segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Galeria PNA - Política Nacional de Alfabetização em gêneros diversos

 Olá, gente,

Tenho estado pouco por aqui, mas volto para postar as produções dos estudantes do componente EDC B85 - Alfabetização e letramento, nesse semestre suplementar da FACED/UFBA, em tempos de pandemia. O semestre suplementar, remoto, foi o que a UFBA definiu como retomada no período de isolamento social, devido à Covid 19. O semestre foi de muitos desafios e celebramos essas produções como conquistas importantes entre o acolhimento desses desafios e o desejo e necessidade de não comprometer o aproveitamento dos estudantes, de assegurar um semestre produtivo, ainda que com todas as limitações. Conseguimos! Mas nem todos. Alguns ficaram pelo caminho, por razões diversas - não podemos esquecer disso ao constatar que conseguimos e celebrarmos -, então essa conquista ganha outros contornos também. Soubemos reconhecer essa realidade.

Bom, mas como não poderia deixar de ser, nesse semestre, discutimos no componente também a situação da alfabetização na pandemia. Lemos artigos, matérias, assistimos a lives e fizemos levantamento de desafios do período quanto à alfabetização, em especial. Um dos trabalhos de avaliação que definimos para o componente foi realizar uma breve pesquisa junto a docentes quanto aos desafios que tiveram, as estratégias de que lançaram mão para transpor tais desafios e as estratégias didáticas e plataformas que têm as/os ajudado nesse contexto. Ao final, os estudantes categorizaram seus dados e apresentaram, oralmente, em momento síncrono, os seus resultados. Não conseguimos tratar os dados em conjunto, durante o semestre, como queríamos de início, mas entre o zelo com as dificuldades do período e as possibilidades, deu ao menos para termos uma ideia de tendências em termos desses desafios e estratégias. Vimos desafios semelhantes e diferentes implicados em situações relatadas por docentes de escolas particulares, escolas públicas e instituições que lidam com crianças com deficiências, com suas particularidades. Vimos desafios mais amplos, coincidentes com o vivido em geral no ensino remoto, e desafios específicos do processo de alfabetização. Vimos algumas estratégias docentes para driblar esses desafios e alfabetizar as crianças, e conversamos muito das contradições envolvidas em tudo isso que envolve o ensino remoto nesse período de pandemia. As apresentações ficaram sob a batuta de Dionei, Fernanda e Geovana, Helena, Jeane, Jolfer, Keyla e Marina. Thailcy preferiu apresentar o trabalho por escrito. 





Para acessar os slides das apresentações, veja a pasta no Drive aqui. ATENÇÃO! Para visualizar adequadamente as apresentações, colocar os arquivos em PowerPoint em modo Apresentação de slides.

Demos essa opção de trabalho de avaliação do semestre (dentre outros dispositivos, como participação nas atividades do AVA) ou a opção de se debruçarem nos estudos sobre a PNA - Política Nacional de Alfabetização, e seus programas derivados (Conta pra mim e Tempo de Aprender). Ambas as discussões que fizemos (com a turma toda) dessas temáticas, bem como o aprofundamento em uma ou outra para realizarem os trabalhos, articulam-se a nosso estudo sobre concepções de alfabetização, articulado às políticas e práticas alfabetizadoras. Ainda que a discussão parta da perspectiva de alfabetização que tomo como referência, por convicção eu acredito que seja importante, nesse componente, trazer um panorama do campo de concepções, que se apresentam numa dinâmica de disputas e diálogos, em vez de assumir apenas um ponto de vista. Assim, busco apresentar a temática da alfabetização e do letramento no contexto das disputas conceituais em torno desses conceitos, mas sempre entendendo a apropriação da escrita alfabética como a apropriação de um instrumento cultural potente, como nos ensina Vygostky, no contexto de uma cultura escrita. E buscando um modo de abordagem em que o campo conceitual, epistemológico, político e didático se articulem. 

Aliás, abrindo um parêntese, é importante ressaltar que o tempo é curto para tanto. Muito curto. O componente merecia carga horária maior no curso de Pedagogia, inclusive porque, também por princípio, acredito ser fundamental maior dedicação, igualmente, à dimensão didático-pedagógica, na perspectiva da formação para a docência em alfabetização. Por ora, nas disputas por espaço no currículo do curso, temos apenas esse componente obrigatório de alfabetização. 

No contexto dessa discussão e articulações, fomos estudar a PNA, sua vinculação com a ciência cognitiva, o método fônico, a literacia entendida como habilidades inidividuais e banimento da dimensão sociocultural da alfabetização, bem como fomos analisar seus programas de implementação. Alguns estudantes se dedicaram ao próprio Caderno da PNA, outros ao programa de literacia familiar Conta pra mim e outros fizeram o curso para docentes do programa Tempo de Aprender, para trazer para o grupo alguma reflexão nesse sentido. Inspirando-nos na AULA ABERTA que realizei junto com a turma de 2019.1 e também em nossas discussões sobre gêneros no processo de letramento, a proposta foi materializarem seus estudos e críticas sobre a PNA em gêneros textuais diversos, unindo reflexão e criatividade, crítica e deleite, siso e riso. 

São esses trabalhos que apresentaremos nesse post. Diferente dos textos da Aula Aberta de 2019, que foram produzidos ainda no início da decretação da PNA, aqui já temos análises dos programas de implementação dessa política. Na turma de 2019.1, fomos olhar o site do Secretário de Alfabetização nomeado e, depois, o Decreto de abril 2019. Ainda não havia o Caderno da PNA. Os textos daquela ocasião refletem isso. Mas agora as produções trazem outros elementos em suas paródias de gênero.

Vejam que há, inclusive, hibridismos vários - é um trabalho acadêmico, que traz o formato de algum gênero discursivo e suporte, veiculado em outros suportes e que, no final das contas, têm suas funções sociais originais deslocadas para dar lugar a essa função: revelar, numa perspectiva crítica, o que aprenderam sobre essa política, sobre concepção de alfabetização, sobre alfabetizar e letrar.

Vamos aos textos? São contos, cartas, contos em forma de cartas, tirinhas, canção, bula de remédio, arquivo confidencial, aplicativo... artigo de opinião em jornal, entrevista em revista... Como a turma foi menor e se dividiu em mais de um trabalho, não são muitos os textos, mas estão no capricho! Mas até que tem bastante! Vamos conferir?

Para começar, de onde sempre se parte, entramos no Reino Analfabeto. Nesse reino, somos apresentados ficcionalmente à PNA, Tempo de Aprender e Conta pra mim, ou seja, à política e a seus programas derivados. Conto de Emanuelle Cavalcante:

Para visualizar no Drive, clique aqui.

Mas esse conto ficcional parece que aconteceu de verdade, não? Algumas matérias em jornais, sites e revistas já começam a divulgar mais sobre a PNA e o que tem por trás dessa política e seus programas de implementação. Com esse artigo de opinião em um jornal especializado em educação, de autoria de Tamires, os princípios e intenções da PNA vão se tornando claros, a partir de um estudo comparativo de dois documentos de governos diferentes. O neoliberalismo e a mercantilização da educação estão presentes nas políticas de alfabetização muito antes do governo atual, e se alastram num crescente que, juntando-se ao conservadorismo desse governo, vemos interesses e desmontes que vão muito além dos interesses mercantis. 

Para visualizar no Drive, clique aqui.

A situação vai ficando tão complicada que lançaram até um medicamento. A farmacêutica responsável, Maria Victória, garante que, com esse medicamento, tudo ficará esclarecido e o governo poderá ser responsabilizado pela administração irrestrita da droga na população. 

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A PNA, tendo até um remédio desses, já avançou em programas visando à sua implementação. O primeiro foi o Conta pra mim, que gerou muitas críticas, especialmente entre pesquisadores do campo da literatura, da formação leitora e da alfabetização - nenhum autor e pesquisador desses campos foi convocado ou consultado para dar seu parecer sobre tal proposta. Mas  o lançamento do programa gerou também muitos elogios por parte de famílias (de classe média, média alta) e docentes (muitos deles, bastante desavisados). Não foram poucos que, desavisados,  sem perceber a falácia, "compraram" a ideia por suas premissas inquestionáveis, mas outros porque são alinhados mesmo a esse tipo de literatura utilitarista, usada para ensinar e moralizar, bem a cara da perspectiva  ideológica subjacente. E não são poucos os toscos que questionam os que criticam o programa usando esse argumento: "como assim, estão questionando os pais lerem para as crianças?". Seria absurdo, exatamente. Não estamos questionando essa premissa, usar esse argumento é querer fechar questão, e é admitir que a premissa louvável justifica o programa tal qual ele se apresenta. Vamos ver que aspectos são esses que se questiona? 

Em reação a uma carta institucional do MEC quanto ao programa, tanto professoras quanto famílias se manifestaram e algumas manifestações foram em forma de cartas. Veremos agora essas cartas, organizadas por Celly, Geisiane e Heloísa. Para começar, a carta do MEC que gerou as reações.

Se não conseguir dar zoom nas imagens, acesse no Drive as cartas do MEC, professoras e mãe, em pdf, com maior legibilidade.



O link para a fala da primeira dama apresentando o Conta pra mim, citado na carta, é aqui.

As reações ao lançamento do Conta pra mim e a essa carta vieram de escolas, professoras, famílias. Muitos elogiam o programa, porque ele parte, justamente, de premissas inquestionáveis: ler para as crianças é uma prática muito importante e as famílias e, quando são famílias letradas, constituem uma agência importantíssima de letramento. Acontece que é muito simplório achar que prescrições de um programa, que depende de condições não garantidas a uma grande maioria de famílias às quais o programa supostamente se dirige, vai ter um impacto substancial - ainda mais com um viés instrumentalizado das interações sociais e um uso utilitário da literatura. As crianças de famílias com poucas condições de inserir as crianças nas práticas letradas precisam é que as escolas garantam o letramento, as experiências ricas e diversificadas com a cultura escrita. A escola pode, inclusive, mediar melhor a relação de famílias com baixo grau de letramento com a leitura das crianças. Mas, ao que parece, é justo o que eles não querem, né? Querem a relação direta família-criança, minimizando o papel da escola. Por que será, né? Estamos sob a égide de um governo extremamente conservador e ideológico, o que podíamos esperar de um programa assim? Mas, ao que tudo indica, nem todos os docentes e nem todas as famílias caíram nesse conto da carochinha, muitos conseguem ver além das premissas inquestionáveis que nublam nosso espírito crítico diante de tantas falhas!

Nesse sentido, o trio Celly, Geisiane e Heloísa, registrou aqui a carta de um coletivo de professoras alfabetizadoras, baianas, mulheres, guerreiras e que firmam um compromisso com a educação de qualidade, a especificidade de sua função profissional, defendendo sua autoria e autonomia docente. Ressaltam, ao lado da apropriação da linguagem como forma de interação social, o valor da literatura, cultura e arte na vida e na formação de sujeitos. 

Viva essa professora! Vivas as muitas professoras que fazem a diferença! 

Mas além das professoras, famílias também manifestaram suas inquietações. Se você se reconhece naquelas casas de revista, arrumadas, cheias de móveis bonitos, obras de design, com lareira, quartos amplos, camas aconchegantes, famílias bem vestidas, talvez não veja a incoerência da mesma forma que famílias muito distantes dessa representação idealizada de família, muito longe da realidade de nosso país. Era pra ficar bonito, né? Pois...taí a contradição...uma delas... Tem muitas! Veja essa carta de uma mãe que dá muito valor à alfabetização de seus filhos, a despeito - ou por isso mesmo - de não ser alfabetizada. A valorização da escrita e de seus usos na sociedade também é um fator de letramento, como discute a Silvia Terzi, em um artigo na nossa Revista da FACED, hoje entreideias. A carta dessa mãe desvela certos aspectos de um programa que se diz voltado para famílias pobres e em vulnerabilidade social e, no entanto, tais famílias não se reconhecem nele.


É tão interessante observar, nesse post e nessa proposta metatextual, como os gêneros vão contando de forma diversa sobre a temática, não é? Aqui, as diferentes cartas têm diferentes formatos, linguagem, formas gráficas, graus de formalidade e, fazendo um comentário metagenérico, ainda trazem a polifonia de vozes diversas que falam nelas, não é? Vozes do enunciador das cartas, vozes das estudantes que as bolaram, vozes da docente (eu), que conduziu as discussões e estudos e revisou os trabalhos, vozes que embaralham a formalidade e a ironia, a informalidade e a crítica. Nesse sentido, a carta do MEC bem que poderia ter uma tarja de "contém ironia", né? 

Além de indignação, reações críticas e pequenas doses de ironia, o Conta pra mim também despertou a ironia na essência, já que vem em forma de tirinhas, gênero que tem a ironia como um aspecto fundamental. Vamos ver as tirinhas de Emanuelle Francine? Fala de outro jeito o que falou Lúcia na sua carta.



Ursinho leitor? Tem!


Mas esse assunto todo gerou uma investigação policial que parece até que tem um quê de confidencialidade, não é? E seguimos aqui revelando, em primeira mão, o arquivo ultra secreto, cuja investigação está sob responsabilidade de Érick. A ideia maravilhosa foi dele, mas quase queria desistir! Não deixei! Ainda bem, né gente? Um empurrãozinho, e olha que essa investigação parece até que está rolando mesmo e deixando o MEC preocupado...







Que essa investigação corra com celeridade! 

Até aqui vocês já perceberam que gêneros diferentes falam de formas diferentes e, por vezes, dos mesmos assuntos, não é? Mesmo se definimos um conteúdo, há diferenças de formato, enunciados, construções sintáticas, elementos coesivos, informatividade, modalização, léxico (esse arquivo secreto traz termos desse universo investigativo que marcam muito o gênero, percebem?). O gênero compõe-se de tudo isso. E, sem esquecer que o determinante para caracterizar um gênero é a sua função social, criamos um dispositivo que nos ajuda a pensar ao mesmo tempo na temática da PNA e o campo conceitual do nosso componente, nas características formais e funcionais de alguns gêneros discursivos, seus hibridismos, e até mesmo nessa nossa capacidade metagenérica, que nos permite saber sobre as marcas desses gêneros, só pelo uso ou conhecimento deles nas práticas culturais e sociais. E é por isso mesmo que podemos "brincar" de fazer arquivo confidencial sem ser,  de bula sem ser, de aplicativo sem ser, ou seja, brincar com a forma, sendo a função, em último caso, sempre ligada a nossa reflexão sobre as políticas de alfabetização, que estamos analisando com olhos críticos. Um aprendizado e tanto!

Nesse sentido, vamos ao deleite musical! Apresento um livro de letras, cifras e partituras, que na verdade é um Songbook de paródias. Além de dizer o que quer dizer, ao seu modo, para parodiar uma canção é preciso também transformar palavra dita em palavra cantada, cuidando da frase melódica, da métrica, para a letra caber minimamente na melodia da canção original. Degustaremos uma das paródias do Songbook, a de Suylan, da canção Wave, de Tom Jobim.

Para visualizar no Drive, clique aqui.

Bom, mas se você ainda não está convencida/o de que tal política e tais programas merecem esse olhar crítico em muitos gêneros, se ainda tem dúvidas, e se ainda tem fôlego para um pouco mais de ironia, pesquise nas lojas virtuais e instale o aplicativo PNA, desenvolvido especialmente para você que está hesitante entre a crítica, ferrenha ou irônica, e a aceitação plena da política de alfabetização e suas materializações nesses programas. Após baixar o App, leia os termos e condições de uso, especialmente a parte das responsabilidades. A responsável técnica, Alba, orienta a não usar o aplicativo se não estiver ciente desses termos.

Para ver mais legível, em Pdf com maior resolução, clique aqui. Será que as letrinhas pequenas são de propósito para aderirmos sem saber onde estamos nos metendo?





Além do Conta pra mim, como no aplicativo fica claro, há também o programa Tempo de Aprender, outra ação de implementação da PNA, igualmente citada em outros textos - aliás, desde que apresentamos o reino analfabeto! Vamos entender mais sobre isso numa entrevista de Cleidiane, da Revista Tic's da Pedagogia, ao colega Walisson, que fez uma parte do curso de formação, parte desse programa, para nos contar de suas impressões. 

 

Para visualizar no Drive, clique aqui.

Para fechar, Vanessa embaralhou gêneros e saiu um conto distópico de mistério, em forma de e-mails e que deixa no ar a provocação quanto a nossa responsabilidade como docentes ou futuros docentes, para que possamos ser a resistência, como aquela que se esboçou no Reino Analfabeto. Abra o arquivo e dê zoom para ler melhor.

Para visualizar no Drive, clique aqui.

É isso, gente! Essa é parte de nossa produção no componente esse semestre. Espero que tenham gostado! Se você gostou e não viu o post da Aula Aberta que aconteceu em outra turma, em 2019.1, e na qual nos inspiramos para as produções desse semestre, confira aqui! Outros semestres virão, quiçá novas produções, pois não nos deixaremos ser robôs, a criatividade é infindável, a linguagem é viva e se dispõe a nós para que façamos mundos com ela. Somos humanidade, precisamos da arte, da cultura, da crítica, da justiça social, da participação plena na cultura oral, escrita, visual, digital, precisamos da linguagem viva e cheia de graça. Mesmo pra falar de coisa séria, muito séria!

Abraços a vocês leitores(as), fiquem bem e sigamos aguerridos por um mundo melhor, por uma educação para todos e comprometida com a justiça social, e por uma alfabetização bem diversa da que está posta na política desse governo.

E a vocês, estudantes, deixo um bilhetinho:


 

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

POST 0 - Sobre a PNA – alguns apontamentos


A Política Nacional de Alfabetização (PNA) foi lançada por decreto (isso diz o que sobre tal política), em abril de 2019. Totalmente construída com base na perspectiva da abordagem fônica, referenciada em pesquisas da ciência cognitiva da leitura e em programas levados a cabo em outros países, importa, junto com a supostamente neutra ciência cognitiva, um viés altamente instrumental de alfabetização, alinhado à perspectiva das avaliações, testagens, da eficiência, eficácia, em um arcabouço semântico e discursivo que reduz a educação a uma instrumentalização técnica dos sujeitos numa sociedade mercantil, meritocrática e neoliberal. A educação em seu sentido “essencial”, social e humanista, visando à formação de sujeitos pensantes, críticos, e a alfabetização e letramento vinculados às oportunidades desses sujeitos em lidar com as diversas práticas sociais de leitura e escrita da sociedade em que estão inseridos, parece bastante ameaçada – sabemos disso. Com isso, minimiza-se o papel da escola, numa sociedade com tamanhas desigualdades sociais, e em um tempo em que descobrimos que os ideias de justiça social, respeito à diversidade e aos direitos humanos não estão garantidos. O liberalismo deu lugar ao neoliberalismo predatório, e à mercantilização da educação, impulsionada ainda lá nos anos 90 – mas que vem agora a rodo, passando por cima de tudo. O neoliberalismo na educação e a instrumentalização técnica dos sujeitos andam de mãos dadas, e essa perspectiva da PNA, no seu modo de se apresentar, também. Quanto a essa questão, sugiro que assistam ao vídeo com a fala do francês Christian Laval, sobre a temática de seu livro, “A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA: o neoliberalismo em ataque à educação pública”, traduzido para o português pela Boitempo. Dá um panorama do contexto no qual toda essa discussão se insere.

Esse contexto maior não pode ser negligenciado ao analisarmos a PNA e sua implantação no Brasil atual. Disfarçados de conhecimento universal, neutro e contra a ideologia, o referencial científico e a política pública que defendem no MEC, hoje, traz a retórica de salvacionismo político e pedagógico. Fosse apenas divergências teórico-metodológicas... Mas... Não podemos esquecer, no entanto, que as políticas públicas constituem uma instância que se articula de modo dinâmico e complexo às instâncias das teorizações e das concretização de ambas nas práticas, bem como com os interesses mercantis articulados às escolhas no âmbito das políticas. Aguardemos como será sua implementação, mas o modo como sua instituição tem se efetivado, desde o tal Decreto, não nos dá motivos para esperar boa coisa, não, nem em termos políticos, nem pedagógicos.

Mortatti (2000; 2010) fala das dinâmicas relações entre tematizações, normatizações e concretizações nas concepções de alfabetização e, por isso, falar de políticas também envolve falar de concepções de alfabetização e de sua concretização pedagógica. E o campo das concepções de alfabetização é, e sempre foi, um campo de conflitos e de disputas sobre quem está com a verdade sobre o que é alfabetizar e como se alfabetiza, e de luta pela hegemonia em dizê-lo, com alguns diálogos possíveis. E isso tanto no passado, como no momento atual. É da própria dinâmica do campo, como argumenta Mortatti (2000), que se move, historicamente, na dialética entre o novo e o antigo, o tradicional e o inovador, o novo tornando-se antigo e o inovador, tradicional, nos discursos que se sucedem. Dinâmica com suas mudanças e continuidades, permanências e rupturas que operam, simultaneamente, articulando teorizações, normatizações das leis e políticas públicas, e concretizações de ambas na prática pedagógica. Sugiro o post sobre o campo da alfabetização, com muitas indicações de leitura sobre a temática.

Entretanto, talvez jamais tenha se verificado, como agora, um achatamento do campo, a tentativa de validar uma voz única, o desrespeito à diversidade de concepções, o uso de falácias e premissas equivocadas para ganhar a argumentação e impor uma perspectiva – ainda que, por vezes, com uma retórica mansa de que não é imposição. Querer fechar o diálogo – e, para tal, dar às “palavras”, aos discursos, outros sentidos que eles não têm – é, inclusive, um estratagema fascista...e assim o fazem em relação às perspectivas que querem criticar (considerando aqui os equívocos conceituais e premissas equivocadas que os defensores da perspectiva fônica usam para se referir, por exemplo, a “letramento”, “construtivismo”, “função social” etc). E para tal, buscam meios de impor um suposto discurso de autoridade. Na forma como estão agenciando a PNA e a abordagem que a fundamenta, com metadiscursos que supostamente lhes dariam autoridade, e colocando-se como campo neutro, universal, negam sua natureza de concepção, negam-se como representantes de UMA perspectiva assumindo-se como representantes DA única perspectiva que seria legítima. Mas, para quem varre para debaixo do tapete a natureza sociopolítica inerente da linguagem, é como se fosse possível adotar um discurso objetificado, neutro, fora da ideologia, fora de um ponto de vista, de um lugar de onde se fala... Mas é bem assim:


Diversas perspectivas e pesquisadores do campo da alfabetização, que possuem diferentes bases epistemológicas, seguem debatendo, com entraves também, por vezes, e luta por hegemonia, mas sabendo-se concepção. E tendo espaço no debate, essas concepções seguem nos interpelando quanto aos diferentes aspectos, facetas, dimensões envolvidas, contribuindo para que não percamos de vista a complexidade que é ensinar e aprender a língua escrita (SOARES, 2004, 2016). Precisamos seguir, ainda que, por vezes, com divergências inconciliáveis, labutando pela melhoria das condições de formação inicial e continuada de professores, sem sectarismos, e as condições do trabalho docente em nosso país, pois sem isso, não há abordagem, método ou concepção que dê jeito. Só assim, podemos assegurar que a dimensão técnica, didática, metodológica, se articule à dimensão humana e política, conforme discute Candau (2013). Mas, no caso deles, há animosidade, desrespeito e cinismo no trato com o campo da alfabetização, e podemos duvidar se buscam mesmo esses princípios quanto ao papel da educação e da alfabetização. 

Não é de hoje que a perspectiva fônica busca representatividade nas políticas nacionais, estaduais e municipais no Brasil, envolvendo, inclusive, articulações “lobísticas” com os governos e a mídia, interesses editoriais e benefícios políticos a seus propositores. No atual governo, cavam seu lugar e se apresentam com a retórica da alternativa única de concepção válida de alfabetização, achatando, como já dito, a complexidade do campo e suas diversas concepções, que focam, muitas vezes, diferentes facetas da apropriação de um objeto de conhecimento – a linguagem escrita – que é complexo e multifacetado. Para eles, diversidade é dejeto, doença a ser superada com conceito e metodologia única.

Se a ciência cognitiva da leitura tem coisas a nos ensinar sobre a alfabetização – e tem sim – e se a abordagem fônica precisa também ter seu espaço no debate entre concepções de alfabetização, ela não pode ser a referência única para determinar os rumos da alfabetização no país. O problema maior dessa abordagem teórico-metodológica, então, é o como ela se apresentou ao conseguir o espaço tão almejado no MEC, se apresentando, por decreto, como única perspectiva válida para referenciar uma política pública, operando um apagamento de toda a diversidade de concepções desse campo. Única vertente válida e validada para gerir os rumos da alfabetização, tentando silenciar todas as outras abordagens – seja as desqualificando, seja numa tentativa mal amanhada de cooptá-las, com uma retórica mansa que tenta apagar as divergências enormes de princípios em questão.

Devem estar bem bastante satisfeitos e se sentindo “por cima da carne seca”, já que finalmente ganharam esse espaço, e assim, com esse respaldo político, tentam sobrepujar-se a todo o campo da alfabetização no Brasil, com um aparente ressentimento – que aparece na linha argumentativa em diversos momentos – a verdade última que eles têm o privilégio (!!!) de portar não era ouvida! (Ironia detectada).

O problema maior, então, é achar-se no direito de determinar, impor e “fechar questão” de que uma determinada abordagem teórica e/ou metodológica pode ser a única legítima e que, sozinha, resolveria todas as questões que envolvem o ensino e a aprendizagem da língua. Nenhuma abordagem dá conta, sozinha, de todas as facetas da apropriação da linguagem e da cultura escrita, muito menos de todos os problemas de alfabetização do país. Considerar diferentes áreas do conhecimento, diferentes perspectivas é, geralmente, fundamental para dar conta de um objeto complexo e multifacetado como é a linguagem escrita. Ademais, os problemas que envolvem a alfabetização no Brasil não são estritamente didático-pedagógicos. Nenhum método ou abordagem, isoladamente, dá conta desses problemas, que envolvem a melhoria das condições das escolas públicas, a valorização profissional dos docentes, o combate à desigualdade social, dentre outros.

Como objeto multifacetado, a linguagem escrita exige diferentes focos. Pensar a alfabetização, hoje, exige atenção a diferentes perspectivas, advindas, muitas vezes, de diversas áreas do conhecimento, campos de estudos diversos, com suas contribuições específicas – mas sem esquecer a Pedagogia, a interpretação pedagógica dos conhecimentos produzidos pelas diferentes áreas do saber. Pedagogia à qual eles torcem o nariz,  colocando-se num lugar superior numa suposta hierarquia de saberes mais valorizados. Determinada perspectiva, qual seja, embora possa ser considerada fundamental ao campo, não dá conta de todas as facetas da apropriação da linguagem escrita (SOARES, 2004, 2016), demandando que o campo pedagógico possa articular diferentes perspectivas de modo coerente e produtivo. E tem muitos pesquisadores da área de educação discutindo alfabetização, e considerando estudos dessas diversas áreas de conhecimento.

Mortatti (2015, p. 119) alerta, no entanto, quanto ao “ecletismo teórico-conceitual”, ao silenciamento das tensões no campo, que a autora denuncia, como a “tentativa de imposição de falso consenso, por meio da homogeneização de pluralidade de pontos de vista e posições teóricas e políticas, sabidamente em disputa.” Assim, é preciso ter atenção aos ecletismos desavisados, claro, não dá para apaziguar as divergências com combinações e bricolagens aleatórias e simplórias. Por outro lado, é preciso atentar, como afirma Belintane (2006, p.273), à necessidade de consensos mais amplos e diversificados, que considere o movimento dialético que é típico do conhecimento científico contemporâneo em que se busca a interdisciplinaridade, se respeita a heterogeneidade e se considera a complexidade dos processos e das diversidades culturais. E, no meu entendimento, a questão das diferentes facetas das quais fala Magda Soares, completa bem essa ideia. Também no campo da Didática, Candau (2013, p. 35) sublinha que o grande desafio é "assumir que o método didático tem diferentes estruturantes" e que o importante é articula-los e não "exclusivizar qualquer um deles, tentando considerá-lo como único estruturante".

É importante achar um equilíbrio entre as facetas, e ter em mente diferentes pontos de vista sobre como abordá-las metodologicamente, sem pretender uniformizar ou acabar com as diferenças de perspectivas, que sempre nos interpelam – e é normal que seja assim, no campo da construção de conhecimentos científicos na área das ciências humanas. As contribuições dos diversos campos ora se combinam para dar conta da complexidade da prática pedagógica, ora se apresentam em disputa, havendo, assim, tendências, mas também tensões no campo das concepções de alfabetização. Essa é uma dinâmica própria ao campo. 

Mas vem uma perspectiva que, parecendo não se saber perspectiva, se apresenta como verdade, apoiando-se no discurso de autoridade e da validação científica – e ainda assim, amaciando com a retórica do diálogo e da adesão voluntária (voltaremos a isso adiante). Convoco Mortatti (2010, p. 339), para nos lembrar que a “verdade científica do momento” pode ser considerada como uma “semimercadoria” que “circula no simbólico mercado científico”.

Considerando o campo da ciência cognitiva da leitura, referência básica, única, da PNA, e a própria PNA, que também faz escolhas de perspectivas dentro desse vasto campo da ciência cognitiva – sim, também tem isso! Há recortes nada neutros –, há três aspectos que é preciso considerar: os aspectos que não podemos negligenciar, que são apontados e/ou enfatizados pela abordagem cognitiva; os que são apresentados com certo ar de novidade na PNA, quando, em verdade, já estão aí, de algum modo; e os aspectos que a PNA traz que são inegociáveis no âmbito das concepções que defendemos (e nem sempre são imperativos para todos os autores da ciência cognitiva). Além disso, há esse fato de que nem tudo que a PNA escolhe como foco é ponto pacífico entre os pesquisadores desse referencial, vale também ressaltar que as pesquisas são dinâmicas, o conhecimento construído muitas vezes é circunstancial, a ciência é dinâmica – ou seja, há diferentes modelos em disputa, mesmo dentro de uma mesma abordagem. Há coisas que a PNA assume que muitos pesquisadores da ciência cognitiva ponderam ou até discordam. Ou seja, os autores dessa política também selecionam o que querem focar, pois há muitos autores que relativizam certas verdades que eles apresentam como ponto pacífico nas pesquisas estrangeiras, há muitos pesquisadores que reconhecem outros aspectos que não os cognitivos – e esse pedaço os autores da PNA silenciam, porque convém. Ou seja, esse referencial da ciência cognitiva - já limitado a aspectos cognitivos - é apresentado como um conjunto uniforme, homogêneo, com conhecimentos dados, fechados, imunes a problematizações. E não é bem assim...

Mas voltemos aos três pontos que quero considerar nessa introdução.

Quanto ao primeiro aspecto, como tenho insistido, afinada com outros pesquisadores da área, lembro que há resultados de pesquisas da ciência cognitiva, em especial da psicologia cognitiva da leitura, que precisamos considerar ao pensar em metodologias de alfabetização. São aspectos que não podemos negligenciar, como, por exemplo, a importância do desenvolvimento da consciência fonológica, o ensino sistemático do funcionamento alfabético e o processamento da leitura automática, que vai da decodificação fonológica à identificação lexical automática das palavras. Mas isso não resolve TODAS as questões envolvidas na alfabetização e no letramento. A PNA traz apenas esse referencial, embora os autores dessa política digam por aí que não há a indicação de método único. Ok, não de método único, creio não teriam a petulância de fazê-lo, mas indicam uma abordagem única sim! Baseiam-se na abordagem fônica, que privilegia não apenas a relação fonema-grafema, como preconiza também que ela seja o ponto de partida da alfabetização. A relação fonema-grafema é da estrutura do sistema, não dessa abordagem, o diferencial dessa abordagem é a ênfase dada a esse aspecto e o fato de ser esse o ponto de partida. Assim, um outro problema aí é que, mesmo sendo aspectos a considerar, do ponto de vista de outras concepções não o são, necessariamente, com os mesmos princípios adotados na PNA. Voltaremos a isso quando falarmos dos próximos itens destacados nesse debate, especialmente sobre os componentes essenciais da alfabetização. Vamos ao segundo ponto que quero discutir.

A PNA traz, por outro lado, também aspectos já presentes em outras abordagens e mesmo em outros programas do MEC, mas que são, de certo modo, aspectos apresentados como novidade. É o caso da dimensão fonológica da notação da língua e do ensino sistemático do sistema de escrita. Eles se acham “donos” do princípio alfabético! O princípio, no entanto, é do sistema, não é de um método específico. A linguística já aborda essa questão do princípio alfabético, da importância de se apropriar desse funcionamento na alfabetização, há muito, muito tempo – muito antes de esses pesquisadores arrogantes que escreveram a PNA nascerem e acharem que são os iluminados pela ciência. Quanto à consciência fonológica, há pesquisadores da área da psicologia e da educação que a tematizam há muito tempo, como Artur Gomes de Morais – e no PNAIC ela foi amplamente considerada ao lado das práticas de leitura e escrita. Magda Soares vem, há muito tempo, insistindo na necessidade de colocarmos foco na especificidade da alfabetização, na abordagem dos aspectos especificamente linguísticos – fonológicos e notacionais – da apropriação da escrita. Mas tudo isso é apagado, porque para eles, só serve o pacote completo!

Cabe ressaltar que, nesse ponto, podemos também referir ao fato de apresentarem procedimentos antigos, que já se revelaram infrutíferos no passado, como “novidades”, agora referendadas na ciência. Quanto a isso, sugiro a leitura do artigo de Mortatti e seu posicionamento quanto à PNA. Um artigo fantástico e necessário da autora foi publicado recentemente sobre a PNA, intitulado "Brasil, 2091: notas sobre a 'política nacional de alfabetização'”.

E nisso, chegamos a aspectos que a PNA traz, mas que são aspectos inegociáveis, do ponto de vista de outras concepções. A consciência fonológica é reduzida na PNA à consciência fonêmica. Quando discorrem sobre a Educação Infantil, embora citem, brevemente, a consciência fonológica de unidades mais holísticas – como a sílaba, a rima e as aliterações – o fazem rasteiramente, bem en passant, sem a devida importância e apenas citadas para logo chegar à consciência fonêmica. E esta, é proposta desde o início do processo, como pré-requisito para todo o resto. Ou seja, o que, do ponto de vista da aprendizagem, da apropriação do princípio alfabético é o ponto de ponto de chegada – o princípio alfabético –, é tomado pela PNA como ponto de partida – o que implica em treinar meninos pequenos a pronunciar fonemas isolados, ensinar previamente os “sons” das letras, provavelmente, inclusive, fora do contexto das palavras – o que é absurdo até mesmo para pesquisadores da ciência cognitiva que dizem abraçar – e, mais, implica em tomar a decodificação como condição para qualquer outra aprendizagem relativa à língua escrita.  Mas antes da consciência fonêmica as crianças pensam sobre a pauta sonora da língua e a segmentam em unidades mais holísticas - porque esses saberes são desconsiderados no ensino e aprendizagem? Por que o sistema não se estrutura assim, não é? Ou seja, o foco é o  ensino e o objeto de ensino - o sistema - não a criança que aprende... Retomaremos essa questão quando falarmos dos componentes essenciais da alfabetização, segundo a PNA, no Post 2 dessa série. Mas cabe ressaltar que, mesmo que vislumbrem procedimentos fônicos analíticos, em contexto de palavras e de brincadeiras, há aí um pressuposto de pré-requisito complicado em termos de conciliar com a perspectiva da aprendizagem das crianças, que não inicia com o mais abstrato. Sem contar que há as diferenças relativas à concepção de  infância e de cultura lúdica quando o brincar é tomado, nessa perspectiva, apenas para motivar as crianças ou disfarçar o treinamento. 

Com isso tudo, quero questionar essa imposição de política pública que se decreta baseado em premissas equivocadas – a de que o campo da alfabetização e as políticas anteriores ignoraram os estudos da psicologia cognitiva da leitura até aqui; a de que considerar a consciência fonológica seja enfatizar apenas a fonêmica; a de que a abordagem fônica é a única que considera o ensino sistemático para mobilizar a apropriação do princípio alfabético e esse princípio como aspecto fundamental na alfabetização. Destaco um trecho da PNA que diz que:

Referenciando-se, com completa reverência, aos documentos estrangeiros filiados a suas perspectivas, desprezando todo o conhecimento produzido no Brasil (salvo os que se filiam à concepção que abraçam) ou mesmo no estrangeiro, de outras perspectivas, o Caderno da PNA faz um histórico que desconsidera os programas das políticas anteriores e todo o campo da alfabetização. É mentira que as políticas públicas de alfabetização ignoram pesquisas da ciência cognitiva da leitura. O PNAIC, por exemplo, programa de formação de professores do MEC de 2012 até agora, vinha trazendo uma perspectiva conciliadora que incorporou aspectos que estavam esquecidos ou minimizados em programas anteriores, relativos aos aspectos linguísticos da alfabetização, e contribuiu para que fôssemos colocando, nas práticas docentes, foco nas diversas facetas da apropriação da escrita, inclusive aspectos enfatizados pela psicologia cognitiva da leitura (e pela linguística, não nos esqueçamos!!!). A consciência fonológica, o ensino sistemático do funcionamento alfabético – tudo está lá, e de forma bem enfatizada. Mas não com os mesmos princípios defendidos por eles – eis a questão! Mas a mentira se expõe: não ignoram! A questão é que para eles só serve o pacote todo, só serve abordar esses elementos com as mesmas premissas e princípios que defendem. Mas esse programa anterior, e os autores que o construíram e que discutem essas conciliações, não adotaram essas pesquisas cognitivas como referencial único nem verdade última.

Além dos programas e políticas, pesquisadores de outras concepções tampouco têm ignorado as pesquisas cognitivas como é insinuado pela arrogância dos defensores da PNA. Artur Gomes de Morais, por exemplo, vem pesquisando e publicando sobre a consciência fonológica desde o final dos anos 80, bem como Terezinha Carraher, hoje Terezinha Nunes, que atualmente, inclusive, escreve sobre a área da leitura e escrita, junto com Peter Bryant, renomado pesquisador americano, também referenciado no campo da ciência cognitiva. Artur, inclusive, faz um histórico dessas pesquisas em seu novo livro “Consciência fonológica: na Educação Infantil e no Ciclo de alfabetização”, além de ter outro livro especificamente sobre o sistema de escrita alfabética, suas propriedades e seu ensino sistemático. Magda Soares, por sua vez, vem insistindo, há tempos, na necessidade de voltarmos o foco aos aspectos linguísticos – notacionais e fonológicos – da apropriação da língua escrita, após termos focado nos aspectos sociais do letramento e nos aspectos psicolinguísticos, com as perspectivas construtivistas e sociointeracionistas de alfabetização. Ela chamou  de “reinvenção da alfabetização” (2003) essa retomada dos aspectos propriamente linguísticos do processo de ensinar a ler e escrever, mas em outras bases – sem perder de vista a linguagem escrita como prática social e a construção ativa de conhecimento pelos sujeitos.

Observem, nesse breve esquema, como essa premissa é equivocada:



Do mesmo modo, também a Linguística, há muito tempo, já enfatizava diversos aspectos que a PNA parece querer inaugurar, relativo ao princípio alfabético, ao ensino das letras, à base fonológica do sistema de escrita. Linguístas – a exemplo de Luiz Carlos Cagliari, por exemplo - discutem questões gráficas e fonológicas do processo de alfabetização faz muito tempo no Brasil. Cagliari tem uma vasta obra, publicando, desde os anos 80, livros articulando alfabetização e linguística. Mas o crédito que a PNA dá é apenas a pesquisas estrangeiras, que escolhem também, ou às que, aqui, seguem a linha dessas referências. É preciso saber que eles selecionam, no campo de estudos estrangeiros, aqueles que lhes servem bem. Mas também lá, há um campo de conflito de concepções teórico-metodológico que eles querem silenciar, apagar, não mencionar, para dar peso a seu discurso colonialista de autoridade.

Ou seja, diante desse histórico feito no Caderno da PNA, nota-se que essa política desconsidera completamente o campo da alfabetização no Brasil, as discussões que temos feito aqui, também alinhadas a estudos - de outras perspectivas - estrangeiras e, com sua retórica de evidências científicas, alinhamento estrangeiro (!!!) e adesão voluntária, tenta convencer os incautos de que, instituída por decreto, não é uma imposição desrespeitosa ao campo teórico da alfabetização e ao campo escolar (sobre adesão voluntária – essa outra retórica – falaremos no Post 4).

De 22 a 25/10 ocorreu a CONABE - Conferência Nacional de Alfabetização Baseada em Evidências, na qual insistem nessa perspectiva de verdade única, última, científica, neutra, universal. Acompanhemos! Como se pode ler no site do MEC, foi criado um Painel com 12 especialistas que irão “elaborar, de forma imparcial, um relatório que ajudará a formular políticas públicas daqui para frente”. De forma imparcial??? E continuam:

A criação de um painel de especialistas foi utilizada em diversos países como uma forma não de confirmar pontos de vistas previamente adotados, mas sim para se obter uma revisão sistemática de literatura seguindo critérios científicos e oferecendo, portanto, sínteses de evidências robustas e imparciais.

Eles acreditam nisso de serem imparciais!!!??? De que todas as outras perspectivas que não seguem esse parâmetro das “evidências científicas” é “ponto de vista previamente adotado”???!!! É muita arrogância! Nesse governo eles não acreditam (acreditam?) que estão fora da ideologia? Pois...Será que acreditam nessa imparcialidade também pelo fato de estarem se alinhando às perspectivas estrangeiras, como se, elas mesmas, também fossem neutras e universais, e não fruto de escolhas em um campo de conflitos? O objetivo da CONABE, segundo afirmação de Carlos Nadalim registrada no site mencionado, seria alinhar a estratégia do MEC, no Brasil, àquelas de “autoridades educacionais” de países como o Reino Unido, EUA, França. Quem as intitulou como autoridades e, especialmente, as únicas autoridades a se considerarem validadas a terem hegemonia nas políticas públicas e nas práticas educativas? Bom, para conferir autoridade discursiva e aparente neutralidade no posicionamento, citam os documentos “Estratégia Nacional de Leitura” (Reino Unido, 1998); o Painel Nacional da Leitura  (EUA, 2000); o Observatório Nacional da Leitura (França, 1998) – os mesmos documentos citados e reverenciados no Caderno da PNA.

O documento francês citado, o Apprendre à lire, do Observatoire national de la lecture, não é tão reducionista quanto a PNA. Aliás, segundo Magda Soares, tampouco o é o relatório americano, o National Reading Panel. Referindo-se a esse dois documentos, a autora já denunciou, desde 2004 no artigo “Letramento e alfabetização: as muitas facetas” (2004, p. 14), que

[...] a concepção de aprendizagem da língua escrita, em ambos, é mais ampla e multifacetada que apenas a aprendizagem do código, das relações grafofônicas; o que ambos postulam é a necessidade de que essa faceta recupere a importância fundamental que tem na aprendizagem da língua escrita; sobretudo, que ela seja objeto de ensino direto, explícito, sistemático. 

E isso Magda vem defendendo, Artur Gomes de Morais vem defendendo e muitos outros pesquisadores brasileiros vêm defendendo. Só que não da forma radicalizada que tomou o “back to phonics”, não da forma que a PNA postula. Como Magda bem previu, na época, as coisas se colocaram aqui (como nos EUA), em termos de antagonismo, enfatizando que a tendência a esse tipo de radicalismo torna perigosa a “necessária reinvenção da alfabetização”, que ela mesma defende. E esse antagonismo, ela já apontou, desde aquele ano, que é mais político que propriamente conceitual. Voltamos, então, agora, ao radicalismo das polarizações?

Ocorre que, no Brasil, o cenário agora é esse mesmo, de radicalização, apesar de ter havido uma tendência crescente a se considerar a especificidade da alfabetização ao lado do letramento, como era o caso, por exemplo, do PNAIC, e de nessas perspectivas mais conciliadoras, a escrita alfabética e sua base fonológica serem, sim, foco de atenção.

E para mostrar que há essa grande falácia nos argumentos que eles constroem em torno desses documentos, para validarem a PNA, tomarei aqui o Apprendre à Lire, que li quando estudei na França no final dos anos 90, início dos anos 2000, junto com outras referências francesas, para ressaltar que aqui eles focam no que bem querem focar, para justificar tomar a alfabetização numa visão tão simplória e instrumental.

Embora o documento francês traga o referencial cognitivo para mostrar a importância do ensino sistemático do funcionamento alfabético da escrita e da consciência fonêmica, dão bastante ênfase aos aspectos socioculturais e semiológicos da escrita. O documento indica expressamente, referindo-se às crianças pequenas, que vale muito mais as sensibilizar para as implicações e as funções da língua oral e escrita, para os desafios da comunicação linguística, do que as treinar precocemente e sistematicamente à decodificação do escrito (1998, p. 32-41), pois “escrevemos sempre para dizer alguma coisa” (p. 42). Para que serve a escrita? O que ler quer dizer? Essas são questões ressaltadas como fundamentais. Mesmo quando referem à língua em si mesma, referem outros aspectos, que não exclusivamente os fonológicos, afirmando-se que a escrita pode se fazer por entradas diversas, ressaltando-se sua forma, seu sentido, suas finalidades (p. 44). E a PNA? Vai fazer o que com nossas crianças da Educação Infantil, se mesmo em termos de consciência fonológica, prioriza a fonêmica em detrimento das unidades mais holísticas, que poderiam ser exploradas na continuidade das práticas brincantes (a partir, por exemplo, das sonoridades do repertório lúdico dos textos tradicionais da infância?).

Na etapa da alfabetização propriamente dita, ainda que o foco do documento francês seja a abordagem fônica, também consideram muitos procedimentos condenados pelos que só veem a consciência fonêmica no horizonte e a alfabetização como uma questão meramente técnica. Por exemplo, o documento francês defende a decodificação, mas também que as crianças tenham um repertório de palavras estáveis, modelo de escrita convencional, para apoiar a leitura inicial, cotejando decodificação e reconhecimento mais global de algumas palavras; o documento dá ênfase aos processos de tratamento dos sentidos, e a seu papel na compreensão dos textos, articulando a necessidade dos processos de decodificação aos processos de compreensão. Ou seja, não tem isso de primeiro a decodificação e só depois compreensão, esta como uma consequência do domínio daquela, como a PNA parece sugerir: “a compreensão de textos, por sua vez, consiste num ato diverso do da leitura. É o objetivo final, que depende primeiro da aprendizagem da decodificação e, posteriormente, da identificação automática de palavras e da fluência em leitura oral” (BRASIL, 2019, p. 19).

Outros livros, como o “L’Apprenti lecteur”, organizado por Rieben e Perfetti (1989), com textos de vários autores da ciência cognitiva, bem como o “De l’illettrisme em général et de l’école em particulier”, de Alain Bentolila (1996), autor envolvido no documento do Observatório francês – do qual assisti algumas aulas na Université Paris IV –, também trazem uma visão de linguagem escrita muito mais ampla do que a trazida na PNA. No próprio livro “A Ciência da leitura” (2013), mais atual e bem considerado por eles, há autores com discursos bastante conciliadores nesse sentido. Mas eles escolheram o sectarismo.


Podem dizer que as novas-novíssimas referências da neurociência cognitiva, após esses livros, é que trazem resultados que validam esses reducionismos, ao que digo: resultados de pesquisas, contemporaneamente, parecem (e só parecem, pois entre pesquisas e aplicações práticas e éticas, há uma distância) validar um mundo instrumentalizado, mercantilizado e desumanizado. Mundo de racionalidade técnica levada ao extremo. Resta-nos saber o que restará de humanidade nisso tudo! Resta saber se queremos apostar num mundo assim. Em todo caso, o que quero ressaltar aqui é que os autores dessa PNA trazem as referências a documentos estrangeiros de modo bem enviesado, falacioso, pois eles recortam dali o que bem interessam para propor uma política altamente instrumentalizada, sectária e reducionista de alfabetização.

Me respondam: se pesquisas mostram ou mostrassem, de fato, que procedimentos fônicos dos mais sintéticos e descontextualizados dão melhores resultados no treinamento fonêmico e na habilidade de decodificação, então, automaticamente validamos esses procedimentos que retira da linguagem todo contexto, todo o sentido? O que e quem definem que aprendizagens importam mesmo? Porque essa primazia da técnica em relação aos aspectos semânticos e semiológicos da escrita? Essas indagações definem respostas que temos que problematizar, respostas que definem valores, concepções de mundo, de educação, de linguagem. Não definem respostas únicas, automáticas. Se pesquisas mostrassem que se cada cidadão matasse uma pessoa por ano, a violência diminuiria, automaticamente validaríamos a matança institucionalizada? Discutiremos mais sobre “evidências científicas” no Post 3.

Dito isso, vamos adiante. Proponho analisar aqui alguns pontos da PNA, considerando o que temos até agora – o Decreto  Nº 9.765, de 11 de abril de 2019, o Caderno da PNA, de 15 de agosto de 2019 e outros referencias que porventura circulem na mídia. Minhas reflexões aqui e nos posts seguintes consideram e dialogam com textos, manifestos, matérias, entrevistas e vídeos que circulam ou venham a circular na mídia, seja em defesa da PNA, sejam críticos a ela. Vamos estudar! Vou me concentrar, inicialmente, em discutir quatro pontos:
  • o uso do termo literacia e silenciamento sobre o letramento, conceito utilizado e tematizado no campo desde meados dos anos 1980;
  • a escolha do que sejam os componentes “essenciais” da alfabetização e a questão da abordagem única;
  • a insistência na questão do ensino baseado em “evidências científicas” e a consideração exclusiva da ciência de perspectiva cognitiva;
  • questões de implementação da política, como a retórica da "adesão voluntária" e ressonâncias nas redes e na formação docente e etc. 

Os posts seguintes a esse vão abordar cada um desses aspectos. Contribuam, vamos refletir em muitas vozes! Junto aqui, nos textos dessa série, várias postagens minhas no Facebook, em que abordei a questão, e os desdobramentos delas nos comentários, trechos inspirados em outras postagens do blog, na entrevista que dei ao CENPEC, em apontamentos de minhas falas em Santa Catarina e em outras oportunidades que tive de abordar a PNA, inclusive reflexões advindas de conversas com outros colegas alinhados a mim nessa trincheira. E de leitura, muita leitura.

Assim como eu, outros pesquisadores estão aguerridos a discutir a PNA, e vale também divulgar. Os indicarei aqui, sempre! Precisamos multiplicar e unir vozes! Sugiro as demais entrevistas dessa série que o CENPEC está promovendo, abordando a PNA. A primeira foi com Magda Soares e Maria Alice Junqueira, a segunda a minha, à qual se seguiu, até agora, a de Antônio Gomes Batista, Carlota Boto, Isabel Frade, Sônia Madi e Clécio Bunzen, que nos fala, particularmente da questão do letramento/literacia. Outras vozes serão convocadas, vamos acompanhar aqui. A Faculdade de Educação da USP fez um evento, no início de outubro, que foi gravado – quando disponibilizarem os vídeos, divulgo o link, agradecendo a Claudemir Belintane pela confirmação de que estará disponível em breve. O próprio Claudemir já se manifestou algumas vezes sobre essa querela de métodos também e pode nos ajudar a pensar: aqui. Sugiro também assistirem ao Educação 360, Painel5: “Alfabetização: A guerra dos métodos”, com a participação de Artur Gomes de Morais (da UFPE), Renan Sargiani, coordenador-geral de Neurociência Cognitiva e Linguística da Secretaria de Alfabetização do MEC, além de Guilherme Cardozo, Doutor em Estudos da Linguagem e PhD em Estudos Sociais. Reparem, principalmente, na fala do professor Artur (2:23:20 a 50:35). A Abalf - Associação Brasileira de Alfabetização também tem divulgado posicionamentos de diversos pesquisadores do campo, de diversas concepções, sobre a PNA.  Esses posicionamentos terminaram por constituir um conjunto que foi publicado na Revista Brasileira de Alfabetização, aqui. Ressalto o texto de Clécio Bunzen, dentre esses, que tematiza a questão do uso de "literacia" no documento, discussão que será o foco do Post 1 dessa série aqui, em breve. O incentivei a escrever, pois sabia que seria uma contribuição enorme a essa discussão. Agradeço-o pela oportunidade de dialogar com ele a partir do texto, ao que ele retribuiu fazendo uma menção à minha leitura, anterior a sua publicação. Valeu, colega! 'Tamos juntos!

E, para finalizar esse post, lembro, mais uma vez, que é preciso fazer essa ressalva, para refletirmos sobre tudo isso na instância das concretizações nas práticas escolares: precisamos ter clareza de que a alternativa à negligência ou a uma abordagem casual, vaga, não explícita e pouco sistemática do sistema de escrita e de sua base fonológica, que traz equívocos quanto ao processamento da leitura e do reconhecimento das palavras -negligência essa em função de um discurso pedagógico marcado pela hegemonia da didática construtivista e de certas vertentes sociointeracionistas - não é, necessariamente, a abordagem fônica posta na PNA. A alternativa não é necessariamente essa! Temos alternativas potentes de abordagem da faceta linguística em situações significativas e reflexivas, no contexto da linguagem viva, das práticas de oralidade e letramento, da cultura lúdica, unido as diversas facetas da apropriação da linguagem e da cultura escrita e considerando o sujeito como sujeito de cultura, de linguagem e ativo em seu processo de aprendizagem.

Inúmeras pesquisas e registros de práticas no âmbito do PNAIC e da experiência do projeto de Magda Soares em Lagoa Santa/MG, por exemplo, mostram resultados muito positivos de práticas fundadas em concepções mais conciliadoras que envolvem a apropriação da escrita alfabética e a fluência de leitura, as habilidades que compreensão leitora e produção de textos, e a ampliação da participação em práticas letradas. São evidências que não podemos desconsiderar (Mas, para eles só servem as evidências de laboratório). É ainda preciso avançar muito no entendimento de como fazer esse ensino com esses princípios, entender sobre esse referencial? Sim, muito! Mas o caminho estava aberto. Não deixemos ele fechar! Nem nós, nem os professores, que, felizmente, não fazem apenas o que é orientado pelas políticas, ainda mias pelas que desconsideram toda a sua trajetória docente até aqui.

Esse aqui é o POST 0 dessa série, introdutório: Sobre a PNA – alguns apontamentos. Seguem os próximos:

POST 1 – Literacia e letramento
POST 2 – Componentes essenciais da alfabetização e abordagem única
POST 3 – Evidências científicas apenas de perspectiva cognitiva
POST 4 – Questões de implementação

O POST 4 incluirá minhas considerações sobre pontos de fuga, formação docente e um fechamento da discussão, possivelmente indicando outros aspectos a continuar discutindo... Porque esses 4 pontos são apenas alguns deles...e do lado de cá ninguém quer fechar questão!

Sugiro, por ora, também a leitura do Caderno, para que essa discussão considere suas próprias impressões sobre a PNA.


Seguimos com Post 1 - sobre literacia e letramento. Em breve!

Adendo de fevereiro de 2020 - Quer dizer... "em breve".... se eu me reanimar... Ando muito muito desanimada, sem iniciativa para seguir aqui e em lugar algum. Mas vamos ver. Se não, de cada ponto desse que me comprometi a discutir, indico a leitura de discussões de outros pesquisadores, certo? 
2021 - enjoei tanto que nem terminei...

Referências
BELINTANE, Claudemir. Abordagem da oralidade e da escrita na escola a partir da tessitura interdisciplinar entre a psicanálise e a linguística. In: Psicanálise, Educação e Transmissão, 6., 2006, São Paulo.
BENTOLILA, Alain. De l'illettrisme en général et de l'école en particulier. Paris: Plon, 1996.
BRASIL, Decreto nº 9.765, de 11 de abril de 2019. Institui a Política Nacional de Alfabetização. Diário Oficial da União, Atos do Poder Executivo, Brasília/DF, 11 abr. 2019. Edição: 70-A, Seção: 1 – Extra, p. 15.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação. PNA: Política Nacional de Alfabetização/Secretaria de Alfabetização, Brasília: MEC, SEALF, 2019.
CANDAU, Vera Maria. A Didática e a relação forma/conteúdo. In: ______ (Org.). Rumo a uma nova didática. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 29-37.

MORTATTI, Maria do Rosário L. Os sentidos da alfabetização: São Paulo – 1876/1994. São Paulo: Editora Unesp, 2000.
______. Alfabetização no Brasil: conjecturas sobre as relações entre políticas públicas e seus sujeitos privados. Revista Brasileira de Educação, v. 15, n. 44 maio/ago. p. 329-410, 2010.
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OBSERVATOIRE NATIONAL DE LA LECTURE. Apprendre à lire. Paris: C.N.D.P/Odile Jacob, 1998.
RIEBEN, L; PERFETTI, C. (Ed.). L'apprenti lecteur. Recherches empiriques et implications pédagogiques. Neuchâtel et Paris: Delachaux et Niestle, 1989.
SNOWLING, Margaret J.; HULME, Charles. A ciência da leitura. Porto Alegre: Penso, 2013
SOARES, M. Alfabetização: a questão dos métodos. São Paulo: Contexto, 2016. 
______. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação. Jan-Abr, 2004, nº 25, p. 5-17.