Seguindo
o post anterior do jogo Trave o trava-língua, que é para crianças que já estão em
processo de compreensão do funcionamento alfabético do sistema, sugiro
aqui um outro jogo com esse gênero, mas agora para crianças que estão no
processo inicial de fonetização da escrita. Como o jogo anterior, esse também está em processo de testagem com as crianças, pode não ser tão simples de jogar, no caso de crianças nesse nível de domínio da língua. Mesmo assim, apresento-o aqui.
O Faltando Vogais original é um
jogo em que faltam as vogais nas palavras escritas, para que as crianças
preencham a partir de lance de dado de vogais. No caso da versão Trava-línguas
do jogo, os trava-línguas apresentados são aqueles que trazem assonâncias
(repetições de fonemas vocálicos) ou alternâncias de fonemas vocálicos.
Embora
os trava-línguas constituam um gênero da tradição oral muito propício para
abordar a consciência fonêmica, a consciência de unidades intrassilábicas e as
sílabas complexas, com crianças já em processo de apropriação do princípio
alfabético, eles também pode ser produtivos para crianças menores, em processo
inicial de fonetização da escrita. Isso porque, em alguns deles podemos também chamar
a atenção para os sons das vogais e para a sua representação gráfica. Veja como
o trava-língua seguinte chama a atenção para o A: “Iara amarra. A arara rara. A rara arara. De Araraquara”, e
esse que embola pelos fonemas vocálicos: “O
que é que o eco é? O eco é o que o eco é!” Analisar esses sons vocálicos
oralmente e depois ver que letras os representam no texto escrito é muito bom
para iniciar a fonetização da escrita. A identificação oral dos fonemas
vocálicos é mais direta, pois são fonemas que soam (diferente dos fonemas
consonantais que só soam com as vogais), e sua representação gráfica é
facilitada pelo próprio nome da letra, que coincide com ao menos um dos sons
que representa (as vogais letras são apenas 5, mas as vogais “sons” são 12: 5
vogais orais, 5 vogais nasais e o E e O fechados). Assim, como dito no início, trata-se de um
jogo que pode ser experimentado com crianças no início da fonetização da
escrita, quando os fonemas vocálicos e sua representação pelas vogais ajudam a
criança a compreender que a escrita representa a fala, e que o que se diz tem
relação com a letra que deve ser escrita. Além de contribuir para usarem letras
pertinentes (de fato presentes na sílaba que se quer grafar) quando representam
segmentos silábicos por uma vogal apenas.
Embora
o jogo Faltando Vogais Trava-línguas apresente os trava-línguas por escrito, é
essencial brincar com eles oralmente, antes de propor o jogo, como insisto
sempre. Isso por que se trata de um gênero de tradição oral, cuja função
primordial é brincar com as palavras, travar a língua, se embolar na pronúncia,
desafiar os tropeços do texto. Depois, para jogar o jogo, as crianças precisam
memorizar os textos e isso é se dá pelas próprias necessidades do brincar.
Assim,
depois de fazer um levantamento de quem sabe algum trava-língua e de brincar
com eles, passa-se a focar a atenção na memorização do repertório do jogo. Após
ouvir a professora dizê-los, pode-se propor memorizar cada um por vez, a partir
de algumas estratégias:
- Dizê-los
pausadamente, seguindo a enunciação da professora, palavra por palavra;
- Depois
experimentar dizê-los baixinho, sussurrando, depois bem alto...com ajuda do(a)
professor(a);
- Cada
criança, em ordem na roda, ficar responsável por uma parte ou uma palavra do
trava-língua e, na ordem estabelecida, dizê-las, sucessivamente, formando o
todo;
- Dizê-los
falando “pim” a cada palavra enunciada (ex. O pim rato pim roeu pim a pim roupa
pim do pim rei pim de pim Roma pim), com a ajuda do(a) professor(a);
- Usar
fichas com os trava-línguas com informações figurativas, para apoiar a memória
(ver abaixo).
- Etc...
Após a
brincadeira oral, a familiaridade e memorização das crianças em relação a esse
repertório de trava-línguas, então o jogo pode ser proposto. Esse kit compõe-se
de 8 cartelas de trava-línguas, ou seja, podem jogar oito crianças, cada uma
com a sua cartela, jogando em pares, ou 16 crianças, jogando em dupla contra
outras duplas. Compõe-se também de letras móveis para preencher as cartelas com
as vogais faltantes, e 4 dados de vogais.
Os dados devem conter as cinco
vogais, uma em cada face e a face restante equivale ou a perder a vez ou
a escolher a letra que precisa – o grupo tem que combinar a regra antes
do início do jogo. Pode variar essa regra também em diferentes dias de jogo,
experimentando as duas formas. Outra opção é essa face valer também a letra A,
pois é uma letra mais frequente.
O kit
contém ainda fichas de trava-línguas enigmáticos (com figuras) para ajudar a
memorizar os textos (Essas fichas também se constituem, em tamanho maior, em um
jogo à parte).
Sugere-se
que as crianças joguem em duplas, para se ajudarem, mas se pode também jogar
individualmente, a depender do grupo, das possibilidades das crianças. Pode
começar em dupla e, quando estiverem familiarizados com o jogo, propor se
querem jogar individualmente. Para turmas com uma quantidade de alunos que
ultrapassa as cartelas do jogo, o professor deve planejar outros jogos para
alternar o uso, ou fazer mais cartelas. Como o uso de jogos na sala de aula
deve ser bem planejado, é importante contemplar crianças mais adiantadas com
outros jogos que as desafiem em seu nível de domínio do sistema de escrita.
Para algumas esse jogo envolvendo fonemas vocálicos pode ser ainda difícil (que
não saibam ainda identificar e nomear as letras, por exemplo) e, para outras,
muito fácil (crianças avançadas na fonetização da escrita, para as quais o foco
nos fonemas consonantais é mais produtivos – pode-se fazer um Faltando
consoantes para essas, ou outros jogos).
Cada
dupla/criança recebe uma cartela com o trava-língua. Cada dupla/criança joga
com outra dupla/criança, cada uma com sua cartela. Não tem importância se um
trava-língua é um pouco maior que o outro, pois a sorte no dado também define o
preenchimento. Mas é bom equilibrar as escolhas dos trava-línguas que vão ser
“oponentes”, quanto a isso.
As
letras móveis para preencher os textos ficam no meio, para todos terem acesso.
Pode também fazer mais letras e colocar um punhado em cada mesa, com duas
duplas ou duas crianças. Cada dupla/criança joga o dado na sua vez e pega a
vogal indicada na face, caso precise dela para preencher seu texto. A cada
jogada só pode pegar uma letra. Se a letra sorteada não servir, passa-se a vez
para o outro jogador. Vence a dupla/criança que preencher primeiro a cartela.
Mas como o jogo é de sorte, mais que tudo, as duplas/crianças podem se ajudar
na decisão sobre que letra vai onde.
O jogo
não é tão simples quanto o Faltando Vogais original, pois além de ter que ir
ajustando o oral ao escrito para reconhecer as palavras e encontrar as vogais
faltantes, é preciso também gerir várias palavras e vogais ao mesmo tempo. Talvez por isso mesmo, em sua avaliação, seja preciso adequar e, quiçá, até abandoná-lo. O
professor pode ajudar a encontrar estratégias para isso – pode pedir que
analisem o texto antes, anotando primeiro todas as vogais lacunadas do texto,
para consultar durante o jogo, e saber quando cai no dado uma de que precisam. Pode-se,
por outro lado, jogar valendo encontrar uma vogal de cada vez, na ordem das
jogadas. Só passa à lacuna seguinte após completar a anterior.
Quando
demora de sair a letra que precisam, pode jogar valendo lançar o dado 2 ou 3
vezes antes de passar a vez ao outro jogador.
O
professor deve circular nas mesas ajudando-os a prestarem atenção no som das
palavras para que possam encontrar a letra que deve ser posta em determinado
lugar e a gerir as diferentes palavras lacunadas.
Terminada a partida, as
crianças podem trocar as cartelas e recomeçar!
NOTA POSTERIOR:O processo de avaliação, ainda em curso, já mostra que, diferente do Faltando Vogais original, no qual a criança precisa focar em apenas uma palavra ou um grupo pequeno de palavras por vez, indicadas por uma figura, o Trava-línguas faltando vogais, no entanto, pareceu muito complexo para as crianças nesse nível inicial de fonetização da escrita. O contexto textual exige que considerem muitos elementos ao mesmo tempo – texto, palavra, letras –, criando o desafio a mais de acompanhamento do texto e de identificação da palavra visada e um maior controle das palavras, ao tempo que também devem pensar nas unidades vocálicas nelas presentes. Ademais, não sendo compostas apenas de sílabas simples, as palavras do texto dificultam a análise dos sons vocálicos faltantes. Mesmo sabendo a maioria dos textos de memória, apenas algumas crianças (grupo 5 de uma escola privada e do 2º ano de uma escola pública), em níveis iniciais de fonetização da escrita, conseguiram preencher, e com esforço, os trava-línguas mais curtos e menos complexos em termos da presença de desafios articulatórios e de sílabas complexas. Talvez esses possamos considerar em manter numa segunda versão do jogo. Os do 2º ano, uma vez que reconheciam as palavras com o apoio do que sabiam de cor, logo identificavam a vogal faltante sem maiores esforços, mas era um desafio para elas reconhecê-las no texto e considerar todos os elementos ao mesmo tempo. Assim, mesmo com o apoio no texto sabido de memória, o desafio de controlar a palavra, suas partes, e também a palavra no enunciado maior, foi além do que podem dar conta no nível inicial, não atingindo a função didática do jogo. A estratégia de dar um modelo: o r_to r_eu a roup_ do r_i de Rom_ (o rato roeu a roupa do rei de Roma), em algumas turmas, não surtiu efeito facilitador dos desafios referidos, na maioria dos casos, mas esse aspecto merece ainda pesquisa suplementar.
Com isso, não iremos abandonar o jogo, mas reformulá-lo e tentar ver que adaptações podem torná-lo produtivo.