Uni, duni, tê, salamê, minguê...

Uni, duni, tê, salamê, minguê...
Materiais a partir de textos da tradição oral

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Planos de Atividades

Sobre os Planos de Atividades

Os planos de atividades de alfabetização postados aqui se referem a planos criados a partir dos materiais e jogos do acervo. Eles podem ser modificados, ajustados, mexidos, para atender às diferentes turmas, reais, singulares, que cada professor tem diante de si. Como o nome já diz, plano é “plano”, não abarca as sinuosidades próprias ao real, aos sujeitos, aos grupos, às singularidades, ao imponderável. O mapa, como diz Borges, não é o território. Assim, são apenas pontos de partida, possibilidades, que serão precipitadas singularmente em cada contexto específico por sujeitos únicos, em interações singulares.

Na medida do possível, os planos foram pensados para atender a crianças em diferentes níveis de domínio da leitura e de conceitualização da escrita, e exigem, para serem adaptados e bem desenvolvidos, o conhecimento da turma, a partir de diagnósticos, sondagens ou do acompanhamento do processo das crianças. Muitos dos planos podem também ser adaptados para turmas de alfabetização de jovens e adultos, desde que os textos utilizados sejam interessantes para essa faixa.

Cabe lembrar que se trata de uma concepção de alfabetização em contexto de letramento e, portanto, os textos que serão o ponto de partida para as atividades propostas deverão ser muito bem explorados como textos que são, antes de serem usados também para atividades de reflexão sobre o sistema de escrita alfabética. Por exemplo, ao usar fábulas, seus títulos, moral e/ou texto em atividades de alfabetização, supõem-se que antes essas foram lidas (ouvidas), apreciadas, discutidas, comparadas, compreendidas enquanto gênero textual com características próprias, o que pode gerar reescritas, pequenos livros, ilustrações etc. É nesse contexto de leitura e escrita, que enfatiza o sentido e o gênero, que as reflexões sobre o sistema alfabético vão acontecer. A mesma coisa se dá em relação a outros gêneros textuais. Na medida do possível, esse aspecto será relembrado em cada plano de atividade proposto.

Outro aspecto que vale sublinhar é que o diagnóstico das hipóteses de escrita das crianças - que vão guiar a proposta, a adaptação das variantes da mesma proposta, de acordo com os desafios que apresentam para cada nível, bem como a organização dos agrupamentos e parcerias, - deve ser realmente apenas uma referência. É preciso estar ciente de que, primeiro, em cada hipótese de escrita descrita por Emilia Ferreiro há inúmeras possibilidades de produção e de formas de pensar, portanto, é preciso estar bem atento para propor desafios e parcerias realmente pertinentes a cada um, cada dupla, cada subgrupo, para que realmente tenham bons problemas a resolver para avançar. Em segundo lugar, é preciso lembrar que o desempenho das crianças na escrita não recobre necessariamente, ou não corresponde sempre e igualmente, a seu desempenho na leitura. Para organizar as atividades que envolvem a leitura (quando ainda não se sabe ler convencionalmente, decodificar), é preciso conhecer o modo como as crianças lêem, que hipóteses fazem ao tentar ler, que domíno têm de decodificação e de leitura visual. As hipóteses de escrita diagnosticadas nas produções infantis dão uma dica, inclusive porque pedimos a elas que leiam suas produções para nos certificar de suas hipóteses, mas não é um dado suficiente para determinar o domínio de leitura das crianças.

Os planos explicitam objetivos e conteúdos básicos do processo de alfabetização, embora outros objetivos e conteúdos possam estar em jogo, implicitamente, na proposta, relativos ao letramento, ao convívio, ao aprendizado de valores e atitudes. Incluem-se no plano também os objetivos e conteúdos dos diferentes níveis de escrita e leitura previstos na atividade, embora a proposta possa estar mais focada ou ser mais produtiva para um nível específico, e apenas sugeridas as adaptações e variantes. Cada professor ou professora deve julgar se e como as atividades propostas podem favorecer a reflexão de seus alunos, o avanço de suas hipóteses e estratégias, a aprendizagem.

Feitas essas observações e apresentações, segue o primeiro plano.


PLANO DE ATIVIDADE

Texto: Adivinhas

Objetivos:

Usar as adivinhas para brincar;
Identificar palavras;
Relacionar oral e escrita para reconhecer palavras ou parte de palavras;
Usar estratégias de leitura para ler sem saber ler;
Usar os conhecimentos que têm sobre o sistema de escrita, letras iniciais, finais, partes de palavras, valores sonoros de letras, tamanho etc;
Identificar letras;
Refletir sobre ortografia.

Conteúdos:

Gênero de texto de origem oral;
Identificação e reconhecimento de palavras;
Relação oral/escrito;
Estratégias de Leitura;
Funcionamento do sistema de escrita alfabética;
Identificação de letras;
Ortografia.

Desenvolvimento:

Relembrar as adivinhas da cultura popular que foram previamente lançadas na turma, numa outra ocasião, para brincar de adivinhar, oralmente. Relembrar coletivamente suas respostas, que foram adivinhadas com ou sem dicas dadas pela professora. Selecionar algumas adivinhas que as crianças saibam as respostas de cor, para, assim, proceder à atividade em grupos.

Utilizar os materiais estruturados da seguinte forma: a professora tem as cartelas com as adivinhas escritas e as crianças as fichas com as respostas. Distribuir nas mesas as fichas com as respostas de todas as adivinhas que serão lidas/ditas para a turma. O número de adivinhas depende do nível da turma, o ideal é começar com um número menor, como 4 ou 5, e ir experimentando aumentar na própria dinâmica da atividade, repetida em outras ocasiões. É preciso ter um kit de fichas para cada mesa, que recebem as mesmas palavras. As possibilidades e dificuldades de cada criança devem ser consideradas ao agrupá-los nas mesas, para possibilitar boas trocas, interações produtivas e um equilíbrio entre as mesas.

Cada mesa deve tentar achar a resposta da adivinha lida/dita pelo professor. As mesas que acharem primeiro podem sinalizar que já encontraram, mas não ainda mostrar a ficha para as outras mesas. Quando todos encontrarem as respostas, mostram suas fichas. A professora pode provocar a discussão, perguntando como encontraram a resposta, que estratégias usaram, que indícios consideraram. Essa argumentação é um trabalho metacognitivo interessante, que favorece explicitarem procedimentos e, para os que não encontraram a resposta, constitui-se em uma forma de irem se apropriando, gradativamente, de um repertório de indícios que podem passar a considerar.

Essa é uma atividade para uma turma na qual os alunos ainda não sabem ler convencionalmente e precisam usar todo o conhecimento que têm sobre letras, seus valores sonoros, letra inicial, final, partes de palavras que já reconhecem e que podem usar como modelo, enfim, todo o conhecimento que já dispõem. Para tal desafio é imprescindível que as crianças já conheçam as respostas oralmente, para que saibam o que estão procurando (que palavra procuram entre aquelas fornecidas). Trata-se de ajustar o oral, o que sabem oralmente da palavra, ao que vêm escrito, para tentar reconhecer a palavra, ainda que não a decodifiquem termo a termo. Para ser desafiante, de qualquer modo, não podem ser respostas que já memorizaram visualmente, globalmente, não completamente, em atividades prévias. Não se trata de avaliar o que memorizaram e que podem reproduzir.

No caso de haver alguns poucos alunos que já lêem convencionalmente, uma possibilidade é agrupá-los em uma mesa e eles terem que escrever as respostas das adivinhas lidas/ditas pela professora ou as montarem com as letras móveis disponíveis. Podem ainda lerem eles mesmos as adivinhas de outro kit e escreverem/montarem as respostas. Esses devem checar sua escrita/montagem ao final ou a cada resposta.

Para finalizar a atividade as crianças poderão escrever as respostas numa folha com as adivinhas (individual), ou no caderno, mesmo que olhando as fichas. Os que sabem escrever podem fazê-lo, também em relação à pergunta.

Crianças com hipótese pré-silábica ainda não relacionam o oral e a escrita em suas produções escritas. Se, na leitura, ainda não estabelecem essa relação, não podem fazer, sozinhas, esse tipo de atividade. Havendo crianças com essa hipótese, podem ser agrupadas com as outras. Caso haja um grupo maior, podem ser agrupadas em uma mesa e a professora procede do mesmo modo, mas dá dicas como: “começa com a letra x...”, “Tem x letras...”, “termina igual ao nome de fulana” (se os nomes estão disponíveis na sala ou a criança está na mesa), “é a maior palavra entre todas”, “tem três ‘a’ nessa palavra” etc. São esses os conhecimentos que constituem desafios para elas.

Recursos:
· Kit de Advinhas com respostas (palavras) repetidas (de acordo com o número de mesas);
· Alfabeto móvel ou respostas fatiadas em letras (é interessante, pois ao final, não podem faltar ou sobrar letras, caso aconteça, devem observar onde erraram)

6 comentários:

  1. Maravilha... bom que o mês comemorativo do folclore está chagando!!!
    Apesar de que o acervo folclorico deve ser trabalhado o ano inteiro!!! Mas aqui em BsB, principalmente as escolas, só lançam mão dessa preciosidade no mês de agosto.

    Renata Garcia

    ResponderExcluir
  2. Isso mesmo...eu nem tomo como folclore propriamente, considerando os significados e valores que estão ligados a esse termo.
    São textos da tradição oral, parte da nossa cultura e, de fato, deveriam estar presentes sempre. Além de parte desse acervo cultural, as adivinhas, bem como as parlendas, trava-línguas, quadrinhas, dentre outros, são textos privilegiados para a reflexão sobre o sistema de escrita, no processo de alfabetização.
    Mas tendo o pretexto do mês do folclore, nada mal começar já!
    Beijos,
    Lica

    ResponderExcluir
  3. Gisele B. de A. Jannuzzi21 de junho de 2011 22:52

    Parabéns, parabéns, parabéns!!
    Pela profissional empenhada e criativa que demonstra ser, pela solidariedade em compartilhar suas idéias com detalhes, pela dedicação em tornar alfabetização e letramento tão prazerosos e dinâmicos para todos nós - professores e alunos.
    Siga sempre em frente e que Deus a abençoe continuamente!

    ResponderExcluir
  4. Muuuuuuuito obrigada, Gisele!
    É muito bom sentir esse carinho de vocês pelo que faço, e saber que é como pensa.
    Abç,
    Lica

    ResponderExcluir
  5. obrigado pelo rico material de apoio aqui encontrado, vou elaborar um plano de letramento super divertido, e vou conseguir alfabetizar a grande maioria da turma, que ainda não sabe ler. obrigado, abs. prof. Pedro.

    ResponderExcluir
  6. Que bom, professor! Fico muito contente de poder inspirar boas aulas, bons planejamentos e, mais importante, buscando o prazer em aprender!
    Abç,
    Lica

    ResponderExcluir