sábado, 27 de fevereiro de 2010

Jogos

Sobre o Bingo de Sons
A estrutura básica do jogo Bingo, que é um jogo antigo e tradicional, é utilizada em muitos desdobramentos na escola: bingo tradicional de números, bingo de letras, de palavras, bingo de contas, bingo de uma série de coisas. Realmente trata-se de uma estrutura interessante para se jogar considerando diversos aspectos.
Aqui o que se propõe é um bingo que considera os sons da língua. Aprender a prestar atenção aos sons, às unidades fonológicas de ordens diversas – sílabas, fonemas, unidades inter e intrasilábicas – é um dos aspectos importantes para a alfabetização, visto que o nosso sistema de escrita é de base fonológica, embora não se restrinja a esse aspecto. Falaremos mais sobre isso oportunamente.
O Bingo de Sons é um jogo que favorece a reflexão fonológica, sem presença do escrito. Os sons são associados às palavras oralizadas, não escritas, indicadas por figuras que as representam. Cada casa do bingo é composta por uma figura que representa uma palavra, devendo o jogador estar atento ao seu significante sonoro, não ao seu significado. Como as palavras não estão escritas, ao procurar se têm em sua cartela palavras com as características que o professor indicar, os jogadores precisam concentrar-se e apoiar-se apenas na pauta sonora, e não nas letras ou no significado das palavras.
Para compreender o alcance, os limites e a amplitude do jogo, é bom esclarecer que os fonemas são abstrações, não são exatamente os sons, a imagem acústica. A materialização sonora dos fonemas são os fones. Esse bingo traz unidades silábicas, unidades intrasilábicas (como os encontros consonantais tipo em "inicia igual a TRIGO) e certas unidades fonêmicas, mas apenas aquelas que podem ser, de algum jeito, serem pronunciadas isoladamente, como as fricativas. Isso porque, se os fonemas orais, representados pelas vogais, constituem sílabas e podem ser emitidos isoladamente, os fonemas consonantais não se isolam na fala, pois a fala é co-articulada, os sons consonantais são emitidos em articulação com os orais, formando as sílabas. A sílaba é constituída de um ou mais fonemas, pronunciados numa só emissão de voz, os fonemas não são pronunciados independentemente, a não ser os orais. Além disso, em cada palavra, um fonema pode ter nuances diferenciadas. É por isso que é tão difícil pronunciá-los sozinhos, isoladamente de outros fonemas.
Assim, devemos cuidar de quando incluir no jogo os fonemas consonantais, incluindo apenas os constritivos e, de preferência, dentre esses, aqueles chamados fricativos (/f/,/v/,/s/,/z/,/x/,/j/), por serem fonemas mais fáceis de serem isolados, esticados, pronunciados independentemente e de serem percebidos sem a co-articulação com a vogal. Também o /R/ e /r/ vibrantes, podem ser, em algumas circunstâncias, observados na corrente da fala. Mesmo assim não é fácil...
...mas dá para brincar com eles...
Como não há escrita em jogo, apenas a fala, esse Bingo pode ser jogado também por crianças nas etapas iniciais da alfabetização, ainda com hipóteses pré-silábicas, favorecendo que desloquem a atenção do significado para o significante das palavras. Elas não terão, no jogo, o desafio de relacionarem fala e escrita, que é o que, justamente, ainda não sabem, terão sim o desafio de prestar atenção nos sons das palavras.
Os sons do jogo podem ser de sílabas, de unidades maiores ou menores que a sílaba (como /-ão/, /-ola/, /tr/) ou de fonemas (/s/), e podem ser focalizados os sons iniciais (aliterações) ou os sons finais das palavras (rimas). As cartelas (com as figuras) e cartas (para serem “cantadas”) podem ser confeccionadas apenas focalizando os sons iniciais silábicos ou com fonemas orais (vogais). Nesse caso, aos poucos o Bingo pode ser trocado para ir dificultando aos poucos, incluindo depois sons finais e fonemas iniciais consonantais nas cartelas e cartas. Podem também ser confeccionados Bingos só de um aspecto (ex. sons iniciais, silábicos ou fonêmicos) ou um Bingo misturado, como o que está apresentado no post anterior desse blog.
Antes de jogar é importante que os alunos se familiarizem com as figuras da cartela, saibam do que se trata, associando as figuras a seus significantes sonoros, as palavras orais. O professor pode também conduzir algumas observações sobre as palavras que nomeiam as figuras, comparando-as, questionando sobre semelhanças sonoras. Essa exploração inicial permite que se centre a atenção dos alunos nos sons das palavras correspondentes às figuras, indicando o “espírito” do jogo, além de permitir que o professor observe como os alunos estão pensando e como poderão encaminhar reflexões durante o jogo.
O Bingo de Sons é um jogo que trabalha a consciência fonológica de forma lúdica e flexível. Mas não é um jogo fácil de jogar, não é tão fácil abstrair o significado e focar o significante. Não é tão fácil prestar atenção a todas as “palavras orais” a um só tempo, para verificar se há o som “cantado” pela professora em sua cartela. Não é tão fácil fazer isso de início, por isso, uma fase de exploração é indicada, com outras atividades mais simples de reflexão fonológica. Jogar em duplas, dois por cartela, é interessante, pois serão duas crianças prestando atenção às palavras orais da cartela.
Uma última observação: como bem nos ensina o rinoceronte Quindim (Emília no país da Gramática, Monteiro Lobato), letra não é som, letra é letra, som é som (fonema). O professor precisa também se familiarizar mais com os sons da língua, despindo-se de uma visão grafocêntrica que em tudo vê escrita. Quando for ler as indicações dos sons nas fichas, no caso de fonemas consonantais, cuidar para não pronunciar os fonemas como o nome das letras, juntando um fonema vocálico (som da vogal), tentando ao máximo focar o fonema apenas, embora isso não seja mesmo tão fácil e nem sempre possível.
Assim, do mesmo modo, é preciso estar atento ao fato de que o som /s/ inicial, por exemplo, tanto pode estar presente nas palavras sapo, sorvete, sino, quanto em palavras como cinto, cinema, cegonha. Costumo dizer para minhas alunas (e alunos, mais raros!) que nossa cabeça alfabetizada pode nos atrapalhar bastante ao abordar esses aspectos do ponto de vista dos que não sabem ainda ler e escrever convencionalmente. Explico: é comum em um jogo fonológico (sem presença do escrito) haver correções equivocadas do aluno, pelo professor, por considerar a escrita, não o som (por exemplo, se o professor disser que “cinto” está, nesse caso, errado, para o som /s/, pelo fato de estar considerando a letra S e não propriamente o som /s/). Assim, sugiro que joguem bastante o Bingo Fonológico com outras professoras, para se familiarizarem com ele antes de propor a suas turmas.
Para os que querem sempre que as palavras em um jogo estejam, de algum modo, contextualizadas, podem ser selecionadas para compor as cartelas as palavras de um texto, de um universo semântico, um campo lexical. Mas não necessariamente. Os jogos têm, por si só, uma natureza sociocultural e lúdica que é suficiente para justificar o uso de palavras aleatórias, escolhidas por suas características sonoras e sua possibilidade de representação visual nas cartelas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Jogos

Bingo de Sons
Misturado

Regras do Jogo
Jogo composto de cartelas com 6 ou 9 figuras selecionadas segundo as indicações das fichas e fichas com indicações sobre características sonoras das palavras, para serem lidas pela professora. Usar marcadores como grãos de feijão, peças de jogo, botões, sementes etc.
As cartelas são distribuídas entre os alunos, de preferência reunidos em duplas, e cada dupla deve, antes de começar a jogar, reconhecer as figuras da sua cartela, tendo em mente as palavras que representam, a forma sonora dessas palavras.
Depois desse momento exploratório inicial, o professor irá ler as indicações nas fichas, uma a uma, tiradas aleatoriamente, e dará um tempo entre a leitura de cada ficha para que os alunos procurem se tem alguma palavra com essas características em sua cartela.
O professor deve enfatizar, numa segunda leitura da indicação, o som que está sendo considerado (marcado nas cartas com negrito). No caso de fonemas consonantais, cuidar para pronunciar os fonemas e não os nomes das letras, procurando não juntar um fonema vocálico (som da vogal). Os fonemas incluídos no jogo são aqueles que podem ser “esticados” e, de certa forma, isolados mais facilmente.
As indicações podem ser de vários tipos:


“Rima com...” ou “Termina como...” (dar uma palavra. Ex: Sabão)
"Começa como...” ou “começa igual a...” (dar uma palavra)
“Termina com...” (dar o som final em foco. Ex: /ão/, /oito/)
“Começa com...” (dar o som: silábico /ma/, fonêmico /R/ ou de unidade menor que a sílaba /tr/)
Essa versão do jogo mistura sons finais e iniciais e diversas unidades sonoras (sílabas, fonemas, unidades maiores e menores que a sílaba), por isso chama-se "misturado".
Quando a dupla encontrar uma figura cuja palavra que a representa tem a característica “cantada” pela professora, deve marcar a casa com um marcador. A professora, passeando entre as duplas na sala, pode ajudar indicando que tal ou tal dupla procure melhor em sua cartela, quando houver uma figura não marcada e que tem as características do que está sendo “cantado”.

A dupla que preencher toda a cartela primeiro deve dizer: BINGO. E ganha o jogo. O jogo pode seguir, constituindo-se o segundo lugar, terceiro e assim por diante, sempre as duplas dizendo BINGO ao preencher a sua cartela.

Bom, gente, é isso! Mão à obra! Confeccionem seus Bingos, é muito legal. Podem fazer explorando apenas sons iniciais ou finais, ou misturado como esse. Podem fazer com 6 casas para iniciar e depois propor outro com 9 casas. Não é difícil fazer. Figuras pesquisadas no Google, cuidado para não repetir os mesmos sons numa mesma cartela, equilíbrio na distribuição dos sons nas cartelas, planejamento de que sons explorar e as imagens relativas a eles, confecção das fichas para "cantar" considerando isso.
Bom trabalho,
Lica

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Poema para brincar...

Ritmo
Mário Quintana

Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco
Na pia
a menininha escova os dentes
escova os dentes
escova os dentes
No arroio
a lavadeira bate roupa
bate roupa
bate roupa
até que enfim
se desenrola
a corda toda
e o mundo gira imóvel como um pião!

Muito se já se disse e muito se analisa sobre esse poema de Quintana. Ele realmente “dá pano pra manga”. É um poema aparentemente simples, mas garimpando aqui e ali, podem ser achados muitos vieses de por onde olhar. Por vezes vêem tanta coisa que até apagam o poema, a possibilidade de sua fruição. Por vezes, no entanto, aprender a ver alguns aspectos, ajuda a apreciá-lo melhor. Essa é uma discussão complexa!
Aqui, no entanto, vamos apenas brincar com ele... mas para isso, precisamos observar umas coisinhas...

Reparem que em sua estrutura, o poema traz repetições que ressaltam o tal ritmo de que fala o título. No conteúdo, repetem-se ações, na forma, repetem-se palavras, versos, estruturas sintáticas, sons. A repetição dos fonemas consonantais (aliterações) no interior de cada estrofe, em versos que se repetem também, é bem importante para reforçar o sentido e a graça do poema. E vejam que as três primeiras estrofes são idênticas na estrutura, criando o que chamam de “paralelismo sintático”:
Na porta... Na rua... No arroio....
A varredeira... A menininha... A lavadeira...
Varre o cisco... Escova os dentes... Bate a roupa... e mais a repetição da segunda parte do último verso duas vezes.
Na última estrofe, por sua vez, rompe-se essa repetição de estrutura, com um “até que enfim”, junto com a intenção de romper o ritmo repetitivo das ações cotidianas em seus gestos também repetitivos. O ritmo, no entanto, parece ser restituído pelo mundo que gira imóvel como um pião.
Dito isto, a brincadeira que sugiro, então, é a de criar novas estrofes, na mesma estrutura das três estrofes iniciais. Lembre de pensar em situações e ações que tornem a estrofe interessante do ponto de vista de ações que se repetem cotidianamente e, em si, exigem gestos repetitivos. Vamos tentar?!
Na feira
o pescador vende o peixe
vende o peixe
vende o peixe
Na escola
a professora apaga o quadro
apaga o quadro
apaga o quadro
Podemos tentar uns menos concretos, mais líricos ou mais subjetivos...
Na sacada
a velhinha vê a rua
vê a rua
vê a rua
Na janela
a mocinha chora a dor
chora a dor
chora a dor
Recitando as estrofes do poema de Quintana em voz alta, podemos também observar que com as escolhas fonológicas nos versos repetidos, são sugereridos sons relativos às ações apresentadas em cada estrofe. Em “varre o cisco”, a aliteração do fonema /s/, trazida pelas letras C e S, remete-se ao som da vassoura arrastando no chão... Em “bate a roupa”, a presença dos fonemas /b/, /t/, /p/ e sua aliteração dão a ideia da pancada da roupa batendo. Já no “escova os dentes”, a repetição e aliteração, também do /s/, em "escova" e em "dentes" evocam o som da escova.
Assim, para nossas criações de estrofes ficarem ainda mais bacanas, que tal tentar não só seguir a estrutura sintática das estrofes e a referência a ações repetitivas, mas também pensar em escolhas fonologicamente interessantes!? Pensei a minha assim:
No escritório
a secretária bate a tecla
bate a tecla
bate a tecla
Os fonemas /b/, /t/ e, especialmente, o fonema em encontro consonantal /cl/, nessa proposta, dá a ideia da tecla teclando, não acham? Agora tentem uma... Se gostarem, mandem! E tentem com seus alunos.
Lica

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Sobre as Oficinas


Aos que solicitaram que eu desse mais informações sobre as Oficinas que tenho organizado, lá vai:

As Oficinas se apresentam, geralmente, em três Módulos, organizados por blocos de materiais.
Os Módulos podem ser oferecidos separadamente ou sucessivamente:

· Módulo I: Materiais a partir de textos da tradição oral como parlendas, trava-línguas, quadras, cantigas, ditados populares, frases feitas, adivinhas.

· Módulo II: Materiais confeccionados a partir de textos de vários gêneros literários e audiovisuais, como fábulas, contos, lendas indígenas e africanas, histórias infantis, quadrinhos, desenhos animados, filmes de animação.

· Módulo III: Jogos diversos, com diferentes objetivos relativos à aprendizagem da escrita e leitura, como o aprendizado de letras, a apropriação do sistema alfabético, a consciência fonológica e a ortografia.

As Oficinas acontecem em dois formatos básicos: Oficina de Jogos e Atividades de Alfabetização e Oficina de Produção de Material para Alfabetização.

A Oficina de Jogos e Atividades de Alfabetização tem como objetivo conhecer, discutir, manusear, brincar e jogar com jogos e materiais próprios para o processo de alfabetização, confeccionados artesanalmente, discutindo sobre as bases teórico-metodológicas das atividades propostas a partir desse material.
Nas Oficinas, a proposta é familiarizar-se com materiais diversos, aprender regras de jogos, suas variantes, as possíveis adaptações aos diferentes níveis de leitura e escrita das crianças, constituindo-se, assim, um repertório de atividades de apoio ao planejamento de intervenções que visem à reflexão sobre o sistema de escrita alfabética em situações lúdicas e significativas.
Ao final da Oficina, os participantes terão familiaridade com um acervo considerável de ideias de atividades, de regras de jogos e de materiais funcionalmente e esteticamente interessantes para o uso em sala de aula, fáceis de serem confeccionados e embasados em firmes bases teórico-metodológicas.

A Oficina de Produção de Material para Alfabetização*, por sua vez, visa à confecção, pelos professores, dos kits de materiais e jogos de alfabetização, acompanhada de discussões sobre as possíveis atividades que podem ser planejadas com a sua utilização, considerando os níveis de leitura e escrita dos alunos. O material produzido servirá de apoio à prática do professor em sua tarefa de alfabetizar alunos em diferentes níveis de leitura e escrita, considerando diversos aspectos dessa aquisição.

O alcance e potencial de cada kit e jogo são discutidos em sua natureza de material pedagógico, bem como são explicitadas suas bases teórico-metodológicas, durante as Oficinas, a partir de discussões que dão consistência aos materiais produzidos. Além de confeccionados, os materiais são, na medida do possível, também utilizados para que os participantes possam melhor apreender suas potencialidades. O cuidado estético com a confecção dos materiais, as diversas possibilidades de composição e apresentação, assim como sua conservação e organização visando à funcionalidade no dia-a-dia da sala de aula, também são pontos de atenção durante as Oficinas.

Ao final da Oficina, os participantes terão seu kit próprio para o uso em sala de aula, familiaridade com um grande acervo de ideias de atividades, devidamente embasadas, e terão, sem dúvida, constituído um “know-how” para continuar a ampliar seus kits e adaptar os materiais aos alunos que têm ou terão diante de si. Geralmente as trocas multiplicam as ideias e todos ganham com a construção coletiva e compartilhada. É o que sinto... é o que dizem...
...e mais...

A primeira Oficina, de certo modo, prepara a segunda, mas elas podem ser independentes uma da outra. A Oficina de Produção funciona nos três Módulos descritos acima e também pode ter certa independência, tendo uma maior carga horária quando não segue a Oficina de Jogos e Atividades.

Também podem ter outras configurações quando são oferecidas em contextos específicos, como, por exemplo, como seguimento de aulas de Alfabetização, em cursos de Pedagogia; em escolas nas quais as concepções sobre alfabetização já vêm sendo discutidas; para grupos de especialistas; dentre outras situações. Posso organizar uma Oficina para grupos específicos que a solicitam ou abrir turmas para o público em geral. Posso fazer uma proposta sob medida, a partir do contexto e da carga horária indicada, ou mandar uma proposta para análise da instituição. Podemos, ainda, pensar junto em um formato, considerando as possibilidades. Sempre podemos tentar achar um jeito.

Para os que não dispõem de tempo ou possibilidade de acompanhar uma Oficina de Produção, que sempre demanda um tempo maior, a de Jogos e Atividades pode atender a diversos aspectos. Entretanto, é importante saber que fazer sozinhos os materiais não tem o mesmo brilho e a riqueza de confeccioná-los juntos, em grupos - sejam grupos formados por professores conhecidos, sejam grupos formados por interessados provenientes de diversos segmentos – e sob minha orientação. Fazer junto é realmente muito mais legal!

Para os que moram muito longe ou que, mesmo perto, não têm disponibilidade de tempo, e que não podem fazer nem uma nem outra, espero poder contribuir com alguma coisa através desse blog. Apareçam!

Um abraço,
Lica

* Os arquivos com o material a ser produzido é fornecido digitalmente para impressão ou em papel, para fotocópia, sendo a impressão ou cópia de responsabilidade do inscrito. Também é de sua responsabilidade o material utilizado para a confecção dos seus kits - cuja lista é fornecida - como papéis de vários tipos, cola, tesoura etc.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Letras, palavras, poemas...


o bicho alfabeto
Paulo Leminski

o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase

por onde ele passa
nascem palavras e
frases

com frases
se fazem asas
palavras
o vento leva

o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve


(La vie em close, 1991, ed. Brasiliense)

Planos de Atividades

Sobre os Planos de Atividades

Os planos de atividades de alfabetização postados aqui se referem a planos criados a partir dos materiais e jogos do acervo. Eles podem ser modificados, ajustados, mexidos, para atender às diferentes turmas, reais, singulares, que cada professor tem diante de si. Como o nome já diz, plano é “plano”, não abarca as sinuosidades próprias ao real, aos sujeitos, aos grupos, às singularidades, ao imponderável. O mapa, como diz Borges, não é o território. Assim, são apenas pontos de partida, possibilidades, que serão precipitadas singularmente em cada contexto específico por sujeitos únicos, em interações singulares.

Na medida do possível, os planos foram pensados para atender a crianças em diferentes níveis de domínio da leitura e de conceitualização da escrita, e exigem, para serem adaptados e bem desenvolvidos, o conhecimento da turma, a partir de diagnósticos, sondagens ou do acompanhamento do processo das crianças. Muitos dos planos podem também ser adaptados para turmas de alfabetização de jovens e adultos, desde que os textos utilizados sejam interessantes para essa faixa.

Cabe lembrar que se trata de uma concepção de alfabetização em contexto de letramento e, portanto, os textos que serão o ponto de partida para as atividades propostas deverão ser muito bem explorados como textos que são, antes de serem usados também para atividades de reflexão sobre o sistema de escrita alfabética. Por exemplo, ao usar fábulas, seus títulos, moral e/ou texto em atividades de alfabetização, supõem-se que antes essas foram lidas (ouvidas), apreciadas, discutidas, comparadas, compreendidas enquanto gênero textual com características próprias, o que pode gerar reescritas, pequenos livros, ilustrações etc. É nesse contexto de leitura e escrita, que enfatiza o sentido e o gênero, que as reflexões sobre o sistema alfabético vão acontecer. A mesma coisa se dá em relação a outros gêneros textuais. Na medida do possível, esse aspecto será relembrado em cada plano de atividade proposto.

Outro aspecto que vale sublinhar é que o diagnóstico das hipóteses de escrita das crianças - que vão guiar a proposta, a adaptação das variantes da mesma proposta, de acordo com os desafios que apresentam para cada nível, bem como a organização dos agrupamentos e parcerias, - deve ser realmente apenas uma referência. É preciso estar ciente de que, primeiro, em cada hipótese de escrita descrita por Emilia Ferreiro há inúmeras possibilidades de produção e de formas de pensar, portanto, é preciso estar bem atento para propor desafios e parcerias realmente pertinentes a cada um, cada dupla, cada subgrupo, para que realmente tenham bons problemas a resolver para avançar. Em segundo lugar, é preciso lembrar que o desempenho das crianças na escrita não recobre necessariamente, ou não corresponde sempre e igualmente, a seu desempenho na leitura. Para organizar as atividades que envolvem a leitura (quando ainda não se sabe ler convencionalmente, decodificar), é preciso conhecer o modo como as crianças lêem, que hipóteses fazem ao tentar ler, que domíno têm de decodificação e de leitura visual. As hipóteses de escrita diagnosticadas nas produções infantis dão uma dica, inclusive porque pedimos a elas que leiam suas produções para nos certificar de suas hipóteses, mas não é um dado suficiente para determinar o domínio de leitura das crianças.

Os planos explicitam objetivos e conteúdos básicos do processo de alfabetização, embora outros objetivos e conteúdos possam estar em jogo, implicitamente, na proposta, relativos ao letramento, ao convívio, ao aprendizado de valores e atitudes. Incluem-se no plano também os objetivos e conteúdos dos diferentes níveis de escrita e leitura previstos na atividade, embora a proposta possa estar mais focada ou ser mais produtiva para um nível específico, e apenas sugeridas as adaptações e variantes. Cada professor ou professora deve julgar se e como as atividades propostas podem favorecer a reflexão de seus alunos, o avanço de suas hipóteses e estratégias, a aprendizagem.

Feitas essas observações e apresentações, segue o primeiro plano.


PLANO DE ATIVIDADE

Texto: Adivinhas

Objetivos:

Usar as adivinhas para brincar;
Identificar palavras;
Relacionar oral e escrita para reconhecer palavras ou parte de palavras;
Usar estratégias de leitura para ler sem saber ler;
Usar os conhecimentos que têm sobre o sistema de escrita, letras iniciais, finais, partes de palavras, valores sonoros de letras, tamanho etc;
Identificar letras;
Refletir sobre ortografia.

Conteúdos:

Gênero de texto de origem oral;
Identificação e reconhecimento de palavras;
Relação oral/escrito;
Estratégias de Leitura;
Funcionamento do sistema de escrita alfabética;
Identificação de letras;
Ortografia.

Desenvolvimento:

Relembrar as adivinhas da cultura popular que foram previamente lançadas na turma, numa outra ocasião, para brincar de adivinhar, oralmente. Relembrar coletivamente suas respostas, que foram adivinhadas com ou sem dicas dadas pela professora. Selecionar algumas adivinhas que as crianças saibam as respostas de cor, para, assim, proceder à atividade em grupos.

Utilizar os materiais estruturados da seguinte forma: a professora tem as cartelas com as adivinhas escritas e as crianças as fichas com as respostas. Distribuir nas mesas as fichas com as respostas de todas as adivinhas que serão lidas/ditas para a turma. O número de adivinhas depende do nível da turma, o ideal é começar com um número menor, como 4 ou 5, e ir experimentando aumentar na própria dinâmica da atividade, repetida em outras ocasiões. É preciso ter um kit de fichas para cada mesa, que recebem as mesmas palavras. As possibilidades e dificuldades de cada criança devem ser consideradas ao agrupá-los nas mesas, para possibilitar boas trocas, interações produtivas e um equilíbrio entre as mesas.

Cada mesa deve tentar achar a resposta da adivinha lida/dita pelo professor. As mesas que acharem primeiro podem sinalizar que já encontraram, mas não ainda mostrar a ficha para as outras mesas. Quando todos encontrarem as respostas, mostram suas fichas. A professora pode provocar a discussão, perguntando como encontraram a resposta, que estratégias usaram, que indícios consideraram. Essa argumentação é um trabalho metacognitivo interessante, que favorece explicitarem procedimentos e, para os que não encontraram a resposta, constitui-se em uma forma de irem se apropriando, gradativamente, de um repertório de indícios que podem passar a considerar.

Essa é uma atividade para uma turma na qual os alunos ainda não sabem ler convencionalmente e precisam usar todo o conhecimento que têm sobre letras, seus valores sonoros, letra inicial, final, partes de palavras que já reconhecem e que podem usar como modelo, enfim, todo o conhecimento que já dispõem. Para tal desafio é imprescindível que as crianças já conheçam as respostas oralmente, para que saibam o que estão procurando (que palavra procuram entre aquelas fornecidas). Trata-se de ajustar o oral, o que sabem oralmente da palavra, ao que vêm escrito, para tentar reconhecer a palavra, ainda que não a decodifiquem termo a termo. Para ser desafiante, de qualquer modo, não podem ser respostas que já memorizaram visualmente, globalmente, não completamente, em atividades prévias. Não se trata de avaliar o que memorizaram e que podem reproduzir.

No caso de haver alguns poucos alunos que já lêem convencionalmente, uma possibilidade é agrupá-los em uma mesa e eles terem que escrever as respostas das adivinhas lidas/ditas pela professora ou as montarem com as letras móveis disponíveis. Podem ainda lerem eles mesmos as adivinhas de outro kit e escreverem/montarem as respostas. Esses devem checar sua escrita/montagem ao final ou a cada resposta.

Para finalizar a atividade as crianças poderão escrever as respostas numa folha com as adivinhas (individual), ou no caderno, mesmo que olhando as fichas. Os que sabem escrever podem fazê-lo, também em relação à pergunta.

Crianças com hipótese pré-silábica ainda não relacionam o oral e a escrita em suas produções escritas. Se, na leitura, ainda não estabelecem essa relação, não podem fazer, sozinhas, esse tipo de atividade. Havendo crianças com essa hipótese, podem ser agrupadas com as outras. Caso haja um grupo maior, podem ser agrupadas em uma mesa e a professora procede do mesmo modo, mas dá dicas como: “começa com a letra x...”, “Tem x letras...”, “termina igual ao nome de fulana” (se os nomes estão disponíveis na sala ou a criança está na mesa), “é a maior palavra entre todas”, “tem três ‘a’ nessa palavra” etc. São esses os conhecimentos que constituem desafios para elas.

Recursos:
· Kit de Advinhas com respostas (palavras) repetidas (de acordo com o número de mesas);
· Alfabeto móvel ou respostas fatiadas em letras (é interessante, pois ao final, não podem faltar ou sobrar letras, caso aconteça, devem observar onde erraram)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Brincando com as palavras

Poemas brincam com sons e sentidos, com imagens poéticas e jogos sonoros. Brincam com palavras, desemboloram palavras gastas, criam asas para as conhecidas, atiçam a curiosidade para as desconhecidas, inventam novas... Vejam esse...


Nada se Perde
Sergio Capparelli

Um globo
De óculos
Vira glóbulos

Um lobo
De óculos
Vira lóbulos

Um óculos
De óculos
Vira binóculos

In: CAPPARELLI, Ségio. Um Elefante no Nariz, Porto Alegre: L&PM, 2008


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Mafalda


Nada como Mafalda para dizer tanto em tão poucas palavras...

Sua sagaz crítica à uma concepção empirista de aprendizagem dispensa qualquer comentário a respeito das práticas escolares baseadas em tal concepção. A alfabetização foi, por muito tempo, encaminhada a partir de princípios metodológicos que bem se encaixam nessa perspectiva.

Afinal de contas, na cabeça de Mafalda, bem como de qualquer criança, cabe muito mais que isso! E está longe de chegar vazia à escola...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Sobre os diferentes tipos de material

Os materiais e as oficinas que pretendo divulgar nesse blog destinam-se a todos que se interessam por alfabetização e que buscam ampliar seu repertório de atividades didáticas fundadas em firmes concepções de aprendizagem e ensino da língua escrita.

Enfatiza-se, nessa proposta, a aprendizagem do sistema de escrita em contexto de letramento, por um lado, e a especificidade do processo de aprendizagem do sistema alfabético, por outro. As atividades propostas a partir dos jogos e materiais focalizam a aprendizagem do funcionamento do sistema de escrita alfabética, a consciência fonológica, as estratégias de leitura e abordam as diferentes unidades da língua – texto, palavra, sílaba, grafema e fonema – em contextos letrados.
Costumo separar os materiais, kits e jogos que fazem parte do acervo que venho construindo, em três diferentes blocos, que, no contexto das Oficinas, se organizam em três módulos. Por ora, vou apresentar brevemente cada um desses blocos e, depois, aprofundar a discussão em torno de cada um.

No primeiro bloco, incluem-se os materiais confeccionados a partir de textos da tradição oral – que são expressão da cultura popular, parte de nosso universo cultural – estruturados para favorecer a leitura através de estratégias diversas e a reflexão sobre a escrita alfabética e ortográfica. São kits confeccionados a partir de parlendas, trava-línguas, adivinhas, quadras, cantigas, ditados populares, frases feitas, permitindo atividades diversificas para diferentes níveis de leitura.
No segundo bloco, incluem-se os materiais confeccionados a partir de textos de vários gêneros literários e audiovisuais, como fábulas, contos, lendas indígenas e africanas, histórias infantis, quadrinhos, desenhos animados, filmes de animação, favorecendo ainda mais a articulação entre letramento e alfabetização e acolhendo narrativas audiovisuais tão presentes na cultura infantil contemporânea, parte do repertório de “textos” dos sujeitos infantis;

No terceiro bloco, incluem-se jogos diversos, com diferentes objetivos relativos à aprendizagem da escrita e leitura, como o aprendizado de letras, a apropriação do sistema alfabético, a consciência fonológica e a ortografia. Por vezes, os mesmos jogos, com pequenas adaptações, podem favorecer a reflexão de crianças em diferentes níveis de apropriação da escrita. O jogo, em sua natureza sociocultural e lúdica, vem aqui contribuir para a reflexão sobre diversos aspectos da língua.


Por vezes, evidentemente, essas categorias se imbricam e outras categorias ou novos aspectos em cada categoria podem surgir, já que a invenção, adaptação, inclusão de novos materiais ao acervo é constante, a partir do próprio desenvolvimento das oficinas e das trocas com outros educadores. Em cada Oficina que promovi, houve sempre quem inventasse, partindo dos materiais e atividades propostas, novos materiais ou novas atividades, variantes, adaptações, considerando as classes singulares que cada professor tem.

Espero que aqui possam ser ampliadas essas trocas e multiplicadas as possibilidades. O blog pode funcionar como um registro, um testemunho desse processo de ampliação de repertório, tanto para mim e minhas(meus) alunas (os), quanto para quem vier visitar essa página. Portanto, opine, interaja, discorde, pergunte, oferte... Esse é o meu convite...

Lica

Sobre os materiais

Tenho pesquisado e desenvolvido, desde 2001, como formadora de professores, um acervo de materiais e jogos de apoio ao trabalho de alfabetização, considerando a apropriação do sistema de escrita alfabética em contexto de letramento.

A partir da constatação de que temos, atualmente, um vasto repertório de conhecimentos sobre a alfabetização e os diversos aspectos envolvidos nesse processo, mas poucos materiais desenvolvidos a partir das novas concepções de ensino e aprendizagem da língua escrita, comecei a pesquisar e a desenvolver materiais para utilizar nas minhas aulas de metodologia de alfabetização. São materiais e jogos confeccionados artesanalmente, mas com muito cuidado estético e funcional, alguns inventados, alguns adaptados de jogos conhecidos, outros criados a partir de propostas de atividades diversas e, ainda, outros confeccionados a partir de ideias advindas de outras pessoas. Devo a Mary Arapiraca, professora e orientadora querida, o gosto pela alfabetização, pelo riso na escola, pelo incentivo a essa iniciativa.

Devido à boa aceitação desses materiais pelos alunos e pela comunidade acadêmica, venho, atualmente, desenvolvendo oficinas para estudantes de Pedagogia, professores em atividade e coordenadores pedagógicos, com o intuito de divulgar os materiais, sua base teórico-metodológica e de propor a produção de kits desses materiais didáticos pelos interessados.

Esse blog foi criado para apresentar esses materiais, as reflexões e produções em torno deles, bem como para trocar informações e divulgar as Oficinas de produção que venho desenvolvendo ao longo desses anos, fruto de pesquisa constante.
Algumas das fotos postadas são de materiais de meu acervo pessoal, outras, de materiais produzidos pelas alunas das Oficinas, sob minha orientação. Vale ressaltar que alguns dos materiais produzidos ao longo do tempo foram adaptados pelas alunas em alguns aspectos, outros propostos por elas, em um enriquecimento constante das propostas que fiz a princípio. A criatividade das pessoas com as quais venho interagindo, as dicas que vêm do uso dos materiais em classes singulares nas quais lecionam e as ideias que surgem no próprio desenrolar das Oficinas, são fontes riquíssimas de pesquisa.

Espero que essa ferramenta que passo a utilizar a partir de agora - esse blog - possa favorecer novas trocas e boas discussões.
Aproveito para sublinhar que outras coisiquinhas, como poemas, parlendas, adivinhas, trava-línguas, cantigas, tirinhas, trechos de textos, comentários, essas ricas fontes que são a matéria prima dos materiais e suas razões de ser, farão também presença nessa página, nos inspirando, interpelando, encantando, provocando, lembrando-nos de que, antes de se configurarem como materiais para alfabetizar, são textos, discursos, inspirações, repertório de nossa cultura oral, escrita e visual, contexto de letramento. Então... vamos lá!

Lica