sábado, 22 de maio de 2010

Seminário de Alfabetização e Letramento

Oi, pessoas,
Esse post é para compartilhar com vocês a participação dos jogos e materiais em um seminário, o I SENAL - Seminário Nacional de Alfabetização e Letramento, que aconteceu de 18/05 a 21/05, em Itabaiana/SE, cidade próxima a Aracaju, onde há um campus da Universidade Federal de Sergipe. O evento teve como tema "Oralide e Escrita em suas múltiplas dimensões", com a participação de diversos palestrantes interessante, em especial a Profa. Leda Tfouni, pesquisadora importantíssima na área de Letramento.
Nas sessões de Comunicação, além de um artigo referente a minha pesquisa de Doutorado, apresentei, também um trabalho intitulado "Jogos e materiais para alfabetização em contextos de múltiplos letramentos", abordando questões referentes aos materiais para alfabetização, que embasam sua utilização. O artigo foi produzido e apresentado em co-autoria com a Profa. Mary Arapiraca, da Faculdade de Educação/UFBA.
Vocês podem conferir o artigo completo abaixo ou no link:
Vocês podem conferir também os slides da apresentação, com fotos e pequeno texto introdutório, no seguinte link:
http://www.slideshare.net/Licaraujo/slides-jogos-senal-4111296
Por ora, é isso. Em breve, novos posts, novos materiais, novas atividades... Aguardem!
Lica

sábado, 24 de abril de 2010

Trava-língua



Você conhece o trava-língua do digo Digo digo Diogo? É assim:
QUANDO DIGO DIGO
DIGO DIGO
NÃO DIGO DIOGO
QUANDO DIGO DIOGO
DIGO DIOGO
NÃO DIGO DIGO
Conseguiu dizer? Então tente mais rápido...e mais rápido...e mais rápido... E depois, tente com as crianças...
O trava-língua Digo Diogo deve ser bem explorado para que as crianças consigam dizê-lo cada vez mais agilmente, de cor.
Para ajudar a explorá-lo e a memorizá-lo, várias brincadeiras podem ser realizadas, como dizê-lo oras bem devagar, oras sussurrando, oras dizê-lo lentamente, ressaltando o verbo dizer conjugado (digo), oras enfatizando o nome (Digo). Interessante também é substituir os “digo” que não são verbos por nomes das crianças, para compreenderem melhor a estrutura do trava-língua e perceberem o jogo de palavras que provoca aquela sonoridade específica no trava-língua original (digo Digo):
Quando digo Maria
Digo Maria
Não digo João
Quando digo João
Digo João
Não digo Maria

Além de brincar de pronunciar cada vez melhor e mais rápido, pode ser proposta uma ordenação coletiva, ou em pequenos grupos, duplas, do texto fatiado em palavras ou versos. Além de se constituir em uma boa situação de leitura e de reflexão sobre a escrita, também ajuda na memorização.
As atividades propostas a partir de material estruturado tanto podem ser os fatiados, quanto outro jogo de fichas com palavras contrárias, usando o texto para fazer uma atividade oral com os contrários. O desafio será substituir as palavras DIGO e DIOGO por palavras contrárias e dizer o trava-língua, também atentando para a pronúncia clara e rápida. Para isso o trava-língua deve estar bem decorado.
Ex. Claro e escuro:
Quando digo claro
digo claro
não digo escuro
quando digo escuro
digo escuro não
digo claro
Alguns jeitos de brincar...
Cada criança ou dupla de crianças recebe um par de fichas contendo as palavras contrárias (CLARO/ESCURO) e tenta reconhecê-las. A professora diz os contrários que foram distribuídos e as crianças devem tentar dizer qual é o seu par. A professora deve ajudá-los nessa tarefa, de acordo com o nível de leitura do grupo e da dupla. Um outro modo de distribuir é dar apenas uma das palavras do par e pedir que achem a outra embaralhada na mesa ou no centro da roda.
Depois dessa atividade de exploração e tendo todas as palavras sido reconhecidas ou indicadas pela professora, começa-se a brincadeira.
A proposta é cada um dizer o trava-língua substituindo Digo e Diogo mostrando as duas palavras quando as enuncia. Pode ser um da dupla dizendo e o outro mostrando. Outra possibilidade é cada dupla mostrar o seu par e alguém do grupo reconhecendo as palavras, é escolhido para dizer o trava-língua, lendo-as. Ou, ao contrário, o trava-língua modificado é dito por alguém e quem tem o par em questão se identifica.
Uma outra variante é cada criança receber apenas uma das palavras do par e dizer o trava-língua usando sua ficha, mostrando-a, dizendo também o seu contrário. Quem tiver a palavra contrária deve então mostrá-la também.
A proposta, em todos os casos é sempre dizer o trava-língua substituindo pelas palavras contrárias a partir da leitura das fichas. Todos podem ajudar, pois o objetivo é tentar reconhecer as palavras usando estratégias diversas e os conhecimentos que se dispõe sobre o sistema.
Caso a turma seja muito heterogênea, cuidar para que os que têm domínio de leitura não respondam sempre pelos outros, dando, por exemplo, diferentes tarefas para eles (ex. os que leem pode ter a tarefa de dizer o trava-língua e os que não, de identificar e mostrar as palavras).
Depois da brincadeira, os que escrevem alfabeticamente, podem escrever as versões que mais gostaram ou inventar outras. Os que ainda não têm domínio de leitura e escrita autônomas, podem ordenar o fatiado em palavras, sendo cada vez preenchido com essas palavras (escritas em papel cortado em forma de fichas), formando-se, assim, novas versões do trava-língua. As crianças devem encontrar os pares correspondentes embaralhados.
Em termos do processo específico de alfabetização, essa atividade contribui para o uso dos conhecimentos que se dispõe sobre o sistema de escrita e o uso de estratégias de leitura na identificação das palavras, por um lado e, por outro, para a ampliação do repertório de “modelos estáveis”: palavras que funcionam como modelos de escrita convencional, que as crianças passam a reconhecer – toda ou em parte – constituindo em fonte de informação sobre o sistema de escrita e de comparação e confronto com as hipóteses infantis.
Tudo isso a partir de um texto da tradição oral, que traz brincadeira, desafio de pronúncia e de memória, bem como aprendizado do léxico. As palavras contrárias podem também ser usadas em contextos de produção coletiva ou individual de textos, construção de personagens e lugares de narrativas, suas características, descrição de objetos etc. Tendo o repertório de palavras disponíveis, as crianças podem consultar sua grafia para indicá-la à professora escriba ou consultar para escrever textos de próprio punho.
Seguem abaixo algumas sugestões de contrários para confeccionar as fichas, mas podem ser muitas outras as possibilidades, várias, podem até sair de contextos de histórias...
As minhas são impressas com letras de imprensa grande, cortadas e coladas em papel grosso, tipo duplex, do mesmo tamanho, e plastificadas. Ficam mais bonitas e duram bem mais! São todas brancas, mas é possível fazer também cada par de uma cor. Cria outras possibilidades, mas inviabiliza aquela sugestão de dar uma palavra para encontrar, dentre todas as outras, o seu par.
Ah! E quando digo brincar, digo brincar, não digo estudar!
Beijão,
Lica
largo/estreito
comprido/curto
mais/menos
perto/longe
bonito/feio
alto/baixo
forte/fraco
Muito/pouco
duro/mole
fino/grosso
triste/alegre
fundo/raso
grande/pequeno
cedo/tarde
leve/pesado
cheio/vazio
dentro/fora
aberto/fechado
...e inventem outros!!!
Esse kit e proposta foram elaborados a partir de uma ideia de brincadeira de Mary Arapiraca, minha fada madrinha, Emília muito sabida e inventadeira das palavras!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Kit filmes

Kit Filmes de Animação
O kit de títulos de filmes de animação compõe-se de imagens de filmes infantis de animação, mais contemporâneos, e seus respectivos títulos. Esse é um material destinado a crianças em fase de alfabetização, em especial a um determinado público infantil que conhece tais universos da cultura infantil midiática. Ver os filmes, discutir sobre eles, quando esses não são assistidos em casa, pode se constituir em situações interessantes de ampliação do repertório de narrativas audiovisuais das crianças.

O objetivo desse kit é fazer as crianças encontrarem o título do filme representado em cada imagem, a partir de indícios como tamanho da palavra, letra inicial, de conhecimentos prévios da relação entre letras e sons, bem como, a partir da leitura visual das palavras ou parte de palavras.
As atividades a partir do material são de leitura de títulos. Algumas fichas com as imagens que representam os filmes e as fichas com seus respectivos títulos podem ser distribuídas nas diferentes mesas, para que duplas ou pequenos grupos possam tentar fazer os pares imagem-título, ou todas as fichas podem ser apresentadas no centro de uma roda e todos fazerem coletivamente.
O professor pode também mostrar a imagem (ou o título) e pedir que as crianças encontrem, no centro da roda, o seu título (ou imagem correspondente). O mesmo procedimento pode ser feito com as fichas distribuídas entre as crianças e quem tem a ficha que faz par com a que a professora mostrou, mostra. Todos podem ajudar.

O professor deve ficar atento ao modo como as crianças vão encontrando as respostas e a seus argumentos. Os desafios da atividade serão tanto mais interessantes a depender de como o professor e as próprias crianças vão problematizando as estratégias usadas para tentarem ler e os conhecimentos que trazem para resolver as questões.

sábado, 10 de abril de 2010

Narrativas Audiovisuais


Sobre os kits confeccionados a partir de narrativas audiovisuais[1]
Filmes, filmes de animação, desenhos animados etc

Filmes, desenhos, videogames são, hoje, fonte de narrativas que constituem o repertório da cultura infantil contemporânea. Muito da experiência narrativa de hoje não vem exclusivamente das narrativas do repertório escrito, literário, nem do repertório oral, mas também, e muito, das narrativas midiáticas, audiovisuais. Os formatos audiovisuais se incluem no rol dos gêneros discursivos. É preciso, assim, pensarmos em conceitos ampliados de texto, leitura e letramento, que possam abarcar esses gêneros da comunicação mediada e considerá-los parte do repertório de práticas sociais que se articulam ao letramento da sociedade e dos indivíduos que nela se inserem.
O surgimento do cinema, da TV, da internet e outras mídias trouxeram novos modos de relacionar-se com a leitura e a escrita, deslocando as práticas antes próprias ao livro. As práticas de leitura que formaram outras gerações são diversas das práticas que estão formando as novas gerações de leitores. Gerações socializadas na cultura oral e na cultura letrada veem hoje as gerações mais novas socializando-se no âmbito das tecnologias de comunicação e informação audiovisual.
Muitos dos gêneros audiovisuais são atravessados, de algum modo, também pela linguagem verbal, constituindo-se em textos híbridos, em que a cultura oral, escrita e audiovisual se imbricam. Na verdade, a classificação dos textos em verbais ou visuais tende a se esmaecer e a nos fazer conviver com textos e linguagens híbridas. O movimento dos gêneros na cultura contemporânea, e da expansão da escrita, exigem que se conceba a textualidade para além da organização verbal. O conceito de “texto” não pode se esgotar no oral e na escrita da mesma forma que as linguagens não se esgotam no oral e no escrito. O texto, muito frequentemente, apresenta-se como uma combinatória de diferentes linguagens: um produto híbrido, um conjunto articulado de signos podendo fazer uso de linguagens verbais e visuais.
É preciso, assim, pensar em um conceito ampliado de letramento, ou letramentos, que abarque as práticas sociais letradas que circulam na sociedade, não restritas à escrita, mas que impliquem uma pluralidade de escritas, textos, linguagens. Inclui-se, assim, no saber ler, “saber ler” e fazer usos de uma diversidade de gêneros: livros e jornais impressos, mas também jornais televisivos, filmes, desenhos animados, videoclipes, games, hipertextos. Do mesmo modo, é preciso conceber um conceito ampliado de texto e de leitura. Ler, nesse sentido, é mais do que a capacidade de ler textos verbais, é um processo de compreensão de expressões formais e simbólicas, por meio de qualquer linguagem. Textos, nesse sentido, são materializações de discursos sejam eles verbais, verbo-visuais ou visuais.
A ampliação dos conceitos de texto, leitura, letramento e gêneros discursivos permite, assim, abranger, na reflexão sobre o aprendizado da escrita, os gêneros da comunicação mediada e permite-nos pensar numa perspectiva de letramentos múltiplos.
A escola precisa implicar-se na reorganização que atravessa o mundo da leitura, da escrita, dos relatos, da constituição do universo de narrativas no mundo contemporâneo. Assim, é interessante incorporar tais “textos” no letramento e alfabetização das crianças, afinal, constituem-se em narrativas do repertório da cultura infantil contemporânea e, como tal, devem poder circular também na escola.
Mesmo considerando que é preciso formar sujeitos críticos – inclusive das produções culturais midiáticas e sua natureza marcadamente mercadológica – e mesmo que tenhamos também que considerar as diferenças entre as linguagens verbal e visual no aprendizado da escrita e suas particularidades, a escola não pode furtar-se a considerar o hibridismo das linguagens, a heterogeneidade dos textos, a multiplicidade de letramentos. As narrativas provenientes de mídias audiovisuais a que as crianças estão expostas contemporaneamente, constituem-se em produtos culturais que elas consomem, nos quais se reconhecem e que constituem seus modos de ser, agir, dizer e dizer-se.
Sem desconsiderar o discutível valor de muitos produtos da mídia, é preciso poder considerar a sua recepção a partir dos sentidos que os sujeitos produzem sobre os produtos que consomem. É muito importante que o campo da educação se aproxime da visão que as crianças e jovens têm desses produtos, e os reconheçam como expressão de sua subjetividade, identidade e cultura.
Desse modo, a abordagem das narrativas audiovisuais na perspectiva do letramento precisa considerar essas questões. Na perspectiva da alfabetização, as narrativas audiovisuais são fontes de textos privilegiados para refletir sobre o sistema – como títulos, nomes, listas – tanto quanto os textos da tradição oral e da cultura escrita.
Títulos de filmes, personagens de desenhos animados, de filmes, listas de seus nomes, podem gerar materiais para alfabetizar e render boas atividades de reflexão sobre o sistema alfabético. Desde a exploração da leitura visual que podem fazer, e a consideração do tamanho da palavra, até a reflexão sobre letras e seus valores sonoros, bem como o uso de estratégias de leitura, do conhecimento de partes de palavras e comparação com outros nomes próprios, etc.
É interessante ressaltar que, entre títulos e nomes de personagens, há aqueles em inglês, sendo que, frequentemente, apresentam relações fonográficas ou grafemas não presentes na língua portuguesa. De fato, esse aspecto pode gerar alguma dificuldade para crianças que estão ainda começando a se apropriar das relações fonográficas e grafemas possíveis na sua língua materna. Entretanto, parece também interessante poder discutir, a partir dos questionamentos que surgirem, do conhecimento de palavras em inglês do repertório das crianças, sobre as letras, em inglês, terem outros sons, como o U de UP e o E de Wall-E; sobre encontros de letras que não existem em português, como shr, em SHREK, e sh, como em SHERI de Sheri Khan (Mogli) etc. Um desafio interessante.
Muitas palavras em inglês circulam no universo de palavras de crianças e adultos na contemporaneidade. Embora não seja o caso de sistematizar com elas as correspondências fonográficas de outras línguas quando estão se ocupando disso na sua própria língua materna, não podemos desconsiderar essa enorme presença de vocabulário em inglês e de usos de sons e grafias que não são próprios ao português no cotidiano das crianças. Isso também se relaciona com o letramento, já que muitas práticas sociais de leitura e escrita que circulam socialmente (incluindo-se o conceito de “leitura” de modo ampliado), exigem conhecimentos básicos dos valores sonoros de letras, em inglês.
De todo modo, cabe lembrar também que, sendo esses “textos” muito apreciados pelas crianças, podem constituir-se em materiais muito atrativos.
Os kits propostos são apenas uma base para o trabalho. Muitos outros poderão ser confeccionados, a partir do interesse dos alunos, de seu repertório próprio de filmes e animações.
Para as crianças que não tiveram a oportunidade de assisti-los, um bom começo é propondo fazê-lo. Evidentemente, é preciso refletirmos sobre a discussão – não pouco polêmica – relativa ao valor, à qualidade dessas narrativas e o papel da escola diante da formação ética e estética das crianças.
Uma citação de Sarmento parece-me apropriada para fechar, brevemente, essa discussão:
“A colonização do imaginário infantil pelo mercado é um dado da sociedade contemporânea que não se pode ignorar. Mas, do mesmo modo, não se pode também ignorar a resistência a essa colonização, através das interpretações singulares, criativas e frequentemente críticas que as crianças fazem (...), reinvestindo essas interpretações nos seus cotidianos, nos seus jogos e brincadeiras e nas suas interações com os outros. Afinal, todas as colonizações são imperfeitas...”
(SARMENTO, 2003, p. 16)[2]

Aguardem! Em breve serão postados aqui alguns dos kits e jogos a partir de narrativas audiovisuais!


[1] Reflexões retiradas do meu Projeto de Tese: “Clic!...E Era uma vez. Marcas de narrativas visuais na escrita de crianças em contexto escolar”. Perspectivas de autores diversos, citados no referido projeto, são referidas nesse texto.
[2] SARMENTO, Manoel J. Imaginário e culturas da infância. Cad. Educ. Fae/UFPel, Pelotas (21):51-59, jul./dez. 2003. Disponível em:

quarta-feira, 24 de março de 2010

Brincando com as Palavras

Adivinha dos Peixes

José Paulo Paes


Quem tem cama no mar? O camarão.

Quem é sardenta? Adivinha. A sardinha.

Quem não paga o robalo? Quem roubá-lo.

Quem é o barão no mar? Só tubarão.


Gosta a lagosta do lago? Ela gosta.

Quanto pés cada pescada tem? Hem?

Quem pesca alegria? O pescador?

Quem pôs o polvo em polvorosa? A Rosa.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Kit Adivinhas

ADIVINHAS 4 OPÇÕES



Esse kit de adivinhas consiste em um conjunto de perguntas das adivinhas e um repertório possível de resposta composto de 4 palavras para cada adivinha, indicadas pela cor. O jogo consiste em procurar, dentre as palavras daquele grupo (de mesma cor), a que responde à adivinha. As outras palavras são palavras que apresentam aspectos como: têm mesma letra inicial e/ou mesmo tamanho, a primeira vogal coincide ou inicia com a primeira vogal presente na resposta, apresenta número de letras correspondentes ao número de sílabas da resposta à adivinha, tem letras parecidas etc. Esses aspectos vão se constituir em desafios para o jogador que ainda não tem domínio de leitura, provocando a reflexão, a comparação, o uso dos conhecimentos de que dispõe sobre o sistema alfabético e de estratégias de leitura.

Como o desafio é reconhecer palavras sem ainda saber ler, decodificar termo a termo, antes de propor a atividade, é preciso conhecer as respostas das adivinhas em questão. Como ainda não leem e a tarefa é justamente tentar ler sem saber, as respostas já devem ser conhecidas, oralmente, de antemão, para que os alunos possam ajustar o escrito ao que sabem oralmente e, assim, encontrar a palavra que procuram, usando estratégias e conhecimentos diversos para se chegar ao reconhecimento da palavra que responde à adivinha.

Para tal, todo um trabalho inicial de exploração desses textos é preciso ser feito. A adivinha é um gênero cujo objetivo é desafiar, brincar, tentar descobrir...essa é a graça...

O que é, o que é?
É meu, mas meus amigos
usam mais do que eu?

Assim, as adivinhas devem ser ditas ou lidas e as respostas buscadas. O professor pode propor que tentem descobrir oralmente, coletivamente ou em pequenos grupos, as respostas, pode dar dicas, ajudar. Depois das sugestões, dos palpites das crianças (ou adultos), se ninguém acertar, a professora diz a resposta da adivinha, relendo-a para que a pergunta seja ressignificada. Quando os alunos souberem todas as respostas, pode-se, então, dar início à atividade de leitura. Evidentemente, outras atividades com as adivinhas, essas e outras, podem ser propostas, de leitura, escrita, de produção de pequenos livros, gravações, de ilustração, enfim, uma série de possibilidades.

Pode-se jogar com esse kit de Adivinhas 4 Opções de várias maneiras. O objetivo, em todas as variantes é encontrar, para cada adivinha a resposta que lhe cabe dentre as quatro palavras do conjunto.

Pode-se colocar o conjunto de adivinha com suas quatro respectivas “possíveis respostas” em uma mesa e pedir que cada mesa encontre a resposta da adivinha entre aquelas palavras. No caso de não ter nenhum aluno que já tenha certo domínio de leitura em cada grupinho, a professora lê as adivinhas de cada mesa. Caso tenha, ele pode ficar com a tarefa de ler a adivinha, mas não deve ajudar na leitura das candidatas a resposta. Pode-se também, do mesmo modo, dar um conjunto para cada dupla ou apresentar todas no centro de uma roda ou de uma mesa grande e todos irem fazendo coletivamente.

Nos grupos em que a maioria das crianças já reconhece palavras com mais facilidade, a tarefa fica mais desafiante se não sabem as respostas de antemão. Para os grupos em que muitos já leem com autonomia, não há maiores desafios em reconhecer as palavras.

Há ainda outras formas de jogar, por exemplo, podem-se distribuir as palavras (as respostas certas e as outras) entre as mesas e a professora ler as adivinhas para o grupo todo. O grupinho que tiver aquela resposta deve se manifestar. Para ficar mais desafiante, a professora pode não indicar a cor do conjunto. Vai depender do nível da turma decidir se os alunos devem ou não saber oralmente as respostas de antemão. Se for um grupo ainda não alfabetizado é preciso que saibam.

Para uma turma que ainda não tem o domínio da leitura pode-se retomar a atividade outros dias, fazendo uma lista das respostas, e relendo as perguntas, pedir que encontrem as respostas na lista. Eles usarão, para esta tarefa, os indícios gráficos, as estratégias de leitura, os conhecimentos que têm sobre o sistema de escrita, a relação com nomes próprios e até mesmo o reconhecimento global, quando a palavra começar a fazer parte do repertório conhecido de palavras convencionalmente escritas.

É isso, esse é um jogo do qual gosto muito... e as crianças também. Como as adivinhas são também parte do repertório cultural de muitas comunidades, também é bastante interessante para a alfabetização de jovens e adultos.

E não esqueçam de adivinhar muito, brincar e desafiá-los, antes de oferecer o kit para jogarem, tá?

Algumas sugestões de adivinhas:

O que é, o que é?
Que as crianças fazem,
mas a gente não vê?

barulho baralho bagunça aluno
O que é, o que é?
Tem coroa
mas não é rei?

abacaxi abacate avião ave
O que é o que é?
Quando parte uma, partem as duas,
quando chega uma, chegam as duas?

pernas penas emas perto
O que é, o Que é?
É meu, mas meus amigos
usam mais do que eu?
nome nove homem ovo

O que é que?
quanto mais se perde,
mais se tem?

sono sino osso som
O que é, o que é?
feito pra comer,
mas não come?

garfo girafa garra aro
O que é, o que é?
Tem linha, mas não é carretel,
fala, mas não tem boca,
ouve, mas não tem ouvido?
telefone tela televisão elefante

O que é, o que é,
Que sobe e desce
e não sai do lugar?

escada sacada escola ela
O que é que salta,
dá um espirro
e vira pelo avesso?

pipoca poca oca patota
O que é que
por mais que seja cortado
fica do mesmo tamanho?

baralho ralo barulho balaio

O que fica molhado
na hora que seca?
toalha tomada tala olha

quarta-feira, 17 de março de 2010

Oficina de Materiais: Diálogos com as Novas Tecnologias

Um dia, uma professora universitária, bem antenada na questão das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (as chamadas TICs), vendo um dos meus materiais artesanalmente produzidos, que eu mostrava a uma outra professora, comentou comigo: “nossa que coisa antiga, não? Bonitinho, mesmo, mas antiguiiiiiiinho... Porque você não cria um software?”
Pois é, da idéia do software, até gostei, ficaria interessada em me juntar a uns jovens entendidos dessas coisas de programação e recriar o material que produzo com papel, duplex, cola e tesoura, para a tela de um computador. Tenho até umas ideias do que eu precisaria que o programa fizesse, só não sei concretizar. Aliás, nem sei se é exequível... E eu precisaria também de um fera em artes gráficas, design, quiçá um bom ilustrador. Pois eu seria exigente, e queria um software esteticamente bem feito, sem cores saturadas e desenhos toscos, infantilizados, que vi, muitas vezes, em material como esse. Queria que fosse belo, bem ilustrado, bom de se ver. E o queria também considerando as perspectivas de ensino e aprendizagem que defendo, e que embasam os materiais que confecciono – bonitinhos, mas antiguinhos. Essa parte do comentário, evidentemente, não gostei. Nem bonitinho – pois bonitinho é consolo de feio, e sei que o que faço é esteticamente muito bem apresentável, embora artesanal – nem antiguinho, pois para muitos é uma boa nova, já que a “nova” das Novas Tecnologias é uma coisa que ainda não chega a se anunciar, nem de longe muitas vezes, em muitos contextos escolares do nosso país.
Em tempos de tecnologias da informação e comunicação, muito se discute e se propõe em termos de materiais didáticos interativos, softwares educativos, games, ambientes on-line, CD-Rom ou o uso da web como fonte de aprendizagem*. Muitas coisas interessantes são criadas e possibilitadas pelo mundo digital, outras nem tanto. Não questiono isso, nem acho que não se deva lutar para mudar a situação, para que as escolas tenham os equipamentos e a formação para usar as TICs - e usá-las não apenas de modo instrumental, mas como cultura. Sem desconsiderar a importância dessas discussões e propostas, cabe refletir sobre a realidade da nossa escola pública, que pouco tem, efetivamente, se beneficiado em termos de acesso a tais ferramentas. E, cá para nós, muitos já estão defendendo esse pedaço, posso eu cá defender um outro, não? Pois... Os materiais artesanais podem, sim, fazer a festa de muitas turmas e de muitas crianças e de muitos professores, e ser aliados interessantes da prática pedagógica.
Dispondo ao menos de editor de texto e até da ferramenta da internet – especialmente para a pesquisa de imagens – muito podemos pensar em termos de produção de material de alfabetização para uso imediato, hoje, em nossas salas de aula. E mesmo sem tudo isso! Meus primeiros materiais eram produzidos na “mão grande” mesmo. Um salto estético pode ser dado quando dispomos de recursos capazes de fazer com que simples materiais “saltem aos olhos” e seduzam alunos e professores, contribuindo para o enriquecimento de seu acervo de materiais e de atividades a partir deles.
Os materiais que produzo e ensino a produzir e a usar não saltaram aos olhos da professora de TICs (mas ela até achou bonitinho!), mas é que ela, como muitos, está no pedaço que costuma não validar o que não lhes parece condizente com a utopia – por ora, e bem intencionada – da democratização do acesso às tecnologias, a cultura digital e a suas ferramentas. Nós, professores do Ensino Básico, no entanto, sabemos que “o buraco é mais embaixo”, e enquanto o computador não chega ou não passa de um elefante branco numa sala, sem acesso ou acesso limitado, devemos arregaçar as mangas e fazer o melhor de nós para apresentar iguarias de outra natureza para nossos alunos. E mesmo quando cheguem. Competem? Será? Eu, particularmente, acho a interação que favorecem, que é de outra natureza em relação à tal interatividade do digital, muito valorosa e insubstituível. 

E são tão bons de preparar e usar!

E olha que nem entrei em outra vertente da crítica que se pode esboçar quanto a uma concepção de escola em que tudo tem que ser da ordem dos resultados, do útil, da produtividade, da inovação, com urgências de preencher qualquer aparente "vazio" ou silêncio com apetrechos e ocupações, e todo um léxico mercadológico, corporativo. A questão tecnológica também foi cooptada por esse discurso e, portanto, acho necessário despirmos nossa fala de afirmações peremptórias, ditas sem parar para refletir o que estamos mesmo defendendo, quando há essas cooptações. Não que eu esteja condenando a tecnologia em si, mas a forma como se aciona esse discurso quando se fala da escola. Prestemos atenção! 
Bom, antes que me rebatam, é bom dizer: depois de algum tempo desse episódio, uma outra professora da área das TICs, pelo contrário, achou os materiais bem legais e a ideia do software também, mas sem desvalorizar meus joguinhos de papel. Quem sabe ela não me ajuda, né, se um dia eu decidir investir nisso. Mas acho que não...apesar das críticas que tenho ao que há no mercado nesse sentido.
Embora também já tenha estado em projeto de projeto, demorado a nascer, a certeza que eu sempre tive é que, caso eu investisse nisso e tivesse condições para tal, a sua concepção dependeria inteiramente do que temos aprendido e do uso que temos feito - e que continuaremos fazendo - desses outros materiais da idade do papel, cola, tesoura, duplex...
Assim, mãos à obra, professores!!!

* Oito anos depois do post e já não falaríamos mais em software, mas em aplicativos...para tablets, celulares... É tudo muito rápido...Mas eu...eu continuo cortando papel...rsrsrsrsrs... e muito distante de querer mudar isso. (15/05/2018)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Bingo de Sons

Mais sobre o Bingo de Sons

Em resposta ao comentário de Leila, do post do dia 27/02, sobre o Bingo de Sons (jogos):

O jogo, tal como está estruturado é um jogo de reflexão fonológica, produtivo para crianças que produzem escritas sob qualquer hipótese descrita pela psicogênese, justamente por ser sem a presença da escrita. A reflexão fonológica apresenta desafios diversos para todos e é, ao mesmo tempo, possível para quem ainda não se apropriou da natureza e funcionamento do sistema de escrita.
A etapa de exploração de similaridades sonoras entre palavras, antes do jogo, também cumpre esse papel, mas essa exploração pode também, aos poucos, ir incluindo reflexões que articulam o oral e a escrita.
Após o jogo, dependendo do grupo, o professor pode também conduzir reflexões acerca das similaridades sonoras e gráficas das palavras, levando as crianças em processo de alfabetização a perceberem como se escrevem esses sons que se repetem nas cartelas, a discutir se essas unidades se escrevem do mesmo jeito nessas diferentes palavras ou não, identificar esses sons em diversas palavras, listar palavras com unidades sonoras semelhantes e observar como se escrevem, etc. Isso permite uma maior apropriação da natureza dessa relação.
E atenção! Como eu disse no texto postado sobre o Bingo, nesse tipo de atividade é importante notar que, em alguns casos (ex. cinto/sino/sapato/sapo), a similaridade fonológica não corresponde necessariamente a uma similaridade gráfica, devido ao fato de, por exemplo, a letra C ter também o som de /s/. Com crianças que escrevem sob uma hipótese alfabética ou silábico-alfabética, são reflexões ricas para avançarem para uma escrita ortográfica. Pode-se fazer essa reflexão buscando situações e palavras já conhecidas deles, como nomes próprios, por exemplo, Cíntia/Sandra, Selma/Celso.
Para os que já descobriram a relação entre fala e escrita, mas não ainda sua natureza alfabética (hipóteses silábicas), a comparação entre a forma sonora que se repete em diferentes palavras e a escrita (ex. ão em chão, feijão; PA em pato e em paca), permite tornar observável unidades sonoras como sílabas, fonemas, unidades maiores e menores que a sílaba, e que compreendam, aos poucos, como essas unidades sonoras correspondem às unidades gráficas. Percebem, por exemplo, que as letras representam algo menor que a sílaba, que as sílabas são formadas por uma ou mais letras, que a ordem das letras corresponde à ordem da emissão sonora dos sons das palavras.
No caso dos que ainda não relacionam fala e escrita – os alunos com hipóteses pré-silábicas – com jogos e situações como essas, poderão, aos poucos, ir descobrindo o que nossa escrita representa (a fala) e que as palavras orais são unidades que podem ser divididas em unidades menores.
Penso que essas são boas reflexões que o jogo pode propiciar. Mas na hora de jogar, o que vale é a reflexão fonológica em si. Se em vez de figuras nas cartelas, colocarmos as palavras escritas, o jogo já será outro, já se torna uma atividade de leitura, de identificação de uma determinada unidade fonológica (sílaba, fonema etc) em uma palavra escrita. É uma variante possível do jogo, bem interessante, por sinal, mas já não é tão adequada para todos. Os que ainda não descobriram a relação entre fala e escrita não poderão fazer sozinhos a identificação. Os que concebem a escrita silabicamente, considerando o valor sonoro das letras, também poderão aí encontrar bons desafios, mas para os que não consideram o valor sonoro das letras, também é mais difícil.
Espero ter ajudado você – e todos que nos leem – a pensar sobre modos interessantes de propor atividades de reflexão fonológica em presença da escrita.
Lica

Par Mínimo

LETRA MÁGICA
José Paulo Paes
Que pode fazer você
para o elefante
tão deselegante
ficar elegante?
Ora, troque o F por G.

Mas se trocar, no rato,
o R por G
transforma-o você
(veja que perigo!)
no seu pior inimigo:
O gato.

Par mínimo é um par de palavras cuja diferença é um único fonema. Um fonema que corresponde, no caso dessas comutações do poema, a uma letra (mas nem sempre). Uma letra que muda tudo! Quantas possibilidades de brincar! Aliás, bem ao gosto de José Paulo Paes, um brincante das letras, que, em seu Convite, nos convida a brincar, sem parar, com as palavras...
E por falar em par mínimo, tem uma brincadeira legal que é ir transformando as palavras em outras, sendo a regra principal trocar uma só letra, qualquer uma, de cada vez, a cada transformação. Ex. LUA - RUA - RIA.
Esse jogo - que é um jogo pra se jogar sozinho ou em dupla, cada um na sua vez fazendo as trocas - usa o princípio dos pares mínimos, embora, por ser um jogo escrito, contenha apenas comutações de fonemas que correspondam a comutações gráficas de uma só letra. Não vale por exemplo, trocas como XALE - CHAVE, que é um par mínimo genuíno, pois apenas o fonema /l/ foi trocado por /v/. Notem que CH e X (/xali/ - /xavi/) têm o mesmo som /x/, é o mesmo fonema. Não valem no jogo, pois uma das regras é manter o número de letras do começo ao fim, sendo, nesse caso, na verdade, um jogo gráfico, de comutação de letras.
As palavras transformadas, evidentemente, devem fazer sentido, serem palavras de fato, e devem ter o mesmo número de letras da palavra inicial. O desafio geralmente é transformar uma palavra na outra, ambas dadas de início - com o mesmo número de letras - e devemos buscar o menor número de linhas possível nessa transformação, mas há também outros desafios. Um desafio maior é procurar chegar em palavras que guardem alguma relação com a palavra inicial, como semelhança sonora, sinônimo ou antônimo, mesmo campo semântico etc. Mas essas regras não precisam ser seguidas, elas apenas aumentam o desafio. O importante é a regra de trocar apenas uma letra por vez.
Podemos sair de uma palavra e voltar depois de muitas para a mesma palavra do início. Ex:
LUA
SUA
NUA
RUA
RIA
RIO
FIO
TIO
TIA
PIA
LIA
LUA

Podemos sair de uma palavra para chegar em outra, como é no jogo original.
Ex. Transforme PATO em SAPO:
PATO
RATO
MATO

MATA

MAPA

SAPA

SAPO
Ah! Lógico que não há um único caminho possível de chegar a uma mesma palavra. Por exemplo, para PATO virar SAPO, podemos também fazer: PATO - MATO - MOTO - FOTO - FOCO - SOCO - SACO - SAPO

ou ainda outras formas...
Tente agora você transformar PÃO em MEL, LUA em SOL.
Podemos ainda apenas ir transformando, sem fim, as palavras.
Em sua versão original, o jogo consiste na proposição de duas palavras para que se estabeleça uma conexão entre elas, sendo que ou o número de conexões é dado de antemão ou o mínimo de linhas é buscado. Ex. Converter BELO em FEIO, duas conexões: BELO - SELO - SEIO - FEIO (selo e seio foram as duas conexões). Cada mudança de letra deve formar uma nova palavra existente no vocabulário, excetuando-se nomes próprios.
Esse jogo de palavras é chamado doublets, e foi inventado por Lewis Carroll, autor de Alice no Pais das Maravilhas. Foi publicado em uma revista, a Vanity Fair, em 1879, tornando-se muito popular desde então. Carroll propôs em seus livros muitos outros jogos lógicos e linguísticos.

Agora, não é que fazer esse tipo de operação de par mínimo oralmente é também uma ótima situação de consciência fonêmica? E pode, depois ser analisada na escrita também, resultando numa situação de reflexão grafo-fonêmica, muito importante para a alfabetização, pois o fonema, em especial, por ser uma unidade muito abstrata, se torna observável justamente na escrita das palavras. Mas veja que interessante explorar a supressão e substituição de fonemas iniciais em trava-línguas por exemplo: "o ato oeu a oupa do rei de oma", ou "o pato poeu a poupa do pei de poma"...Eu brinquei muito disso com meu filho!
A Ciça tem uma travatrova assim:

O RATO, O PATO, O GATO E O NONATO



O RATO ROEU A ROUPA DO REI DE ROMA,
O PATO POEU A POUPA DO PEI DE POMA,
O GATO GOEU A FOUPA DO GUEI DE GOMA
E O NONATO NOEU A NOUPA DO NEI DE NOMA.

Ciça. Travatrovas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

Léo Cunha, no livro Língua de sobra, da Ed. Cortez, traz uma brincadeira parecida com essa da Ciça:

Errata
O ato oeu a oupa do ei de oma.
O rato roeu a letra do meu poema!
O rato inventou outro idioma?
Ê, rato,
     pra que tanta
errata?

Pois é...muitos outros jogos também exploram essa ideia do par mínimo, geralmente com o fonema/letra inicial, como o Bingo Letra Inicial, do acervo de jogos do CEEL, e como as advinhas Par Mínimo que tenho aqui no acervo: 


Um jogo comercial que também trabalha com essa ideia de par mínimo é o Boggle Slam, que adoro.  Vejam aqui.


Nesse caso, a composição de pares mínimos aqui é mais complexa também, como a brincadeira que abriu esse post, pois não há comutação apenas de fonemas/letras iniciais. Mas acho mais bacana, com as crianças, jogar Boggle Slam sem isso de correr, cada um fazendo sua troca de letra na sua vez. Só com aquelas já alfabetizadas, dá para brincar com o fator rapidez valendo.

É isso, gente! 


sábado, 27 de fevereiro de 2010

Jogos

Sobre o Bingo de Sons
A estrutura básica do jogo Bingo, que é um jogo antigo e tradicional, é utilizada em muitos desdobramentos na escola: bingo tradicional de números, bingo de letras, de palavras, bingo de contas, bingo de uma série de coisas. Realmente trata-se de uma estrutura interessante para se jogar considerando diversos aspectos.
Aqui o que se propõe é um bingo que considera os sons da língua. Aprender a prestar atenção aos sons, às unidades fonológicas de ordens diversas – sílabas, fonemas, unidades inter e intrasilábicas – é um dos aspectos importantes para a alfabetização, visto que o nosso sistema de escrita é de base fonológica, embora não se restrinja a esse aspecto. Falaremos mais sobre isso oportunamente.
O Bingo de Sons é um jogo que favorece a reflexão fonológica, sem presença do escrito. Os sons são associados às palavras oralizadas, não escritas, indicadas por figuras que as representam. Cada casa do bingo é composta por uma figura que representa uma palavra, devendo o jogador estar atento ao seu significante sonoro, não ao seu significado. Como as palavras não estão escritas, ao procurar se têm em sua cartela palavras com as características que o professor indicar, os jogadores precisam concentrar-se e apoiar-se apenas na pauta sonora, e não nas letras ou no significado das palavras.
Para compreender o alcance, os limites e a amplitude do jogo, é bom esclarecer que os fonemas são abstrações, não são exatamente os sons, a imagem acústica. A materialização sonora dos fonemas são os fones. Esse bingo traz unidades silábicas, unidades intrasilábicas (como os encontros consonantais tipo em "inicia igual a TRIGO) e certas unidades fonêmicas, mas apenas aquelas que podem ser, de algum jeito, serem pronunciadas isoladamente, como as fricativas. Isso porque, se os fonemas orais, representados pelas vogais, constituem sílabas e podem ser emitidos isoladamente, os fonemas consonantais não se isolam na fala, pois a fala é co-articulada, os sons consonantais são emitidos em articulação com os orais, formando as sílabas. A sílaba é constituída de um ou mais fonemas, pronunciados numa só emissão de voz, os fonemas não são pronunciados independentemente, a não ser os orais. Além disso, em cada palavra, um fonema pode ter nuances diferenciadas. É por isso que é tão difícil pronunciá-los sozinhos, isoladamente de outros fonemas.
Assim, devemos cuidar de quando incluir no jogo os fonemas consonantais, incluindo apenas os constritivos e, de preferência, dentre esses, aqueles chamados fricativos (/f/,/v/,/s/,/z/,/x/,/j/), por serem fonemas mais fáceis de serem isolados, esticados, pronunciados independentemente e de serem percebidos sem a co-articulação com a vogal. Também o /R/ e /r/ vibrantes, podem ser, em algumas circunstâncias, observados na corrente da fala. Mesmo assim não é fácil...
...mas dá para brincar com eles...
Como não há escrita em jogo, apenas a fala, esse Bingo pode ser jogado também por crianças nas etapas iniciais da alfabetização, ainda com hipóteses pré-silábicas, favorecendo que desloquem a atenção do significado para o significante das palavras. Elas não terão, no jogo, o desafio de relacionarem fala e escrita, que é o que, justamente, ainda não sabem, terão sim o desafio de prestar atenção nos sons das palavras.
Os sons do jogo podem ser de sílabas, de unidades maiores ou menores que a sílaba (como /-ão/, /-ola/, /tr/) ou de fonemas (/s/), e podem ser focalizados os sons iniciais (aliterações) ou os sons finais das palavras (rimas). As cartelas (com as figuras) e cartas (para serem “cantadas”) podem ser confeccionadas apenas focalizando os sons iniciais silábicos ou com fonemas orais (vogais). Nesse caso, aos poucos o Bingo pode ser trocado para ir dificultando aos poucos, incluindo depois sons finais e fonemas iniciais consonantais nas cartelas e cartas. Podem também ser confeccionados Bingos só de um aspecto (ex. sons iniciais, silábicos ou fonêmicos) ou um Bingo misturado, como o que está apresentado no post anterior desse blog.
Antes de jogar é importante que os alunos se familiarizem com as figuras da cartela, saibam do que se trata, associando as figuras a seus significantes sonoros, as palavras orais. O professor pode também conduzir algumas observações sobre as palavras que nomeiam as figuras, comparando-as, questionando sobre semelhanças sonoras. Essa exploração inicial permite que se centre a atenção dos alunos nos sons das palavras correspondentes às figuras, indicando o “espírito” do jogo, além de permitir que o professor observe como os alunos estão pensando e como poderão encaminhar reflexões durante o jogo.
O Bingo de Sons é um jogo que trabalha a consciência fonológica de forma lúdica e flexível. Mas não é um jogo fácil de jogar, não é tão fácil abstrair o significado e focar o significante. Não é tão fácil prestar atenção a todas as “palavras orais” a um só tempo, para verificar se há o som “cantado” pela professora em sua cartela. Não é tão fácil fazer isso de início, por isso, uma fase de exploração é indicada, com outras atividades mais simples de reflexão fonológica. Jogar em duplas, dois por cartela, é interessante, pois serão duas crianças prestando atenção às palavras orais da cartela.
Uma última observação: como bem nos ensina o rinoceronte Quindim (Emília no país da Gramática, Monteiro Lobato), letra não é som, letra é letra, som é som (fonema). O professor precisa também se familiarizar mais com os sons da língua, despindo-se de uma visão grafocêntrica que em tudo vê escrita. Quando for ler as indicações dos sons nas fichas, no caso de fonemas consonantais, cuidar para não pronunciar os fonemas como o nome das letras, juntando um fonema vocálico (som da vogal), tentando ao máximo focar o fonema apenas, embora isso não seja mesmo tão fácil e nem sempre possível.
Assim, do mesmo modo, é preciso estar atento ao fato de que o som /s/ inicial, por exemplo, tanto pode estar presente nas palavras sapo, sorvete, sino, quanto em palavras como cinto, cinema, cegonha. Costumo dizer para minhas alunas (e alunos, mais raros!) que nossa cabeça alfabetizada pode nos atrapalhar bastante ao abordar esses aspectos do ponto de vista dos que não sabem ainda ler e escrever convencionalmente. Explico: é comum em um jogo fonológico (sem presença do escrito) haver correções equivocadas do aluno, pelo professor, por considerar a escrita, não o som (por exemplo, se o professor disser que “cinto” está, nesse caso, errado, para o som /s/, pelo fato de estar considerando a letra S e não propriamente o som /s/). Assim, sugiro que joguem bastante o Bingo Fonológico com outras professoras, para se familiarizarem com ele antes de propor a suas turmas.
Para os que querem sempre que as palavras em um jogo estejam, de algum modo, contextualizadas, podem ser selecionadas para compor as cartelas as palavras de um texto, de um universo semântico, um campo lexical. Mas não necessariamente. Os jogos têm, por si só, uma natureza sociocultural e lúdica que é suficiente para justificar o uso de palavras aleatórias, escolhidas por suas características sonoras e sua possibilidade de representação visual nas cartelas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Jogos

Bingo de Sons
Misturado

Regras do Jogo
Jogo composto de cartelas com 6 ou 9 figuras selecionadas segundo as indicações das fichas e fichas com indicações sobre características sonoras das palavras, para serem lidas pela professora. Usar marcadores como grãos de feijão, peças de jogo, botões, sementes etc.
As cartelas são distribuídas entre os alunos, de preferência reunidos em duplas, e cada dupla deve, antes de começar a jogar, reconhecer as figuras da sua cartela, tendo em mente as palavras que representam, a forma sonora dessas palavras.
Depois desse momento exploratório inicial, o professor irá ler as indicações nas fichas, uma a uma, tiradas aleatoriamente, e dará um tempo entre a leitura de cada ficha para que os alunos procurem se tem alguma palavra com essas características em sua cartela.
O professor deve enfatizar, numa segunda leitura da indicação, o som que está sendo considerado (marcado nas cartas com negrito). No caso de fonemas consonantais, cuidar para pronunciar os fonemas e não os nomes das letras, procurando não juntar um fonema vocálico (som da vogal). Os fonemas incluídos no jogo são aqueles que podem ser “esticados” e, de certa forma, isolados mais facilmente.
As indicações podem ser de vários tipos:


“Rima com...” ou “Termina como...” (dar uma palavra. Ex: Sabão)
"Começa como...” ou “começa igual a...” (dar uma palavra)
“Termina com...” (dar o som final em foco. Ex: /ão/, /oito/)
“Começa com...” (dar o som: silábico /ma/, fonêmico /R/ ou de unidade menor que a sílaba /tr/)
Essa versão do jogo mistura sons finais e iniciais e diversas unidades sonoras (sílabas, fonemas, unidades maiores e menores que a sílaba), por isso chama-se "misturado".
Quando a dupla encontrar uma figura cuja palavra que a representa tem a característica “cantada” pela professora, deve marcar a casa com um marcador. A professora, passeando entre as duplas na sala, pode ajudar indicando que tal ou tal dupla procure melhor em sua cartela, quando houver uma figura não marcada e que tem as características do que está sendo “cantado”.

A dupla que preencher toda a cartela primeiro deve dizer: BINGO. E ganha o jogo. O jogo pode seguir, constituindo-se o segundo lugar, terceiro e assim por diante, sempre as duplas dizendo BINGO ao preencher a sua cartela.

Bom, gente, é isso! Mão à obra! Confeccionem seus Bingos, é muito legal. Podem fazer explorando apenas sons iniciais ou finais, ou misturado como esse. Podem fazer com 6 casas para iniciar e depois propor outro com 9 casas. Não é difícil fazer. Figuras pesquisadas no Google, cuidado para não repetir os mesmos sons numa mesma cartela, equilíbrio na distribuição dos sons nas cartelas, planejamento de que sons explorar e as imagens relativas a eles, confecção das fichas para "cantar" considerando isso.
Bom trabalho,
Lica

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Poema para brincar...

Ritmo
Mário Quintana

Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco
Na pia
a menininha escova os dentes
escova os dentes
escova os dentes
No arroio
a lavadeira bate roupa
bate roupa
bate roupa
até que enfim
se desenrola
a corda toda
e o mundo gira imóvel como um pião!

Muito se já se disse e muito se analisa sobre esse poema de Quintana. Ele realmente “dá pano pra manga”. É um poema aparentemente simples, mas garimpando aqui e ali, podem ser achados muitos vieses de por onde olhar. Por vezes vêem tanta coisa que até apagam o poema, a possibilidade de sua fruição. Por vezes, no entanto, aprender a ver alguns aspectos, ajuda a apreciá-lo melhor. Essa é uma discussão complexa!
Aqui, no entanto, vamos apenas brincar com ele... mas para isso, precisamos observar umas coisinhas...

Reparem que em sua estrutura, o poema traz repetições que ressaltam o tal ritmo de que fala o título. No conteúdo, repetem-se ações, na forma, repetem-se palavras, versos, estruturas sintáticas, sons. A repetição dos fonemas consonantais (aliterações) no interior de cada estrofe, em versos que se repetem também, é bem importante para reforçar o sentido e a graça do poema. E vejam que as três primeiras estrofes são idênticas na estrutura, criando o que chamam de “paralelismo sintático”:
Na porta... Na rua... No arroio....
A varredeira... A menininha... A lavadeira...
Varre o cisco... Escova os dentes... Bate a roupa... e mais a repetição da segunda parte do último verso duas vezes.
Na última estrofe, por sua vez, rompe-se essa repetição de estrutura, com um “até que enfim”, junto com a intenção de romper o ritmo repetitivo das ações cotidianas em seus gestos também repetitivos. O ritmo, no entanto, parece ser restituído pelo mundo que gira imóvel como um pião.
Dito isto, a brincadeira que sugiro, então, é a de criar novas estrofes, na mesma estrutura das três estrofes iniciais. Lembre de pensar em situações e ações que tornem a estrofe interessante do ponto de vista de ações que se repetem cotidianamente e, em si, exigem gestos repetitivos. Vamos tentar?!
Na feira
o pescador vende o peixe
vende o peixe
vende o peixe
Na escola
a professora apaga o quadro
apaga o quadro
apaga o quadro
Podemos tentar uns menos concretos, mais líricos ou mais subjetivos...
Na sacada
a velhinha vê a rua
vê a rua
vê a rua
Na janela
a mocinha chora a dor
chora a dor
chora a dor
Recitando as estrofes do poema de Quintana em voz alta, podemos também observar que com as escolhas fonológicas nos versos repetidos, são sugereridos sons relativos às ações apresentadas em cada estrofe. Em “varre o cisco”, a aliteração do fonema /s/, trazida pelas letras C e S, remete-se ao som da vassoura arrastando no chão... Em “bate a roupa”, a presença dos fonemas /b/, /t/, /p/ e sua aliteração dão a ideia da pancada da roupa batendo. Já no “escova os dentes”, a repetição e aliteração, também do /s/, em "escova" e em "dentes" evocam o som da escova.
Assim, para nossas criações de estrofes ficarem ainda mais bacanas, que tal tentar não só seguir a estrutura sintática das estrofes e a referência a ações repetitivas, mas também pensar em escolhas fonologicamente interessantes!? Pensei a minha assim:
No escritório
a secretária bate a tecla
bate a tecla
bate a tecla
Os fonemas /b/, /t/ e, especialmente, o fonema em encontro consonantal /cl/, nessa proposta, dá a ideia da tecla teclando, não acham? Agora tentem uma... Se gostarem, mandem! E tentem com seus alunos.
Lica

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Sobre as Oficinas


Aos que solicitaram que eu desse mais informações sobre as Oficinas que tenho organizado, lá vai:

As Oficinas se apresentam, geralmente, em três Módulos, organizados por blocos de materiais.
Os Módulos podem ser oferecidos separadamente ou sucessivamente:

· Módulo I: Materiais a partir de textos da tradição oral como parlendas, trava-línguas, quadras, cantigas, ditados populares, frases feitas, adivinhas.

· Módulo II: Materiais confeccionados a partir de textos de vários gêneros literários e audiovisuais, como fábulas, contos, lendas indígenas e africanas, histórias infantis, quadrinhos, desenhos animados, filmes de animação.

· Módulo III: Jogos diversos, com diferentes objetivos relativos à aprendizagem da escrita e leitura, como o aprendizado de letras, a apropriação do sistema alfabético, a consciência fonológica e a ortografia.

As Oficinas acontecem em dois formatos básicos: Oficina de Jogos e Atividades de Alfabetização e Oficina de Produção de Material para Alfabetização.

A Oficina de Jogos e Atividades de Alfabetização tem como objetivo conhecer, discutir, manusear, brincar e jogar com jogos e materiais próprios para o processo de alfabetização, confeccionados artesanalmente, discutindo sobre as bases teórico-metodológicas das atividades propostas a partir desse material.
Nas Oficinas, a proposta é familiarizar-se com materiais diversos, aprender regras de jogos, suas variantes, as possíveis adaptações aos diferentes níveis de leitura e escrita das crianças, constituindo-se, assim, um repertório de atividades de apoio ao planejamento de intervenções que visem à reflexão sobre o sistema de escrita alfabética em situações lúdicas e significativas.
Ao final da Oficina, os participantes terão familiaridade com um acervo considerável de ideias de atividades, de regras de jogos e de materiais funcionalmente e esteticamente interessantes para o uso em sala de aula, fáceis de serem confeccionados e embasados em firmes bases teórico-metodológicas.

A Oficina de Produção de Material para Alfabetização*, por sua vez, visa à confecção, pelos professores, dos kits de materiais e jogos de alfabetização, acompanhada de discussões sobre as possíveis atividades que podem ser planejadas com a sua utilização, considerando os níveis de leitura e escrita dos alunos. O material produzido servirá de apoio à prática do professor em sua tarefa de alfabetizar alunos em diferentes níveis de leitura e escrita, considerando diversos aspectos dessa aquisição.

O alcance e potencial de cada kit e jogo são discutidos em sua natureza de material pedagógico, bem como são explicitadas suas bases teórico-metodológicas, durante as Oficinas, a partir de discussões que dão consistência aos materiais produzidos. Além de confeccionados, os materiais são, na medida do possível, também utilizados para que os participantes possam melhor apreender suas potencialidades. O cuidado estético com a confecção dos materiais, as diversas possibilidades de composição e apresentação, assim como sua conservação e organização visando à funcionalidade no dia-a-dia da sala de aula, também são pontos de atenção durante as Oficinas.

Ao final da Oficina, os participantes terão seu kit próprio para o uso em sala de aula, familiaridade com um grande acervo de ideias de atividades, devidamente embasadas, e terão, sem dúvida, constituído um “know-how” para continuar a ampliar seus kits e adaptar os materiais aos alunos que têm ou terão diante de si. Geralmente as trocas multiplicam as ideias e todos ganham com a construção coletiva e compartilhada. É o que sinto... é o que dizem...
...e mais...

A primeira Oficina, de certo modo, prepara a segunda, mas elas podem ser independentes uma da outra. A Oficina de Produção funciona nos três Módulos descritos acima e também pode ter certa independência, tendo uma maior carga horária quando não segue a Oficina de Jogos e Atividades.

Também podem ter outras configurações quando são oferecidas em contextos específicos, como, por exemplo, como seguimento de aulas de Alfabetização, em cursos de Pedagogia; em escolas nas quais as concepções sobre alfabetização já vêm sendo discutidas; para grupos de especialistas; dentre outras situações. Posso organizar uma Oficina para grupos específicos que a solicitam ou abrir turmas para o público em geral. Posso fazer uma proposta sob medida, a partir do contexto e da carga horária indicada, ou mandar uma proposta para análise da instituição. Podemos, ainda, pensar junto em um formato, considerando as possibilidades. Sempre podemos tentar achar um jeito.

Para os que não dispõem de tempo ou possibilidade de acompanhar uma Oficina de Produção, que sempre demanda um tempo maior, a de Jogos e Atividades pode atender a diversos aspectos. Entretanto, é importante saber que fazer sozinhos os materiais não tem o mesmo brilho e a riqueza de confeccioná-los juntos, em grupos - sejam grupos formados por professores conhecidos, sejam grupos formados por interessados provenientes de diversos segmentos – e sob minha orientação. Fazer junto é realmente muito mais legal!

Para os que moram muito longe ou que, mesmo perto, não têm disponibilidade de tempo, e que não podem fazer nem uma nem outra, espero poder contribuir com alguma coisa através desse blog. Apareçam!

Um abraço,
Lica

* Os arquivos com o material a ser produzido é fornecido digitalmente para impressão ou em papel, para fotocópia, sendo a impressão ou cópia de responsabilidade do inscrito. Também é de sua responsabilidade o material utilizado para a confecção dos seus kits - cuja lista é fornecida - como papéis de vários tipos, cola, tesoura etc.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Letras, palavras, poemas...


o bicho alfabeto
Paulo Leminski

o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase

por onde ele passa
nascem palavras e
frases

com frases
se fazem asas
palavras
o vento leva

o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve


(La vie em close, 1991, ed. Brasiliense)

Planos de Atividades

Sobre os Planos de Atividades

Os planos de atividades de alfabetização postados aqui se referem a planos criados a partir dos materiais e jogos do acervo. Eles podem ser modificados, ajustados, mexidos, para atender às diferentes turmas, reais, singulares, que cada professor tem diante de si. Como o nome já diz, plano é “plano”, não abarca as sinuosidades próprias ao real, aos sujeitos, aos grupos, às singularidades, ao imponderável. O mapa, como diz Borges, não é o território. Assim, são apenas pontos de partida, possibilidades, que serão precipitadas singularmente em cada contexto específico por sujeitos únicos, em interações singulares.

Na medida do possível, os planos foram pensados para atender a crianças em diferentes níveis de domínio da leitura e de conceitualização da escrita, e exigem, para serem adaptados e bem desenvolvidos, o conhecimento da turma, a partir de diagnósticos, sondagens ou do acompanhamento do processo das crianças. Muitos dos planos podem também ser adaptados para turmas de alfabetização de jovens e adultos, desde que os textos utilizados sejam interessantes para essa faixa.

Cabe lembrar que se trata de uma concepção de alfabetização em contexto de letramento e, portanto, os textos que serão o ponto de partida para as atividades propostas deverão ser muito bem explorados como textos que são, antes de serem usados também para atividades de reflexão sobre o sistema de escrita alfabética. Por exemplo, ao usar fábulas, seus títulos, moral e/ou texto em atividades de alfabetização, supõem-se que antes essas foram lidas (ouvidas), apreciadas, discutidas, comparadas, compreendidas enquanto gênero textual com características próprias, o que pode gerar reescritas, pequenos livros, ilustrações etc. É nesse contexto de leitura e escrita, que enfatiza o sentido e o gênero, que as reflexões sobre o sistema alfabético vão acontecer. A mesma coisa se dá em relação a outros gêneros textuais. Na medida do possível, esse aspecto será relembrado em cada plano de atividade proposto.

Outro aspecto que vale sublinhar é que o diagnóstico das hipóteses de escrita das crianças - que vão guiar a proposta, a adaptação das variantes da mesma proposta, de acordo com os desafios que apresentam para cada nível, bem como a organização dos agrupamentos e parcerias, - deve ser realmente apenas uma referência. É preciso estar ciente de que, primeiro, em cada hipótese de escrita descrita por Emilia Ferreiro há inúmeras possibilidades de produção e de formas de pensar, portanto, é preciso estar bem atento para propor desafios e parcerias realmente pertinentes a cada um, cada dupla, cada subgrupo, para que realmente tenham bons problemas a resolver para avançar. Em segundo lugar, é preciso lembrar que o desempenho das crianças na escrita não recobre necessariamente, ou não corresponde sempre e igualmente, a seu desempenho na leitura. Para organizar as atividades que envolvem a leitura (quando ainda não se sabe ler convencionalmente, decodificar), é preciso conhecer o modo como as crianças lêem, que hipóteses fazem ao tentar ler, que domíno têm de decodificação e de leitura visual. As hipóteses de escrita diagnosticadas nas produções infantis dão uma dica, inclusive porque pedimos a elas que leiam suas produções para nos certificar de suas hipóteses, mas não é um dado suficiente para determinar o domínio de leitura das crianças.

Os planos explicitam objetivos e conteúdos básicos do processo de alfabetização, embora outros objetivos e conteúdos possam estar em jogo, implicitamente, na proposta, relativos ao letramento, ao convívio, ao aprendizado de valores e atitudes. Incluem-se no plano também os objetivos e conteúdos dos diferentes níveis de escrita e leitura previstos na atividade, embora a proposta possa estar mais focada ou ser mais produtiva para um nível específico, e apenas sugeridas as adaptações e variantes. Cada professor ou professora deve julgar se e como as atividades propostas podem favorecer a reflexão de seus alunos, o avanço de suas hipóteses e estratégias, a aprendizagem.

Feitas essas observações e apresentações, segue o primeiro plano.


PLANO DE ATIVIDADE

Texto: Adivinhas

Objetivos:

Usar as adivinhas para brincar;
Identificar palavras;
Relacionar oral e escrita para reconhecer palavras ou parte de palavras;
Usar estratégias de leitura para ler sem saber ler;
Usar os conhecimentos que têm sobre o sistema de escrita, letras iniciais, finais, partes de palavras, valores sonoros de letras, tamanho etc;
Identificar letras;
Refletir sobre ortografia.

Conteúdos:

Gênero de texto de origem oral;
Identificação e reconhecimento de palavras;
Relação oral/escrito;
Estratégias de Leitura;
Funcionamento do sistema de escrita alfabética;
Identificação de letras;
Ortografia.

Desenvolvimento:

Relembrar as adivinhas da cultura popular que foram previamente lançadas na turma, numa outra ocasião, para brincar de adivinhar, oralmente. Relembrar coletivamente suas respostas, que foram adivinhadas com ou sem dicas dadas pela professora. Selecionar algumas adivinhas que as crianças saibam as respostas de cor, para, assim, proceder à atividade em grupos.

Utilizar os materiais estruturados da seguinte forma: a professora tem as cartelas com as adivinhas escritas e as crianças as fichas com as respostas. Distribuir nas mesas as fichas com as respostas de todas as adivinhas que serão lidas/ditas para a turma. O número de adivinhas depende do nível da turma, o ideal é começar com um número menor, como 4 ou 5, e ir experimentando aumentar na própria dinâmica da atividade, repetida em outras ocasiões. É preciso ter um kit de fichas para cada mesa, que recebem as mesmas palavras. As possibilidades e dificuldades de cada criança devem ser consideradas ao agrupá-los nas mesas, para possibilitar boas trocas, interações produtivas e um equilíbrio entre as mesas.

Cada mesa deve tentar achar a resposta da adivinha lida/dita pelo professor. As mesas que acharem primeiro podem sinalizar que já encontraram, mas não ainda mostrar a ficha para as outras mesas. Quando todos encontrarem as respostas, mostram suas fichas. A professora pode provocar a discussão, perguntando como encontraram a resposta, que estratégias usaram, que indícios consideraram. Essa argumentação é um trabalho metacognitivo interessante, que favorece explicitarem procedimentos e, para os que não encontraram a resposta, constitui-se em uma forma de irem se apropriando, gradativamente, de um repertório de indícios que podem passar a considerar.

Essa é uma atividade para uma turma na qual os alunos ainda não sabem ler convencionalmente e precisam usar todo o conhecimento que têm sobre letras, seus valores sonoros, letra inicial, final, partes de palavras que já reconhecem e que podem usar como modelo, enfim, todo o conhecimento que já dispõem. Para tal desafio é imprescindível que as crianças já conheçam as respostas oralmente, para que saibam o que estão procurando (que palavra procuram entre aquelas fornecidas). Trata-se de ajustar o oral, o que sabem oralmente da palavra, ao que vêm escrito, para tentar reconhecer a palavra, ainda que não a decodifiquem termo a termo. Para ser desafiante, de qualquer modo, não podem ser respostas que já memorizaram visualmente, globalmente, não completamente, em atividades prévias. Não se trata de avaliar o que memorizaram e que podem reproduzir.

No caso de haver alguns poucos alunos que já lêem convencionalmente, uma possibilidade é agrupá-los em uma mesa e eles terem que escrever as respostas das adivinhas lidas/ditas pela professora ou as montarem com as letras móveis disponíveis. Podem ainda lerem eles mesmos as adivinhas de outro kit e escreverem/montarem as respostas. Esses devem checar sua escrita/montagem ao final ou a cada resposta.

Para finalizar a atividade as crianças poderão escrever as respostas numa folha com as adivinhas (individual), ou no caderno, mesmo que olhando as fichas. Os que sabem escrever podem fazê-lo, também em relação à pergunta.

Crianças com hipótese pré-silábica ainda não relacionam o oral e a escrita em suas produções escritas. Se, na leitura, ainda não estabelecem essa relação, não podem fazer, sozinhas, esse tipo de atividade. Havendo crianças com essa hipótese, podem ser agrupadas com as outras. Caso haja um grupo maior, podem ser agrupadas em uma mesa e a professora procede do mesmo modo, mas dá dicas como: “começa com a letra x...”, “Tem x letras...”, “termina igual ao nome de fulana” (se os nomes estão disponíveis na sala ou a criança está na mesa), “é a maior palavra entre todas”, “tem três ‘a’ nessa palavra” etc. São esses os conhecimentos que constituem desafios para elas.

Recursos:
· Kit de Advinhas com respostas (palavras) repetidas (de acordo com o número de mesas);
· Alfabeto móvel ou respostas fatiadas em letras (é interessante, pois ao final, não podem faltar ou sobrar letras, caso aconteça, devem observar onde erraram)