Uni, duni, tê, salamê, minguê...

Uni, duni, tê, salamê, minguê...
Materiais a partir de textos da tradição oral

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

It's a book!

Oi, gente,
Não gosto de ficar muito tempo sem postar nada. Me dá agonia, vontade de voltar. Mas é que estou naquele corre corre danado para terminar meu texto para a o exame de qualificação do doutorado, como já havia dito, e com bem menos possibilidade de escrever coisinhas aqui. Assim, escolhi esse jeito mais breve de postar uma coisinha ou outra. Mas em breve retomo os posts sobre os materiais e atividades.

Para não perder a forma, vou dar uma dica de livro, muito interessante para todos nós, adultos e crianças, vivendo nesse mundo informatizado, e ainda (e sempre) amantes do livro. É saboroso, maravilhoso!

Chama-se, justamente, "É um livro". De Lane Smith, editado no Brasil pela Companhia das Letrinhas, agora em 2010. No original chama-se "It's a Book" mesmo e está há mais de 6 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times, lá pelas bandas de lá.
A história mostra o diálogo, atualíssimo, entre um burro e um macaco, um tentando entender o que é um livro e o outro...bom, para o outro, um livro é um livro. Só sabendo para saber. A cara blasé do macaco é impagável. E tem ainda um ratinho...


No site da editora, http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=40642, lemos:
“Com a invenção dos e-books, e a proposta de revolução que trazem consigo, surgem inúmeras dúvidas a respeito do futuro do livro. Muitos aproveitam essa onda para reafirmar seu amor às letras impressas em papel, e dizem que o livro é uma espécie de deus grego: não morre nunca. Sem enveredar pelas malhas da vidência, mas deixando claro que um livro é um livro e isso basta, Lane Smith criou uma história ilustrada, tanto para crianças quanto para adultos, sobre o nosso velho e bom – e amado – livro. Aquele que, ao contrário dos produtos eletrônicos, não apita, não interage, não conecta nem retwitta. Mas que, só pela emoção da narrativa e das imagens, prende a atenção (e ainda rouba o coração) de qualquer um.”

Discordo apenas de que o livro não interage. Ou de que com o livro não se interage. Não interage nos mesmo moldes da interatividade digital, mas há muita interação, a seu modo. Interação do leitor com o texto, interação com a sua materialidade, interação com outras tantas leituras e experiências que a sua leitura proporciona. Enfim, é um livro!

O vídeo abaixo dá uma ideia de quão bacana é o seu conteúdo, mas nem tudo que tem no livro, tem no vídeo. No livro tem outras tantas coisas engraçadas...


É isso, gente. Bom proveito! Até breve,
Lica

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Caixa Letrada

Para os que não conhecem e querem ter uma ideia, para os que me perguntaram como é essa tal caixa letrada, para os que a veem subindo, descendo, circulando por aí sem saber ao certo do que se trata, ei-la: a caixa letrada!

Essa caixa foi um presente (maravilhoso) de minha querida aluna Ângela Carmina, que foi também monitora em uma de minhas oficinas no Projeto Salvador. Era dela, a danada! Foi ela que pintou as tantas letrinhas...pra ela... Mas eu gostei tanto tanto da caixa, que ela me deu. Juro, de pé junto, que não falei nada esperando tal presente. Nunca esperei, nunca pensei!!! Fiquei tão feliz! Guardei nela todos os meus kits de joguinhos e vivo com ela para cima e para baixo, desde então.


Hoje, nela já não cabem mais tantas outras caixinhas de jogos e materiais que tenho (acho que precisaria de umas 3 ou 4!!!), mas ao menos levo nela tudo o que preciso para cada oficina...e dela vai saindo é coisa...

É isso, esse foi só para apresentar minha caixa letrada.
Beijos,
Lica

sábado, 13 de novembro de 2010

Proibido para Maiores

Olá, gente!
Minha dica de livro hoje, também dica de material, é o livro Proibido para Maiores, de Denise Rochael, da Editora Formato.

Não é propriamente um abecedário, mas, de certo modo, pode fazer as vezes de, continuando nossa conversa sobre isso. É que os bichinhos aparecem em ordem alfabética, como um pequeno dicionário de bichinhos pequeninos. E para cada bichinho, um pequeno poema. Poemas que falam, de forma lúdica, poética e bem-humorada, de cada um deles. Por vezes tem mais de um bichinho por letra. Falo bichinho porque são bichinhos mesmo...

Nesse livro só entra bicho pequeno, bicho grande não tem vez!
São bichinhos de jardim, bichinhos de todo tipo, alguns mais conhecidos, como abelha, minhoca, mariposa, caracol, outros nem tanto, como o escaravelho e o medepalmos. Há alguns que nadam, como os girinos e o cavalo-marinho, outros que rastejam, como lesma, a minhoca, o caracol, outros que andam com pequenas patinhas, como joaninhas, formigas e carrapatos, e ainda aqueles voam, como a borboleta e a libélula.
Ótimos poemas para brincar, para dizer, para inspirar novos poemas, de outros bichos, ou dos mesmos.
A dica de material para trabalhar em alfabetização, é fazer cartelas com as figuras e cartela com os nomes dos bichinhos, outras com o nome deles em letra de imprensa e outra com a letra inicial de seus nomes.
Para a ficha da letra P teríamos então o PERNILONGO e o PIOLHO, escritos em carletas diferentes, mais as cartelas com suas figuras e outras com os poemas correspondentes.
Teríamos material para trabalhar com crianças em diferentes níveis de conceitualização da escrita.
As crianças podem apenas identificar a letra inicial do animal da figura ou do seu nome, pode tentar identificar as palavras (nomes deles) a partir de diversos indícios, e até tentar ler os textos, identificando qual texto corresponde à figura, seja identificando a partir do nome do personagem escrito nos poemas, seja pela leitura de todo o texto. Se há crianças com certo domínio da leitura autônoma, podemos apresentar as cartelas com os poemas com o nome do bichinho apagado, para elas descobrirem a que animal pertence pelo texto, não pelo nome dele escrito no texto.
São várias as formas de brincar, todas dependendo de explorarem bem o livro antes, sua poesia, seu tema, fruir, brincar, conversar, pesquisar, criar novos poemas ou listas de outros animais etc.
Comparar as palavras que começam com a mesma letra, vendo outras semelhanças e diferenças, é bem interessante para começar a trabalhar com a leitura e escrita das palavras.
Outra coisa legal é fazer a atividade do trem de nomes, conforme já explicado no post sobre os países da Copa do Mundo.
É isso, por ora, é o que pensei... mas vou continuar pensando...
Inté,
Lica
P.S. Vejam no comentário de Ana a esse post outras ótimas dicas de trabalho a partir desse livro!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

E por falar em Maria-vai-com-as-outras...


Brincando, aprendendo e lanchando com Maria...


O livro Maria-Vai-com-as-Outras, de Sylvia Orthof, Ática, citado no post anterior, pode, por sinal, dar margem a muitos outros textos e atividades interessantes. Listas, frases feitas, receitas culinárias, por exemplo, são ótimos textos para trabalhar, de diversos modos, na alfabetização.
A feijoada e a salada de jiló, que aparecem na história, são peças chaves na mudança de Maria e dão a deixa para conversar sobre as comidas que as crianças gostam e as que detestam. Assim, a leitura do livro pode, por exemplo, provocar a produção de listas coletivas, como lista de comidas que o grupo gosta e lista das que não gosta (e como o gosto é relativo, uma mesma comida pode estar nas duas listas). E a partir delas, montar fichas para que cada um componha seu “cardápio” pessoal de preferências, que podem ser usadas também para fazer classificações quanto a serem alimentos doces ou salgados, almoço ou lanche, enfim, o que surgir no grupo. Pode inclusive usar as fichas para comparar as palavras quanto às características formais: letra inicial, final, tamanho, etc.
Outra proposta muito legal é o trabalho com frases fixas (expressões idiomáticas), com seus significados literais e figurados, como a frase “Maria-vai-com-as-outras”, dentre outras, usadas em situações específicas, com sentidos bem específicos. As frases feitas, fixas, são frases cujo sentido é global, não se reduzindo à soma dos sentidos das palavras que expressa. São muito frequentes na língua e amplamente utilizadas em diversas situações. Assim, frases como ficar com água na boca, ver com os olhos e lamber com a testa, dar nó em pingo d’água, marinheiro de primeira viagem, levantar com o pé esquerdo, meter os pés pelas mãos, dor de cotovelo, dar o braço a torcer, dar uma mãozinha, estar no mundo da lua, dar nó em pingo d’água, o gato comeu a língua, sem pé nem cabeça, tirar de letra, bater com o nariz na porta, comprar gato por lebre, dentre muitas e muitas outras, podem ser abordadas em seu significado literal e seu sentido figurado – que é o sentido real das frases.
Como os provérbios, ditos populares, trazem também esse interessante aspecto que é mostrar que o sentido dos textos nem sempre (e frequentemente não é mesmo...) está no que o texto diz literalmente, pois o que vale é o sentido particular da expressão como um todo. Esse é um aprendizado riquíssimo – muito bom para a alfabetização de adultos, pois os adultos já trazem em suas falas muitas dessas expressões – e as crianças podem ir, aos pouquinhos, se apropriando de algumas dessas ricas pérolas da língua. O livro Maria-vai-com-as-outras favorece essa discussão, pois além de Maria ser o nome da personagem, traz, na construção dos sentidos da história, o sentido dessa expressão idiomática. Trabalhando com algumas delas, pode depois fazer fichas para as crianças reconhecerem as expressões escritas, encontrando a que serve para ilustrar determinada situação expressa.
Outro gênero de texto que pode ser abordado a partir do livro é a receita culinária. Como a comida preferida da personagem tem um papel importante na história, podemos propor trabalhar as receitas de algumas comidas preferidas do grupo. Assim, as crianças podem observar as características das receitas, o que têm para que cumpram seus objetivos como texto, que coisas têm em comum, em que situações observamos pessoas se utilizando delas e para quê, enfim, conversas interessantes do ponto de vista do letramento. Receitas lacunadas para preencherem, quando bem pensadas, são atividades interessantes do ponto de vista da alfabetização. E se houver alguma receita que seja possível cozinhar na escola, que delícia!!!
Enfim, a história favorece a exploração de outros gêneros textuais, relacionados ao que é abordado na história, em atividades de alfabetização e letramento. Dei aqui a dica de algumas possibilidades.
Inté,
Lica

Mais Caixinha de Livros

Bom Dia Todas as Cores


Oi, gente! Como prometido há tempos, mais uma Caixinha de Livros, ou seja, caixinhas com materiais estruturados para alfabetização, a partir de livros de literatura infantil. A primeira Caixinha foi com o livro Bruxa Bruxa, essa é com o livro Bom Dia Todas as Cores, de Ruth Rocha.

O livro, da Editora Quinteto, conta a história de um camaleão que muda de cor de acordo com as opiniões de seus amigos da floresta, até resolver dizer “não” e ficar da cor que ele mais gosta, independente das opiniões. É uma história divertida e bem interessante, seja apenas para fruir, seja para provocar boas discussões.
Uma proposta interessante é relacionar a discussão sobre o camaleão que não sabia (e aprendeu) a dizer “não”, com a ovelhinha Maria do livro Maria-Vai-com-as-Outras, de Sylvia Orthof, que ia sempre com as outras (o rebanho) e também não sabia dizer “não” (mas aprendeu também).
Nos dois livros, os protagonistas descobrem que podem ser eles mesmos, pensar por si mesmos, escolher, fazer o que têm vontade. Em Maria-Vai-com-as-Outras podemos acompanhar o processo de mudança de Maria, suas expressões e reflexões. E em Bom Dia, vibrar com a firme decisão do Camaleão.
A história Bom Dia Todas as Cores traz alguns personagens, os animais da floresta (camaleão, sabiá, sapo, pernilongo, louva-a-deus), e fala de muitas cores, das cores que ele vai mudando, de acordo com a opinião dos amigos da floresta.
Muitas são as possibilidades de exploração do livro. Podemos, depois de ler, explorar os personagens, o que eles fazem na floresta (cada um tem atividades descritas no texto), de que cores gostam e sugerem ao camaleão, treinar suas falas para uma dramatização... Como o camaleão, depois de um tempo, na história, vai mudando de cor sem que a gente saiba exatamente que animal a sugeriu, podemos também imaginar outros diálogos, outras sugestões de animais. Ex. Que animal teria sugerido mudar para roxo? Por quê? Que será que ele fazia na floresta?
Podemos propor também a leitura de um texto informativo sobre essa capacidade dos camaleões de mudança de cor, para compreender melhor para que e como eles fazem isso. Na verdade a razão principal não é a camuflagem, o mimetismo, ou seja, ele não muda de cor de acordo com o ambiente, como outros animais que se camuflam. A camuflagem pode acontecer, mas as cores mudam mesmo é sob influência do humor, da luz, da temperatura e tem um papel importante na comunicação, seja para atrair parceiros ou para repelir inimigos. Suas cores indicam se estão furiosos ou assustados.
Interessante é também ouvir e cantar a canção “Camaleão”, do Palavra Cantada, no CD Mil Pássaros (ver letra abaixo)


CAMALEÃOPalavra Cantada
O camaleão rosa-choque ou rosa-grená
Despertou numa manhã tão cheia de cores no ar
Deu bom dia para a violeta, roxo e lilás
Lavou o seu rosto no orvalho verde a brilhar
Eu visto a cor que eu quero
Se é sol eu sou o amarelo
Subiu pelos galhos da figueira e ficou marrom
Encontrou o vaga-lume aceso e virou néon
Quando ouviu o sabiá cantando já mudou de tom
Qualquer cor que pinte pela frente ele acha bom
Eu visto a cor que eu quero
Se é sol eu sou o amarelo

Nesse CD tem também a narração da história pela própria autora, Ruth Rocha, sendo outra possibilidade de escuta. Para as crianças que já têm certa autonomia de leitura, uma leitura dramática do livro é interessante, cada um ficando com uma fala, inclusive o narrador.

O Kit Caixinha de Livros do livro Bom Dia Todas as Cores constitui-se dos nomes das cores que aparecem na história (podemos incluir também as cores que aparecem na canção) e o nome dos personagens. Para as crianças em processo de alfabetização, a leitura de palavras do texto – o nome dos personagens e das cores – pode se constituir em uma boa situação de reflexão e leitura quando ainda não se sabe ler e também de leitura e escrita para aqueles que estão começando a dominar o funcionamento do sistema alfabético.
Na Caixinha, os personagens aparecem como palavras inteiras, segmentadas em sílabas e em letras móveis. As cores aparecem em palavras inteiras (mas podemos também apresentar segmentadas).
As palavras inteiras podem servir para apoiar o reconto da história, quando organizadas em listas. Essa é uma atividade rica de leitura de palavras em uma lista que apóia o reconto e a reescrita, que são atividades de letramento. Essa atividade de apoio ao reconto propicia a leitura como busca de informação, apoio à memória numa situação em que essa leitura se faz necessária. Os personagens podem também ser associados às cores que eles sugeriram ao camaleão, para ajudar o reconto e/ou reescrita. Para ler o personagem e a cor que se segue na história, as crianças terão que contar com a memória e usar indícios das palavras para ler sem saber ainda ler de fato.
Para as crianças que ainda não leem nem escrevem convencionalmente com autonomia, mas que já relacionam segmentos orais e escritos, encontrar uma palavra inteira, indicada pelo professor, dentre todas disponíveis, constitui-se em uma boa atividade de leitura, de investigação, reflexão, reconhecimento, usos de estratégias e conhecimentos disponíveis, de busca de indícios para ler sem saber ainda ler.

As palavras segmentadas em letras permitem algumas atividades de escrita (montagem). As crianças podem montar de acordo com indicações da professora, considerando o domínio que têm de leitura e escrita. Os que já têm certo domínio podem montar sozinhos. A montagem das palavras segmentadas em letras constituirá, para os que têm hipótese alfabética, um desafio de ortografia. Para os que têm uma hipótese silábico-alfabética também se constitui em um bom desafio, ajudando a ganharem mais firmeza na compreensão do funcionamento do sistema alfabético.
Os que ainda não lêem nem escrevem convencionalmente com autonomia, podem montá-las de acordo com suas hipóteses, comparar propostas, ou ainda usar a palavra inteira como referência, como modelo presente, para encontrar as letras e recompor as palavras.
As palavras segmentadas em sílabas permitem a montagem chamando a atenção para segmentos maiores que as letras, podendo ser proposta a crianças que ainda teriam dificuldade de montar palavras letra por letra, mas que podem reconhecer e juntar sílabas para compor palavras.
O Kit está sendo enriquecido no momento, para ganhar novos elementos. Ele vai passar a contar ainda com fichas com as cores que aparecem na história, para que as crianças possam associar o nome escrito da cor à cor da ficha, também buscando reconhecer as palavras por indícios diversos. Fichas com os personagens da história também estão sendo confeccionadas, com o mesmo propósito de associarem os seus nomes a suas figuras.

A caixinha Bom Dia Todas as Cores deve ser, evidentemente, bem colorida!!! Como gostaria de ser um camaleão, ao menos o nosso amigo camaleão, apesar de ele gostar mais mesmo é do cor de rosa!
É isso, a quem me pediu o post sobre esse livro e essa caixinha, e aos demais, bom proveito!
Lica

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Dica de Leitura

O DARIZ

C'est gomme ça gue l'hisdoire a cobbencé!
Atchim... Guando você esdá gribado, o dariz fica dodo endupido. Barece que dinguém endende o que você fala. As balavras ficam esdranhas, algumas letras simblesmente desabarecem. Atchim...
Oi, gente! Não podia deixar de dar a dica desse livro. Não li ainda, mas conheço o livro em francês, editado em 2006. É mais indicado para os maiores, mas quem sabe não encanta e diverte também os menores? Ao menos, da ideia de brincar com as palavras, podemos aproveitar bastante. Já fico cheia de ideias.
O livro é O Dariz, Le Nez, em francês, do escritor e ilustrador francês Olivier Douzou, publicado no Brasil pela Cosac Naify, numa edição de capa dura, com tradução de Paulo Neves e ilustrações do próprio autor.
O autor se inspirou no conto satírico O Nariz, do escritor russo Nicolai Gógol, publicado numa revista em 1836. Pense! O conto tem como personagem principal o nariz de um oficial de São Petersburgo, que resolve abandonar o rosto do dono para ter vida própria. O Dariz, por sua vez, conta, em primeira pessoa e tendo como narrador um nariz entupido, a história de um nariz entupido em busca de um lenço grande para assoar.
Agora, se falar com o nariz entupido é engraçado, imagine escrever com o nariz entupido! Douzou entrou nesta brincadeira e criou o primeiro livro com nariz entupido do mundo, como diz no site da Cosac Naify: http://editora.cosacnaify.com.br.
Mas vamos saber mais dessa história, pelas palavras da própria Cosac: "O Dariz apresenta a história de um nariz de homem que acorda completamente entupido. Para resolver o problema, parte em busca de um lenço para assoar. Em sua procura, cruza pelo caminho como um monte de coisas igualmente entupidas.
O nariz encontra uma tromba de elefante, um nariz de palhaço, um focinho de porco, um bico de pato, um focinho de cachorro, um nariz de Pinóquio e um nariz de tamanduá. Juntos, todos partem em busca do lenço perdido. Pelo caminho encontram todo tipo de situação, uma mais absurda que a outra. Um botão, por exemplo, que acha que é um nariz, entra na procura. Até um vidro de pimenta-do-reino em pó aparece na história para provocar uma tempestade de espirros. E um mar de ranho também.
O Dariz é todo escrito do ponto de vista de um nariz entupido. O texto reproduz o som das palavras pronunciadas por um grupo maluco de darizes endubidos num divertido exercício de linguagem".
Já no blog http://contoscantoseencantos.blogspot.com/, que indica o livro, podemos ler: "a história é para ser lida em voz alta, fechando um pouco as narinas, para criar o clima humorístico previsto e adequado, pois o autor substitui /t/ por /d/; /k/ por /g/; /s/ por /z/; /m/por /b/; /p/ por /b/; /ch/ por /j/; /n/ por /d/. Mas na verdade, se lermos tal qual escrito, é quase natural anasalar um pouco a voz. Fica bem engraçado.
Experimente ler um trecho do livro:
Engontrei um bodão gue bensava zer um dariz e falou:
- Dambém esdou endupido.
Falei: - Se esdamos endupidos, zó há uma goisa a fazer: engontrar um lenço e assoar.
E foi assim gue a hisdória cobeçou."

Viram, que confunsão divertida? Impossível ler sem rir! E para compreender é preciso imaginar trocas de fonemas, o que demanda atenção às unidades fonêmicas, às trocas de fonemas nas palavras. Fantástica oportunidade de reflexão fonológica, totalmente imbricada na tentativa de compreensão dos enunciados e na farra de se divertir. Muito bacana!

Ah, se forem ler para as crianças, treinem bem antes, heim?

Se você agordar gribado, melhor ficar em gasa, embaixo das gobertas, bem quietinho. Atchim... O dariz pode não zentir cheiro de dada, mas dambém pode, de rebente, virar focinho de borco. Na dúvida, melhor ficar em gasa, embaixo das gobertas, lendo um libro. Atchim..."

Beijos, fui!

Lica

sábado, 9 de outubro de 2010

Mais "O que se vê no abecê"...

Oi, gente,

Estou aqui atolada com a produção do texto para o exame de qualificação do doutorado, por isso mais lenta nos posts, acumulando as dívidas, promessas (boas dívidas...elas existem!!!!), mas resolvi colocar pequenas coisinhas de vez em vez, para não parar.

Então, lá vai outra diquinha de atividade, com os peminhas de Elias José, do livro "O que se vê no abecê".
Também com o da letra R dá pra fazer uma coisa legal, que é fazer no modelo dele, outros poemas com outras letras e palavras. A dele é assim:
“A rosa que dá na roça
É uma rosa mais rica
Uma rosa mais rústica
Uma rosa mais rígida
Uma rosa mais rosa”

Ele aí usa outras palavras com R para compor com a palavra rosa. Que tal em vez de R e de rosa, como proposto, experimentar outras possibilidades, com a mesma estrutura do poema? Como M de maçã, por exemplo:
“A maçã que dá de manhã,
é uma maçã mais macia,
uma mação mais molinha,
uma mação bem miúda,
uma maçã mais maçã”.
Acabei de inventar esse...
E se quiser propor outras estratégias, que não as letras iniciais, que tal com rimas? Como M de margarida:
“Margarida toda florida,
é uma margarida mais bonita,
margarida mais querida,
e quando amarga a vida,
margarida cura a ferida”.
Inventei esse também...
É legal formar uma lista de várias palavras que rimam, junto com as crianças, ou que começam com a mesma letra e, depois, selecionar algumas que ficam mais interessantes e poéticas para compor o poema na estrutura do poema-fonte, de Elias José.
Pode ser interessante fazer tudo com flor, por exemplo. Ou outros temas. São muitas as possibilidades!
As palavras dos poeminhas produzidos no grupo podem ser escritas em fichas para eles completarem lacunados, ou, caso sejam compostos de palavras que possam ser representadas por desenhos, podem ser escritos como uma carta enigmática. Assim: dá o texto com alguns desenhos no lugar de algumas das palavras e eles devem encontrar as fichas correspondente aos desenhos. Ou podem apenas ler todo o poema, seguindo com o dedinho, achar palavras indicadas, ler palavras apontadas pela professora ou colegas, ilustrar, brincar com as rimas, palavras, poemas.
Além disso é uma boa oportunidade de ampliar o vocabulário e aprender palavras de certo campo semântico, adjetivos que podem as qualificar, enfim, uma rica aprendizagem da linguagem.
Beijos e queijos, volto agora para o meu estudo um pouco menos leve e brincante (mas é também!),
Lica

terça-feira, 5 de outubro de 2010

SIEPE 2010 - Oficina e Ciranda Reflexiva

Oi, gente,
Fui convidada pelo professor Paulo Gurgel e pelo Geling – Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação e Linguagem (ligado ao Programa de Pós-Graduação, Faced/UFBa), do qual faço parte, a realizar uma Oficina de Materiais de Alfabetização no II SIEPE – Seminário Integrado, Ensino, Pesquisa e Extensão. O evento foi realizado na Faculdade de Educação da UFBa, de 27 a 30 de setembro de 2010. A Oficina teve duração de 5h, em duas noites do evento. Um tanto rapidinho, mas deu para dar um gostinho...
Levei alguns dos materiais de meu acervo (não todos, pois não dá, são muitos!!!) e foi bem bacana. Vimos os materiais, manipulamos, jogamos, conversamos sobre eles, contextualizando-os nas discussões sobre alfabetização e letramento. Foram materiais a partir de textos da tradição oral, da literatura infantil, dos quadrinhos, filmes e também jogos fonológicos, dentre outros.
Sempre é uma oportunidade de divulgar o trabalho e de compartilhar com mais gente os materiais e ideias. Minha caixa letrada, nas duas noites da oficina, deixava curiosos pelo corredor.
http://rkioko.blogspot.com
No evento, além da Oficina, participei, junto com Mary Arapiraca, professora da Faced, da Ciranda Reflexiva intitulada Eventos de Letramento. Conversamos sobre o tema a partir de textos, imagens, vídeos e trazendo muitos exemplos de eventos de letramentos das crianças com as quais convivemos, meu filho, os netos de Mary, dentre outras ocorrências que ilustravam a discussão. Eu, como mãe-pesquisadora, registro em um caderninho os eventos interessantes de Joaquim em torno da escrita, leitura e das linguagens em geral. Fiquei contente de poder utilizar esses registros, memórias, essas anetodas de família, em uma apresentação. Mary também, que tem os eventos envolvendo os seus netos gravados em arquivos e em vídeo.
Enfim, como prometido aos que lá estavam presentes, seguem abaixo os slides nos quais baseamos nossa fala. Para os que não estavam, é uma oportunidade de ver um pouquinho do que fizemos por lá. Ressalto, no entanto, que muito do que mostramos e falamos não está posto aí. Ficaram no evento vivido, no acontecimento precipitado naquela manhã de quarta-feira. Ficarei devendo o filme de Mila lendo, ainda sem saber ler, o livro Bruxa, Bruxa.
Até a próxima,
Lica
Os slides estão no link:

sábado, 18 de setembro de 2010

Palavras Compostas

Oi, Gente, ó eu de novo...
O comentário de Cris ao post anterior me deu vontade de explorar um pouco mais os pequenos poemas de alguns desse livros com letras sugeridos no post. Viu como a interação é importante para eu continuar inventando, propondo, postando? Rsrsrsrs!!!!
Como escrevi em resposta ao comentário dela, de fato, muitos dos poemas de Elias José no livro "O que se vê no abecê", se prestam a fazermos mil extrapolações.
Cris propôs a sua turma o poema da letra Q, na verdade o poema do QU, já que o Q sempre aparece seguido do U na nossa língua, o que, aliás, é uma das boas descobertas das crianças a respeito do que é possível ou não no nosso sistema de escrita. Então, é assim:
"Na quadra ou no quintal,
o quinteto joga queimada
e queda de braço
sem quebrar o braço.
E queremos quebra-cabeça,
quebra-galho, queda-d’água
quebra-luz, quebra-queixo,
e queijo com goibada.”
Depois de ler e explorar o poema e, certamente, alguns de seus aspectos linguísticos, Cris propôs uma exploração das palavras compostas do texto, seus significados, definições. Isso já é bem interessante no sentido de as crianças tentarem, pelas definições das duas palavras em jogo, encontrar a definição da palavra composta, que por vezes tem uma relação mais direta com suas componentes e outras vezes menos. Como quebra-queixo, quebra-cabeça, por exemplo. Tem uma explicação, mas o composto refere-se a um doce e a um jogo. Há uma complexidade maior na definição. Maior ainda em quebra-galho! É uma exploração muito rica!
Ela propôs ainda analisarem outras palavras compostas, que não as do texto, formadas com a palavra "quebra", como quebra-mola, por exemplo, também tentando fazer as crianças expressarem o que achavam que significa.
Buscar essas definições a partir das próprias crianças é bem legal. Pode também, se ninguém acertar, ver o significado e tentar entender a explicação dessa composição. Em quebra-mola, que mola seria mesmo essa? Por que então aquele abaulado na rua chama-se assim? É um rico trabalho de enriquecimento de vocabulário que, explorando as palavras escritas também pode oportunizar a reflexão sobre a escrita.
Não satisfeita, ela propôs ainda que as crianças inventassem e definissem palavras compostas que não existem e conta que um aluno inventou o "quebra-túnel", dizendo que era um desvio para caminhões muito altos que não conseguem para passar pelo túnel! Muito divertido!
Talvez seja interessante depois listar, separadamente, junto com eles, as construções que existem e as que foram inventadas por eles, e ao fazê-lo levá-los a tentarem ir reconhecendo as palavras para decidir em que lista entra. Talvez assim, diante de tantas palavras compostas que não conheciam, atrapalhem menos essas com as que são inventadas. Talvez seja bobagem minha essa ressalva, gosto de invenções, ainda mais das invenções de linguagem de que as crianças são capazes! Mas como estão trabalhando vocabulário, talvez seja uma boa saída... e ainda permite que tenham que ler as palavras para decidir sobre sua lista e relembrar seu uso (inventado ou existente).
Um modo de formarem palavras inventadas é também misturar várias fichas com as palavras que entram na composição de palavras compostas do universo trabalhado, e ir recombinando-as, criando palavras existentes e não existentes. Em todo caso, sai coisas bem engraçadas. O reconhecimento das palavras também está em jogo aí.
Como eu sugeri no comentário, esse trabalho pode se estender também para outras expressões e palavras compostas, como as com "pé" (ex. pé-de-moleque, pé-de-vento), que são muitas na língua. Um livro muito bacana que trás expressões com "pé" é o livro de Elias José, "Sem pé nem cabeça", da Formato.


A canção Pé com Pé, do Palavras Cantada, é muito legal para explorar esses aspectos também, embora não traga prioritariamente palavras compostas, mas expressões idiomáticas.
Ah, só não me perguntem sobre os hífens da nova ortografia. Ainda estou me batendo com eles...

Pé Com PéSandra Peres / Paulo Tatit

Acordei com o pé esquerdo
Calcei meu pé de pato
Chutei o pé da cama
Botei o pé na estrada
Dei um pé de vento
Caiu um pé d'água
Enfiei o pé na lama
Perdi o pé de apoio
Agarrei num pé de planta
Despenquei com pé descaço
Tomei pé da situação
Tava tudo em pé de guerra
Tudo em pé de guerra
Pé com pé, pé com pé, pé com pé
Pé contra pé
Não me leve ao pé da letra
Essa história não tem pé nem cabeça
Vou dar no pé / Pé quente
Pé ante pé / Pé rapado
Samba no pé / Pé na roda
Não dá mais pé / Pé chato
Pegar no pé / Pé de anjo
Beijar o pé / Pé de meia
Manter o pé / Pé de moleque
Passar o pé / Pé de pato
Ponta do pé / pé de chinelo
Bicho de pé / Pé de gente
Fincar o pé / Pé de guerra
De olelha em pé / Pé atrás
Pé contra pé / Pé fora
A pé / Pé frio
Rodapé / Pé
Vejam o vídeo:



As expressões idiomáticas, ou frases feitas, são expressões de uso comum cuja interpretação é captada globalmente, pois se caracterizam por não ser possível identificar seu significado através de suas palavras tomadas de modo isolado, individualmente, nem de seu sentido literal. De tão repetidas, viram uma fórmula pronta para expressar uma idéia e passam a integrar o idioma.
Elas são excelentes para brincar com as palavras, enriquecer o uso da língua, perceber as sutilezas das contruções de significado e ampliar a possibilidade de compreensão de textos diversos, que trazem por vezes essas expressões, tão frequentes nas interações verbais da oralidade.
Por ora é isso. Vou postar outras possibilidades de exploração, do mesmo livro, dessa vez com poemas de outras letras. Da letra R pra começar, tá?
E assim vamos...
Beijos,
Lica

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"Abecedários poéticos"

Bom, minha gente, vamos então às indicações que prometi dos nossos “abecedários poéticos”, tal qual definidos no post anterior. São algumas sugestões. Quem tiver outras, mande!
Como eu sugeri antes, não são abecedários propriamente, mas livros literários que trazem o alfabeto, brincando com as formas gráficas e os sons relacionados às letras. Digo que não são propriamente abecedários, pois embora tenham uma intenção pedagógica também (ou ao menos possam ter um uso pedagógico), os recursos sonoros utilizados não são meros pretextos para o ensino, mas são próprios ao texto poético, sendo um dos aspectos responsáveis pelo prazer que causa a leitura de poesia entre as crianças.
Vamos a eles...

UMA LETRA PUXA A OUTRA, José Paulo Paes, Companhia das Letrinhas, 1993



Começo por esse livro de José Paulo Paes, que é composto por 23 poemas sobre o alfabeto. Cada letra do alfabeto ganha uma quadrinha que explora os fonemas relacionados à letra tratada. O autor propõe assonâncias e aliterações, tal qual trava-línguas. Ex. A quadrinha da letra s, por exemplo, é assim:

"O sapo saltou na sopa
de um sujeito que, sem mais papo,
deu-lhe um sopapo e gritou: - Opa!
não tomo sopa de sapo!".

Em alguns casos, o autor faz jogos de linguagem transformando palavras ressaltando o traço distintivo de uma letra/fonema. Assim acontece com a letra L:

“O L é uma letra louca
e faz a uva andar de luva
transforma a nota mi em 1000
cabra descobrir o Brasil”

Note como é sutil a referência que ele faz a Cabral – Pedro Álvares Cabral – sugerindo a subtração do fonema/letra L na última estrofe. É poesia pura, e de muita qualidade estética.





Esse livro possibilita, a partir dos jogos de linguagem que propõe nos textos, muitas ideias de brincadeiras com as letras, sons, palavras, quadrinhas. É só a gente inventar! A quadrinha do L, por exemplo, permite imaginarmos mil outras possibilidades de composição, decomposição e recomposição de palavras pelo acréscimo, subtração, deslocamento ou substituição de letras/fonemas. No caso de fazê-lo oralmente, têm-se uma ótima atividade de reflexão fonológica e, em presença da escrita, além disso, também permite trabalhar a relação entre letras e fonemas, fundamental para a apropriação do princípio alfabético.

Uma letra puxa a outra ganhou prêmios importantes e o título “Altamente Recomendável” pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ em 1992, na categoria poesia. Recomendadíssimo!


O BATALHÃO DAS LETRAS, Mario Quintana, Ed. Globo



Publicado em 1948, O Batalhão das Letras foi a primeira obra do poeta voltada para o público infantil e se diferenciava de outros livros destinados às crianças na época. Brincando com os versos e de maneira poética e lúdica, o autor apresenta as 26 quadras com as letras do alfabeto, trazendo elementos como brinquedos, brincadeiras e situações diversas, do universo infantil, ora enfatizando as formas gráficas das letras, ora os fonemas a elas correspondentes. Por vezes traz temática menos infantil.

Engraçado é que apesar da preocupação de Quintana com o público leitor, preocupação que aparece também nos sons, ritmos e imagens das quadras, além dos temas, parece que Quintana negou o valor dessa obra, impedindo sua republicação (cf. ZILBERMAN, 1982). Mas, de todo jeito, nos deixou esse abecedário poético que é, ainda hoje, muito rico de possibilidades. Várias foram as edições. Essa da figura acima tem ilustração de Eva Furnari.

*ZILBERMAN, Regina (org). Mário Quintana. São Paulo: Abril Educação, 1982.

PALAVRAS, MUITAS PALAVRAS..., Ruth Rocha, Ed. Quinteto.

Nesse livro, a autora mostra que cada letra do alfabeto é a primeira letra de muitas palavras. Com muita graça e muita rima, todas as letras do alfabeto vem apresentando palavras, seja em trava-línguas, seja em pequenas quadras ou poemas ou apenas listando-as.
"Com B se escreve:
Banana e Bala,
Bigode e Belo,
Barulho e Bule,
Balão e Briga,
Bolacha e Bolo
Boliche e Bola,
Burro e Barriga".
Por vezes ela propõe também, em suas rimas, brincadeiras metalinguísticas, como a do J:
"J com A
faz Já
J com E
faz Jé.
É com J que se escreve
A palavra Jacaré".
Dá para brincar de colecionar palavras várias, com cada letra, em caixinhas e fazer mil coisinhas com elas....
O QUE SE VÊ NO ABÊCÊ, Elias José, Ed. Paulus



Esse eu gosto muito!
São pequenos poemas que trazem cada letra do alfabeto enfatizando seus sons de modo a criar aliterações, assonâncias, sonoridades divertidas e belas imagens.
Traz também um poema, o Abecedando, com todas as letras do alfabeto, mais o ç, ch, cl, lh, nh, rr, ss...diz ele que com todas as letras, reinventa o mundo!
E a colorida e divertida ilustração de Daniel Cabral completa a beleza do livro.



Esse livro não traz poemas apenas com as letras, mas passeia também por questões de ortografia, quando traz poemas para alguns dígrafos, como nh, lh, ch, ss, rr: “Com nh apanho manhas nos sonhos” e “Dona Chica chegou da chácara debaixo da chuva, chinelinho encharcado, encharcado o seu cachorro”. E também encontros consonantais, como cl, e também o ç, dentre outros aspectos. Há poemas que jogam com os mesmos sons escritos por diferentes letras (ç, ss, s), sendo bem interessante, principalmente para as crianças que estão descobrindo ou já compreenderam o princípio alfabético e estão às voltas com a reflexão sobre ortografia.




NO BALANCÊ DO ABC, Elias José, Ed. Paulus


Nesse livro, singelamente ilustrado por Helena Alexandrino, Elias José propõe poemas cheios de humor, um pouco mais compridos, cada um enfatizando uma letra do alfabeto, como se fosse um trava-língua.
Aliás, dá boas ideias para inventarmos novos poemas-trava-línguas. Podemos fazê-los a partir de uma lista de palavras com letras/sons parecidos, por exemplo, combinando-os de modo meio nonsense.
Dá para dar boas risadas!
Exemplo: faca, foca, figo, frito, fio, fisga, fica, fura, frio: “a foca fica no fio/ fisga o figo/ fura a faca: sai do frio/ figo frito!
Aliás, inventar trava-línguas pode ser bem divertido, não só com letras iniciais, como com qualquer som. Por exemplo: a partir de VACA, FACA, MACA, TACA, SACA, MACACA, ressaltando do som intersilábico /-ACA/ podemos inventar “A vaca na saca / saca da faca /e taca na maca/ A louca da vaca / taca a faca na saca da macaca”.
Vixe! Vicia... Ô vício bom!
O ABZ DO ZIRALDO, Ziraldo, Melhoramentos

A Coleção ABZ, de Ziraldo, é composta de 26 livrinhos com pequenas histórias, sendo cada uma sobre uma das letras do alfabeto. Os livros começaram a ser lançados em 1990. Diz o autor que a mãe dele, quando o apresentou às letras, as apresentou assim, para cada uma, uma história. E é isso que ele faz no livro para mostrar como as letras “são coisas vivas, com nome, história e biografia”. Nesses livros, as letras viram personagens, com nome, história e vivem muitas aventuras. Ziraldo brinca com a forma das letras e por vezes também com os seus sons.

Ziraldo traz também, misturadas ao texto, várias referências a outros textos, como trechos de poemas de Drummond, Fernando Pessoa e Mário Quintana, verbetes de enciclopédia, canções de Gil e Vinícius e frases de romances de Gabriel García Márquez. Misturadas às ilustrações, traz pinturas de Miró, Monet e Degas. Um verdadeiro mosaico intertextual! Encontramos lá também curiosidades sobre alguns vocábulos.

Coleção ABZ, Ziraldo


Trecho: "Com essa boca tão grande, maior que a do Lobo Mau, o C, se ele pudesse, comia mesmo de Roma um pé de couve em Macau."

Veja todas as capas e alguns trechos em:
http://www.educacional.com.br/ziraldo/obras/livros_abz/livros_abz.asp



Foi lançado, mais recentemente, um livro de capa dura, O ABZ do Ziraldo, que traz todas essas as histórias em um só volume. Eu gostava dos livrinhos pequenos, mas essa é uma outra opção...

Ah! E agora o ABZ do Ziraldo é também um programa de TV! Já viram?
Tem contação de histórias, entrevistas e outras coisas.
(TV Brasil, transmitido pela TVE na Bahia)


Por ora, é isso, pessoal. Logo vem outras partes desse tema e todas as outras promessas, ok?
Espero que façam proveito!
Lica

P.S. 1: Confiram aqui alguns alfabetos ilustrados de Portugal indicados em um artigo sobre o tema (http://www.slideshare.net/mrvpimenta/midos-alfabetos-ilustrados):
Miúdos Alfabetos Ilustrados

View more documents from mrvpimenta

P.S. 2. Depois desse post, meses depois, já pesquisei e encontrei muuuuuitos outros títulos bacanas, daqui do Brasil e também de Portugal. Aguardem mais indicações e um material sobre alfabetos poéticos!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Abecedários

Algumas palavras...
Finalmente vou começar a postar sobe o tema que prometi. É que ele foi ficando grande, espichado, cheio de inserções. E ainda cresceria mais...aí não dá, né? Num blog! Não dá! Assim, resolvi postar por etapas, ok? Vai a primeira parte, primeiras palavras... e depois vão as outras partes...
Um pouco de história...
Existem e existiram sistemas de escrita diversos, não apenas alfabéticos, e existem alfabetos diversos, embora todos assentados no mesmo princípio de notação fonêmica das línguas faladas. Exemplos:

alfabeto grego e alfabeto cirílico

O sistema alfabético, com seu alfabeto, é um poderoso recurso para representar a língua, seja qual for a complexidade de suas estruturas fonológicas, especialmente porque, para notar explicitamente o máximo de estruturas fonológicas, exige um número muito reduzido de signos. Pouco mais que duas dezenas de letras são necessárias para notar todas as palavras de uma língua. Sabia que o sistema ideográfico chinês tem cerca de 50 mil signos?! Será que dá para aprender todos? Mas só os signos usuais, do dia a dia, chegam a 3 mil! Não dá aqui para falarmos mais sobre isso, mas garanto que estudar a história da escrita é muuuuuuuuito bacana para compreender melhor o nosso sistema e para alfabetizar. Até com as crianças é possível ver um pouco dessa história. O livro de Lia Zatz é bem interessante para começar a pensar nisso.

ideogramas chineses

Embora o sistema alfabético seja um sistema econômico, digamos assim, não temos a ilusão de que seja exclusivamente alfabético, pois não há uma letra para cada fonema numa relação biunívoca. Nem poderia. Mas ele é de base alfabética, fonográfica e essa natureza precisa ser considerada no ensino da leitura e escrita. Nosso sistema é ortográfico e considera também aspectos etimológicos. O princípio alfabético não dá conta, sozinho, da escrita das palavras. Se desse, escrever foneticamente já seria escrever corretamente, o que não é o caso, nem poderia. Ilusão achar que o alfabeto poderia resolver tudo, diante das variedades linguísticas, por exemplo. Não há reforma ortográfica que torne o alfabeto suficiente para escrever corretamente. Como diz Cagliari, o alfabeto foi uma invenção maravilhosa...que não deu certo! E o que o salvou foi a ortografia. E assim ele continua sendo muito funcional.

Recorrendo a fontes que contam a história de escrita e dos métodos de alfabetização, podemos constatar que desde a criação do alfabeto pelos gregos na Antiguidade Clássica (que tomaram emprestado o alfabeto consonantal do sistema de escrita dos fenícios, também resultado de apropriações de sistemas pré-alfabéticos da Antiguidade), surgiu o primeiro método de ensino de leitura (em um sistema que tem como base a fonemização da escrita). Era o método de soletração, também conhecido como método alfabético ou ABC, visto que se inicia pelo ensino das letras e enfatiza os nomes das letras para formar sílabas e soletrar as palavras (e não os seus sons, como no método fônico). Foi um método de ensino muito usado da Idade Média até o início do XX.

Para este ensino, surgiram os primeiros livros destinados à alfabetização, à aprendizagem da leitura e escrita: os abecedários, que são livros com as letras do alfabeto para ensinar a ler. No início, porém, nem eram livros no sentido preciso do termo.

Tabuletas com alfabetos foram, provavelmente, os principais objetos usados para a aprendizagem da leitura da Idade Média. Na Inglaterra, e em suas colônias americanas, utilizavam-se os hornbooks, entre os séculos XV e XVIII. Os hornbooks eram uma espécie de pá com as letras do alfabeto, para segurar pelo cabo, como este da ilustração ao lado. Alguns traziam as maiúsculas e minúsculas, e, por vezes, pequenos textos.

No Brasil, desde o final do século XIX, utilizavam-se as Cartas do ABC, livretos que traziam o alfabeto escrito de várias formas, valorizando a grafia. O método que se concretizava através desta cartilha era o método alfabético, de soletração. As cartilhas de outros métodos (sintéticos ou analíticos), no entanto, traziam também uma parte introdutória, com o alfabeto.

Imagem Cartas da Infância: de autoria anônima, a 1ª. edição das "cartas de ABC" é de 1905. Há, entretanto, indícios de que essa publicação é a introdução do Livro da Infância de Augusto Emílio Zaluar, escritor português radicado no Rio de Janeiro.

Estamos, hoje, muito longe do ensino da leitura pelo método da soletração (o bê-a-bá). O aprendizado das letras – seja de seus nomes e/ou sons – não é mais visto como prévio ao contato com as palavras e textos, descontextualizado e decorado. Não mais se considera tampouco que seja preciso aprender toda a ordem alfabética antes dos tateamentos em direção ao reconhecimento de palavras e à leitura. Hoje já sabemos que aprender as letras não implica em saber como o sistema de escrita funciona e em saber decodificar. As crianças têm muitas ideias sobre a escrita mesmo sem saber todas as letras.

No passado sugiram outros métodos, muito mais eficazes do que a soletração, como os métodos silábicos e fônicos (sintéticos) e os métodos analíticos, que tiveram seu papel e cumpriram a função de alfabetizar considerando os conhecimentos que se tinha no seu tempo. Embora ainda existam e tenham se renovado, hoje já se questiona esses métodos, no sentido de serem prescritivos, reducionistas em relação à complexidade da aprendizagem da língua escrita, baseados em concepções empiristas e associacionistas de ensino e por não considerarem os conhecimentos que hoje dispomos sobre os processos de aprendizagem dos sujeitos. O post da Mafalda, no marcador “Sobre Alfabetização” faz a crítica perfeita. Vejam lá!


Algumas cartilhas utilizadas na primeira metade do século XX no Brasil

Estudar a história do ensino da leitura e escrita, das ideias sobre alfabetização e dos métodos e cartilhas utilizados também é bastante produtivo para futuros professores, especialmente os alfabetizadores, da Educação Infantil ao Ensino Fundamental.
Estudos de diferentes áreas contribuíram para uma mudança de paradigma na alfabetização que hoje se propõe, sejam estudos linguísticos, psicolinguísticos, sociolinguísticos, passando pelas concepções construtivistas e sociointeracionistas e os estudos sobre letramento e consciência fonológica. Na bibliografia indicada na coluna à direita vocês podem ter uma referência básica de estudos nesse sentido.
O ensino da leitura e escrita, entretanto, seja a partir de que método ou concepção for, supõe também o aprendizado das letras, sua forma, seus nomes e sons, ainda que no âmbito de práticas significativas, sociodiscursivas, lúdicas e contextualizadas. Afinal de contas, elas são os signos que notam fonemas da língua falada. Podemos aprender as letras a partir dos nomes próprios dos alunos da classe, por exemplo, ou em contexto de pequenos textos que enfatizam os fonemas e as letras, em práticas lúdicas e poéticas, como as que sugerem os livros que indicarei aqui no blog, na continuação desse post.
Abecedários hoje...se é que os podemos chamar assim...
Dito tudo isso, quero justificar os posts sobre abecedários, que se seguirão a esse, dizendo que esses se tratam de livros que, hoje, dentro de novas concepções de alfabetização, vêm cumprir, ao lado de outros recursos, a tarefa de ensinar as letras e seus sons de forma lúdica, poética, interessante. Já não se trata de decorar as letras e a ordem alfabética, nem de tomar esse aprendizado como mera associação do desenho das letras a seus respectivos nomes ou como ponto de partida do ensino da leitura e escrita. O alfabeto, a categorização gráfica e funcional das letras, a relação entre letras e fonemas exigem a construção de conhecimentos complexos e diversas operações cognitivas.
É preciso, assim, assumir que, como conhecimento social, convencionado que é, essa aprendizagem se faz necessária, no bojo do processo de construção e apropriação gradual do sistema de escrita alfabética. Desloca-se o lugar e o modo da aprendizagem das letras do alfabeto, porém, mantém-se a necessidade de ensinar a quem está em processo de aprendizado da leitura e escrita, os signos utilizados para tal.
O que pretendo trazer para vocês são sugestões de alguns livros ou textos atuais, interessantes, que ora exploram as formas gráficas das letras, ora associam as letras a pequenos textos narrativos ou poéticos e jogos de linguagem, como assonâncias e aliterações. Assim, enfatizam não apenas o aprendizado gráfico, mas a reflexão fonológica em presença do escrito e a apropriação do princípio alfabético, através da relação entre letras e fonemas. Podemos observar em muitas dessas obras, espécies de “cartilhas poéticas”, a qualidade estética e a exploração poética da linguagem, e não simplesmente uma abordagem pedagógica, embora cumpram muito bem também essa função. Os livros sugeridos trazem também ilustrações de qualidade, que enriquecem o texto, tornam o livro ainda mais atraente e contribuem para proporcionar bons momentos de leitura, brincadeira e aprendizagem.
Vamos a eles! Aguardem o próximo post sobre os abecedários!
Bibliografia Básica dos posts sobre abecedários:

CAGLIARI, L.C. MASSINI-CAGLIARI, G. Diante das letras: a escrita na alfabetização. Campinas/SP: Mercado de Letras: ABL, 1999.
HIGOUNET, Charles. História concisa da escrita. São Paulo: Parábola, 2003.
MORAIS, A.G.de; ALBUQUERQUE, Eliana. Borges C. de; LEAL. Telma Ferraz (orgs). Alfabetização: apropriação do sistema de escrita alfabética. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
MORTATTI, Maria do Rosário Longo. Os sentidos da alfabetização (São Paulo: 1876-1994). São Paulo: UNESP; CONPED, 2000.
SOARES, Magda. Alfabetização e literatura. In: REVISTA EDUCAÇÃO: guia da alfabetização. Escrita e leitura: como tornar o ensino significativo. São Paulo: Segmento, CEALE, 2010. n. 2, 90 p. Edição especial.
ZATZ, Lia, A aventura da escrita: história do desenho que virou letra. São Paulo: Moderna, 1991.

sábado, 4 de setembro de 2010

Contador...

Ei, meu povo...
Já estou preparando novos posts, mas termino ficando com preguiça de terminar logo, sem o incentivo de vocês. Comentem, minha gente! Mandem coisas, interajam. É para vocês! É o que me move a querer escrever mais, postar mais, inventar mais! Vocês só ficam aí visitando silenciosamente...e eu sem saber de nada!!! Pôxa!
E vocês meninas que me escrevem por e-mail, fico com pena de algumas experiências relatadas não serem compartilhadas com os outros visitantes. Deixem de timidez!!!
Ó, estou no aguardo, heim?! Tem uns posts fresquinhos, quase prontos, esperando um empurrãozinho de vontade de terminar logo.
E o contador vai contando...
...isso estou vendo!
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Eco de Palavras

O Eco

O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: "Onde? Onde?"

O menino também lhe pede:
"Eco, vem passear comigo!"
Mas não sabe se o eco é amigo
ou inimigo.

Pois só lhe ouve dizer:
"Migo!"

(Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo)


O poema de Cecília, O Eco, é um ótimo texto a partir do qual brincar com palavras, suprimindo partes delas - fonemas, sílabas ou partes maiores que a sílaba - numa atividade de reflexão fonológica muito interessante. Gato pode virar ato e abelha, belha (supressão do /g/ e do /a/), macaco pode virar caco ou aco (supressão do /ma/ ou do /mak/), abacate pode virar cate ou ate (supressão do /aba/ ou do /abak/).
A compreensão do texto supõe o conhecimento do que seja o eco e como ele funciona. Disso depende o jogo de sentidos do poema.
Pois bem, feita a exploração do texto, que tal brincar de eco? Experimentar "ecoar" palavras diversas é bem divertido e constitui uma rica oportunidade de reflexão fonológica. Pense aí como ficariam, por exemplo, as palavras abacate, pente, besouro, gato, flor, sapo, abelha, dinossauro, atalho, estante, prato...e tantas outras... Percebe quantas situações interessantes podem aparecer, apenas com a reflexão sobre a oralidade, sem a presença do escrito? Ou seja, sem a visualização das palavras escritas, apenas operando sobre o significante sonoro, podemos segmentar as palavras de vários modos.
E depois, com a presença do escrito - das palavras escritas -, quantas situações mais podem aparecer? Pense, se o eco de prato é /atu/, podemos brincar de achar palavras dentro de palavras: prato/ato. E se o eco de prato for /ratu/, com r tremido, o que acontece quando escrevemos essa palavra? Fica RATO, sem o r tremido (ao menos não na nossa variedade linguística regional). Vê quantos desafios?
E ainda podemos indicar o eco e as crianças descobrirem palavras que podem ter sido ditas. Ex. Se sou o eco e digo: /enti/, que palavras podem ter sido ditas? Pente? Dente? Vamos adivinhar?
Essas atividades chamam a atenção para outras segmentações sonoras, outras unidades sonoras, que não a silábica, tão mais enfatizada na alfabetização, por ser a unidade mínima da emissão sonora e facilitadora de segmentações, ao menos na nossa língua. Mas há unidades maiores que a sílaba, como -ola em bola, cola, rola, mola... Há unidades menores que a sílaba, como -tr, em trem, trator, triângulo, trufa. Há unidades fonêmicas e silábicas... A diversidade na exploração dessas unidades favorece enormemente a reflexão fonológica, a flexibilidade do pensamento e a apropriação do princípio alfabético, fundamental para aprender a ler e escrever. Todas essas unidades fonológicas podem ser exploradas simultaneamente em brincadeiras diversas - como a do eco, que inclui, nesse caso, também a unidade texto, fonte da brincadeira.
Brincar de eco é muito bacana! Experimentem!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Alfabeto

Vejam que livro de alfabeto bacana:




Eu que estou preparando um post sobre abecedários interessantes, adorei esse livrinho de Marion Bataille, uma designer francesa, com pop-ups e efeitos visuais bacanas. É um abecedário em três dimensões, da editora Sextante.

Ele me foi apresentado por minha amiga Ana Aurélia, que o adquiriu em Parati, na Flip desse ano.

Valeu, Aninha!

Mais adiante escreverei sobre os abecedários, alfabetos ilustrados, aguardem! Adoro letras...

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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pê de Pai

O dia dos pais passou, encontrei um belo livrinho, de edição original portuguesa, que eu e Joaquim, meu filho, demos para o seu papai ontem. E já fui logo pensando em um material para fazer com ele, visto que tem ilustração e cores bem bonitas... Bom, me vieram umas ideias que compartilho com vocês.

O livo é Pê de Pai, de Isabel Minhós Martins e ilustrações de Bernardo Carvalho. No Brasil saiu pela editora Cosac Naify. Em Portugal foi editado pela editora Planeta Tangerina, que vocês podem conferir no site http://www.planetatangerina.com/ ou no blog http://www.planeta-tangerina.blogspot.com/. Na edição da Cosac veio uma tira envolvendo a capa, com palavrinhas do músico Moreno Veloso, filho de Caetano.
Pê de Pai foi premiado e ganhou menção honrosa em prêmios internacionais referentes a ilustração e design. Vale à pena dar uma espiadinha e, inclusive, procurar outros livros da dupla, como Depressa, Devagar, por exemplo, bem bacaninha também. A Yara Kono, lá da Planeta Tangerina, me contou que há outros livros da editora saíndo em breve no Brasil pela Cosac Naify, aguardem! Aliás, deem uma olhadinha no blog da Planeta Tangerina, é bem legal!
Voltando... O livro Pê de Pai apresenta imagens cúmplices de pai e filho/filha... mas dispensa palavras outras que as que definem o jogo entre eles. Por isso, não digo mais nada, conto em imagens:



Na tradução para o português brasileiro (!!!), o "pai travão" passou a "pai freio de mão", o "pai grua" passou a "pai guindaste", o "pai tractor" passou a "trator" e o "pai escadote", "escada", mostrando que nem tudo se resolve com reforma ortográfica!!! Mas em quase todo o resto do livro, a edição brasileira segue a original portuguesa.
São 24 páginas de pai tudo o que for. E certamente poderíamos imaginar outras tantas... olha uma dica aí! "Pai sacola", "pai vento", "pai estante"... quantos mais? Aqui em casa o pai é também "papai paquinho", alusão aos tantos parquinhos que o pai propunha à filha, quando tinha entre 2 e 3 anos. Quantas outras histórias de pais e filho(a)s dariam outras tantas páginas!!! Talvez umas nem tão alegres, mais aflitas... Que tal saber dessas histórias de pais-tudo?
Aliás, cada página do próprio livro também poderia ser o ponto de partida para muitas histórias: "pai avião"..."pai chocolate", "pai ambulância"... o que mesmo levou a essas cenas e o que aconteceu em seguida? Podem virar histórias coletivas interessantes.
Bom, vou fazer um material assim: as ilustrações em fichas grandes (mas podem ser menores que as páginas do livro), colando as imagens impressas em papel mais grosso, tipo duplex. Escaneando as páginas podemos ajustá-las ao tamanho que quisermos. Mas gosto grande! Depois em fichas menores, as palavras trator, cabide, avião, casaco, sofá, motor, colchão, despertador, cavalinho..., enfim, tudo no que o pai pode se tornar. Dá para fazer fichas em letras de imprensa maiúscula e também fichas em minúsculas, se quiser oferecer diferentes letras.
É recomendado que se alfabetize com letra de imprensa e existem bons argumentos para isso - de linguístas, construtivistas e outros mais - com os quais eu particularmente concordo. E escolhe-se então as maiúsculas. Mas, por outro lado, também é importante que as crianças reconheçam outros tipos de letra, afinal elas estão presentes nos textos que circulam socialmente e, a menos que queiramos (!!!) voltar ao tempo em que se controlavam os escritos para que não apresentassem elementos supostamente dificultadores do processo (como sílabas complexas, por exemplo), temos que assumir a presença de tipos diversos de letras. Assim, me parece, cabe ao professor com sua sensibilidade perceber a hora de apresentar outras possibilidades, de acordo com o domínio que as crianças têm do sistema alfabético, da categorização gráfica e funcional das letras do alfabeto e do conhecimento que têm dos tipos de letras que veem nos diversos suportes de escrita de seu entorno. É como penso.
Então, nessa versão do material, para associar os nomes às figuras, as crianças terão que fazer um esforço para reconhecer as palavras das fichas de palavras, mas, ao mesmo tempo, podem recorrer à escrita cursiva da ficha com as ilustrações, como apoio a sua leitura. Nesse caso, se esforçarão para associar a letra cursiva à letra de imprensa. E essa escrita cursiva pode ou não facilitar, dependendo do que sabem sobe a grafia dessas letras. É um desafio interessante.
Mas podemos também fazer um outro material, com as figuras das ilustrações recortadas cuidadosamente, fazendo um contorno bonito, excluindo o escrito e aproveitando parte do fundo nesse contorno, e colar em um papel mais grosso. Nesse caso as imagens podem ser menores. Não dá para eu mostrar porque ainda não fiz meu material, só está na minha imaginação! Estou aqui compartilhando a ideia, bem fresquinha, com vocês. Quando eu fizer, prometo que mostro!
Bom, nesse caso, as crianças têm que associar a imagem, o que ela representa, e as palavras correspondentes. Ou seja, a imagem do pai sofá (sem a escrita disso) à ficha com a palavra SOFÁ. Para isso, terão que se lembar o que cada figura representa, a partir das diversas leituras e explorações prévias com o livro.
Essas palavras das fichas podem também ser classificadas por letras ou sílabas iniciais ou finais, por tamanho, número de letras ou sílabas, bem como servir para fazer trens de palavras, tal qual explicado no post da copa do mundo, o que tem uma bandeira do Brasil.
No meu kit farei também essas palavras todas fatiadas em letras móveis, para outras tantas possibilidades, como formar as palavras a partir de sua hipótese de escrita ou pensando na ortografia ou, ainda, com o modelo da escrita cursiva nas fichas de imagem. Fatiadas em sílabas também é outra possibilidade. Além de montar as palavras previstas nas fichas de imagens, pode-se também recombinar letras ou sílabas em novas palavras.
Uma coisa bem interessante que me ocorreu, agora pensando em outro tipo de atividade, é brincar com as crianças de definir cada pai desse e escrever essas definições delas. Deve sair muita coisa legal! Depois pode fazer um mural com as imagens e as definições ou até um livrinho com ilustrações das próprias crianças. Pode também escrever e ilustrar outras tantas coisas incríveis nas quais um pai pode se transformar, como falamos anteriormente. ...aliás, e uma mãe também... Que tal fazer a versão Mê de Mãe? Eu ia gostar!
Encontrei também outra dica bem legal, de brincar de adivinha, no próprio blog da Planeta Tangerina, aqui nesse link. Escreve-se em fichas outros tipos de pais: "pai pente", "pai termômetro", "pai chapéu" etc... e após sortear uma, sem ninguém ver, o adulto dá uma definição, para as crianças adivinharem que pai pode ser. E completo: no contexto da alfabetização, podem encontrar entre as fichas, a que corresponde ao pai descrito. Se já têm certa autonomia no reconhecimento das palavras, ou de parte delas, podem tentar adivinhar a partir da leitura. Se não, precisam antes adivinhar o que é, para então buscar reconhecer entre as fichas aquela com o pai que procuram.
Bom, mas tudo isso só vale se, antes, curtimos muito o livro, como livro: folhear, ler, ouvir, conversar, sentir. Trata-se, antes de tudo, de um livro. E de um livro que pode nos falar muito da complementaridade entre texto e imagem.
É isso gente, o dia dos pais já passou...mas quem precisa de dia dos pais para falar deles? Nunca é fora de tempo lembrar das coisas bacanas que parecem tão prosaicas. E nunca é fora de hora para transformar as coisas de todo dia em poesia e arte e aprendizagem.

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