Uni, duni, tê, salamê, minguê...

Uni, duni, tê, salamê, minguê...
Materiais a partir de textos da tradição oral

quarta-feira, 24 de março de 2010

Brincando com as Palavras

Adivinha dos Peixes

José Paulo Paes


Quem tem cama no mar? O camarão.

Quem é sardenta? Adivinha. A sardinha.

Quem não paga o robalo? Quem roubá-lo.

Quem é o barão no mar? Só tubarão.


Gosta a lagosta do lago? Ela gosta.

Quanto pés cada pescada tem? Hem?

Quem pesca alegria? O pescador?

Quem pôs o polvo em polvorosa? A Rosa.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Kit Adivinhas

ADIVINHAS 4 OPÇÕES



Esse kit de adivinhas consiste em um conjunto de perguntas das adivinhas e um repertório possível de resposta composto de 4 palavras para cada adivinha, indicadas pela cor. O jogo consiste em procurar, dentre as palavras daquele grupo (de mesma cor), a que responde à adivinha. As outras palavras são palavras que apresentam aspectos como: têm mesma letra inicial e/ou mesmo tamanho, a primeira vogal coincide ou inicia com a primeira vogal presente na resposta, apresenta número de letras correspondentes ao número de sílabas da resposta à adivinha, tem letras parecidas etc. Esses aspectos vão se constituir em desafios para o jogador que ainda não tem domínio de leitura, provocando a reflexão, a comparação, o uso dos conhecimentos de que dispõe sobre o sistema alfabético e de estratégias de leitura.

Como o desafio é reconhecer palavras sem ainda saber ler, decodificar termo a termo, antes de propor a atividade, é preciso conhecer as respostas das adivinhas em questão. Como ainda não leem e a tarefa é justamente tentar ler sem saber, as respostas já devem ser conhecidas, oralmente, de antemão, para que os alunos possam ajustar o escrito ao que sabem oralmente e, assim, encontrar a palavra que procuram, usando estratégias e conhecimentos diversos para se chegar ao reconhecimento da palavra que responde à adivinha.

Para tal, todo um trabalho inicial de exploração desses textos é preciso ser feito. A adivinha é um gênero cujo objetivo é desafiar, brincar, tentar descobrir...essa é a graça...

O que é, o que é?
É meu, mas meus amigos
usam mais do que eu?

Assim, as adivinhas devem ser ditas ou lidas e as respostas buscadas. O professor pode propor que tentem descobrir oralmente, coletivamente ou em pequenos grupos, as respostas, pode dar dicas, ajudar. Depois das sugestões, dos palpites das crianças (ou adultos), se ninguém acertar, a professora diz a resposta da adivinha, relendo-a para que a pergunta seja ressignificada. Quando os alunos souberem todas as respostas, pode-se, então, dar início à atividade de leitura. Evidentemente, outras atividades com as adivinhas, essas e outras, podem ser propostas, de leitura, escrita, de produção de pequenos livros, gravações, de ilustração, enfim, uma série de possibilidades.

Pode-se jogar com esse kit de Adivinhas 4 Opções de várias maneiras. O objetivo, em todas as variantes é encontrar, para cada adivinha a resposta que lhe cabe dentre as quatro palavras do conjunto.

Pode-se colocar o conjunto de adivinha com suas quatro respectivas “possíveis respostas” em uma mesa e pedir que cada mesa encontre a resposta da adivinha entre aquelas palavras. No caso de não ter nenhum aluno que já tenha certo domínio de leitura em cada grupinho, a professora lê as adivinhas de cada mesa. Caso tenha, ele pode ficar com a tarefa de ler a adivinha, mas não deve ajudar na leitura das candidatas a resposta. Pode-se também, do mesmo modo, dar um conjunto para cada dupla ou apresentar todas no centro de uma roda ou de uma mesa grande e todos irem fazendo coletivamente.

Nos grupos em que a maioria das crianças já reconhece palavras com mais facilidade, a tarefa fica mais desafiante se não sabem as respostas de antemão. Para os grupos em que muitos já leem com autonomia, não há maiores desafios em reconhecer as palavras.

Há ainda outras formas de jogar, por exemplo, podem-se distribuir as palavras (as respostas certas e as outras) entre as mesas e a professora ler as adivinhas para o grupo todo. O grupinho que tiver aquela resposta deve se manifestar. Para ficar mais desafiante, a professora pode não indicar a cor do conjunto. Vai depender do nível da turma decidir se os alunos devem ou não saber oralmente as respostas de antemão. Se for um grupo ainda não alfabetizado é preciso que saibam.

Para uma turma que ainda não tem o domínio da leitura pode-se retomar a atividade outros dias, fazendo uma lista das respostas, e relendo as perguntas, pedir que encontrem as respostas na lista. Eles usarão, para esta tarefa, os indícios gráficos, as estratégias de leitura, os conhecimentos que têm sobre o sistema de escrita, a relação com nomes próprios e até mesmo o reconhecimento global, quando a palavra começar a fazer parte do repertório conhecido de palavras convencionalmente escritas.

É isso, esse é um jogo do qual gosto muito... e as crianças também. Como as adivinhas são também parte do repertório cultural de muitas comunidades, também é bastante interessante para a alfabetização de jovens e adultos.

E não esqueçam de adivinhar muito, brincar e desafiá-los, antes de oferecer o kit para jogarem, tá?

Algumas sugestões de adivinhas:

O que é, o que é?
Que as crianças fazem,
mas a gente não vê?

barulho baralho bagunça aluno
O que é, o que é?
Tem coroa
mas não é rei?

abacaxi abacate avião ave
O que é o que é?
Quando parte uma, partem as duas,
quando chega uma, chegam as duas?

pernas penas emas perto
O que é, o Que é?
É meu, mas meus amigos
usam mais do que eu?
nome nove homem ovo

O que é que?
quanto mais se perde,
mais se tem?

sono sino osso som
O que é, o que é?
feito pra comer,
mas não come?

garfo girafa garra aro
O que é, o que é?
Tem linha, mas não é carretel,
fala, mas não tem boca,
ouve, mas não tem ouvido?
telefone tela televisão elefante

O que é, o que é,
Que sobe e desce
e não sai do lugar?

escada sacada escola ela
O que é que salta,
dá um espirro
e vira pelo avesso?

pipoca poca oca patota
O que é que
por mais que seja cortado
fica do mesmo tamanho?

baralho ralo barulho balaio

O que fica molhado
na hora que seca?
toalha tomada tala olha

quarta-feira, 17 de março de 2010

Oficina de Materiais: Diálogos com as Novas Tecnologias

Um dia, uma professora universitária, bem antenada na questão das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (as chamadas TICs), vendo um dos meus materiais artesanalmente produzidos, que eu mostrava a uma outra professora, comentou comigo: “nossa que coisa antiga, não? Bonitinho, mesmo, mas antiguiiiiiiinho... Porque você não cria um software?”
Pois é, da idéia do software, até gostei, ficaria interessada em me juntar a uns jovens entendidos dessas coisas de programação e recriar o material que produzo com papel, duplex, cola e tesoura, para a tela de um computador. Tenho até umas ideias do que eu precisaria que o programa fizesse, só não sei concretizar. Aliás, nem sei se é exequível... E eu precisaria também de um fera em artes gráficas, design, quiçá um bom ilustrador. Pois eu seria exigente, e queria um software esteticamente bem feito, sem cores saturadas e desenhos toscos, infantilizados, que vi, muitas vezes, em material como esse. Queria que fosse belo, bem ilustrado, bom de se ver. E o queria também considerando as perspectivas de ensino e aprendizagem que defendo, e que embasam os materiais que confecciono – bonitinhos, mas antiguinhos. Essa parte do comentário, evidentemente, não gostei. Nem bonitinho – pois bonitinho é consolo de feio, e sei que o que faço é esteticamente muito bem apresentável, embora artesanal – nem antiguinho, pois para muitos é uma boa nova, já que a “nova” das Novas Tecnologias é uma coisa que ainda não chega a se anunciar, nem de longe muitas vezes, em muitos contextos escolares do nosso país.
Em tempos de tecnologias da informação e comunicação, muito se discute e se propõe em termos de materiais didáticos interativos, softwares educativos, games, ambientes on-line, CD-Rom ou o uso da web como fonte de aprendizagem. Muitas coisas interessantes são criadas e possibilitadas pelo mundo digital, outras nem tanto. Não questiono isso, nem acho que não se deva lutar para mudar a situação, para que as escolas tenham os equipamentos e a formação para usar as TICs - e usá-las não apenas de modo instrumental, mas como cultura. Sem desconsiderar a importância dessas discussões e propostas, cabe refletir sobre a realidade da nossa escola pública, que pouco tem, efetivamente, se beneficiado em termos de acesso a tais ferramentas. E, cá para nós, muitos já estão defendendo esse pedaço, posso eu cá defender um outro, não? Pois... Os materiais artesanais podem, sim, fazer a festa de muitas turmas e de muitas crianças e de muitos professores, e ser aliados interessantes da prática pedagógica.
Dispondo ao menos de editor de texto e até da ferramenta da internet – especialmente para a pesquisa de imagens – muito podemos pensar em termos de produção de material de alfabetização para uso imediato, hoje, em nossas salas de aula. E mesmo sem tudo isso! Meus primeiros materiais eram produzidos na “mão grande” mesmo. Um salto estético pode ser dado quando dispomos de recursos capazes de fazer com que simples materiais “saltem aos olhos” e seduzam alunos e professores, contribuindo para o enriquecimento de seu acervo de materiais e de atividades a partir deles.
Os materiais que produzo e ensino a produzir e a usar não saltaram aos olhos da professora de TICs (mas ela até achou bonitinho!), mas é que ela, como muitos, está no pedaço que costuma não validar o que não lhes parece condizente com a utopia – por ora, e bem intencionada – da democratização do acesso às tecnologias, a cultura digital e a suas ferramentas. Nós, professores do Ensino Básico, no entanto, sabemos que “o buraco é mais embaixo”, e enquanto o computador não chega ou não passa de um elefante branco numa sala, sem acesso ou acesso limitado, devemos arregaçar as mangas e fazer o melhor de nós para apresentar iguarias de outra natureza para nossos alunos. E mesmo quando cheguem. Competem? Será? Eu, particularmente, acho a interação que favorecem, que é de outra natureza em relação à tal interatividade do digital, muito valorosa e insubstituível.
E são tão bons de preparar e usar!
Bom, antes que me rebatam, é bom dizer: depois de algum tempo desse episódio, uma outra professora da área das TICs, pelo contrário, achou os materiais bem legais e a ideia do software também, mas sem desvalorizar meus joguinhos de papel. Quem sabe ela não me ajuda, né?
Sim, o software também está em projeto de projeto, semente demorada a nascer - se nascer - mas sua concepção dependerá inteiramente do que temos aprendido e do uso que temos feito - e que continuaremos fazendo - desses outros materiais da idade do papel, cola, tesoura, duplex...
Assim, mãos à obra, professores!!!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Bingo de Sons

Mais sobre o Bingo de Sons

Em resposta ao comentário de Leila, do post do dia 27/02, sobre o Bingo de Sons (jogos):

O jogo, tal como está estruturado é um jogo de reflexão fonológica, produtivo para crianças que produzem escritas sob qualquer hipótese descrita pela psicogênese, justamente por ser sem a presença da escrita. A reflexão fonológica apresenta desafios diversos para todos e é, ao mesmo tempo, possível para quem ainda não se apropriou da natureza e funcionamento do sistema de escrita.
A etapa de exploração de similaridades sonoras entre palavras, antes do jogo, também cumpre esse papel, mas essa exploração pode também, aos poucos, ir incluindo reflexões que articulam o oral e a escrita.
Após o jogo, dependendo do grupo, o professor pode também conduzir reflexões acerca das similaridades sonoras e gráficas das palavras, levando as crianças em processo de alfabetização a perceberem como se escrevem esses sons que se repetem nas cartelas, a discutir se essas unidades se escrevem do mesmo jeito nessas diferentes palavras ou não, identificar esses sons em diversas palavras, listar palavras com unidades sonoras semelhantes e observar como se escrevem, etc. Isso permite uma maior apropriação da natureza dessa relação.
E atenção! Como eu disse no texto postado sobre o Bingo, nesse tipo de atividade é importante notar que, em alguns casos (ex. cinto/sino/sapato/sapo), a similaridade fonológica não corresponde necessariamente a uma similaridade gráfica, devido ao fato de, por exemplo, a letra C ter também o som de /s/. Com crianças que escrevem sob uma hipótese alfabética ou silábico-alfabética, são reflexões ricas para avançarem para uma escrita ortográfica. Pode-se fazer essa reflexão buscando situações e palavras já conhecidas deles, como nomes próprios, por exemplo, Cíntia/Sandra, Selma/Celso.
Para os que já descobriram a relação entre fala e escrita, mas não ainda sua natureza alfabética (hipóteses silábicas), a comparação entre a forma sonora que se repete em diferentes palavras e a escrita (ex. ão em chão, feijão; PA em pato e em paca), permite tornar observável unidades sonoras como sílabas, fonemas, unidades maiores e menores que a sílaba, e que compreendam, aos poucos, como essas unidades sonoras correspondem às unidades gráficas. Percebem, por exemplo, que as letras representam algo menor que a sílaba, que as sílabas são formadas por uma ou mais letras, que a ordem das letras corresponde à ordem da emissão sonora dos sons das palavras.
No caso dos que ainda não relacionam fala e escrita – os alunos com hipóteses pré-silábicas – com jogos e situações como essas, poderão, aos poucos, ir descobrindo o que nossa escrita representa (a fala) e que as palavras orais são unidades que podem ser divididas em unidades menores.
Penso que essas são boas reflexões que o jogo pode propiciar. Mas na hora de jogar, o que vale é a reflexão fonológica em si. Se em vez de figuras nas cartelas, colocarmos as palavras escritas, o jogo já será outro, já se torna uma atividade de leitura, de identificação de uma determinada unidade fonológica (sílaba, fonema etc) em uma palavra escrita. É uma variante possível do jogo, bem interessante, por sinal, mas já não é tão adequada para todos. Os que ainda não descobriram a relação entre fala e escrita não poderão fazer sozinhos a identificação. Os que concebem a escrita silabicamente, considerando o valor sonoro das letras, também poderão aí encontrar bons desafios, mas para os que não consideram o valor sonoro das letras, também é mais difícil.
Espero ter ajudado você – e todos que nos leem – a pensar sobre modos interessantes de propor atividades de reflexão fonológica em presença da escrita.
Lica

Par Mínimo

LETRA MÁGICA
José Paulo Paes
Que pode fazer você
para o elefante
tão deselegante
ficar elegante?
Ora, troque o F por G.

Mas se trocar, no rato,
o R por G
transforma-o você
(veja que perigo!)
no seu pior inimigo:
O gato.

Par mínimo é um par de palavras cuja diferença é um único fonema. Um fonema que corresponde, no caso dessas comutações do poema, a uma letra (mas nem sempre). Uma letra que muda tudo! Quantas possibilidades de brincar! Aliás, bem ao gosto de José Paulo Paes, um brincante das letras, que, em seu Convite, nos convida a brincar, sem parar, com as palavras...
E por falar em par mínimo, tem uma brincadeira legal que é ir transformando as palavras em outras, sendo a regra principal trocar uma só letra, qualquer uma, de cada vez, a cada transformação. Ex. LUA - RUA - RIA.
O jogo usa o princípio dos pares mínimos, embora contenha apenas comutações de fonemas que correspondam a comutações gráficas de uma só letra. Não vale por exemplo, trocas como XALE - CHAVE, que é um par mínimo genuíno, pois apenas o fonema /l/ foi trocado por /v/. Notem que CH e X (/xali/ - /xavi/) têm o mesmo som /x/, é o mesmo fonema. Não valem no jogo, pois uma das regras é manter o número de letras do começo ao fim, sendo, na verdade, um jogo gráfico, de comutação de letras.
As palavras transformadas, evidentemente, devem fazer sentido, serem palavras de fato, e devem ter o mesmo número de letras da palavra inicial. O desafio geralmente é transformar uma palavra na outra, ambas dadas de início - com o mesmo número de letras - e devemos buscar o menor número de linhas possível nessa transformação, mas há também outros desafios. Um desafio maior é procurar chegar em palavras que guardem alguma relação com a palavra inicial, como semelhança sonora, sinônimo ou antônimo, mesmo campo semântico etc. Mas essas regras não precisam ser seguidas, elas apenas aumentam o desafio. O importante é a regra de trocar apenas uma letra por vez.
Podemos sair de uma palavra e voltar depois de muitas para a mesma palavra do início. Ex:
LUA
SUA
NUA
RUA
RIA
RIO
FIO
TIO
TIA
PIA
LIA
LUA

Podemos sair de uma palavra para chegar em outra, como é no jogo original.
Ex. Transforme PATO em SAPO:
PATO
RATO
MATO

MATA

MAPA

SAPA

SAPO
Ah! Lógico que não há um único caminho possível de chegar a uma mesma palavra. Por exemplo, para PATO virar SAPO, podemos também fazer: PATO - MATO - MOTO - FOTO - FOCO - SOCO - SACO - SAPO

ou ainda outras formas...
Tente agora você transformar PÃO em MEL, LUA em SOL.
Podemos ainda apenas ir transformando, sem fim, as palavras.
Em sua versão original, o jogo consiste na proposição de duas palavras para que se estabeleça uma conexão entre elas, sendo que ou o número de conexões é dado de antemão ou o mínimo de linhas é buscado. Ex. Converter BELO em FEIO, duas conexões: BELO - SELO - SEIO - FEIO (selo e seio foram as duas conexões). Cada mudança de letra deve formar uma nova palavra existente no vocabulário, excetuando-se nomes próprios.
Esse jogo de palavras é chamado doublets, e foi inventado por Lewis Carroll, autor de Alice no Pais das Maravilhas. Foi publicado em uma revista, a Vanity Fair, em 1879, tornando-se muito popular desde então. Carroll propôs em seus livros muitos outros jogos lógicos e linguísticos.