Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Abecedários

Algumas palavras...
Finalmente vou começar a postar sobe o tema que prometi. É que ele foi ficando grande, espichado, cheio de inserções. E ainda cresceria mais...aí não dá, né? Num blog! Não dá! Assim, resolvi postar por etapas, ok? Vai a primeira parte, primeiras palavras... e depois vão as outras partes...
Um pouco de história...
Existem e existiram sistemas de escrita diversos, não apenas alfabéticos, e existem alfabetos diversos, embora todos assentados no mesmo princípio de notação fonêmica das línguas faladas. Exemplos:

alfabeto grego e alfabeto cirílico

O sistema alfabético, com seu alfabeto, é um poderoso recurso para representar a língua, seja qual for a complexidade de suas estruturas fonológicas, especialmente porque, para notar explicitamente o máximo de estruturas fonológicas, exige um número muito reduzido de signos. Pouco mais que duas dezenas de letras são necessárias para notar todas as palavras de uma língua. Sabia que o sistema ideográfico chinês tem cerca de 50 mil signos?! Será que dá para aprender todos? Mas só os signos usuais, do dia a dia, chegam a 3 mil! Não dá aqui para falarmos mais sobre isso, mas garanto que estudar a história da escrita é muuuuuuuuito bacana para compreender melhor o nosso sistema e para alfabetizar. Até com as crianças é possível ver um pouco dessa história. O livro de Lia Zatz é bem interessante para começar a pensar nisso.

ideogramas chineses

Embora o sistema alfabético seja um sistema econômico, digamos assim, não temos a ilusão de que seja exclusivamente alfabético, pois não há uma letra para cada fonema numa relação biunívoca. Nem poderia. Mas ele é de base alfabética, fonográfica e essa natureza precisa ser considerada no ensino da leitura e escrita. Nosso sistema é ortográfico e considera também aspectos etimológicos. O princípio alfabético não dá conta, sozinho, da escrita das palavras. Se desse, escrever foneticamente já seria escrever corretamente, o que não é o caso, nem poderia. Ilusão achar que o alfabeto poderia resolver tudo, diante das variedades linguísticas, por exemplo. Não há reforma ortográfica que torne o alfabeto suficiente para escrever corretamente. Como diz Cagliari, o alfabeto foi uma invenção maravilhosa...que não deu certo! E o que o salvou foi a ortografia. E assim ele continua sendo muito funcional.

Recorrendo a fontes que contam a história de escrita e dos métodos de alfabetização, podemos constatar que desde a criação do alfabeto pelos gregos na Antiguidade Clássica (que tomaram emprestado o alfabeto consonantal do sistema de escrita dos fenícios, também resultado de apropriações de sistemas pré-alfabéticos da Antiguidade), surgiu o primeiro método de ensino de leitura (em um sistema que tem como base a fonemização da escrita). Era o método de soletração, também conhecido como método alfabético ou ABC, visto que se inicia pelo ensino das letras e enfatiza os nomes das letras para formar sílabas e soletrar as palavras (e não os seus sons, como no método fônico). Foi um método de ensino muito usado da Idade Média até o início do XX.

Para este ensino, surgiram os primeiros livros destinados à alfabetização, à aprendizagem da leitura e escrita: os abecedários, que são livros com as letras do alfabeto para ensinar a ler. No início, porém, nem eram livros no sentido preciso do termo.

Tabuletas com alfabetos foram, provavelmente, os principais objetos usados para a aprendizagem da leitura da Idade Média. Na Inglaterra, e em suas colônias americanas, utilizavam-se os hornbooks, entre os séculos XV e XVIII. Os hornbooks eram uma espécie de pá com as letras do alfabeto, para segurar pelo cabo, como este da ilustração ao lado. Alguns traziam as maiúsculas e minúsculas, e, por vezes, pequenos textos.

No Brasil, desde o final do século XIX, utilizavam-se as Cartas do ABC, livretos que traziam o alfabeto escrito de várias formas, valorizando a grafia. O método que se concretizava através desta cartilha era o método alfabético, de soletração. As cartilhas de outros métodos (sintéticos ou analíticos), no entanto, traziam também uma parte introdutória, com o alfabeto.

Imagem Cartas da Infância: de autoria anônima, a 1ª. edição das "cartas de ABC" é de 1905. Há, entretanto, indícios de que essa publicação é a introdução do Livro da Infância de Augusto Emílio Zaluar, escritor português radicado no Rio de Janeiro.

Estamos, hoje, muito longe do ensino da leitura pelo método da soletração (o bê-a-bá). O aprendizado das letras – seja de seus nomes e/ou sons – não é mais visto como prévio ao contato com as palavras e textos, descontextualizado e decorado. Não mais se considera tampouco que seja preciso aprender toda a ordem alfabética antes dos tateamentos em direção ao reconhecimento de palavras e à leitura. Hoje já sabemos que aprender as letras não implica em saber como o sistema de escrita funciona e em saber decodificar. As crianças têm muitas ideias sobre a escrita mesmo sem saber todas as letras.

No passado sugiram outros métodos, muito mais eficazes do que a soletração, como os métodos silábicos e fônicos (sintéticos) e os métodos analíticos, que tiveram seu papel e cumpriram a função de alfabetizar considerando os conhecimentos que se tinha no seu tempo. Embora ainda existam e tenham se renovado, hoje já se questiona esses métodos, no sentido de serem prescritivos, reducionistas em relação à complexidade da aprendizagem da língua escrita, baseados em concepções empiristas e associacionistas de ensino e por não considerarem os conhecimentos que hoje dispomos sobre os processos de aprendizagem dos sujeitos. O post da Mafalda, no marcador “Sobre Alfabetização” faz a crítica perfeita. Vejam lá!


Algumas cartilhas utilizadas na primeira metade do século XX no Brasil

Estudar a história do ensino da leitura e escrita, das ideias sobre alfabetização e dos métodos e cartilhas utilizados também é bastante produtivo para futuros professores, especialmente os alfabetizadores, da Educação Infantil ao Ensino Fundamental.
Estudos de diferentes áreas contribuíram para uma mudança de paradigma na alfabetização que hoje se propõe, sejam estudos linguísticos, psicolinguísticos, sociolinguísticos, passando pelas concepções construtivistas e sociointeracionistas e os estudos sobre letramento e consciência fonológica. Na bibliografia indicada na coluna à direita vocês podem ter uma referência básica de estudos nesse sentido.
O ensino da leitura e escrita, entretanto, seja a partir de que método ou concepção for, supõe também o aprendizado das letras, sua forma, seus nomes e sons, ainda que no âmbito de práticas significativas, sociodiscursivas, lúdicas e contextualizadas. Afinal de contas, elas são os signos que notam fonemas da língua falada. Podemos aprender as letras a partir dos nomes próprios dos alunos da classe, por exemplo, ou em contexto de pequenos textos que enfatizam os fonemas e as letras, em práticas lúdicas e poéticas, como as que sugerem os livros que indicarei aqui no blog, na continuação desse post.
Abecedários hoje...se é que os podemos chamar assim...
Dito tudo isso, quero justificar os posts sobre abecedários, que se seguirão a esse, dizendo que esses se tratam de livros que, hoje, dentro de novas concepções de alfabetização, vêm cumprir, ao lado de outros recursos, a tarefa de ensinar as letras e seus sons de forma lúdica, poética, interessante. Já não se trata de decorar as letras e a ordem alfabética, nem de tomar esse aprendizado como mera associação do desenho das letras a seus respectivos nomes ou como ponto de partida do ensino da leitura e escrita. O alfabeto, a categorização gráfica e funcional das letras, a relação entre letras e fonemas exigem a construção de conhecimentos complexos e diversas operações cognitivas.
É preciso, assim, assumir que, como conhecimento social, convencionado que é, essa aprendizagem se faz necessária, no bojo do processo de construção e apropriação gradual do sistema de escrita alfabética. Desloca-se o lugar e o modo da aprendizagem das letras do alfabeto, porém, mantém-se a necessidade de ensinar a quem está em processo de aprendizado da leitura e escrita, os signos utilizados para tal.
O que pretendo trazer para vocês são sugestões de alguns livros ou textos atuais, interessantes, que ora exploram as formas gráficas das letras, ora associam as letras a pequenos textos narrativos ou poéticos e jogos de linguagem, como assonâncias e aliterações. Assim, enfatizam não apenas o aprendizado gráfico, mas a reflexão fonológica em presença do escrito e a apropriação do princípio alfabético, através da relação entre letras e fonemas. Podemos observar em muitas dessas obras, espécies de “cartilhas poéticas”, a qualidade estética e a exploração poética da linguagem, e não simplesmente uma abordagem pedagógica, embora cumpram muito bem também essa função. Os livros sugeridos trazem também ilustrações de qualidade, que enriquecem o texto, tornam o livro ainda mais atraente e contribuem para proporcionar bons momentos de leitura, brincadeira e aprendizagem.
Vamos a eles! Aguardem o próximo post sobre os abecedários!
Bibliografia Básica dos posts sobre abecedários:

CAGLIARI, L.C. MASSINI-CAGLIARI, G. Diante das letras: a escrita na alfabetização. Campinas/SP: Mercado de Letras: ABL, 1999.
HIGOUNET, Charles. História concisa da escrita. São Paulo: Parábola, 2003.
MORAIS, A.G.de; ALBUQUERQUE, Eliana. Borges C. de; LEAL. Telma Ferraz (orgs). Alfabetização: apropriação do sistema de escrita alfabética. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
MORTATTI, Maria do Rosário Longo. Os sentidos da alfabetização (São Paulo: 1876-1994). São Paulo: UNESP; CONPED, 2000.
SOARES, Magda. Alfabetização e literatura. In: REVISTA EDUCAÇÃO: guia da alfabetização. Escrita e leitura: como tornar o ensino significativo. São Paulo: Segmento, CEALE, 2010. n. 2, 90 p. Edição especial.
ZATZ, Lia, A aventura da escrita: história do desenho que virou letra. São Paulo: Moderna, 1991.

10 comentários:

  1. Lica,

    Está um pouco espichado, sim. Mas está muito bom...Eu condensaria um pouco mais...

    PG

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  2. Oi, PG... Sou meio assim espichada mesmo...aliás, vc já deve ter notado!
    Maior capacidade de concisão para falar de tanta coisa num post só, acho que não tenho. Mas quem sabe eu tente, senão nesse, nos próximos. Só que eu releio e vejo faltar, não sobrar, tantas coisas...Rsrsrsrs!!!
    Lica

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  3. Já eu achei uma boa capacidade de síntese.
    Eu tenho tantas dúvidas sobre ensino de letras, tipos de letras, essas coisas... Nas formações, cada um fala uma coisa diferente, fico toda confusa.
    Aqui tenho aprendido muitas coisas, com as posições claras, firmes mas flexíveis que a professora defende e suas explicações sem prescrições.
    E estou no aguardo das indicações dos livros!
    bjs,
    Taise

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  4. Oi Taise,
    De fato, sempre me perguntam, nas aulas, formações e oficinas, sobre letras, como ensinar isso, se não se deve ou se deve ensiná-las e como, que tipo de letra usar na alfabetização...
    Aliás, estou preparando um post sobre o tipo de letra também. Aguarde!
    Você disse bem o que sinto, não gosto de posturas prescritivas, que normatizam demais e condenam práticas contrárias de modo muito inflexível, sob qualquer circunstância.
    Recentemente preparei um material com letra cursiva, pois uma professora que dá aula numa escola que alfabetiza com essa letra me pediu. Não me recusaria a fazer só porque tendo a defender que a alfabetização inicial se dê com a letra de imprensa maiúscula. O que há são argumentos, para lá e para cá, conhecê-los nos ajuda a fazer boas escolhas, mas escolhas fundamentadas, não "fundamentalistas", se é que posso me expressar assim.
    Vou postar sobre esse material, discutir sobre os argumentos em torno dessa questão e dizer como vejo isso tudo em breve, ok?
    Obrigada por sua contribuição. Certamente são dúvidas de muitos.
    Beijos,
    Lica

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  5. Oi, Lica!
    Adoro passar nesse seu catinho...
    Eu também achei ótima sua capacidade de síntese...a história da escrita é mesmo uma maravilha!!
    Já estou ansiosa!Quando teremos a segunda parte mesmo?
    Bjs.

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  6. Em breve, moça, em breve...
    Quem me dera ficar só fazendo isso...
    Já sei que acumulo muitas dívidas, das promessas aqui feitas. Mas elas virão...
    Bjs,
    Lica

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  7. Lica, querida,
    Estou mais silenciosa, mas sempre por aqui. E sempre fã de sua capacidade, já dita também por outras colegas, de nos apresentar coisas do fazer, da prática, da sala, do pegar, do manusear, do rir, do sorrir, do se encantar, e ao mesmo tempo tão bem fundamentadas, explicadas, ponderadas, teorizadas, apropriadas. Você singulariza o seu fazer de professora. É você isso. Seu jeito nas aulas, no blog, na vida.
    Sou sua fã!
    Beijo grande, saudades,
    Leila

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  8. Oi, Leiloca,
    Obrigada por suas palavras. Tomara mesmo que eu consiga não "dicotomizar".
    Mas acho também que, na verdade, essas coisas só podem ser tomadas como "ao mesmo tempo" se as consideramos separadas, né? E podem não ser. Ao menos eu vejo assim. O sério não precisa ser siso. O riso não precisa ser frouxo... O fazer deve ter suas pilastras (ou fazer nascer pilastras) e o fundamento colorido de fazer e prazer.
    E no mais isso:

    "Se a própria arte de dizer é uma arte de fazer
    e uma arte de pensar, pode ser ao mesmo
    tempo a prática e a teoria dessa arte".
    Michael de Certeau

    Se consigo um pouco isso, já fico feliz!
    Bjs,
    Lica


    Certeau, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994).

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  9. Oi Lica
    Sempre passo no blog,li o texto inteiro e gostei bastante pq estou estudando a historia dos métodos da alfabetização no Brasil na faculdade, e dá para fazer alguns paralelos com os assuntos que tenho estudado, que se assemelham.Estou ansiosa para o proximo post.
    Ate mais

    Mariana Capinã

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  10. Oi, Mariana,
    Tudo bem?
    Bom saber que você ainda passa por aqui.
    Aquele livro de Mortatti que coloquei na bibliografia do post, é bem legal para isso que você está estudando.
    Volte sempre!
    Beijos,
    Lica

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