das letras” – a soletração podia, assim, acontecer com um pouco menos de sacrifício. (FRADE, 2005, p. 24).

Tanto Frade (2014), quanto Mortatti (2000), abordam que essa forma de soletração, considerada como a antiga soletração, foi referida assim por muitos autores portugueses e brasileiros no final do século XIX. Entretanto, parece que já a partir do século XVI ou XVII, surgiram na Europa manifestações contra o método da soletração. Dentre essas manifestações, uma é importante para nossa discussão específica. Frade (2014) ressalta que no método de soletração moderna – criado por gramáticos franceses, também chamados de gramáticos de Port-Royal (século XVII) – “atribui-se às consoantes um ‘nome’ que  visa a aproximar os  nomes das letras a seus valores sonoros no contexto de uma palavra” (FRADE, 2014, s.p).

As primeiras ideias desse procedimento são atribuídas a Blaise Pascal, ainda no século XVII. Pascal reinventou, na França, o método da soletração, sugerindo que se ensinasse não o nome das letras (efe, eme, ene, ele, esse...), mas os seus sons ou algo mais próximo a ele, com o uso da vogal de apoio (como fê, lê, mê), o que facilitaria a soletração. A soletração moderna faria, assim, uma substituição dos nomes que então se dava às letras pelo que se chamava seus “valores”, que não era propriamente os fones – os sons das consoantes –, mas uma emissão silábica, estabelecida pela junção da consoante com a vogal de apoio. É importante ressaltar aqui que, ainda que a soletração moderna seja associada ao método fônico tradicional (FRADE, 2012), há referências ao uso de vogal de apoio, ainda que átona (com –e mudo) e não à pronúncia dos fones isolados, tal qual entendemos os procedimentos dos métodos fônicos hoje, com a tentativa, vã, de pronunciar apenas o fone consonantal, artificializando a língua. Ao nomear as letras do alfabeto mais próximas da emissão sonora, o que se destaca é o som de uma sílaba – que vem a constituir, em sua forma tônica, o nome da letra – e não um fonema: fê e não /f/, mê e não /m/. Note-se também, que esses autores, de tempos remotos, citam a nomeação diversa das letras, e não apenas um modo de pronunciá-las – aspecto importante para o nosso argumento.

O –e mudo, no entanto, foi se tornando tônico. De qualquer modo, vejam a diferença entre eme-o-mo, ele-a-la = mola e mê-o-mo, lê-a-lá = mola. Percebem? Ou seja, exatamente como se fazia a soletração no Nordeste. Veio da França, gente! E influenciou muitas gramáticas portuguesas que, por sua vez, chegaram a nós. Isso significa que esse procedimento tampouco é originalidade do Nordeste – ou seja, talvez nem inventividade de uma linguagem criada e ali praticada, nem “aberração” nordestina. Se, em algum momento da história, parte do povo brasileiro simplificou os nomes das letras formados pelo princípio acrofônico mais indireto, e talvez por analogia a outras letras do alfabeto – como o bê, tê, vê, zê... – isso se deu com o respaldo de todo esse contexto de discussão. Assim, diante de tudo o que estamos discutindo, podemos dizer que é uma forma, ao mesmo tempo, singular e comum de atribuir os nomes às letras. E trata-se de nomes, não de sons, muito menos de fonemas. Ainda que esses nomes possam ter, historicamente, se originado da tentativa de pronunciar os sons, o procedimento é legítimo e forma, como formou no passado do alfabeto, os nomes das letras.

Publicada em 1803, em Lisboa, a Grammatica Philosóphica da Lingua Portugueza, do português Jerônimo Soares Barbosa, inspirada na perspectiva de Port-Royal e serviu como modelo para a produção gramatical portuguesa e brasileira do século XIX – traz, na fonte, essa questão da pronúncia das letras.

Cagliari (1985) ressalta que a recomendação de Jerônimo Soares Barbosa era de que nos livros com as primeiras instruções sobre a escrita, especialmente destinados ao povo, o alfabeto fosse ensinado não com os nomes das letras, mas com seus sons básicos, as consoantes tendo vogais de apoio, e grafadas pelas letras mais representativas. Ou seja, a ideia da facilitação do ensino inicial da escrita não foi invenção dos nordestinos, como já ouvi por aí dizerem em tom jocoso. Muitos eram os artifícios usados para facilitar a aquisição da leitura, e as propostas francesas e portuguesas que chegaram no Brasil também visavam a essa facilitação. 

Tudo isso nos mostra que a questão do nome das letras tem um lugar na história da alfabetização no Brasil, de muito mais destaque do que temos visto – e que merece atenção quando nos vemos aceitar, sem discussão, a “colonização” do alfabeto oficialmente usado no Nordeste pelo oficial, associado à norma culta da língua, ou quando o defendemos como uma criatividade quase ingênua do nordestino. Como constatamos, no entanto, não se trata de uma invenção simplória e iletrada do nordestino, fonte de deboche pelos que nada sabem dessa história e aceitam o alfabeto convencional como verdade única e última, a-histórica, naturalizando o seu uso. Essa história é a história do nosso Brasil! E mais além, como vimos com as perspectivas francesa e portuguesa que influenciaram o ensino no Brasil.
Após os questionamentos dos métodos de soletração, muitos outros autores também defenderam o uso da pronúncia e dos nomes das letras mais próximos a seus “sons”, o próprio João de Deus e Abílio César Borges.

João de Deus, autor português cujo método foi amplamente usado no Brasil a partir de 1880, criticou ambas as soletrações, antiga e moderna, pois o que deve ser enfatizado é, segundo ele, a leitura – e daí sua opção pela palavração. O método João de Deus – fônico e de palavração – propunha ensinar, claramente, como se formam os nomes das consoantes: o nome da letra se forma juntando o som -ê ao som da letra na leitura/pronúncia das palavras. Ou seja, ao som da letra que se lê /vvv/ (e o método ensinava a pronunciar os fonemas pelo ponto de articulação), as crianças aprendiam que, juntando-se o som -ê, formava-se o nome da letra, vê. A que se lê /fff/, se chama fê, e assim por diante. O /jjj/ é jê, nesse sistema, e não ji ou jota. E o G... o G chama-se guê, quando oclusiva (gato, gota, gude), e lê-se jêgue, quando fricativa (gelo, girafa). Esquisito, né? Bem esquisito! O sistema de João de Deus é bem diferente, uma tentativa de os nomes das letras – mas apenas no momento da alfabetização – dizerem sobre seus diferentes valores sonoros, quando é o caso. Mas letras são “nomeadas” assim, apenas momentaneamente, enquanto a leitura é na Cartilha. É diferentes de um uso de nomes de letras nas práticas cotidianas, como é o caso do uso que ainda se faz hoje na Bahia.

Abílio César Borges, o Barão de Macaúbas, é uma referência que pode ter igualmente contribuído com o uso dos nomes das letras tal qual se usa no Nordeste, dessa vez a contribuição de um brasileiro, baiano, influenciado por essas questões que estavam no “ar do tempo”. Ele criou, na Bahia (1858-1870), o Ginásio Baiano, que, segundo Souza (2012), pode ser considerado, nos padrões do século, uma escola de excelência. Apesar de ser baiano, mas talvez tendo isso um peso, sua Gramática e seu Primeiro livro de leitura, publicados em 1866, foram, segundo Souza (2012), distribuídos, divulgados e adotados em escolas públicas e particulares em várias regiões do Brasil, não apenas na Bahia, não apenas no Nordeste, na segunda metade do século XIX. A autora, no entanto, enfatiza sua utilização ampla na província da Bahia. Dentre as características do método proposto nos livros de leitura de Borges, a autora ressalta que esse método – que apresenta as letras uma a uma e organiza as lições a partir das sílabas – enfatizava a pronúncia das consoantes, das sílabas, pois Borges defendia que a articulação perfeita dos sons levaria a uma boa leitura. No seu “Novo primeiro livro de leitura”, de 1888, Borges assim se posiciona, como ressalta Souza  (2012, p. 657):
As letras são apresentadas ao professor, explicando-lhe como devem ser pronunciadas, como, por exemplo: f deve ser pronunciado não éfe, mas fê. O Autor demonstra a ineficiência em se trabalhar com o nome da letra, principalmente na soletração, o que muitos professores fazem, dificultando a aprendizagem das crianças.
O método de Abílio, e sua proposta de pronúncia das letras, então, será que seguiu ressoando por aqui? Pode ser, embora a autora ressalte que quem mais aproveitou dos livros de Borges foi a elite. Por outro lado, ele foi, segundo Frade (2011), um dos mais usados nas escolas brasileiras, antes das inovações do final do século XIX. Então, por que só ter influenciado a pronúncia do abecê no Nordeste? Seria esse, então, um uso anterior, bem anterior ao final do século XIX? Será improvável que sua proposta, por algum motivo, tivesse ressoado mais na Bahia? Se é, que outros fatores influenciaram o uso do abecê no Nordeste?

Como esses, muitos outros autores de gramáticas e cartilhas circularam no Brasil – e não apenas no Nordeste – com propostas que sugeriam uma pronunciação diversa das letras na alfabetização inicial, bem como a nomeação das letras de formas diferentes do alfabeto sistematizada, provavelmente, por Varrão, lá na Antiguidade. E no Nordeste ficou valendo como nome das letras.

Assim, indo à história da alfabetização, concluímos que esse tipo de procedimento de designar as letras de forma mais próxima a seus sons, que já havia sido usado no latim é, de algum modo, retomado nesse momento do final do século XIX, ou mesmo antes, e início do XX, a partir da França e de Portugal. Vimos que esse procedimento circulou no Brasil, a partir do desconforto com a soletração, tendo alguma legitimidade na história dos métodos de alfabetização. E esse não foi um processo exclusivo do Nordeste. Então, eis mais um grupo de questionamentos que se juntam ao de se seria, então, o uso dos nomes das letras nordestinas advinda mesmo dessa soletração moderna, inspirada nos franceses. Por que “pegou” no Nordeste, ou no sertão nordestino? Por que aqui se manteve essa prática? E por que esse jeito de pronunciar, na soletração, virou o próprio modo de nomear as letras? Será devido ao grande contingente de pessoas não escolarizadas nessa região, naquela época – que, então, tiveram menos contato com o alfabeto oficial? Mas se for isso, como tiveram contato com essa “novidade” da soletração moderna? O momento histórico explica essa situação? Ou o modo de soletrar da soletração dita “moderna” foi um jeitinho que o Nordeste deu, mesmo antes de ser legitimado pelas propostas francesas e portuguesas que aqui aportaram, nomeando por conta própria, por analogia às outras letras oficias (bê, tê, vê, zê...), as letras que pareciam muito distantes dos “sons” pronunciados? Souza (2012) nos conta que os livros de Abílio César Borges, por exemplo, mesmo distribuídos amplamente no Brasil, foi usufruído, de fato, pela elite. Então, será que essas “novidades” chegaram mesmo aos municípios longe dos centros urbanos para influenciar o modo de pronunciar as letras do povo do sertão?

Haverá, ainda, quem diga até que esse modo de soletrar perdurou no Nordeste como forma de nomear as próprias letras, pois o nordestino gostou da facilitação “preguiçosa” trazida com ela, com o deboche preconceituoso e o estigma que muito frequentemente é atribuído ao nordestino. Ora, os preconceituosos arrumam argumentos diante de qualquer situação... Podemos nos perguntar ainda se houve uma só fonte desse uso. Será que o uso desse abecê na capital baiana tem a mesma fonte dos usos do sertão nordestino? Difícil saber... Certo é que, por aqui, não atribuímos a esse modo de pronunciar as letras um valor apenas de alfabeto para aprender a ler e escrever, tipicamente escolar, facilitador da alfabetização – como eram os nomes das letras sugeridos por João de Deus – mas o tomamos como o alfabeto mesmo, usado no cotidiano, em situações diversas em que se faz necessário referir-se a letras.

Na complexidade do período anterior ao final do século XIX, no entanto, até agora, não achei uma fonte fidedigna para confirmar se no Nordeste já se “cantava” as letras fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si...a partir das Cartas de ABC, quando a soletração antiga ainda vigorava no resto do país, ou se veio a partir da soletração moderna e as influências dos livros, cartilhas e gramáticas mencionados, e porquê, no Nordeste, se manteve como forma preferencial. Será que, posteriormente, com a silabação, as recitações do ma-me-mi-mo-mu ou ra-re-ri-ro-ru, por exemplo, não teriam influenciado ou reforçado a pronúncia do mê em vez do eme e do rê em vez do erre? Igualmente difícil saber, como também o é avaliar as chances dessa soletração ter sido um ajuste, uma invenção do povo nordestino. Mas a pesquisa continua... Certo é que, a partir do momento em que a soletração perdeu terreno para a silabação – seja no âmbito dos métodos silábicos sintéticos, seja da palavração ou de outros métodos analíticos ou mistos – ao lado das aprendizagens referentes à segmentação silábica, se falava e se aprendia, no Nordeste, os nomes das letras com o princípio acrofônico mais direto. Assim aprenderam gerações de nordestinos.

Talvez a origem do alfabeto nordestino seja uma dessas lacunas na história da língua e da alfabetização difíceis de solucionar com precisão, talvez, por outro lado, haja pistas por aí, em documentos históricos, depoimentos pessoais de nordestinos mais velhos, nas notas de pesquisadores que já desbravaram essas fontes – linguistas, pedagogos, estudiosos da história cultural, historiadores da educação. Não sei...não encontrei mais do que discuto aqui. Por ora.

Entretanto, não obstante as incertezas sobre a origem e os usos do abecê, certo é que não podemos adotar uma postura ingênua e naturalizada da questão. Talvez o seu uso não seja, afinal, porque no sertão era muito frequente a presença de professoras leigas... Assumir isso é como concordar que o outro alfabeto é que é o “letrado”... o “certo”, e o nosso, desvio... Com uma história dessas – seja a história do alfabeto ou a história da alfabetização – não podemos mais nos contentar com essa explicação do alfabeto “pouco letrado”. 

Lembrando, com Bilac, na epígrafe do início do post, que na língua tem disso: “amo-te assim, desconhecida e obscura”, mesmo com tantas lacunas. Mas vamos apostar no que é esquecido, daquilo que ainda é lembrado... e dar espaço àquilo que é lembrado do que já fora esquecido... A memória, mobilizada, engaja os sujeitos, o espaço e a cultura, na configuração da identidade regional. Não vamos deixar que o que restou seja esquecido e obscurecido de vez... Deixemos a memória oral do abecê “cantado” no Nordeste brincar com a cultura escrita. Deixem-nos ler o mundo com esses oito palavras-sons que se distinguem no nosso abecê. Não vamos ficar nem na saudade e nostalgia, nem na lamentação da “colonização” de nosso abecê, pelo abecê usado no outros cantos do Brasil, muito menos proclamando-o em um “bairrismo” cultural. Vamos assumi-lo!

É isso, gente! O próximo argumento trará uma discussão sobre os estudos contemporâneos que defendem que as crianças usam os nomes das letras como pistas sonoras para grafar as letras em uma palavra, reforçando, portanto, que a maioria dos nomes nordestinos, de fato, facilitam a alfabetização.
Até breve!
Lica

P.S. 1. As referências serão postadas no final de todos os posts.

P.S. 2. Agora, uma coisa é certa, não fosse o fato de caçoarem ou renegarem esse modo cultural de falar as letras, certamente não teríamos as pérolas de Nonói contador de causo e de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Já vale por isso!

“Prefiro o velho ABC
Sem procurar inovar
Se adotou pra si o ésse
Não vou também adotar
Ninguém vai me convencer
A mudar o que aprendi
Hei de honrar até morrer
O saber que adquiri”. 
(Nonói contador de causo)

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Entrevista Alfaletrar

Oi, gente!

Passo para divulgar a entrevista que dei para a plataforma do Alfaletrar, projeto de iniciativa da professora Magda Soares, sobre alfabetização e letramento.

A entrevista, a pedido da professora líder do projeto na plataforma, Sonia Madi, aborda vários temas, como o papel das aprendizagens linguísticas, especialmente as letras do alfabeto; a pesquisa sobre o abecê nordestino e o que é essa história de Oficinas de Alfabetização.

Eu espichei muuuuuito as respostas (porque sou assim, espichada, como vocês sabem), mas fizeram uma ótima edição da entrevista, então, não é textão! Confiram!

Um dia posto as respostas completas, quem sabe...
Por ora, só tenho a agradecer a Sônia pela oportunidade. 


Inté,

Lica

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Abecê Nordestino. PARTE 2: Argumentos da história do alfabeto

Oi, gente!
Vamos à Parte 2 de nosso estudo sobre o abecê nordestino, trazendo argumentos da história do alfabeto. A parte anterior a essa está aqui.

Quando o alfabeto surgiu entre os povos semitas, as letras, como nos lembra Cagliari (2009a), partiram de uma lista de palavras (alef, beth...), cada uma com um som inicial diferente e cujos significados remetiam à forma figurativa dos hieróglifos egípcios que foram adotados. 

Ou seja, parece que as letras eram motivadas pelas imagens do objeto designado pela palavra e a letra inicial dessa palavra remetia ao som dessa letra. Isso é muito importante para nossa discussão. Cagliari (2009, p. 40-41) diz que “essas palavras passaram a ser os nomes das letras e um modelo de referência para se achar qual letra deveria ser usada, ao se analisar as palavras em seus segmentos fonéticos consonantais”.

O exemplo clássico disso é a primeira letra do alfabeto semítico, nomeada de aleph, que significava boi, e era representada pelo hieróglifo para boi. Assim, esse hieróglifo ficou sendo a letra que representava aquele som inicial da palavra aleph, o som /a/ - que era meio gutural, não como nossa vogal hoje. 

 Nessa origem do alfabeto, “um princípio acrofônico era a chave para decifrar e escrever o alfabeto: bastava saber o nome das letras, reconhecer o som consonantal e usar o caractere correspondente para escrever as consoantes que iam sendo detectadas nas palavras a serem escritas” (CAGLIARI, 2011, p. 3). Ou seja, isso de os nomes das letras darem a pista de seus sons, é que se chama de princípio acrofônico e, como estamos vendo, esse princípio está presente desde a origem da escrita alfabética. Aliás, é por isso mesmo que Cagliari (2009b, p. 14) diz que quem inventou a escrita inventou ao mesmo tempo as regras da alfabetização”.

Então, essa lista de palavras – primeiro abecedário, por assim dizer – serviu de base para o princípio acrofônico e acabou originando os nomes das letras. Embora remetendo a formas figurativas da escrita hieroglífica, o que guiou o estabelecimento dos nomes das letras foi, desde o início, a pista dos seus sons. Como Cagliari enfatiza, o alfabeto foi inventado através do princípio acrofônico: no nome das letras (em geral no início da palavra, mas não necessariamente) ocorre o som mais característico que a letra representa no sistema. E no início, era a letra inicial do nome que remetia ao som das letras.

Os gregos adaptaram o alfabeto semita dos fenícios aos fonemas sua língua e também modificaram os nomes das letras, que passaram a ser apenas nome de letras – nomes próprios – não mais vinculadas a um significado outro. Mas, em essência, mantiveram o mesmo princípio, ou seja, o funcionamento do alfabeto pelo princípio acrofônico: os nomes das letras gregas davam pistas do som dessas letras, e também nesse caso, de forma mais direta – era a letra inicial que se remetia ao valor sonoro da letra. Suas formas gráficas também perderam o caráter icônico, os nomes das letras, assim, já não seguiam o sentido, mas tão somente o princípio acrofônico. 

Percebam, então, que esses sistemas, que foram a base do nosso alfabeto latino, seguem esse princípio acrofônico pelo som inicial dessas palavras, ou seja, o som /a/ era representado pela letra alfa, cujo som inicial /a/ corresponde ao som daquela letra; o som /b/ era representado pela letra beta...

Chegando ao alfabeto latino, percebeu-se que, como a escrita alfabética se baseia na relação entre fonemas e grafemas, que o que importa é o som das letras, não era necessário que as letras tivessem nomes próprios. Assim, ao se apropriarem do alfabeto grego, por meio dos etruscos, e estabelecerem o alfabeto latino, os romanos modificaram os nomes das letras. E como nomear as letras? – Eis a questão. É Cagliari (2009a) quem continua a nos contar sobre isso. Os romanos entenderam que, se a chave para decifrar as letras estava nos seus nomes, não era necessário ter nomes próprios, especiais, para essas letras, como no alfabeto semita ou grego, bastava o nome remeter ao som das letras. Ou seja, se a escrita alfabética é baseada no princípio acrofônico, bastaria identificar os sons das letras para constituir seus nomes.

Com os sons orais das vogais, que são fonemas que soam, era fácil nomeá-las: bastava lê-las e esse era o nome delas: A, E, I, O, U. Como as consoantes precisam do apoio de uma vogal para serem pronunciadas, optou-se, para nomeá-las, por usar uma vogal de apoio. Desse modo, pareceu prático designar as letras por monossílabos iniciados com o som mais representativo de cada uma delas, seguidas de uma vogal, no geral a letra E, tornando esse nome pronunciável.  “Assim, as letras passaram a se chamar a, bê, cê, dê, etc” (CAGLIARI, 2009a, p.70). Por essa lógica, as letras F, L, M, N, R, por exemplo, deviam seguir esse mesmo sistema: fê, lê, mê, nê, rê... E o autor continua assim: “No começo, as consoantes se diziam pelo som inicial mais a vogal E, exceto K, que se dizia ka, Q que se dizia qu e X que se dizia iks” (CAGLIARI, 2009a, p. 70). Se essas eram as exceções, então a afirmação nos faz pensar algumas coisas:

     1) que sim, de início se dizia fê, lê, mê, nê, rê...;
     2) que os nomes das letras mudam na história.

Em outro texto (CAGLIARI e MASSINI-CAGLIARI, 1999, p. 177), afirma-se também que em algum momento da história do alfabeto latino, “havia duas maneiras de se dizer os nomes das letras, pois algumas tinham sofrido uma mudança de nome passando a ser ditas com um -e inicial, seguindo o som da consoante, como em ef, el, em, em, er e es”. Então, vejam que coisa interessante!

Cagliari (2009a,1999) relata que na época de Varrão (116-27 a.C.) havia os dois modos de se referir aos nomes das letras – ou seja, pronunciados de forma mais direta como na origem do alfabeto latino, com a letra inicial dando pistas do som que representam (ou seja fê, lê, mê...) e a versão com o -e anteposto ao F, L, M, N, R. 


De qualquer modo, isso quer dizer que, indo longe na história do alfabeto, essa forma precede à forma efe, ele, eme, erre...Varrão foi um filósofo e enciclopedista romano, que escreveu a mais antiga gramática latina. Nela, há uma sistematização, além de outras coisas, dos nomes das letras, pelo critério seguinte: distinguindo as consoantes oclusivas das demais, as não-oclusivas (fricativas, laterais, vibrantes e nasais) recebiam a vogal de apoio – a letra E – antes do som consonantal representativo do som da letra, ou seja: ef, el, em, en, er, es (depois pronunciadas em português como efe, ele, eme, ene, erre e esse).



Assim, na época de Varrão havia as duas designações possíveis para essas letras – a antiga, fê, lê, mê, nê, rê – e essa estabelecida pelas regras novas. Se foi proposta do próprio Varrão ou não, não é fácil comprovar. Há quem remeta a mudança na nomeação das letras ao alfabeto etrusco, intermediário entre o grego e o latino. E essa forma nova de dizer o nome das letras em latim passou, depois, de algum modo, para muitas das línguas europeias, como o português (mas não apenas para as línguas neolatinas). Vê então que, indo lá para trás, podemos questionar a precedência e mesmo a lógica dessa nomeação? Por razões históricas, a sistematização da época de Varrão ficou valendo, mas poderia nem ter ficado. 

Notem que, para novas letras que foram surgindo depois - porque as línguas e suas notações são dinâmicas e mudam na história -, essa regra do -e antecedido nos nomes de letras que representam fonemas não oclusivos nem foram mais consideradas – o que nos faz relativizar a necessidade e pertinência da regra. As letras V e Z,  embora representem fonemas fricativos (ou seja, não-oclusivas), sendo – tal qual usadas hoje – incorporações tardias no alfabeto latino, não entraram nesse sistema para as não-oclusivas. Ou seja, pela regra de formação dos nomes das letras dessa época, uma vez ganhando esses outros valores sonoros, as letras V e Z deveriam se chamar eve e eze...!!! E foi assim? Não, né? 

 
  
Quando essas letras, com esses sons, surgiram, deram-lhes os nomes mais diretos, como se fossem oclusivas, pelo sistema da época de Varrão: vê, zê. Então para onde foi a lógica? Isso nos leva a pensar na arbitrariedade da determinação dos nomes das letras e, consequentemente, sobre o que seja certo ou errado nesse contexto. Essa determinação pode, realmente, ser tomada como o parâmetro, a medida de todas as outras alternativas de nomeação das letras? Nessa época, os estudos gramaticais enfatizavam muito essa diferença entre os fonemas constritivos e oclusivos - essa distinção ir parar nos nomes das letras pode ter sido um arranjo bem próprio ao conhecimento gramatical da época, não é? E ainda assim, arbitrário e sem um lógica interna que, de fato, justifique-o. Tudo bem que, por algum motivo (não exatamente linguístico ou lógico), esse modo de nomear ficou valendo, no curso da história, e se consolidou - mas a questão é: isso pode ser determinante para se tornar o único abecê legítimo?

Assim, esse aspecto da história do alfabeto nos remete, novamente, à nossa discussão sobre o abecedário nordestino, seja em termos de sua validade cultural, seja em termos de sua funcionalidade na alfabetização (sobre isso aprofundaremos mais nas partes 3 e 4). Saber dessa origem dos nomes das letras – seja em uma ou na outra realização – não nos ajuda a relativizar o uso do alfabeto “oficial” simplesmente porque “é o certo”? Não nos ajuda a recuperar a possibilidade de transmissão de nosso saber cultural de forma mais contundente? A assumirmos que no Brasil temos duas formas de nomear as letras? Tudo o que muda, exige historicidade para não se julgar inadvertidamente sobre o que seria “certo” ou “errado”, naturalizando o que tem história e, por vezes, uma história que não justifica, exatamente, tomar as coisas – mesmo no recorte de um dado momento histórico – como verdade dada, única, regida pela dicotomia certo/errado.

Se o alfabeto que se firmou como modo valorizado de designar as letras na língua portuguesa foi constituído historicamente, essa origem nos ajuda a relativizar essa história de “correto” e de “precedente”. A história nos ajuda a ver que nada é dado, assim, não pode ser considerado, essencialmente, e em si mesmo, o “correto”. Esse modo legitimado, “oficial”, não o é por razões necessariamente linguísticas, mas históricas, sociais, culturais, envolvendo relações de poder, a distribuição do poder entre os falares das regiões e dos sujeitos sociais.

Desvelar essas raízes e essa precedência não implica, no entanto, usar tais conhecimentos para argumentar sobre um suposto alfabeto “mais correto”, seja qual for, ou coisa do gênero, não se trata de disputa. Na verdade não é o que veio primeiro que importa, de fato, mas mostrar que, justamente, isso não constitui um argumento válido para legitimar uma forma em detrimento da outra. O que propomos é um reposicionamento da questão.

A história do alfabeto, contando-nos sobre a origem dos dois modos de designar as letras, também nos ajuda a entender que não procede dizer  que efe é nome e fê é som – e muito menos fonema – pois mostra que os nomes das letras, desde o início, foram dados a partir do princípio acrofônico, e inicialmente, pela relação mais direta: a primeira letra do nome da letra dando pista do fonema (ao menos de um dos fonemas) que essa letra representa. Por que, então, essa insistência em afirmar que se trata da oposição nome e som? Por que achar estranho lê, fê, rê...serem nomes, se bê, pê, tê...o são sem nenhum problema? Fê só soa estranho (para alguns) porque se acostumaram com efe, não porque fê seria intrinsecamente estranho. Naturalizar o circunstancial por desconhecimento pode não ser o problema, o problema maior é não querer considerar as circunstâncias para continuar defendendo o que lhes “soa melhor”.

As consoantes F, L, M, N, R e S, que mudaram de nome, tendo o som consonantal precedido da vogal E (ou I, no caso do S), em vez de seguido dela como as demais letras, são as que se distanciaram mais do princípio acrofônico. Ainda são regidas, de algum modo, por esse princípio, pois o som da letra de referência continua lá (o fonema /f/ se ouve em efe), mas não é mais no início da palavra, como nas escritas fenícia e grega e, inicialmente, também no alfabeto latino. E afinal, como Healy (1996) define que “o princípio que permite usar um sinal para representar a primeira letra da palavra que se quer referir chama-se acrofonia (‘som inicial’)”, é mesmo o som inicial do nome da letra inicial que define o princípio acrofônico.

Diante disto, o que a história parece mostrar é que, com esse sistema de nomeação da época de Varrão,  afastou-se mais o nome de algumas letras de suas formas sonoras correspondentes, e por razões bastante arbitrárias. Ainda que haja uma lógica na mudança, a lógica é externa, por razões outras, e não por ter um sentido para a nomeação das letras.
ATENÇÃO: O caso da letra G é especial, pois ambos os nomes, gê e guê, dão pistas de um dos valores sonoros que a letra assume no sistema, ambos sendo oficialmente reconhecidos, e o caso do J também, pois tem um processo de nomeação diferenciado. De qualquer modo, no nome jota ouvimos muitos sons que não fazem parte do valor sonoro da letra J, sendo o nome ji mais simples, como o si. Discutiremos sobre isso mais em detalhes na publicação sobre essa temática.
Certo é que a representação do som da letra seguida da vogal favorece mais o estabelecimento da relação entre nome da letra e o fonema que ela representa, pois esse nome, construído como é no alfabeto nordestino, é mais aproximado de seu valor sonoro nas palavras – discutiremos adiante as implicações disso na alfabetização, o próximo post traz argumentos que reforçam essa ideia.

Os argumentos da história do alfabeto, entretanto, se nos ajudam a desvelar a origem dos dois abecês, não explicam exatamente os usos do abecê no Nordeste do Brasil –especialmente no sertão, mas não apenas, amplamente na Bahia, mais não apenas –em tempos bem mais próximos de nós, antes de o modo oficial de pronunciar as letras chegar às suas escolas.

É sobre isso que discutiremos no próximo post, o Post 3, em que traremos argumentos da história da alfabetização no Brasil.