Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Apropriações do tangolomango


Os textos da tradição oral tem sido uma rica fonte para os autores de literatura infantil criarem suas obras, sejam narrativas ou poéticas. Contemporaneamente, a literatura infantil ganhou muito em beber na fonte da tradição oral no que diz respeito a um ludismo gratuito, à escrita atravessada pela oralidade e às sonoridades que lhes são próprias. Muitas vezes o diálogo com essas fontes tomam ares de intertextualidades mais atestadas mesmo, quando parlendas, cantigas, trava-línguas, adivinhas, quadrinhas, acalantos, são retomados de modos diversos nas recriações dos autores. É comum os autores resgatarem brincadeiras orais da cultura popular para as páginas de seus livros ilustrados. Esse é o caso também dos tangolomangos. 

É importante, no entanto, saber selecionar bem os bons textos, as boas reapropriações, pois há igualmente muita produção no mercado editorial que apenas repetem fórmulas já consagradas, juntando-as a ilustrações por vezes sem muita qualidade, sem ressignificar e recriar, de fato, esses textos que usam como fonte, seja com as modificações que introduzem, seja no diálogo que estabelecem com as ilustrações. O bom senso é uma ótima bússola, mas há também que olhar os autores envolvidos, o cuidado com a edição e ilustração, enfim, uma série de critérios que possam nos ajudar a separar o que realmente vale à pena.

O tangolomango - ou a sua estrutura versificada, enumerativa decrescente, essa parlenda mnemônica de contar para trás - é revisitado e utilizado em diversos livros atuais, dentre os quais indicamos alguns. Os autores aí reinventam a brincadeira tradicional do tangolomango, cada um ao seu modo. Cada um traz a sua versão, com sua maneira própria e especial de contar a história desse sumiço gradativo. A palavra tangolomango pode estar ou não presente nessas parlendas reinventadas. O que vale ressaltar é a presença de elementos básicos desse tipo de estrutura: o número de estrofes, os versos rimados e ritmados, a enumeração decrescente...

É interessante que em muitos desses livros, no final, algo acontece, de mágico ou não, e os personagens voltam a ser dez...ou mais... Será porque poderia ser um pouco triste para as crianças terminar com todo mundo desaparecido? Será que a ideia subtrativa, de sumiço, que remete à morte, ao vazio, à doença, à solidão, seria considerado muito frustrante para os pequenos? Talvez! É uma possibilidade que, sendo para crianças, prefira-se apresentar uma redenção, um recomeço, um desfeitiço, uma volta populosa dos personagens quase perdidos... Assim como, no geral, nessas apropriações do tangolomango parte-se de dez,  e não de nove, parece que não se quer terminar em zero...em nenhum... Mas às vezes termina...

Alguns desses textos apresentam motivações tão pouco próximas aos tangolomangos tradicionais, a sua natureza mágica ou mórbida, que poderíamos até questionar se podemos nos referir a eles como tangolomangos ou se são simplesmente textos enumerativos decrescentes... Não sei...Afinal, o princípio de numeração regressiva está presente em rezas e textos muito diversos, não necessariamente tangolomangos, mas, por outro lado...os tangolomangos bem podem "esquecer" a sua origem mesmo, como vimos no post anterior, não é? 

Bom, mas vamos às sugestões! 

Começo com “Chá das dez”, de Celso Sisto (editora Aletria). O livro conta a história de dez velhinhas, bem arrumadinhas, que saíram juntas para um chá. Mas, até chegar ao destino, elas passam por várias situações corriqueiras e... “Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, duas... Só uuuma? Então, que tal tomar um chá, com uma só velhinha...?” – lê-se na contracapa. O autor não usa a palavra tangolomango, mas a estrutura é completamente similar aos tangolomangos. No final, como as situações dos sumiços não eram irreversíveis, as velhinhas voltam a ser dez! Ver site do autor. E você pode ler a história aqui. 

No livro “A casa das dez furunfunfelhas”, de Lenice Gomes (editora Mundo Mirim), a trama já é mais retrabalhada, pois cada velhinha furunfunfelha, na sua vez, diz um trava-língua e isso causa o tangolomango nelas. Aqui a palavra tangolomango, de fato, aparece, bem como o sentido de feitiço que ela evoca. Elas são enfeitiçadas, uma a uma e, depois, para acordá-las, só com adivinhas. O velho Félix, com seu fole e suas adivinhas, consegue trazer todas de volta do tangolomango... e salva as dez irmãs! Assim, além do tangolomango, o livro traz outros gêneros da tradição oral no texto.

No livro Dez Sacizinhos”, de Tatiana Belinky (Dobras da Leitura), os sacis saem da mata e se espalham pela praça, passam debaixo do arco-íris, nadam na praia e andam de fusca, bem danadinhos, urbanos, brincalhões. Um a um, vão  todos saindo de cena. E se esconde na paisagem (mas não muito) alguém que a gente não sabe se tem a ver com o sumiço ou não. Quem será?  

O livro “As dez filhas do seu João”, de Fábio Sombra (Abacatte Editorial), foi ilustrado pelos tapetes do grupo Costurando Histórias, que também os usam em suas contações. Olha um aí abaixo:


Veja o site do autor e o do grupo.  

O autor diz ter revisitado o tangolomango de origem portuguesa, As Marrafinhas, que na verdade se inicia com 24 Marrafinhas, caem para 12 e daí vai decrescendo uma a uma através do “tangomango”. Para mim, é um tangolomango como outros...Ver uma versão das Marrafinhas aqui. 

O livro “Os dez patinhos”, escrito e ilustrado por Graça Lima (Companhia das Letrinhas), conta as estripulias de dez patinhos irmãos que não param quietos. Cada vez um se distrai com alguma coisa e sai de cena. E no final, quando reaparecem, cadê o décimo patinho? 

É um livro bacana para crianças pequenas, pois além da linguagem, dos personagens, das motivações dos sumiços dos patinhos, bem apropriados a crianças menores, mostra uma comparação da quantidade de patinhos e traz também, no final, um jogo de trilha, de tabuleiro, com os patinhos disputando para ver quem vai chegar primeiro.



Um livro que traz a expressão tangolomango é o “Tangolomango da Massa”, de Aléxia Linke e Tana Halú, livro de produção independente desses autores de Roraima, que tive a chance de ler e ter, graças a minha amiga Leuda Evangelista, da Universidade Federal de Roraima, que, sabendo da produção desse post, quando estávamos em um Encontro do Trilhas aqui na Bahia tinha, por acaso, alguns exemplares em mãos! Que coincidência, heim? Valeu, Leuda!

Aléxia traz uma adaptação do tangolomango popular tradicional, mas no fim – como em alguns livros já citados – a situação se inverte e os personagens voltam de seus tangolomangos intactos! O diferencial desse livro é que as ilustrações foram todas feitas com massa de modelar, por Tana Halú.

Um livro que traz essa repetição por subtração própria aos tangolomangos, mas sem ser tangolomango de fato, é o livro Eram Cinco, de Ernst Jandl, escritor austríaco, lançado no Brasil pela Cosac Naify. Fala de cinco brinquedos numa sala de espera, cada qual com sua mazela e, de um a um, vão entrando e saído, cada vez um a menos, que restam esperando o atendimento atrás daquela porta de onde sai uma luz... 

Outro desse tipo, muito legal, é o "Dez numa Cama", de Penny Dale (Edições Asa, Portugal). Um menino numa cama apertado com um monte de seus bichinhos, vai chegando para lá e cada vez um cai.  Baf, tumba, bum, pim, crás, e vão caindo todos os animais. Cada vez que um cai, uma onomatopeia, o que é muito interessante, tanto para dar colorido à leitura da história, quanto para pensar nos sons e sua grafia. No fim, o menino fica só e quer todos de volta na cama... Dica bacana de minha amiga e parceira, fiel escudeira de sempre, Ana Antunes. Valeu, Aninha!

Outro livro que achei recentemente foi o "Todos no Sofá", de Luísa Ducla Soares (Livros Horizonte). Dez amigos bichos estão num sofá, e cada um vai, saltando de lá... e...

Dá para vê-lo aqui: 

 
O Livro "Sete patinhos na lagoa", de Caio Riter (Biruta), traz um texto menos próximo da oralidade - como é comum nesses livros de contar e nos tangolomangos - apesar das rimas e estrutura em versos, meio em quadra. A narrativa é mais rebuscada, a linguagem escrita bem trabalhada,  com vocabulário mais denso, e traz várias ações entre uma engolida e outra dos patinhos pelo jacaré. Assim, se distancia mais da estrutura de tangolomango, mas continua tendo a ideia de enumeração decrescente. Tem belas imagens, do ilustrador Laurent Cardon. 

Da escritora Anna Flora, tem o livro “Cada macaco no seu galho”, da coleção “Macaco Disse”, com ilustrações de Claudio Martins (Formato). Se cada macaco tem seu galho, imagine quando os galhos são cortados...o livro não deixa de dar seu recado nesse sentido ecológico. Além do próprio texto na estrutura de tangolomango, o livro traz um glossário com diversas espécies de primatas e páginas com brincadeiras para cortar, colar, montar.

Em “Números Assombrados”, de Flávia Muniz (Girassol), gostei do fato de os personagens serem da turma dos monstros, do terror. Terror engraçado... Eles passeiam de trem fantasma e a cada momento vai descendo um, por algum motivo. No fim, quando restam dois – surpresa! – só lendo para ver, mas o trem fica lotado!!! Uma saída diferente... 

Meu filho ganhou um livro que se chama “Os dez monstrinhos”. Não é brasileiro, é inglês, mas foi editado aqui pela Lafonte. É bem infantil e já desconfio logo, pois não traz o nome do autor, que descobri na internet, Sally Hopgood. O livro é daqueles que têm furos nas páginas cartonadas e, nesse caso, pelos furos vemos os olhinhos dos monstros. E a cada virada de página, um se esconde. 

Começa assim: “Dez monstrinhos estão escondidos no meu quintal. Eles não sabem se esconder muito bem, então encontrá-los não será difícil!”.  Eles vão desaparecendo aos poucos, vão sendo vistos sempre um a menos e, no final, reaparecem num pop-up, como presentes numa caixa. Não tem lá nada de muito especial, mas me pareceu legal para as crianças bem pequenas, pela linguagem, o tipo de sumiço e o reaparecimento efusivo do final.

Gente, dia desses vou fazer um post de livros de monstros, é tanta coisa!!!

Através da pesquisa que fiz desse livro, descobri que em inglês tem muitos livros assim – e muitos começam com cinco! São livros de “countdown”, ou seja, de contar de trás pra frente, de dez ou cinco para zero. Não dá para saber se todos os livros de contagem que vi são de estrutura enumerativa decrescente, mas já dá para notar que ela também aparece em produções de países anglofones. Há muitos livros desse tipo, de contar de um a dez, de dez a zero, ou para frente e para trás. 

Alguns desses foram editados em português, sempre com esse formato de papel cartonado, furos, os bichinhos se encaixando nos furos, e terminando em pop-ups – que os pequenos adoram! Como exemplo, cito os “Eram dez largartas” (ou cinco), “Eram dez girinos” e a versão “Eram cinco girinos”, todos assinados por Debbie Tarbett (Ciranda Cultural). São para os pequenos. Começam com dez ou cinco, vão sumindo página a página, concretamente, de seus buraquinhos... Ou seja, parece que, ao menos na Inglaterra, essa estrutura é muito usada em livros próprios para crianças menores. 

Sem contar aquela cançãozinha enumerativa dos dez indiozinhos, que aprendi na versão em inglês, quando menina e morava na Inglaterra, que vai de um a dez e depois, decrescente, de dez a um, como vocês podem ver aqui. Como essa, com a mesma melodia, tem “Ten red apples e “Ten little apples”, a canção e vários livros, e por aí vai...

Falta ainda referir-me a um livro de Ângela Lago – escritora e ilustradora que aprecia muito os tangolomangos – chamado “A visita dos 10 monstrinhos” (Companhia das Letrinhas). Monstros, justamente! De novo eles!

Na verdade, não se trata de um tangolomango, pois não é uma contagem decrescente, mas de algum modo, flerta com essa estrutura. Os monstrinhos vão chegando, um a um, com rimas e jogos de palavras: “veio um, paratibum...e dois vieram depois. Chegaram três de uma vez... e quatro entraram no quarto”. E eles vão fazendo a maior confusão! Na ilustração, cada algarismo tem dentro de si o número de monstrinhos correspondente a ele e tem muitas outras sutilezas escondidas entre texto e imagem. É um livro legal para os pequenos, que estão aprendendo os números. Mas não é tangolomango...

Ah! Aliás, outra de números, mas que também não é decrescente é a brincadeira cantada da Tumbalacatumba: “tumbalacatumba, lacatumba laduê”... “Quando o relógio bate à uma...”, também chamada de Dança das caveiras... Para dicas de outros livros de contar, não necessariamente com estrutura enumerativa decrescente, veja esse post aqui, muito interessante. 

Mas voltemos aos tangolomangos...

Bom, como eu disse, e falando nela, Ângela Lago gosta dos tangolomangos e no seu site propõe um Tangolomango dos ETs. Ela diz fazer coleção de tangolomangos e pede que quem saiba um, envie para ela! Vejam

Por fim, vi recentemente uma espécie de tangolomango no livro “Ciranda Brasileira”, de Elias José (Paulus), no qual ele traz poemas e cordéis a partir de xilogravuras de J. Borges. Um deles é “O namorado matuto”, em estrutura de tangolomango – embora a expressão não apareça. O matuto tinha dez namoradas e foi perdendo cada uma de um jeito, até restar nenhuma e ficar “chupando o dedo”. Diferente, porém do que acontece geralmente nos tangolomangos, suas estrofes não trazem rimas. Mas a repetição de “só fiquei com x namoradas”, a cada vez, confere um ritmo ao poema.

Para terminar as sugestões, uma curiosidade, mas aí para vocês, adultos, pois para crianças não dá. Não dá mesmo, heim?! Trata-se do curta metragem, todo feito em massinha, chamado “Os irmãos Williams”, de Ricardo Dantas, que participou do Anima Mundi de 2001. Não é para crianças. Ao menos não deveria ser. Nem mesmo para as que convivem com essas realidades. É bizarrão, com conteúdo totalmente adulto, violência, drogas, e até meio macabro. Uma sátira no formato de telejornal, desses que noticiam tragédias. Mas pode ser divertido para adultos. Cito-o aqui, pois sendo uma espécie de tangolomango serve para mostrar o tanto de coisa que um tangolomango pode dar!

Se quiser conferir, aqui no site do Porta Curtas. Mas não digam que não avisei, rsrsrs!!!

Bom, gente, certamente muitos outros tangolomangos circulam por aí, tradicionais, autorais... Pode ser divertido ficar atento para reconhecê-los! E rápido, antes que sumam todos!!!

Quem conhecer outros livros, que nos diga aqui, heim? Comentem, contribuam! 

No próximo post, trago algumas sugestões de atividades e de material com os tangolomangos. Aguardem!

Abraço,
Lica

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Tangolomango

Oi, gente!

Finalmente vou iniciar os posts dos Tangolomangos. Nesse primeiro post, vou falar um pouco do que encontrei sobre esse texto nas minhas pesquisas. É muito interessante! Você sabia que a origem dos tangolomangos tem relação com orações de cura da cultura popular, que  eram ditas para curar de várias coisas? Pois é, é uma história bem divertida! A cultura popular é cheia dessas invencionices! 

Logo mais vou postar sobre apropriações da estrutura dos tangolomangos por autores diversos e dar dicas de vários livros que trazem tangolomangos, disfarçados ou não. E por último, vou postar sobre atividades legais de leitura, escrita e matemática a partir deles, com dica de material também. Aguardem! A leitura de cada post traz um pouquinho do universo dos tangolomangos. Espero que deem boas ideias a vocês! Mas vamos lá!

O tangolomango é uma cantiga popular ou uma forma tradicional da parlenda, uma espécie de parlenda longa, às vezes cantada, com estrutura cumulativa ao contrário ou, digamos, enumerativo decrescente. Não chega a acumular, mas há a retomada das quantidades e a enumeração. Com certeza tem uma estrutura repetitiva, trazendo uma das formas da repetição, que é por subtração. E como parlenda, pode ser considerada como uma mnemônica - parlenda para aprender e memorizar coisas como nomes, números, letras, sequências ou como uma lenga-lenga, parlenda que traz certa repetição, certo nonsense e que parece nunca acabar. 

Os seus versos ritmados e rimados constituem uma narrativa e, geralmente, em cada estrofe, diminui-se um personagem - geralmente da mesma família, com algum grau de parentesco - acometido por algum malefício. Os elementos que compõem a narrativa do tangolomango, em vez de irem se acumulando, vão diminuindo...até que reste nenhum! Por isso, fala-se em acumulação às avessas, enumeração de trás pra frente, decrescente! 

O tangolomango traz uma construção textual que possibilita às crianças brincarem com a operação de subtração de um a um, como uma lengalenga de contar para trás, de subtrair um elemento a cada trecho. Geralmente começa com nove ou dez elementos (irmãs, filhas, filhos, velhas etc), mas não sempre, pode ser doze, treze... Esses vão diminuindo a cada estrofe e, quando acontece alguma coisa com o último, não sobra nenhum. Por vezes, porém, outros desfechos aparecem, especialmente nas reapropriações da estrutura do tangolomango por autores diversos. Isso porque se há muitas versões populares de tangolomangos, também há os tangolomangos autorais, apresentados, por vezes, em belos livros ilustrados.

O tangolomango é um texto recorrente no universo popular, garantindo, outrora, divertidas brincadeiras de criança. Conta com inúmeras versões espalhadas pelo Brasil. Quando é cantado – e muitas vezes o é, pois ele tinha sua música – se estrutura como um canto cumulativo decrescente. No Dicionário do Folclore Brasileiro, Cascudo fala em cantiga ou parlenda, pois o tangolomango ora se apresenta como uma, ora como outra. 

Constitui-se, assim, também como uma cantiga de roda, uma brincadeira cantada, na qual os participantes vão saindo da roda, a cada rodada, a cada tangolomango em cada estrofe. Um a um todos vão sendo eliminados, excluídos da roda, até o desfecho: “Acabou-se a geração!”. Essa brincadeira tradicional anda mais desaparecida, mas os textos ainda circulam por aí...

No artigo de Argus, citado mais adiante, ele diz que no folclore baiano o tangolomango era representado, numa espécie de auto, como um grande homem ou animal com boca enorme, que ia “engolindo”, ao final de cada estrofe, cada menino (representado por manequins) acometido da enfermidade. Se esse auto e a brincadeira das crianças eram parecidos, por aqui, eu não sei... só pesquisando mais...

Jogos com números são muito comuns em versos de diversas partes do mundo. No nosso folclore aparecem em parlendas, brincos, cantigas, contos e em tangolomangos. Versões dos tangolomangos foram encontradas em Portugal e na Espanha e, segundo Cascudo, é de lá que se originam. Alguns autores falam de origem africana. Dos três povos que inicialmente formaram a cultura brasileira, foi o português que parece ter trazido a maior influência no que tange a essas brincadeiras cantadas. Mas, certamente, as cantigas e os modos de brincar contaram com a mistura dos costumes africanos e lusitanos. Os ritmos africanos sem dúvida deixaram tempero importante ao legado da cultura lúdica brasileira.

Há várias versões do tangolomango na literatura oral, contadas ou cantadas. Por vezes, como já foi dito, começam com dez, por vezes nove, ou doze ou treze. Veremos algumas versões, inclusive a que foi registrada por Sílvio Romero, citada por Cascudo. Em versões cantadas, temos a de José Mauro Brant e a de Bia Bedran, no Cd Brinquedos Cantados.


TANGOLOMANGO
Domínio público

Eram nove irmãs numa casa, uma foi fazer biscoito.
Deu tangolomango nela e das nove ficaram oito.

Eram oito irmãs numa casa, uma foi amolar canivete.
Deu tangolomango nela e das oito ficaram sete.

Eram sete irmãs numa casa, uma foi falar inglês.
Deu tangolomango nela e das sete ficaram seis.

Eram seis irmãs numa casa, uma foi caçar um pinto.
Deu tangolomango nela e das seis ficaram cinco.

Eram cinco irmãs numa casa, uma foi fazer teatro.
Deu tangolomango nela e das cinco ficaram quatro.

Eram quatro irmãs numa casa, uma foi falar francês.
Deu tangolomango nela e das quatro ficaram três.

Eram três irmãs numa casa, uma foi andar nas ruas.
Deu tangolomango nela e das três ficaram duas.

Eram duas irmãs numa casa, uma foi fazer coisa alguma.
Deu tangolomango nela e das duas ficou só uma.

Era uma irmã numa casa, e ela foi fazer feijão.
Deu tangolomango nela e acabou a geração.



O Tango-Lo-Mango
Versão recolhida por Sílvio Romero

Eram nove irmãs numa casa,
Uma foi fazer biscoito;
Deu o tango-lo-mango nela,
Não ficaram senão oito.

Destas oito, meu bem, que ficaram
Uma foi amolar canivete;
Deu o tango-lo-mango nela,
Não ficaram senão sete.

Destas sete, meu bem, que ficaram
Uma foi falar francês;
Deu o tango-lo-mango nela,
Não ficaram senão seis.

Destas seis, meu bem, que ficaram
Uma foi pelar um pinto;
Deu o tango-lo-mango nela,
Não ficaram senão cinco.

Destas cinco, meu bem que ficaram
Uma foi para o teatro;
Deu o tango-lo-mango nela,
Não ficaram senão quatro.

Destas quatro, meu bem, que ficaram
Uma casou c'um português;
Deu o tango-lo-mango nela,
Não ficaram senão três.

Destas três, meu bem, que ficaram
Uma foi passear nas ruas;
Deu o tango-lo-mango nela,
Não ficaram senão duas.

Destas duas, meu bem, que ficaram
Uma não fez cousa alguma;
Deu o tango-lo-mango nela,
Não ficaram senão uma.

Essa uma, meu bem, que ficou
Meteu-se a comer feijão;
Deu o tango-lo-mango nela,
Acabou-se a geração.


AS NOVE FILHAS
Versão de José Mauro Brant

Era uma velha
que tinha nove filhas.
Foram todas comer biscoito.
Deu um tangolonomangolo numa delas
E das nove ficaram oito.

Essas oito, meu bem, que ficaram,
Foram juntas jogar confete.
Deu um tangolonomangolo numa delas
E das oito ficaram sete.

Essas sete, meu bem, que ficaram,
Foram juntas aprender francês.
Deu um tangolonomangolo numa delas
E das sete ficaram seis.

Essas seis, meu bem, que ficaram,
Foram juntas comprar um brinco.
Deu um tangolonomangolo numa delas
E das seis ficaram cinco.

Essas cinco, meu bem, que ficaram,
Foram juntas pintar um quadro.
Deu um tangolonomangolo numa delas
E das cinco ficaram quatro.

Essas quatro, meu bem, que ficaram,
Foram juntas jogar xadrez.
Deu um tangolonomangolo numa delas
E das quatro ficaram três.

Essas três, meu bem, que ficaram,
Foram juntas passear nas ruas,
Deu um tangolonomangolo numa delas
E das três ficaram duas.

Essas duas, meu bem, que ficaram,
Viajaram pra Paraibuna.
Deu um tangolonomangolo numa delas
E das duas ficou só uma.

Essa uma, meu bem, que ficou,
Resolveu comer feijão.
De um tangolonomangolo nela
E acabou-se a geração!


A expressão tangolomango apresenta diferentes formas gráficas, como tango-lo-mango ou tanglomango – ou ainda tangomango, tanglomanglo, e por vezes até como “tanto surumango” ou “deu no tango deu no mango”, segundo José Mauro Brant, dentre outras expressões semelhantes. No artigo de Guilherme Neves, “Variações sobre o tangolomango”, referido abaixo, outras tantas expressões semelhantes são registradas. Ver algumas versões de tangolomangos e outras expressões usadas aqui 

E o tangolomango também aparece referido em diferentes textos e contextos com sentidos um pouco diverso, mas em um universo comum de significações. Às vezes aparece como mal estar imprevisto, má sorte, azar, malogro, caiporismo; outras como feitiço, magia ou como obscura força destrutiva; às vezes como doença súbita ou prolongada, real ou imaginária; outras como morte mesmo ou sumiço inexplicável. Frequentemente aparece – inclusive em dicionários – como uma doença produzida por feitiço ou sortilégio, nunca de causa natural. Sempre atribuída a feitiçaria, malefício, coisa-feita. José Mauro Brant, no encarte de seu CD “Contos, Cantos e Acalantos” (que traz o tangolomango “As nove filhas”), diz que tangolomango é um piripaque que não se explica, um mal súbito, repentino. 

Apesar desses sentidos, o tangolomango tem hoje um uso lúdico. Aliás, essa indefinição (ou pouca clareza) do que seja exatamente o tangolomango permite que hipóteses sejam feitas, que se brinque com o mistério, que significados sejam inventados, interagindo-se com o texto. 

Na verdade, essa indefinição bem pode ter relação com a origem dos tangolomangos, que, como ressalta Cascudo e outros autores, remete-se aos ensalmos enumerativos, que são fórmulas oracionais mágicas recitadas, usadas para curar, tendo também uma conotação de prática de cura por meio de reza, benzedura, feitiço. Tanto que, muitos tangolomangos tradicionais, na verdade, começam sua fórmula regressiva com nove e não com dez elementos, considerando-se o nove como um numeral altamente carregado de simbolismo, a que se atribuem poderes, frequentemente presente nas rezas e bezenduras praticadas ainda hoje. O nove é o quadrado de três, outro número carregado de simbolismo no catolicismo como em outras crenças. Não à toa existem as novenas... O nove, no campo das religiões e magias, diz Guilherme Santos Neves “é uma presença iterativa e teimosa”.

Sem contar também o prestígio e a força da ordem decrescente, dos números invertidos ou do sentido inverso nesses contextos, como ressaltado também por vários autores – elementos esses presentes nos tangolomangos. A ordem decrescente teria o poder de domar forças adversas.

Embora muitos desses ensalmos não tragam a palavra “tangolomango”, trazem a enumeração invertida iniciada em nove. No estudo de Guilherme Neves, citado e elogiado por Cascudo, ele se refere a origens bem arcaicas de textos enumerativos decrescentes, encantatórios, iniciados por nove, ligados à medicina curandeira da Gália latina e suposta origem dos tangolomangos. Veja o artigo aqui. (Caso não consiga acessar pelo link, tente por aqui, onde o autor tem vários textos sobre o folclore capixaba, e procure o título do artigo na lista)

Além desse estudo, há o de Argus Vasconcelos de Almeida, intitulado “Tangolomango: ensalmos, benzimentos e parlendas nas práticas de cura e folguedos populares”, que pode ser acessado aquiaqui

Esse autor também aborda a uma origem arcaica do tangolomango, e ligada à cura, analisando a sua evolução histórica de ensalmo terapêutico até virar parlenda nos folguedos populares. Tem até ensalmos tangolomanguentos para curar de carrapatos, bicheiras e até lombrigas!!! Sabia disso?! Eu não! Pois tem! Vejam lá!

As lombrigas eran nueve;
de nueve volvéronse ocho;
de ocho volvéronse siete;
de siete volvéronse seis...

... e assim por diante...

Esses são dois textos muito interessantes e saborosos de ler! O tangolomango, como podemos aprender nesses artigos, foi citado em tratados sobre doenças, antes de virar brincadeira de criança...

Tendo essa relação com orações curatrizes, os tangolomangos se situavam entre um bem e um sortilégio. Como ensalmo traz o sentido de cura de malefícios...e como tangolomango, indica algo de mal ou mortal...Talvez, por essa origem, e por ficar obscuro se é caso de bruxaria ou exorcismo, de feitiço ou cura de feitiço, alguns tangolomangos, quando fixados no repertório de lengalengas da cultura popular, como folguedo de crianças, passaram apenas a contar a história do sumiço dos personagens na enumeração decrescente, sem relação com essas origens mágicas e, muitas vezes, sem citar a expressão “tangolomango” ou similares. Alguns textos ainda trazem certo mistério quanto aos sumiços, outros não.

Mas muitas versões mantiveram a expressão “tangolomango”, e repetimos a fórmula já destituída de relação com sua origem, suas virtudes mágicas, seu objeto original. Apenas as repetimos como uma cantiga, ou parlenda. Mas, seja como for, como ensalmo ou como folguedo, o tangolomango faz parte da cultura popular luso-brasileira e foi trazido ao Brasil, já como brincadeira, parlenda ou cantiga, pelos colonizadores portugueses.

Quanto à origem da palavra “tangolomango” em si mesma - já que nos ensalmos nem sempre aparecem - e, especialmente de seu uso nesses textos enumerativos, parece que se conhece menos. Em um estudo de João Ribeiro, diz-se que sempre se supôs uma palavra africana que passou a Portugal. No continente africano, com a forma tangomau, designava aquele que resgatava e comprava escravos para revendê-los. Mas o próprio João Ribeiro problematiza essa origem, veja aqui. 

Muitos tangolomangos criados contemporaneamente, usando ou não a expressão, começam não com nove, mas com dez, talvez, justamente porque, destituído desse sentido mais místico, passam a ser voltados mais para o deleite subtrativo das crianças e, sendo assim, começar a contagem regressiva por dez - os dez dedos da mãos, a primeira série de números que aprendem, a base do nosso sistema numeral - faz muito mais sentido do que começar por nove.

E, assim, com esse sentido meio fluido, pouco claro, o tangolomango fica como um mistério instigante que não há necessidade de explicar e com o qual, já distante de suas origens, se pode brincar. Brincar com a linguagem, brincar com os números, brincar com outras crianças... 

Como diz Guilherme Neves:
Ensalmo, oração, parlenda, cantiga de gente grande, auto ou dramatização do povo, o tangolomango, cansado de perambular nessas áreas adultas, fixou-se, até hoje (até hoje?) no alegre e colorido campo do folclore infantil”.
O parêntese do autor certamente se refere ao fato de que atualmente pouco se brinca ou se canta ou se recita o tangolomango, bem como outras brincadeiras e textos da tradição oral. Como ele mesmo diz no final de seu artigo:
Todos sentimos que, com o perpassar dos tempos, muito da preciosa riqueza do folclore menineiro se desvirtuou, se desfez, se esqueceu e morreu (...). E é uma pena, uma grande grande grande pena…
Nem desmerecendo nem romantizando as culturas populares – pois essas são armadilhas que convém evitar – é preciso ter em mente o que significa esse “popular” referido, o que significa trabalhar com esse popular na escola, o seu papel nas culturas lúdicas infantis, o seu lugar como cultura, diversidade, parte de nós, e não como uma visita na semana do folclore, entrando pela porta dos fundos da escola. Como trazer a riqueza dessas brincadeiras e textos, fazê-los parte do repertório textual e brincante das nossas crianças, sem folclorizar as manifestações da cultura popular? Essas são discussões importantes, que temos que ter em mente, pensar, discutir, afirmar. Falaremos mais disso em outra oportunidade... 

Por ora, resta-nos não perder de vista a origem oral, popular, desses textos, que hoje podem entrar na escola de modo mais valorizado e legitimado que em tempos atrás, justificados pela cultura lúdica infantil, por seu valor na apropriação das identidades e diversidades culturais e valor nas explorações de linguagem das crianças, inclusive bem apropriados para o desenvolvimento da oralidade e reflexão sobre a escrita, como já tivemos oportunidade de discutir inúmeras vezes (ver mais sobre essa questão na minha brochura sobre textos da tradição oral na alfabetização, aqui.)

Esses textos resistem e persistem também pelas mãos dos autores que os retomam, recontam, reinventam e os reapresentam, de novo, para nós, ainda que através da cultura escrita, registrados nos livros, com belas ilustrações. 

Bom, gente, mas se os tangolomangos foram perdendo terreno também como folguedo infantil, ao menos estão reaparecendo aqui e ali em apropriações contemporâneas por autores de literatura infantil. Por outro lado, é certo que alguns desses textos renunciam a aspectos próprios aos tangolomangos... o que torna interessante poder retomar os tangolomangos mais tradicionais também. Talvez o contato com esses livros, além de proporcionar deliciosas brincadeiras, seja uma boa oportunidade para conhecer a estrutura desse texto enumerativo decrescente e reavivar o interesse pelos tangolomangos tradicionais. Dez, nove, oito, sete, seis...não vamos deixar o tangolomango desaparecer de uma vez!!!

É isso aí, gente. Interessante origem, não é? Eu aprendi muito com essa pesquisa... espero que vocês também aproveitem! Aguardem os outros dois posts sobre tangolomangos, tem muito mais!!! No próximo, vou falar dessas reapropriações dos tangolomangos, com dicas de livros de literatura infantil que trazem as enumerações decrescentes em estruturas semelhantes a eles. 

Mas para deixar um aperitivo, digo: e não se enganem, além desses, há tangolomangos por toda parte! Mesmo para maiores de idade... Quer ver? Para quem não se lembra, há uma versão atual pernambucana de tangolomango cantado, do Mestre Ambrósio: “Usina (Tango no Mango)”, composição de Chico Antônio e Paulírio, que você pode ouvir e ler a letra aqui. 

Divirtam-se!
Lica

Referências:
  • ALMEIDA, Argus Vasconcelos de. Tangolomango: ensalmos, benzimentos e parlendas nas práticas de cura e folguedos populares. Recife : EdUFRPE, 2012. Disponível aqui.
  • CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore brasileiro. 9ª edição. São Paulo: Global, 2000
  • NEVES, Guilherme dos Santos. Variações sobre o tangolomango. Revista Brasileira do Folclore, Rio de Janeiro: MEC; DAC, ano XIV, n.41, p.13-35, Mai-Ago 1976. Disponível aqui. 
  • RIBEIRO, João. Frases feitas; apresentação Evanildo Bechara; introdução Joaquim Ribeiro. 3. ed. Rio de Janeiro: ABL, 2009. Coleção Antônio de Morais Silva. Coleção Antônio de Morais Silva ; v. 8. Disponível aqui.
  • ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985.
  • Site Jangada Brasil: http://jangadabrasil.com.br/novembro/ca31100e.htm

sábado, 17 de novembro de 2012

Histórias cumulativas e a leitura

Como prometido, vamos falar um pouco sobre o trabalho com as histórias com repetição e acumulação na apropriação da leitura, já que esses são gêneros que, além de muito indicado para os pequenos, são também privilegiados nesse sentido. Entremeado a essa reflexão, vou mostrar um kit de materiais da história “Ah, Cambaxirra, se eu pudesse...”, de Ana Maria Machado, confeccionado por Ana Antunes e seus alunos.


Evidentemente, antes de qualquer trabalho com foco na reflexão sobre a linguagem, importam as histórias em si mesmas, sua natureza literária. Seja de tradição oral ou escrita, o foco primordial é a história, a graça ou encantamento que elas trazem. As histórias com repetição ou acumulativas têm esse quê de brincadeira com a retomada repetitiva de frases e situações e com a embolação acumulativa, que agrada muito às crianças, se bem lidas ou contadas.

À medida que o professor propõe às crianças a leitura ou a contação de contos desse tipo, elas vão constituindo um repertório de textos conhecidos, fazendo articulações entre contos diferentes, observando semelhanças e diferenças e se apropriando da estrutura repetitiva que os caracteriza. Isso Ana bem percebeu em sua turma! Já podem até criar uma história acumulativa, já pensou, que legal que deve ser pensá-la?! Pois bem, essa é uma possibilidade... pensar na situação, nos personagens, de que jeito vão ser repetidas ou acumuladas as ações...e o desfecho...e a professora ir escrevendo, relendo, todos opinando, até que fiquem satisfeitos. Fica a dica! Mas é preciso, primeiro, ouvir várias histórias desse tipo.

Bom, e o que essas histórias têm de especial no trabalho com a leitura? Após um elemento desencadeador da narrativa, um mesmo evento ou situação semelhante se repete várias vezes, se acumulando ou não. As ações ou situações anteriores vão sendo retomadas a todo o instante e, nas acumulativas, a cada repetição, agrega-se mais um elemento, resultando numa longa enumeração. Ora, essa estrutura facilita a antecipação das crianças do que virá em seguida, permite que repitam oralmente as ações anteriores que se repetem ou se acumulam, o que possibilita a retenção do enredo da história, de formas linguísticas, de trechos. O enredo, muitas vezes bem simples, tem um ritmo também repetitivo, favorecendo essa memorização. Isso vai facilitar diversas práticas, como veremos.

Mas não são somente as crianças que podem memorizar a história, não! Devido a sua origem como narrativa oral, é interessante que algumas histórias acumulativas sejam contadas de memória, sem o texto escrito, com toda a vitalidade e colorido da contação, especialmente aquelas da tradição oral. Experimentem, por exemplo, contar o Macaco e o Rabo! Para isso é preciso ler várias vezes, se apropriar da história, fazê-la sua! E aí sim contar para as crianças sem o livro. Como é um conto da tradição oral, você pode contar do seu modo, com suas palavras, mantendo o enredo e a estrutura da acumulação. No post anterior tem um vídeo com a história. Veja aqui duas versões desse conto: O Macaco e o Rabo. Encontre o seu jeito de contar!

Mas como contar de memória nem sempre é possível – pois para isso quem conta deve se sentir à vontade para narrá-la oralmente sem o apoio do livro – então, mesmo quando lida oralmente pelo professor, é fundamental que a leitura seja viva, cadenciada, atribuindo ao texto o ritmo que a oralidade lhe daria, enfatizando o seu encadeamento. E a familiaridade com o texto – ainda que não memorizado completamente – é essencial para se conseguir esse efeito. Esse cuidado é importante não apenas para não tornar a leitura monocórdia, monótona, sem ritmo – o que na história acumulativa, especialmente nas que se assemelham a uma longa parlenda, é um risco ainda maior e estraga a história – mas também para restituir-lhe a sua natureza oral. Aliás, qualquer que seja o gênero de texto, a leitura compartilhada, como a contação, exige sempre uma preparação.

Ana lendo para a turma
Assim, é necessário preparar-se para ler, para contar, ensaiar a leitura oral, o ritmo, explorar as nuances do texto, experimentar modos de ler e de contar que cativem as crianças e prendam a sua atenção... Há trechos que podem ser lidos de forma mais lenta, outros que demandam uma leitura mais rápida, como, por exemplo, quando a acumulação se inverte... E, assim, ensaiando, você poderá tanto restituir bem, pela voz, a oralidade do texto escrito, quanto ler para as crianças sem estar com os olhos grudados na página a todo o momento, já que há trechos repetidos que podem ganhar vida com gestos e olhares mais presentes, que busquem e capturem os olhares das crianças. O leitor aí se coloca um pouco como contador, que busca para si a atenção, não a centralizando apenas no objeto livro.

É comum que depois de ouvir alguns trechos da história, as crianças também comecem a enunciar as frases que se repetem e se acumulam no texto, participando da narração e dando-lhe vida. O modo como essas histórias se organizam favorece a participação mais autônoma das crianças na leitura, permitindo que antecipem os acontecimentos, memorizem gradativamente o texto e compartilhem a leitura, mesmo antes de ter o domínio da leitura autônoma. E isso será importante para a apropriação dessa autonomia. As ilustrações – no caso de leitura de livro – geralmente ajudam a fazer tais antecipações.

Mas não se iluda! Como se retoma sempre os eventos anteriores e agrega-se a eles um elemento novo, para avançar, estão presentes no texto tanto a repetição, o reconhecimento de uma situação, quanto a novidade, garantindo assim o desenvolvimento do enredo. E, no final, a surpresa! Lembre-se de dar um colorido especial à leitura do trecho final, em que se introduz na história a novidade que faz o rumo da acumulação parar, inverter ou prometer nunca acabar... Observe que entonação, pausas e silêncios podem ajudar a ressaltar a graça, a surpresa, o sentido da história.

Outra coisa interessante é que, pelo fato de as repetições e retomadas se darem por expressões de linguagem, esse gênero de texto pode apresentar também jogos verbais lúdicos, muito interessantes tanto do ponto de vista de uma boa interação com os ouvintes, quanto para o trabalho com a oralidade e a escrita: expressões e palavras repetidas, onomatopeias, trocadilhos, rimas etc. Esses recursos podem, em um momento posterior, favorecer a reflexão sobre os sons da língua e a observação das relações entre a linguagem falada e escrita. E, durante a leitura, dão vida ao texto e à interação entre leitor e ouvintes.

Assim, além de divertir e encantar as crianças, função primordial da literatura, as histórias com repetição e acumulação ajudam a desenvolver a oralidade e as aproxima da leitura. A estrutura de repetição, acumulativa ou não, torna mais fáceis a leitura e a compreensão da história, bem como possibilita a recuperação de sua estrutura narrativa e de suas formas linguísticas. Em si, a memorização de parte ou de toda a história, facilita o reconto, a pseudoleitura, práticas interessantes de apropriação da língua escrita e da leitura.

Por lançarem mão de um recurso muito interessante para a compreensão e a memorização do texto, livros com histórias com repetição e com acumulação favorecem a leitura interativa – as crianças ajudando a enunciar o texto em trechos que se repetem – e a leitura autônoma (pseudoleitura) pelas crianças, pois elas podem experimentar modos de ler um texto, com apoio da memorização e nas ilustrações, antes mesmo de dominar a leitura.

Como já dito, as situações de leitura interativa, participativa, convidam a criança a assumir o papel de leitora antes de saber ler com autonomia. Quando o enredo é mais elaborado, elas podem assumir esse papel em determinados trechos, que trazem a repetição e acumulação, enquanto o professor lê as outras passagens.

Na leitura autônoma, além de enunciar o enredo do jeito que lembram, elas expressam procedimentos de leitura que aprenderam observando quando leem para ela, a exemplo da entonação, o passar das páginas, o tipo de linguagem do gênero ou do texto específico, a varredura do texto pelo olhar da esquerda para a direita, dentre outros procedimentos de leitura. A leitura de livros para e com as crianças ou por elas próprias são situações muito importantes de aprendizagem de procedimentos e comportamentos leitores, de colocar-se como leitor.

Além da leitura compartilhada ou interativa e da contação, a estrutura repetitiva e acumulativa se presta bem também a propostas como coro falado e encenação, animando leituras coletivas.

Recontar a história, por sua vez, preservando suas características, a sequência e o enredo, é uma atividade igualmente muito produtiva de organização textual, de compreensão leitora, de aprendizado das características do discurso escrito (ainda que trazendo marcas de oralidade). O reconto, assim como a pseudoleitura, que são importantes situações de apropriação da leitura, são possíveis graças ao apoio na memorização da história, sua sequência, sua estrutura. No caso dos livros, apoio também nas ilustrações.

Materiais para apoiar o reconto e refletir sobre a escrita

Além das próprias ilustrações dos livros, alguns materiais podem ser criados para ajudar na recuperação da sequência da história, permitindo às crianças a recontarem ou se arriscarem a ler mesmo que ainda não o façam de modo convencional. Fichas com as figuras ou com nomes dos personagens e/ou ações, objetos e outros elementos próprios a cada história podem servir como apoio à recuperação dos personagens e ações sucessivas encadeadas. Como nas histórias acumulativas é frequente ter vários personagens que vão se sucedendo uns aos outros, com ações que vão se encadeando, para apoiar a recuperação da história e seu reconto, esses recursos são muito úteis, como venho ressaltando nos posts das várias caixinhas de livros.

As crianças podem, com ou sem a ajuda do professor, a partir do reconhecimento dos personagens representados nas ilustrações das fichas ou mesmo escritos, ordená-las na sequência de entrada dos personagens na trama e, depois disso, tentar recuperar o texto, de forma aproximada. Aos que ainda não têm recursos para tentar reconhecer as palavras das fichas por estratégias diversas, podem ser dadas as fichas com as ilustrações. Mas para os que já podem tentar reconhecer as palavras ou parte de palavras, através de estratégias diversas e do conhecimento que têm de letras e relações entre letras e sons, ainda que este seja um enorme desafio, terão uma boa tarefa de reflexão pela frente para conseguir montar a sequência dos personagens para, então, fazer o reconto, apoiar a recuperação do enredo.

Como venho insistindo em vários posts, a atividade de reconto - reconto oral ou reconto para produzir uma reescrita - são oportunidades muito interessantes de usar as palavras para apoiar essa reconstituição, em uma atividade que é a um só tempo de letramento e de reconhecimento de palavras, de reflexão sobre o sistema de escrita, já que exige que as crianças façam relações para descobrir onde está escrito o quê, usando seus conhecimentos sobre a escrita.

Mas além de apoiar o reconto, os nomes dos personagens escritos podem servir para várias atividades de reflexão sobre a língua escrita, nas quais está em jogo pensar nas relações entre a pauta sonora e gráfica. As fichas com figuras podem ser associadas, pelas crianças, às fichas de palavras, ou podem ser usadas para se jogar como jogo da memória, baralho, sempre emparelhando, associando, a ficha da figura com a ficha do nome correspondente. Além disso, pode-se propor a montagem desses nomes com letras móveis, com ou sem o apoio de fichas “faltando letras”, constituindo-se, nesse caso, em atividade de escrita, não de leitura. 

Estas são atividades que exigem pesquisa inteligente, uso de estratégias, comparação de pedaços das palavras com outras, já conhecidas, como os nomes próprios das crianças da sala, por exemplo. No reconhecimento de palavras está em jogo tanto a leitura mais global das palavras, que favorece a ampliação do repertório de modelos estáveis de escrita convencional, quanto a ativação de estratégias de leitura por parte das crianças, exigindo que usem o conhecimento que têm disponível sobre letras e sons, partes de palavras, para resolver o que ainda não sabem com autonomia. As letras finais e inicias das palavras, a presença de algumas vogais ou mesmo consoantes, o tamanho das palavras, uma sílaba que é reconhecida, comparada a um nome próprio, tudo isso pode constituir em elementos para as reflexões das crianças.

No material abaixo vocês podem observar essas fichas. Os personagens foram desenhados tendo por base as ilustrações do livro.



Esse material, como vocês podem observar, foi desenhado por crianças. Então, essa foi um ideia que tive e que Ana desenvolveu em sua turma, a partir da história Ah, Cambaxirra, se eu pudesse... Falando com ela sobre desenvolver um kit de materiais a partir de histórias acumulativas, sugeri que as próprias crianças fizessem o desenho dos personagens. Eu sempre quis ter um material ilustrado pelas crianças e sugiro isso sempre aos professores que confeccionam seus materiais nas oficinas. Ana gostou da ideia e fez um trabalho muito bacana com a turma dela de 1º ano. Esse é o material que aparece nas fotos com as crianças. Na foto acima aparecem fichas do kit que fiz para Joaquim, a partir dos desenhos das crianças de Ana.

Para seus alunos, que, em sua maioria, já sabiam ler, o mais gostoso e produtivo foi mesmo toda a preparação do material. Mas é Ana mesma quem conta sobre esse processo, em um texto que pode ser lido aqui


Assim como o nome dos personagens, outras palavras e expressões que marcam o texto – como as suas ações, seus qualificativos, caso haja isso no texto, os objetos que carregam, quando é o caso – podem ser escritas em outras fichas para ajudar a reconstituição da história, a recuperação de sua sequência, e também serem usados em jogos de emparelhamento.

As três fichas do kit
A história Ah, Cambaxirra se eu pudesse... inspirou o grupo de Ana a criar um outro conjunto de fichas, dessa vez com elementos definidores de cada personagem, que foram selecionados para facilitar o reconhecimento dos desenhos. Nesse caso, esses elementos não estavam na história, no texto, mas foi um recurso usado para facilitar a caracterização de cada personagem, alguns dos quais são muito parecidos: lenhador, capataz, barão, duque, marquês, conde, visconde, imperador...caracterizados pelos seguintes elementos: camiseta, camisa, blusa com babados, capa, casaco, túnica, chapéu, coroa.

Assim, surgiram também as fichas com esses marcadores escritos, criando-se, assim, a possibilidade de associar as fichas com os personagens desenhados, as fichas com seus nomes escritos e as fichas com esses marcadores. Um jogo de trinca!

Em outras histórias, aparecem já no texto elementos que podem compor fichas do kit. Há contos em que cada personagem carrega um objeto ou cada personagem faz uma ação. Esses objetos e ações podem também compor conjuntos de fichas, tanto para favorecer a reconstituição do texto pelas crianças, as sequências, o que vai com o quê ou faz que ação, quanto para serem associadas entre si: cada imagem do personagem associado ao seu nome, ao seu objeto ou ação, e assim por diante. Quando há ações ou qualificativos associados a cada personagem, novas palavras podem, assim, surgir no kit de materiais. No conto o Macaco e o rabo, por exemplo, podem ter fichas com o desenho e outras com a palavra leite, capim, sapatos, cerdas, e assim por diante...

Outra coisa interessante é quando na história enumerativa há, de fato, números – por vezes há, como em “O nabo gigante” e “E o dente ainda doía”, dentre outros – os algarismos (5) e os numerais escritos (cinco) podem também compor o kit, em fichas escritas. Na coleção de livros com histórias acumulativas de Ana Maria Machado (mostrada no post anterior, sobre o tema), tem duas histórias enumerativas: “O domador de monstros” e “Uma boa cantoria”.

Memória nome-figura
Em kits de materiais desse tipo, as fichas com os nomes dos personagens e de outros elementos da história podem ser usadas para outras tantas atividades, como fazer comparações de palavras, apoiar a escrita, compor trem de nomes, preguicinha, dentre outras propostas. Enfim, as possibilidades são inúmeras. Cada história se presta a diferentes propostas, cada uma pode constituir um kit diferente, com propostas e materiais semelhantes e outros bem peculiares àquela história específica. Nesse kit da Cambaxirra, Ana trabalhou com três tipos de ficha, que podem ser associadas duas a duas ou em trios.

Interessante também é quando há, no conto, situações que, ao final, se invertem, pois novas reorganizações da ordem das palavras – ou mesmo novas palavras para o kit – podem ser propostas. Por exemplo, na "Casa Sonolenta", bem como na história "A Velhinha Maluquete" e no "Por que o caranguejo não tem cabeça", “A história da coca”, dentre outras, a ordem, ao final é invertida. Os dorminhocos que se acumulam na cama aconchegante da casa sonolenta começam a acordar, de um em um, invertendo-se a ordem, com novas ações dos personagens. Quem dormia leva um susto, e vai acordando: a pulga acordada pica a rato, que assusta o gato, que arranha o cachorro, que cai no menino, que dá susto na avó, que quebra a cama...  

Em termos de apropriação do sistema alfabético, além de toda a reflexão que a tentativa de reconhecimento de palavras põe em jogo, vale ressaltar ainda que histórias com palavras, frases e trechos repetidos e acumulados favorecem a observação de aspectos qualitativos e quantitativos da escrita, de algumas regularidades da organização da escrita que, embora óbvias para um leitor proficiente não o é para os que ainda não leem com autonomia. Como exemplo, podemos citar a relação entre a quantidade de ações que vão se acumulando e a quantidade de texto escrito (na “Casa Sonolenta”, o texto vai aumentando a cada personagem que se deita na cama, uns por cima dos outros); a observação do que muda e do que permanece em enunciados que se repetem (repete-se a frase, mas muda-se o personagem, por exemplo, como em “Bruxa, Bruxa”, dentre outros); que palavras iguais escrevem-se da mesma maneira, com a mesma sequência de letras; que há espaços entre as palavras e a própria ideia do que é palavra; que tudo o que se diz ao ler está escrito e na mesma ordem que se enuncia, dentre outros aspectos.

Assim, por meio de textos desse tipo, é possível estruturar atividades que permitam diversas ordens de apropriações e a construção de diferentes conhecimentos ligados à oralidade, à escrita e à leitura, tanto no sentido amplo do letramento, quanto na alfabetização propriamente dita. Além disso, não podemos perder de vista o aspecto de brincadeira que esses textos trazem. Brincadeiras com a linguagem...

Jogar com as palavras que povoam as histórias pode ampliar a leitura ou matá-la, tudo depende de como se faz... e, por isso, nessas propostas, é fundamental não perder nunca de vista os aspectos literário e lúdico, centro de toda a potência da leitura literária...

Aliás, por falar em brincar, quem não se lembra daquela brincadeira acumulativa que é “Fui à feira e comprei...”. Cada um vai dizendo uma coisa que comprou e o jogador seguinte deve repetir a dos jogadores anteriores e acrescentar a sua compra...e assim por diante... Se colocarmos um critério sonoro nessa brincadeira, a exemplo de outra brincadeira parecida que é a “Lá vai a barca carregadinha de...”, podemos então fazer uma feira de rimas, como por exemplo: “Fui à feira e comprei pão”... “Fui à feira e comprei pão e feijão...”...”Fui à feira e comprei pão, feijão e agrião”... Ou uma feira de sons iniciais... E assim, essa brincadeira acumulativa já se constitui em uma ótima atividade de reflexão fonológica. A “Lá vai a barca carregadinha de...” já é em si fonológica, na medida que o objetivo é, justamente, levar na barquinha palavras que tenham alguma semelhança fonológica (rimas, sílaba inicial, fonema inicial etc) com as ditas anteriormente, cada um dizendo uma, completando a barca: “Lá vai a barca carregadinha chaves, xales, xícaras, chuchu, chuva, cheiro, chaveiros, chiclete...”

Bom, para finalizar, por ora, adianto que estamos pensando em fazer uma série de kits de histórias acumulativas, com textos e materiais, iniciada com o “Ah, Cambaxirra se eu pudesse...”. Não sei se formarão kits diversos ou se depois juntaremos em um grande kit acumulativo. E quero investir mais – através de minhas parceiras, já que não estou em sala de aula - nas fichas com as próprias ilustrações das crianças, a partir dos contos acumulativos lidos e trabalhados. Vamos ver, aos poucos, o que sai.

Como alguns de vocês sabem – através das oficinas e aqui no blog – esse tipo de história repetitiva e acumulativa faz tempo está no meu repertório de materiais para alfabetização a partir da literatura e da tradição oral. Com o Projeto Trilhas, essa paixão antiga foi renovada, pois dois dos cadernos do projeto referem-se a isso, o Caderno das Histórias com Repetição e o Caderno das Histórias com Acumulação. Os dois cadernos, que estão na biblioteca do Portal, trazem algumas propostas de atividades a partir desses gêneros. É só acessar: 


As propostas desse post e as dicas de livros do post anterior sobre histórias acumulativas podem perfeitamente se articular com as propostas do Trilhas, para as escolas que estão desenvolvendo o projeto. É uma dica!

É isso, gente. Logo mais continuo esse post com outros relacionados a ele: o dos Tangolomangos, que já está quase pronto, e um que já prometi há tempos, da Caixinha do livro A Casa Sonolenta, já bem antiga no meu acervo. Tão antiga que até pensei que já tinha feito o post. Rsrsrs!!! Mas as fotos vocês já viram, para que não a conhece ao vivo e a cores, né?

E no mais, aos poucos, vou mostrando outras caixinhas de livros do kit de acumulativos que, com certeza, chegarão...

Não se esqueçam de dar uma olhada no texto de Ana Antunes, com mais notícias de como ela desenvolveu o trabalho com essa história em sua turma esse ano e a confecção do kit com a participação ativa das crianças! Tem mais fotos do material lá, e ótimas dicas! O link é aqui: clique

Aproveito para agradecer, mais uma vez, a Ana, por essa parceria. Valeu, Aninha!!!

Abraços,
Lica