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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Algumas propostas a partir dos Tangolomangos!

Enfim!
E vamos que vamos ao terceiro post sobre os tangolomangos. Quem não viu os outros, é bom dar uma olhadinha antes, aqui e aqui. O primeiro post falou desse gênero de texto, sua origem, estrutura e características, versões e muitas curiosidades sobre. O segundo trouxe dicas de livros que dialogam com a estrutura dos tangolomangos e esse terceiro traz atividades de linguagem e matemática a partir dos tangolomangos. Vamos a elas!

Como sempre, inicio fazendo uma ressalva quanto às atividades e materiais a partir de textos. E a ressalva de hoje é a de que brincar, ouvir, ler, cantar os tangolomangos tem um valor em si mesmo, primordial, que não deve ser perdido de vista. Os textos, ainda mais literários (seja da literatura oral ou escrita), não devem ser meros pretextos para as atividades. Isso vocês já sabem, mas não me canso de sublinhar. Mas dito isto, tendo isso sempre em mente e confiando que vocês não o esquecerão, trago aqui algumas sugestões, afinal, o texto literário ou da tradição oral, na alfabetização, também é tomado como construção linguística passível de provocar reflexões e descobertas!

De cara, vale para os tangolomangos o que foi dito sobre os contos acumulativos. Com quanto mais tangolomangos as crianças brincarem e quanto mais os ouvirem, mais ampliam seu repertório, fazem relações, comparam, criando uma familiaridade com eles. Cantados, lidos, brincados, recitados, muitas são as variações possíveis, até dramatizados...

Como é um texto de estrofes curtas, versificado, com ritmo próprio, rimas, outras sonoridades, repetições, é bem legal para a leitura compartilhada, o professor e as crianças alternando a leitura, pelo que vão memorizando, e também para a pseudoleitura coletiva, acompanhando com o dedo, apoiados no ritmo dos versos. As crianças podem ir reconhecendo certas palavras no texto, identificando onde está determinada palavra, bem como brincar com rimas, aliterações, assonâncias.

Materiais...
Quanto a materiais, cada texto em particular pode sugerir diferentes tipos de fichas, desenhadas e/ou escritas, para ajudar a recuperar a sequência do texto. Algo referente à causa do tangolomango, da mazela, do sumiço, pode ser uma possibilidade! Apoiar-se na imagem para dizer o texto de memória, considerando as sonoridades dos versos, é bem bacana para ir se apropriando do texto. Os algarismos e os numerais escritos sem dúvida podem compor o kit, para associar um ao outro ou aos tangolomangos correspondentes.  Os versos de alguns desses textos em livros trazem o número por escrito (em linguagem materna), já outros, trazem o numeral mesmo, essas são oportunidades de criar materiais com possibilidades de associação entre a escrita dos números por extenso, a escrita do numeral e a quantidade que representam (desenhos dos personagens ou signos que os representam, como bolinhas, por exemplo).

Nem todos os tangolomangos vão necessariamente se prestar ou demandar um material, é preciso ter bom senso para identificar quando isso pode ser produtivo ou não. Nem dá para ter materiais de todos os textos lidos, não é mesmo? São apenas sugestões... Cada um vai fazendo suas escolhas...

Os fatiados...
A ordenação do texto é uma atividade muito produtiva também com os tangolomangos, devido a suas características: as estrofes, versos, rimas, palavras que se repetem. Eles podem ser fatiados em estrofes, em duplas de versos ou em versos. No primeiro caso, fatiados em estrofes, temos dez ou nove estrofes (ou mais) e as crianças terão que reconhecer, no escrito, a palavra que representa o numeral, para então ordená-las e, quem sabe, considerar também outros elementos de cada uma delas, como algumas palavras que porventura já reconheçam.


No caso da ordenação de partes da estrofe, ou seja, de duplas de versos, além do reconhecimento dos numerais escritos, o que vai ajudar as crianças a ordenar serão as rimas no final de cada verso 2 e 4. Por exemplo, na estrofe abaixo terão que associar a ficha com os versos:

Era uma velha que tinha nove filhas.
Foram todas comer biscoito.

 ... com as fichas com os versos:

Deu um tangolonomangolo numa delas
E das nove ficaram oito.

As crianças aí têm que descobrir que podem se apoiar na rima de biscoito com oito. Essa, em si, já é uma boa atividade de reflexão sobre a escrita. Pode-se explorar esse pareamento primeiro na oralidade e só depois tornando observável a grafia semelhante das palavras que rimam. Deixa ver primeiro se as próprias crianças não descobrem isso...

Para encontrar o par de rimas, caso o professor informe de que estrofe se trata, as crianças podem considerar a pauta sonora das palavras que rimam naquela estrofe, associando o que sabem de cor ao escrito, apoiando-se também na versificação (descobrem oralmente que são duas palavras no final dos versos) ou podem considerar a própria grafia semelhante das duas palavras. É interessante observar as estratégias que as crianças usam para tentar dar conta da tarefa e provocar gradualmente a prestarem atenção, oral ou graficamente, nos aspectos que podem ajudá-las a resolver o problema.

No caso de fatiados em versos, por sua vez, podemos propor a cada mesa uma estrofe ou dar tudo misturado para todos, vai depender do nível de leitura das crianças. Aí, para descobrirem a ordem, as crianças poderão considerar os numerais, as rimas e outros elementos que terão que prestar atenção, como por exemplo, onde a palavra tangolomango aparece na estrofe, atentando à relação da pauta sonora (o que sabem de cor da estrofe) com a grafia das palavras nos versos.


Evidentemente, cada proposta dessas depende do domínio que as crianças têm da leitura. Será muito fácil ordenar estrofes para aqueles que podem ler com certa autonomia e muito difícil ordenar os versos para aqueles que ainda não têm recursos para identificar palavras por meio de estratégias diversas. É preciso conhecer bem suas crianças para propor para cada agrupamento aquilo que será ao mesmo tempo desafiante e possível de ser feito com certa autonomia, ou apoiado nas interações entre elas e com o professor.

Temos que lembrar também que o reconhecimento de palavras por essas estratégias não é uma adivinhação aleatória, mas uma pesquisa inteligente, na qual a criança deve considerar tudo o que sabe sobre letras e sons, para tentar descobrir o que não sabe ainda. Para se constituir, de fato, em uma exploração que implica em reflexão, estratégias, pesquisa, resolução de problemas, e não numa tentativa de adivinhação, é importantíssimo saber para que crianças propor que desafios de leitura.

Outras atividades de linguagem...
Para crianças que já têm uma possibilidade maior de leitura e escrita, já alfabéticas, sugiro desafiá-las com outras atividades, como escrever o tangolomango que já sabem de cor, ler novos tangolomangos, reescrever mudando as situações, os motivos dos sumiços e, consequentemente, as palavras que rimam com os números.

Uma atividade bem interessante para essas crianças é descobrirem outras tantas palavras dentro da palavra TANGOLOMANGO, misturando suas letras. Essa desmontagem e remontagem de palavras podem ser feitas com letras móveis – é a melhor forma – ou no papel mesmo. Para começar é preciso esclarecer que não é necessário usar todas as letras, que as crianças podem formar palavras com várias quantidades de letras, e que podem colocar as letras em qualquer ordem. É bom também combinar que tipos de palavras eventualmente não valem. Valerá nome próprio? Interjeições? Onomatopeias? Isso vocês é quem decidem... Elas podem fazê-lo em duplas, em trios, é melhor, pois assim trocam ideias sobre as possibilidades e sobre a grafia correta das palavras. Observar as estratégias que usam para encontrar as palavras é uma fonte riquíssima de informação para o professor a respeito de como as crianças estão pensando. E pode ajudá-lo a perceber que intervenções podem ser produtivas para levá-los a novas descobertas. Depois de terminada a tarefa, as palavras encontradas por cada grupo podem ser compartilhadas e será bem interessante observar junto com as crianças os que uns e outros encontraram e outros e uns não...

Segue abaixo uma lista com algumas palavras formadas com letras da palavra tangolomango, tente encontrar outras! 
  • Com 3 letras: ano, ato, gol, mal. 
  • Com 4 letras: gato, gana, galo, gola, gago, gomo, goma, gota, lago, logo, lata, mago, moto, mano, mato, mata, mala, mana, talo, tolo, lona, nata, nato, nona, alma. 
  • Com 5 letras: lagoa, manga, manta, manto, natal, tango, longo, gnomo, magoa.
  • Com 6 letras: mongol, Angola. 
  • Com 8 letras: angolano. 

Você pode conferir mais algumas palavras nesse link, aqui. Mas observe que este é um site que forma palavras e não-palavras, é preciso observar o que, de fato, é palavra na nossa língua, ok? E nem todas são do universo das crianças, precisa considerar isso também.

Outra proposta divertida e interessante para a reflexão sobre a escrita é a de ir comendo as letras da palavra tangolomango e ir tentando ler, vendo quando dá para ler (palavras existentes ou pseudopalavras) e quando não dá para ler (porque apresenta ordens de letras não possíveis na nossa língua, como ngolomango) – e mesmo assim tentar. Pode ser bem engraçado! É uma boa oportunidade de discutir sobre palavras que têm um sentido na língua, palavras que não o são, mas que dão para ler, restrições de certas junções de letras na língua...enfim, várias coisas, até o fato de que o que é restrição em uma língua pode não ser em outra. O ng juntos aparece em línguas africanas, por exemplo. E o que é não-palavra em uma língua pode ser em outra. GO, por exemplo, não é nada (salvo se considerarmos as siglas) em português, mas é o verbo IR em inglês... Mas vamos ver a brincadeira?

TANGOLOMANGO
ANGOLOMANGO
NGOLOMANGO
GOLOMANGO
OLOMANGO
LOMANGO
OMANGO
MANGO
ANGO
NGO
GO
O

E de trás para frente:
TANGOLOMANG
TANGOLOMAN
TANGOLOMA
TANGOLOM
TANGOLO
TANGOL
TANGO
TANG
TAN
TA
T
E misturando, tirando umas do início, outras do fim... Nossa! Quanta palavra! Dá até para escolher algumas para fazer uma história maluca – quem sabe até sobre um comedor de letras –, e usá-las como nomes de personagens, lugares... e o que mais a imaginação inventar!

E a matemática?

Bom, o tangolomango, evidentemente, é também muito produtivo para certos conceitos e operações matemáticas. A contagem regressiva e a subtração sucessiva são aspectos que logo vêm a nossa mente. De subtração em subtração, as crianças podem ir fazendo o caminho decrescente dos dez primeiros algarismos, em situações diversas, bem divertidas. A contagem de um a dez (ou o que for) também está presente aí, quando for o caso de crianças menores. E os personagens podem ser desenhados, cada desenho enfileirado com cada quantidade e numeral, enfim, uma série de propostas relativas à contagem e comparação das quantidades. 

Mas outros aspectos do pensamento lógico-matemático passeiam entre os tangolomangos, como a reversibilidade do pensamento, a seriação e classificação, operações que fazem parte da construção do número pelas crianças. E podem inspirar muitas situações problemas.

A partir dos textos, o professor pode  ir provocando a reflexão e a contagem decrescente através de questionamentos: quantas eram as irmãs? O que aconteceu com a primeira? Quantas ficaram? O que aconteceu com a segunda? Quantas ficaram? Depois pode inventar outros problemas matemáticos orais como, por exemplo: eram dez irmãs, oito foram comprar biscoito, voltaram apenas cinco. Quantas tiveram tangolomangos no caminho? Esses problemas orais podem ser depois escritos pelo professor, digitados. Respondidos e ilustrados pelos alunos, pode virar um livrinho bem legal!

Jogos
Vários jogos que trazem os números de um a dez podem também ser propostos nesse clima de um a dez, dez a zero, de relações entre os números desse intervalo. Desde juntar o numeral escrito com quantidades de coisinhas, de objetos de uma coleção, começar com dez coisinhas e ir retirando uma a uma... ou ir jogando o dado e ir retirando (ou com fichas escrito  – 1 ou – 2)...

Isso lembra um jogo que chama Tira e Põe, que as crianças jogam lá na escola em que trabalho. Cada criança joga com uma caixinha, cada caixinha com uma quantidade igual de grãos, sementes ou palitos; jogam em duplas e vão jogando o dado, ou dois dados somando as quantidades, no caso de dois dados, e retiram da caixa a quantidade indicada no dado (ou pela soma dos dados). Depois recolocam. Ganha quem primeiro reencher sua caixinha. A quantidade de grãos e o uso de um ou dois dados dependem do grupo em questão, das possibilidades das crianças. Para jogar em grupos maiores, de 4 ou 5 crianças, pode-se propor que cada criança derrube a quantidade de grãos (ou palitos, fichas, sementes...) de sua caixa numa caixa maior no meio da mesa (todos devem ter a mesma quantidade, tipo 10 ou 20) e sucessivamente joguem os dados e retirem da caixa grande a quantidade indicada pelo dado, colocando em sua própria caixa. Ao final da partida, quando todos os grãos da caixa do centro terminarem, cada um deve contar os grãos de suas caixas, os resultados marcados em uma tabela e, depois de verificar quem ganhou em 1º, 2º e 3º lugares (pela quantidade de grãos), o grupo deve combinar quantos grãos devem ir devolvendo para os outros para que, no fim, todos fiquem com a mesma quantidade de grãos em suas caixas novamente. Essa combinação precisa da intervenção do professor, para ajudá-los a decidir quantos grãos quem deverá dar para quem. É uma tarefa e tanto!!!

Desse jogo pode-se partir para outro, chamado Dobradinha, mas nesse caso jogar uma Dobradinha simples. Cada jogador (jogo em duplas) com dez marcadores (palitos, grãos...) deve lançar o dado na sua vez ou cada um com um dado, lançam simultaneamente. O que tirar o menor valor deve dar ao colega a quantidade que representa a diferença entre os dados. Por exemplo, se no lance dos dados um jogador tira 6 e o outro 2, este deve dar quatro (6-2) de seus marcadores ao colega. Cada um joga uma vez. Quando os dez marcadores de um dos jogadores acabar, ele deve controlar as dívidas e devoluções anotando-as em um papel. O desafio é grande aí, pois as crianças passam a operar sem o material concreto, com a noção de número negativo, fazendo muitas contas de adição e subtração para isso. Cálculos mentais ou apoiados em seus registros. Mas é muito instigante e dá muita flexibilidade ao pensamento! O registro deles no papel deve ser livre, seja com a representação dos marcadores (desenhos de palitos ou bolinhas) ou com numerais mesmo. Dependendo da turma, dá para experimentar... Jogando bastante vão certamente aprimorando suas estratégias de cálculo e se dando conta de muitas coisas envolvidas nessas operações. Para os maiores, a ideia é sempre dobrar os dados, por isso Dobradinha (6 e 2 viram 12 e 4, e a diferença é 8 ou, pensando de outro jeito, 6-2 é 4, o dobro é 8!). O jogo pode se desenrolar até um tempo e, no final daquele tempo combinado, vence quem estiver com mais marcadores, sem dívidas. Pode ser também estipulado um valor máximo de dívida - como 10 - quando, então, o jogo acaba. O Dobradinha tradicional, para as crianças maiores, funciona do mesmo jeito, exatamente a mesma coisa, só que com maior número de marcadores e dobrando-se o dado (se tiro 6, conto 12, e meu colega tira 4, conta 8), aumentando o número de operações que devem fazer com os valores nos dados e de cálculos das dívidas, com valores maiores.

Um jogo que muito combina com a ideia do tangolomango é o jogo proposto no Caderno de matemática 3 do PNAIC, "Construção do sistema de numeração decimal", o jogo Nunca Dez. É um jogo de trocas, em que cada jogador, a partir de lances de dados, vai juntando unidades de algum material (palitos, canudos, etc) e quando forma dez é preciso trocar por outro elemento que represente a dezena (palito maior, canudo de outra cor, etc). Esse é um jogo que joga-se muito lá na escola em que trabalhei a vida toda, na qual meu filho estuda, mas lá joga-se em diversas bases, não apenas na base 10. Chama-se Jogo do Troca, e joga-se em diversas variantes,  com diversos materiais, estruturado de diversas formas, umas variantes são mais  simples, outras mais complexas. O objetivo é que as crianças entendam o sistema de trocas que está na base do sistema numérico e façam muitos cálculos mentais. Joga-se com a base 5, 6, 10, enfim, variando as bases. O Jogo do Troca merece um post só para ele, prometo fazer futuramente.


Outro joguinho, mais simples que o Dobradinha, joga-se com dois dados, que podem ser os tradicionais com as bolinhas indicando o número ou com o numeral mesmo indicado nas faces. É um jogo sem competição, cada um joga os dois dados de vez e efetua somas, subtrações e até multiplicações, no sentido de pensar nas somas sucessivas (duas vezes cinco, quer dizer contar duas vezes o cinco, que dá dez, cinco mais cinco). Dá até para fazer divisões simples, especialmente por dois (6 dividido por duas pessoas, 3). O desafio é propor uma conta. O jogo vale por si só, não precisa anotar as contas em linguagem matemática ainda.

Um jogo legal também é o Jogo das Somas, com um tabuleiro simples de nove quadrados dispostos como na foto indicada e fichas com os números de 1 a 9. As fichas com os números de 1 a 9 devem ser colocadas nas casas de modo que cada número da fila superior seja a soma dos números da fila debaixo daquela em que se apoia. É um desafio e tanto, além das somas que precisam ser feitas!


Já no Jogo dos Doze, a ideia é fazer somas até 12 utilizando-se de dois dados, um tabuleiro com numerais de 2 a 12 e marcadores de duas cores ou tipos diferentes (fichas, pinos, grãos ou sementes diferentes). Joga-se em duplas. Cada jogador escolhe seu tipo ou cor de marcador e guarda para si. Cada um na sua vez, os jogadores jogam os dois dados e somam os números indicados nas faces. O jogador coloca no tabuleiro um de seus marcadores em cima do numeral que representa o número obtido dessa soma. Se a soma dos dados for 4 (3 + 1), por exemplo, o marcador deve ser colocado em cima do numeral 4 no tabuleiro. E assim passa-se ao outro jogador. Quando os valores estão mais baixos, pode-se optar por lançar apenas um dado. 

Quando a soma der como resultado um mesmo número que já havia sido marcado no tabuleiro, seja pelo próprio jogador ou por seu adversário, o jogador deverá passar a sua vez. Pode combinar várias opções para descobrir o vencedor. Pode ser aquele que marcar mais casas, mas pode também ser aquele que conseguir primeiro alinhar três de seus marcadores na horizontal, na vertical ou na diagonal. Em ambos os casos o que determina quem vence é a sorte (do lance dos dados ou do alinhamento de marcadores), não a possibilidade de fazerem suas somas. Jogando, vão perceber que várias combinações permitem que se chegue a um mesmo resultado, como para chegar em 6, pode ser 5 + 1, 4 + 2, 3 + 3. Joaquim adora esse jogo e descobre muitas coisas. Já sabe que para ter doze, com o lance dos dados, a única possibilidade é 6 + 6, "porque não tem no dado 10, para ser 10 + 2, né, mãe?"...Já sabe que para obter 2 pode jogar com um dado só, mas pode também jogar dois e cair 1 + 1... Já está percebendo que para um mesmo resultado há várias possibilidades de soma...Já está começando a perceber que qualquer número mais um dá sempre o número seguinte na série numérica... Enfim, lá vai ele, passando da contagem nos dedos ao cálculo mental e à familiaridade com as somas até 12... Ah, de início é bom jogar com dados tradicionais, em que podem visualizar bem as quantidades, mas depois podem ser introduzidos dados com os algarismos escritos nas faces, aumentando mais o desafio. 

Perfeito para perceberem que várias somas diferentes podem chegar a um mesmo resultado é também o famoso jogo Feche a Caixa, que trabalha estratégia e essa ideia de várias formas de se chegar a um mesmo resultado, com muito cálculo mental! Esse jogo já existe industrializado, mas é bem simples de fazer com papel mesmo, a exemplo desse da foto. 


Joga-se com a sequência de numerais de 1 a 9 e dois dados. Os jogadores devem lançar os dois dados ao mesmo tempo e somar suas faces. O jogador deve então procurar um meio de marcar uma ou duas fichas/numerais que deem a soma dos dados. Por exemplo, se ele tirar 4 nos dois dados, dá 8, se a caixa do oito já estiver fechada, deve procurar outro meio de marcar 8, fechando duas casas. Mas não há dois 4 na sequência, então ele pode marcar o 5 e o 3 ou o 7 e o 1. Se tirar 7 e 1 nos dados, mas o 7 já estiver fechado, então tem que procurar outro meio para chegar a 8, como fazer 6 + 2, por exemplo. Fechar a caixa significa eliminar  um ou os dois numerais escolhidos da sequência (no tabuleiro mais elaborado, abaixa-se a lingueta com os numerais eliminados, no de papel, pode simplesmente baixá-lo, prender, de modo a não ficar mais visível). O mesmo jogador continua jogando os dados enquanto for possível usar a soma dos dois para fechar caixas - uma ou duas. Ah, e uma vez fechadas as casas 7, 8 e 9, passa-se a lançar somente um dado e a cobrir o numeral que ele indica. O jogo segue até que não seja mais possível avançar, fechar casas (ou caixas, como se diz no jogo)... Assim, sua vez acaba se você não puder mais fechar uma ou duas caixas. Cada jogador, ao terminar sua jogada, deve registrar a soma das caixas que não foram fechadas, que representa os pontos perdidos, passando a vez ao adversário. Isso aos poucos vai indicar a estratégia de fazer as somas utilizando-se, quando possível, as casas mais altas, para somar menos pontos negativos. Após a contagem dos pontos negativos (caixas que não foram fechadas), passa-se então o tabuleiro para o outro jogador (se for tabuleiro de papel, ele poderá ter o dele). Quem atingir primeiro 45 pontos negativos, em várias jogadas, perde o jogo. Pode também começar o jogo cada jogador com 45 pontos e esses irem diminuindo.

Veja aqui uma versão das regras e até uma ficha pronta para imprimir, se quiser. Mas na internet tem várias opções, pesquise! Na Nova Escola tem uma versão para jogar on-line,  muito bacana, confira aqui. Você pode jogar com um amigo ou jogar sozinho com dois nomes diferentes e ver qual ganha.

Bom, se seu grupo já reconhece a linguagem matemática das sentenças de somas e subtrações, pode ser proposto também um Bingo de Contas, colocando-se nas cartelas várias contas de adição e subtração. Na mesa deve haver fichas com as respostas a essas contas (cada resultado deve aparecer nas fichas quantas vezes ele aparece nas contas de todas as cartelas, por exemplo, se houver sete contas espalhadas nas cartelas diferentes cujo resultado é 6, devem haver sete fichas com o numeral 6, além do 6 do conjunto que será usado exclusivamente para cantar os números). O professor canta um dos resultados e cada jogador deve então procurar essas fichas quando em sua cartela houver uma conta que dê o resultado cantado pelo professor. Por exemplo, o professoro canta 6, se o jogador tiver em sua cartela alguma dessas contas: 5+1, 6+0, 3+3, 4+2, ou 7-1, 8-2..., ele deve marcar com a ficha indicando o numeral 6.  O jogo acontece como um bingo comum, quem preencher a cartela deve gritar Bingo! Cuidado ao preparar as cartelas para não colocar mais de uma conta com o mesmo resultado em uma mesma cartela, privilegiando o jogador que a tiver. Pode-se jogar em duplas, cada dupla com uma cartela, um ajudando o outro. Também aqui nesse jogo, além do cálculo mental, fica bem observável que operações diferentes podem chegar a um mesmo resultado.


Bom, como esses, há muitos outros joguinhos, bem interessantes, inspirados na brincadeira com os números de um a dez ou dez ou nove a zero... Mas acho que por ora já dei bastante dicas, não é? Minha gente, antes de gostar de leitura e escrita eu era louca – e sou ainda – por Matemática. Mas por essa Matemática gostosa! Cuido dessa área também na escola e lá o jogo é um dos pilares do trabalho com a Matemática. Esses foram apenas alguns, possíveis para as crianças nessa fase de início das operações e das aventuras com números e letras...

E ainda a linguagem...
Por fim, e voltando à linguagem, que tal experimentar fazer um tangolomango com as crianças? Pensar nos personagens, em rimas inusitadas com os numerais, nas situações que resultarão no desaparecimento sucessivo dos personagens, na estrutura das estrofes e versos... e no modo, se for o caso, que a situação vai se inverter e todo mundo voltar ou seja lá que fim vocês quiserem! Inventar coletivamente pode ser bem divertido. Vão escrevendo, no quadro ou no caderno, acolhendo sugestões das crianças, ajustando as estrofes à medida que o texto segue... enfim, uma atividade de produção textual, em um gênero com regras bem próprias (ritmo, rimas, versos), mas também com várias coisas a inventar! Para os que já escrevem, e dependendo da turma, talvez seja legal tentarem também em duplas ou em pequenos grupos.

Para inspirar, vejam um tangolomango inventado por Rosana Pamplona é o “Tangolomango das Bruxas”, que saiu na Revista Crescer. Veja abaixo! Algumas rimas são iguais à que aparecem frequentemente, como oito/biscoito, inglês/seis... outras são mais inusitadas...

TANGOLOMANGO DAS BRUXAS 

UMA BRUXA MUITO VELHA
TINHA UMA FILHARADA 
ERAM DEZ BRUXAS BEM FEIAS 
SÓ FAZIAM TRAPALHADA!

DAS DEZ FILHAS DA VELHA BRUXA 
UMA DELAS ERA ESNOBE 
DEU O TANGOLOMANGO NELA 
E SÓ FICARAM NOVE! 

DAS NOVE QUE FICARAM 
UMA ROUBAVA BISCOITO 
DEU O TANGOLOMANGO NELA 
E SÓ FICARAM... OITO! 

DAS OITO QUE FICARAM 
UMA PEGOU O CANIVETE 
DEU O TANGOLOMANGO NELA 
E SÓ FICARAM... SETE! 

DAS SETE QUE FICARAM
UMA XINGAVA EM INGLÊS 
DEU O TANGOLOMANGO NELA 
E SÓ FICARAM... SEIS! 

DAS SEIS QUE FICARAM 
UMA SE TRANCOU COM TRINCO 
DEU O TANGOLOMANGO NELA 
E SÓ FICARAM... CINCO! 

DAS CINCO QUE FICARAM 
UMA FEZ CAIR O PRATO 
DEU O TANGOLOMANGO NELA 
E SÓ FICARAM... QUATRO! 

DAS QUATRO QUE FICARAM 
UMA FOI PARA O XADREZ 
DEU O TANGOLOMANGO NELA 
E SÓ FICARAM...TRÊS! 

DAS TRÊS QUE FICARAM 
UMA CORREU NO MEIO DAS RUAS 
DEU O TANGOLOMANGO NELA 
E SÓ FICARAM DUAS! 

DAS DUAS QUE FICARAM 
UMA MERGULHOU NA ESPUMA 
DEU O TANGOLOMANGO NELA 
E DAS DUAS FICOU UMA! 

A ÚLTIMA QUE FICOU
JÁ NÃO VALIA MAIS NADA 
DEU O TANGOLOMANGO NELA 
E ACABOU-SE A BRUXARADA! 


Outro inventado, que já indiquei, mas indico de novo, é o de Ângela Lago, o Tangolomango dos ETs. Para quem não viu, é aqui. 

Vejam um exemplo de texto enumerativo decrescente inventado pelas crianças: 


Bom, minha gente, é isso aí... Acho que agora posso dar um tangolomango por um tempo, para terminar minha Tese, né? Não estou devendo mais esse post tão prometido e posso agora dar um tempinho. Espero que aproveitem bem!

Beijos, fui!
Lica

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Apropriações do tangolomango


Os textos da tradição oral tem sido uma rica fonte para os autores de literatura infantil criarem suas obras, sejam narrativas ou poéticas. Contemporaneamente, a literatura infantil ganhou muito em beber na fonte da tradição oral no que diz respeito a um ludismo gratuito, à escrita atravessada pela oralidade e às sonoridades que lhes são próprias. Muitas vezes o diálogo com essas fontes tomam ares de intertextualidades mais atestadas mesmo, quando parlendas, cantigas, trava-línguas, adivinhas, quadrinhas, acalantos, são retomados de modos diversos nas recriações dos autores. É comum os autores resgatarem brincadeiras orais da cultura popular para as páginas de seus livros ilustrados. Esse é o caso também dos tangolomangos. 

É importante, no entanto, saber selecionar bem os bons textos, as boas reapropriações, pois há igualmente muita produção no mercado editorial que apenas repetem fórmulas já consagradas, juntando-as a ilustrações por vezes sem muita qualidade, sem ressignificar e recriar, de fato, esses textos que usam como fonte, seja com as modificações que introduzem, seja no diálogo que estabelecem com as ilustrações. O bom senso é uma ótima bússola, mas há também que olhar os autores envolvidos, o cuidado com a edição e ilustração, enfim, uma série de critérios que possam nos ajudar a separar o que realmente vale à pena.

O tangolomango - ou a sua estrutura versificada, enumerativa decrescente, essa parlenda mnemônica de contar para trás - é revisitado e utilizado em diversos livros atuais, dentre os quais indicamos alguns. Os autores aí reinventam a brincadeira tradicional do tangolomango, cada um ao seu modo. Cada um traz a sua versão, com sua maneira própria e especial de contar a história desse sumiço gradativo. A palavra tangolomango pode estar ou não presente nessas parlendas reinventadas. O que vale ressaltar é a presença de elementos básicos desse tipo de estrutura: o número de estrofes, os versos rimados e ritmados, a enumeração decrescente...

É interessante que em muitos desses livros, no final, algo acontece, de mágico ou não, e os personagens voltam a ser dez...ou mais... Será porque poderia ser um pouco triste para as crianças terminar com todo mundo desaparecido? Será que a ideia subtrativa, de sumiço, que remete à morte, ao vazio, à doença, à solidão, seria considerado muito frustrante para os pequenos? Talvez! É uma possibilidade que, sendo para crianças, prefira-se apresentar uma redenção, um recomeço, um desfeitiço, uma volta populosa dos personagens quase perdidos... Assim como, no geral, nessas apropriações do tangolomango parte-se de dez,  e não de nove, parece que não se quer terminar em zero...em nenhum... Mas às vezes termina...

Alguns desses textos apresentam motivações tão pouco próximas aos tangolomangos tradicionais, a sua natureza mágica ou mórbida, que poderíamos até questionar se podemos nos referir a eles como tangolomangos ou se são simplesmente textos enumerativos decrescentes... Não sei...Afinal, o princípio de numeração regressiva está presente em rezas e textos muito diversos, não necessariamente tangolomangos, mas, por outro lado...os tangolomangos bem podem "esquecer" a sua origem mesmo, como vimos no post anterior, não é? 

Bom, mas vamos às sugestões! 

Começo com “Chá das dez”, de Celso Sisto (editora Aletria). O livro conta a história de dez velhinhas, bem arrumadinhas, que saíram juntas para um chá. Mas, até chegar ao destino, elas passam por várias situações corriqueiras e... “Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, duas... Só uuuma? Então, que tal tomar um chá, com uma só velhinha...?” – lê-se na contracapa. O autor não usa a palavra tangolomango, mas a estrutura é completamente similar aos tangolomangos. No final, como as situações dos sumiços não eram irreversíveis, as velhinhas voltam a ser dez! Ver site do autor. E você pode ler a história aqui. 

No livro “A casa das dez furunfunfelhas”, de Lenice Gomes (editora Mundo Mirim), a trama já é mais retrabalhada, pois cada velhinha furunfunfelha, na sua vez, diz um trava-língua e isso causa o tangolomango nelas. Aqui a palavra tangolomango, de fato, aparece, bem como o sentido de feitiço que ela evoca. Elas são enfeitiçadas, uma a uma e, depois, para acordá-las, só com adivinhas. O velho Félix, com seu fole e suas adivinhas, consegue trazer todas de volta do tangolomango... e salva as dez irmãs! Assim, além do tangolomango, o livro traz outros gêneros da tradição oral no texto.

No livro “Dez Sacizinhos”, de Tatiana Belinky (Dobras da Leitura), os sacis saem da mata e se espalham pela praça, passam debaixo do arco-íris, nadam na praia e andam de fusca, bem danadinhos, urbanos, brincalhões. Um a um, vão  todos saindo de cena. E se esconde na paisagem (mas não muito) alguém que a gente não sabe se tem a ver com o sumiço ou não. Quem será?  

O livro “As dez filhas do seu João”, de Fábio Sombra (Abacatte Editorial), foi ilustrado pelos tapetes do grupo Costurando Histórias, que também os usam em suas contações. Olha um aí abaixo:


Veja o site do autor e o do grupo.  

O autor diz ter revisitado o tangolomango de origem portuguesa, As Marrafinhas, que na verdade se inicia com 24 Marrafinhas, caem para 12 e daí vai decrescendo uma a uma através do “tangomango”. Para mim, é um tangolomango como outros...Ver uma versão das Marrafinhas aqui. 

O livro “Os dez patinhos”, escrito e ilustrado por Graça Lima (Companhia das Letrinhas), conta as estripulias de dez patinhos irmãos que não param quietos. Cada vez um se distrai com alguma coisa e sai de cena. E no final, quando reaparecem, cadê o décimo patinho? 

É um livro bacana para crianças pequenas, pois além da linguagem, dos personagens, das motivações dos sumiços dos patinhos, bem apropriados a crianças menores, mostra uma comparação da quantidade de patinhos e traz também, no final, um jogo de trilha, de tabuleiro, com os patinhos disputando para ver quem vai chegar primeiro.



Um livro que traz a expressão tangolomango é o “Tangolomango da Massa”, de Aléxia Linke e Tana Halú, livro de produção independente desses autores de Roraima, que tive a chance de ler e ter, graças a minha amiga Leuda Evangelista, da Universidade Federal de Roraima, que, sabendo da produção desse post, quando estávamos em um Encontro do Trilhas aqui na Bahia tinha, por acaso, alguns exemplares em mãos! Que coincidência, heim? Valeu, Leuda!

Aléxia traz uma adaptação do tangolomango popular tradicional, mas no fim – como em alguns livros já citados – a situação se inverte e os personagens voltam de seus tangolomangos intactos! O diferencial desse livro é que as ilustrações foram todas feitas com massa de modelar, por Tana Halú.

Um livro que traz essa repetição por subtração própria aos tangolomangos, mas sem ser tangolomango de fato, é o livro “Eram Cinco”, de Ernst Jandl, escritor austríaco, lançado no Brasil pela Cosac Naify. Fala de cinco brinquedos numa sala de espera, cada qual com sua mazela e, de um a um, vão entrando e saído, cada vez um a menos, que restam esperando o atendimento atrás daquela porta de onde sai uma luz... 

Outro desse tipo, muito legal, é o "Dez numa Cama", de Penny Dale (Edições Asa, Portugal). Um menino numa cama apertado com um monte de seus bichinhos, vai chegando para lá e cada vez um cai.  Baf, tumba, bum, pim, crás, e vão caindo todos os animais. Cada vez que um cai, uma onomatopeia, o que é muito interessante, tanto para dar colorido à leitura da história, quanto para pensar nos sons e sua grafia. No fim, o menino fica só e quer todos de volta na cama... Dica bacana de minha amiga e parceira, fiel escudeira de sempre, Ana Antunes. Valeu, Aninha!

Outro livro que achei recentemente foi o "Todos no Sofá", de Luísa Ducla Soares (Livros Horizonte). Dez amigos bichos estão num sofá, e cada um vai, saltando de lá... e...

Dá para vê-lo aqui: 

 
O Livro "Sete patinhos na lagoa", de Caio Riter (Biruta), traz um texto menos próximo da oralidade - como é comum nesses livros de contar e nos tangolomangos - apesar das rimas e estrutura em versos, meio em quadra. A narrativa é mais rebuscada, a linguagem escrita bem trabalhada,  com vocabulário mais denso, e traz várias ações entre uma engolida e outra dos patinhos pelo jacaré. Assim, se distancia mais da estrutura de tangolomango, mas continua tendo a ideia de enumeração decrescente. Tem belas imagens, do ilustrador Laurent Cardon. 

Da escritora Anna Flora, tem o livro “Cada macaco no seu galho”, da coleção “Macaco Disse”, com ilustrações de Claudio Martins (Formato). Se cada macaco tem seu galho, imagine quando os galhos são cortados...o livro não deixa de dar seu recado nesse sentido ecológico. Além do próprio texto na estrutura de tangolomango, o livro traz um glossário com diversas espécies de primatas e páginas com brincadeiras para cortar, colar, montar.

Em “Números Assombrados”, de Flávia Muniz (Girassol), gostei do fato de os personagens serem da turma dos monstros, do terror. Terror engraçado... Eles passeiam de trem fantasma e a cada momento vai descendo um, por algum motivo. No fim, quando restam dois – surpresa! – só lendo para ver, mas o trem fica lotado!!! Uma saída diferente... 

Meu filho ganhou um livro que se chama “Os dez monstrinhos”. Não é brasileiro, é inglês, mas foi editado aqui pela Lafonte. É bem infantil e já desconfio logo, pois não traz o nome do autor, que descobri na internet, Sally Hopgood. O livro é daqueles que têm furos nas páginas cartonadas e, nesse caso, pelos furos vemos os olhinhos dos monstros. E a cada virada de página, um se esconde. 

Começa assim: “Dez monstrinhos estão escondidos no meu quintal. Eles não sabem se esconder muito bem, então encontrá-los não será difícil!”.  Eles vão desaparecendo aos poucos, vão sendo vistos sempre um a menos e, no final, reaparecem num pop-up, como presentes numa caixa. Não tem lá nada de muito especial, mas me pareceu legal para as crianças bem pequenas, pela linguagem, o tipo de sumiço e o reaparecimento efusivo do final.

Gente, dia desses vou fazer um post de livros de monstros, é tanta coisa!!!

Através da pesquisa que fiz desse livro, descobri que em inglês tem muitos livros assim – e muitos começam com cinco! São livros de “countdown”, ou seja, de contar de trás pra frente, de dez ou cinco para zero. Não dá para saber se todos os livros de contagem que vi são de estrutura enumerativa decrescente, mas já dá para notar que ela também aparece em produções de países anglofones. Há muitos livros desse tipo, de contar de um a dez, de dez a zero, ou para frente e para trás. 

Alguns desses foram editados em português, sempre com esse formato de papel cartonado, furos, os bichinhos se encaixando nos furos, e terminando em pop-ups – que os pequenos adoram! Como exemplo, cito os “Eram dez largartas” (ou cinco), “Eram dez girinos” e a versão “Eram cinco girinos”, todos assinados por Debbie Tarbett (Ciranda Cultural). São para os pequenos. Começam com dez ou cinco, vão sumindo página a página, concretamente, de seus buraquinhos... Ou seja, parece que, ao menos na Inglaterra, essa estrutura é muito usada em livros próprios para crianças menores. 

Sem contar aquela cançãozinha enumerativa dos dez indiozinhos, que aprendi na versão em inglês, quando menina e morava na Inglaterra, que vai de um a dez e depois, decrescente, de dez a um, como vocês podem ver aqui. Como essa, com a mesma melodia, tem “Ten red apples” e “Ten little apples”, a canção e vários livros, e por aí vai...

Falta ainda referir-me a um livro de Ângela Lago – escritora e ilustradora que aprecia muito os tangolomangos – chamado “A visita dos 10 monstrinhos” (Companhia das Letrinhas). Monstros, justamente! De novo eles!

Na verdade, não se trata de um tangolomango, pois não é uma contagem decrescente, mas de algum modo, flerta com essa estrutura. Os monstrinhos vão chegando, um a um, com rimas e jogos de palavras: “veio um, paratibum...e dois vieram depois. Chegaram três de uma vez... e quatro entraram no quarto”. E eles vão fazendo a maior confusão! Na ilustração, cada algarismo tem dentro de si o número de monstrinhos correspondente a ele e tem muitas outras sutilezas escondidas entre texto e imagem. É um livro legal para os pequenos, que estão aprendendo os números. Mas não é tangolomango...

Ah! Aliás, outra de números, mas que também não é decrescente é a brincadeira cantada da Tumbalacatumba: “tumbalacatumba, lacatumba laduê”... “Quando o relógio bate à uma...”, também chamada de Dança das caveiras... Para dicas de outros livros de contar, não necessariamente com estrutura enumerativa decrescente, veja esse post aqui, muito interessante. 

Mas voltemos aos tangolomangos...

Bom, como eu disse, e falando nela, Ângela Lago gosta dos tangolomangos e no seu site propõe um Tangolomango dos ETs. Ela diz fazer coleção de tangolomangos e pede que quem saiba um, envie para ela! Vejam! 

Por fim, vi recentemente uma espécie de tangolomango no livro “Ciranda Brasileira”, de Elias José (Paulus), no qual ele traz poemas e cordéis a partir de xilogravuras de J. Borges. Um deles é “O namorado matuto”, em estrutura de tangolomango – embora a expressão não apareça. O matuto tinha dez namoradas e foi perdendo cada uma de um jeito, até restar nenhuma e ficar “chupando o dedo”. Diferente, porém do que acontece geralmente nos tangolomangos, suas estrofes não trazem rimas. Mas a repetição de “só fiquei com x namoradas”, a cada vez, confere um ritmo ao poema.

Para terminar as sugestões, uma curiosidade, mas aí para vocês, adultos, pois para crianças não dá. Não dá mesmo, heim?! Trata-se do curta metragem, todo feito em massinha, chamado “Os irmãos Williams”, de Ricardo Dantas, que participou do Anima Mundi de 2001. Não é para crianças. Ao menos não deveria ser. Nem mesmo para as que convivem com essas realidades. É bizarrão, com conteúdo totalmente adulto, violência, drogas, e até meio macabro. Uma sátira no formato de telejornal, desses que noticiam tragédias. Mas pode ser divertido para adultos. Cito-o aqui, pois sendo uma espécie de tangolomango serve para mostrar o tanto de coisa que um tangolomango pode dar!

Se quiser conferir, aqui no site do Porta Curtas. Mas não digam que não avisei, rsrsrs!!!

Bom, gente, certamente muitos outros tangolomangos circulam por aí, tradicionais, autorais... Pode ser divertido ficar atento para reconhecê-los! E rápido, antes que sumam todos!!!

Quem conhecer outros livros, que nos diga aqui, heim? Comentem, contribuam! 

No próximo post, trago algumas sugestões de atividades e de material com os tangolomangos. Aguardem!

Abraço,
Lica